No início da década de 1980, o Brasil vê a abertura política “lenta e gradual” acontecendo. Greves voltam com força no ABC paulista, principalmente entre os metalúrgicos. Uma multidão participa da campanha das “Diretas Já” nas principais capitais, e o primeiro presidente civil, Tancredo Neves, só seria eleito em 1985 e de forma indireta.

Com toda essa transformação em andamento, havia também uma certa efervescência cultural no ar. Atividades artístico-culturais que tinham sido reprimidas pela censura começaram a voltar, assim como, surgiram novos espaços considerados alternativos.

Surgiu um grupo de músicos que os críticos chamaram de “Vanguarda Paulistana”, e que ocupavam espaços alternativos como o teatro Lira Paulistana, no bairro de Pinheiros, e que revelou grandes artistas alternativos como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Vânia Bastos, Suzana Salles, Ná Ozetti, Eliete Negreiros, e grupos como Premeditando o Breque, Língua de Trapo e Grupo Rumo.

Surgiu também o Espaço Carbono 14, na Bela Vista, como um local que oferecia exibição de filmes alternativos e de exposições de arte e quadrinhos.

Havia também vários fanzines editados de forma precária, copiados em fotocopiadora ou até mimeografados. Era uma forma de expor seus trabalhos e manifestar sua opinião sobre qualquer assunto.

Na área de quadrinhos, havia uma movimentação na sede do Sindicato dos Jornalistas São Paulo, na rua Rego Freitas, para defender os interesses da categoria, mais notadamente a Lei que obrigava as editoras a publicarem 50% de material de autores nacionais. Desse grupo surgiu a AQC – Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas, no final de 1983 (embora a entidade paulista cite 1984 como o ano de sua fundação. http://www.aqc-esp.com.br). O grupo foi liderado pelos cartunistas Jal, Gualberto, Franco de Rosa e pelo pesquisador Worney Almeida de Souza, mas contava com apoio em todo o país, inclusive a entidade contava com nomes de peso como Henfil e Ziraldo.

Enquanto a Abrademi não existia, o grupo de fundadores da Abrademi também participava da AQC, alías, essas duas entidades sempre foram ligadas, no sentido de se organizar eventos em conjunto.

Enquanto a AQC tinha um propósito bastante político, com a bandeira de aumentar o espaço para o quadrinho nacional, a Abrademi se preocupou mais com o intercâmbio cultural, de reunir pessoas que apreciavam o mangá para divulgação e aprimoramento desse estilo de quadrinhos.

Um dos fundadores da Abrademi, Francisco Noriyuki Sato, percebeu com as exposições de quadrinhos realizadas no Bunkyo, que havia muitos jovens que gostavam de mangá e desenhavam nesse estilo, porém, não tinham com quem compartilhar esse gosto. E grande parte desses jovens não participava de outras entidades culturais. Então a questão era como reunir essas pessoas.

Com a ajuda de todos os jornais editados para a comunidade nipo-brasileira (São Paulo Shimbun, Diário Nippak e Jornal Paulista), em japonês e português, foi publicada uma matéria convidando os interessados a participarem do grupo que pretendia divulgar, pesquisar, expor e ensinar mangá (na verdade, quadrinhos e ilustrações em geral).

Depois de algumas reuniões estavam formatados os ideais que fariam parte da associação. A Ata de Fundação da ABRADEMI – Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações foi assinada no dia 3 de fevereiro de 1984. O nome foi uma sugestão da professora Sonia Maria Bibe Luyten, que achou interessante inserir o termo mangá, então desconhecido pelo público em geral, para diferenciar de qualquer outra instituição cultural.

Para ocupar a primeira presidência da nova entidade, o nome indicado era o da Sonia Luyten, que era professora da USP. Entretanto, a Sonia não pôde aceitar o cargo por estar se mudando para a cidade de Osaka no Japão, onde foi lecionar cultura brasileira na Universidade de Estudos Estrangeiros de Osaka (Osaka Gaidai). Seu marido, dr. Joseph Luyten, doutor na USP, foi trabalhar no Museu Nacional de Etnologia de Osaka.

Assim, Francisco Noriyuki Sato assumiu o cargo de presidente da Abrademi com mandato de dois anos.

Os demais cargos foram assim distribuídos:

Vice-presidente – Roberto Kussumoto
1º Secretário – Naomy Kuroda
2º Secretário – Nelson Kurokawa
1º Tesoureiro – Luri Maeda
2º Tesoureiro – Ataíde Braz
Jurídico – Cristiane Akune
Patrimônio – Erena Suganuma
Relações Públicas – Julia Satuki Takeda
Relações Públicas – Suzana Yassaka
Contatos Internacionais – Sumire Misawa
Publicações – Michio Yamashita
Publicações – Roberto M. Higa
Representante no Japão – Sonia Bibe Luyten
Atividades Culturais – Nelson H. Yoshimura
Traduções – Mitsuko Kawai
Conselheiros – Masuichi Omi (presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa), Mario Osassa (presidente do convênio São Paulo Osaka de cidades irmãs) e Hiroshi Banno (ex-secretário geral da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa).

A primeira atividade da nova associação foi uma festa de despedida para o casal Luyten, realizada no dia 16/3/1984, no Karaokê Kampai da rua Carneiro da Cunha, 264, Saúde, em São Paulo. Abaixo, o primeiro informativo publicado pela Abrademi.

Nas duas fotos, a festa de despedida da Sonia Luyten.

A diretoria reunida, com a escritora Mitsuko Kawai sentada

A partir da esquerda, Paulo Kubo, proprietário do Karaokê Kampai, Noriyuki, ex-vereador Mario Osassa e Hiroshi Banno.

Fundada a Abrademi e agora sem uma das principais cabeças do movimento, o próximo desafio foi encontrar um meio de dar sustentação financeira à nova entidade, uma vez que a mesma, desde o início, se posicionou contra o recebimento de auxílio de políticos e de grupos religiosos, pois queria atuar de forma independente e sem incomodar os seus participantes.

(continua…)

Ao utilizar este texto, favor citar a fonte:
www.abrademi.com – autor: Francisco Noriyuki Sato, presidente da Abrademi de 1984 a 1986 e de 1988 a 1996.