A Abrademi (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações), fundada em fevereiro de 1984, foi a primeira associação desse gênero do Brasil. Hoje, devem existir no país quinhentos grupos atuantes de mangá, se consideramos pequenos grupos que se reúnem só para fazer fanzine. Até hoje, a Abrademi deve ser a única instituição legalizada, registrada e com estatuto próprio, ou seja, estruturada para continuar seu trabalho por muito mais tempo.

Na época de sua fundação, já existiam grupos de admiradores de mangá em São Francisco, nos Estados Unidos, na Itália e na França, além dos países do Oriente, mais próximos do Japão e, portanto, mais influenciados cultural e comercialmente.

Hoje existem muito mais grupos no mundo inteiro. No Abrademi Contest, concurso de desenho de mangá promovido pela Abrademi e realizado em 1999, conseguimos divulgação em uma revista da Alemanha e tivemos mais participantes da Alemanha do que do Estado de São Paulo inteiro. Apesar da pequena divulgação lá fora, recebemos trabalhos da França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos, Espanha, Portugal, Áustria, Polônia, Rússia, Suíça, Panamá, Japão, Coréia e países da América do Sul.

Com o aumento do número de pessoas produzindo mangá, surgiram vários grupos de mangá. Por isso, efetivamente existem hoje milhares de grupos de mangá fora do Japão.

No entanto, mesmo no Japão, os grupos de mangá não costumam durar mais que cinco anos.

O motivo é bem simples. No Japão, se o objetivo do grupo era desenhar mangá como passatempo, com o ingresso de seus membros no concorrido mercado de trabalho, independentemente da área profissional, o tempo destinado a desenhar ou apreciar o mangá diminui. É provável que eles continuem lendo o mangá, mas não terão tempo para se reunirem como antes. E se o objetivo era se tornar um profissional de mangá, quando alcançado, o grupo não será mais importante.

Em outros países a situação é parecida. Como é impossível viver exclusivamente do mangá, o grupo se dispersa com o passar do tempo.

No Brasil, diante das condições econômicas e da dificuldade de encontrar um emprego, quando um grupo resolve fazer um fanzine, já há alguém interessado em trabalhar profissionalmente com o mangá. Essa expectativa se frustra e o grupo se dissolve.

Só continuam lidando com o mangá aquelas pessoas que encontram algum meio de sobreviver dentro do mangá, seja trabalhando como diagramador em uma editora ou abrindo uma lojinha de fitas piratas. De qualquer forma, não é possível afirmar que essas pessoas estejam apreciando o mangá como cultura.

Devemos lembrar que nem todo o mangá significa cultura japonesa, assim como nem toda música produzida no Brasil representa a cultura brasileira. Existem trabalhos belíssimos que trazem muita informação cultural, mas existem outros que só se justificam pela venda de brinquedos, games e outros produtos.

Não podemos esquecer que o mangá é, antes de tudo, um meio de comunicação de massa e um estilo de histórias em quadrinhos. O japonês criou e consolidou um estilo de histórias em quadrinhos que passou a ser aceito no mundo inteiro. No entanto, nem todos os trabalhos de mangá têm importância cultural, muitos dos quais devem ser classificados apenas como entretenimento.

Quanto ao tema, “Evoluções do mangá no Japão e no mundo”, é preciso colocar que, como o mangá é uma forma de entretenimento, concorre diretamente com outros tipos de entretenimento, como a TV; a Internet, os games e o cinema. Assim, é necessário que evolua para continuar existindo. Todas as semanas, os editores japoneses ficam atentos às pesquisas de opinião junto aos leitores (encarte da pesquisa dentro do mangá) e os últimos colocados na votação são convidados para concluírem a história.

Eles precisam captar o gosto do leitor naquele momento e produzir algo que garanta a vendagem daquela revista. Embora com alguns tropeços, os editores têm se saído bem. No entanto, criar uma história realmente nova está cada vez mais difícil e ainda mais criar grandes estouros de vendagem.

A necessidade de reciclar é grande, e talvez a única maneira de fazer isso seja trazer ingredientes de fora ou de outros países. Agradar o público com uma história muito diferente das que ele está acostumado não constitui tarefa fácil. De qualquer forma, se o mangá continuar a ser uma forma de entretenimento barato, no Japão isso deverá ocorrer por muito mais tempo.

No exterior, o mangá se mantém em países onde as editoras investem no seu segmento. Ou seja, depois de lançar os best sellers do mangá, é necessário publicar também aqueles cuja vendagem não é tão boa, enquanto não surgem outras histórias que possam estourar nas vendas.

Na França, por exemplo, como todos os títulos de mangá best sellers já foram lançados, agora eles se detêm em publicar os menos conhecidos, que com certeza terão menor vendagem.

No Brasil, entre os fatores que prejudicam qualquer publicação, independente de ser quadrinhos ou não, está sua forma de distribuição. Como as bancas de jornais trabalham apenas por consignação, recebendo 30% do valor de capa da revista vendida e devolvendo o que não é vendido, eles preferem vender uma revista Cláudia ou Playboy, que são mais caras e, portanto, dão mais lucro do que uma revista de quadrinhos. Além disso, a própria empresa de distribuição cobra mais 20% do preço da capa, o que torna a atividade do editor bastante arriscada, uma vez que ele tem que investir no autor, na gráfica e todo o resto, inclusive o custo de lidar com os encalhes que ocupam espaço.

O editor divulga que a tiragem de sua revista é de 200 mil exemplares, mas imprimiu 50 mil e vendeu somente 15 mil. Por isso, essas revistas custam muito caro e quase não há anúncio publicitário pago em revistas de quadrinhos, o que poderia diminuir um pouco o preço da revista** e com isso atingir mais leitores.

Quando a Abrademi começou em 1984, boa parte dos participantes era descendente de japoneses, que cresceram lendo o mangá em japonês, e tinham adquirido conhecimento e os traços do mangá. Hoje, quem funda um grupo de mangá, na verdade, junta os fãs de desenhos animados da TV ou de games, e não propriamente fãs do mangá, das histórias em quadrinhos.

De um modo geral, o Brasil perdeu a chance de produzir mangá, o que deveria ter ocorrido na década de 1970 ou 1980. Jovens desenhistas que cresceram lendo mangá não conseguiram publicar seu mangá no Brasil e ingressaram nos Estúdios Disney e Maurício de Sousa, apesar de talentosos. Exemplo disso foi a editora Edrel, que nas décadas de 1960 e 1970 lançou diversas revistas de mangá nacionais, que obtiveram bastante sucesso. Como essa editora era pequena e não tinha estrutura para crescer mais e nenhuma outra se interessou em mangá, nem brasileira nem japonesa, ficamos sem o mangá nacional.

Depois que os desenhos animados japoneses fizeram sucesso na TV, na década de 1990, as editoras decidiram correr atrás, publicando os mangás exibidos na TV ou que fizeram sucesso em outros países. Essas editoras não se preocuparam em desenvolver um trabalho nacional. Hoje, o pseudomangá dificilmente será aceito no Brasil. No mundo inteiro não deu certo, exceto na Coréia do Sul, onde existem várias revistas de boa tiragem publicando os mangás japonês e coreano.

Essa mesma situação ocorre com a fábrica de brinquedos. No Japão, antes de um desenho animado ser produzido, antes de começar, os contratos são assinados e quando o desenho é lançado os brinquedos chegam às prateleiras. Assim, um ajuda o outro e todos saem ganhando. No Brasil, as fábricas de brinquedos só se interessam quando o desenho faz muito sucesso e quando resolvem lançar um brinquedo, a burocracia para registro, modelagem e outros entraves acabam retardando o processo, enquanto os contrabandistas já ocuparam todo o espaço, e o animê em questão já saiu do ar.

Extraído do livro “Cultura Pop Japonesa”, Editora Hedra, Profª Sonia B. Luyten, artigo de Francisco Noriyuki Sato.

** A revista semanal Shonen Jump é vendida no Japão, em 2013, a 250 ienes (já com imposto), o que equivale a R$ 5,97 (cotação de 02/9/2013). Vale lembrar que a Shonen Jump tem em média 470 páginas e 23 mangás. Um dos grandes atrativos do mangá certamente é o seu preço baixo. Por isso, apesar de todas as inovações tecnológicas surgidas nos últimos anos, a edição impressa consegue vender uma média de 2,8 milhões de exemplares todos os meses.

(continua…)

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