﻿{"id":503,"date":"2004-07-14T17:05:34","date_gmt":"2004-07-14T17:05:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.abrademi.com\/?p=503"},"modified":"2022-03-08T15:29:44","modified_gmt":"2022-03-08T18:29:44","slug":"helena-pereira-da-silva-ohashi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.abrademi.com\/index.php\/helena-pereira-da-silva-ohashi\/","title":{"rendered":"Helena Pereira da Silva Ohashi"},"content":{"rendered":"<h4>INTRODU\u00c7\u00c3O ou &#8220;Por que Isto Est\u00e1 Aqui?&#8221;<\/h4>\n<p>O visitante desta p\u00e1gina deve estar se perguntando o que essa autobiografia est\u00e1 fazendo aqui, hospedada num site referente a mang\u00e1, anim\u00ea e cultura pop japonesa?<\/p>\n<p>Em 1984, Oshiro Sanenari, ent\u00e3o jornalista do S\u00e3o Paulo Shimbun, deu despretensiosamente a seu amigo, o tamb\u00e9m jornalista e ex-presidente da ABRADEMI Francisco Noriyuki Sato, uma brochura encadernada \u00e0\u00a0m\u00e3o, aparentemente retirada de uma inunda\u00e7\u00e3o ou de algum tipo de s\u00e9rio problema de umidade. Na capa da brochura constava o nome da autora, Helena Pereira da Silva Ohashi, e o t\u00edtulo &#8220;Minha Vida &#8211; Brasil &#8211; Paris &#8211; Jap\u00e3o&#8221;. Sem saber o que fazer com a brochura, Sato simplesmente a guardou e esqueceu-a.<\/p>\n<p>Em 1999, j\u00e1 casado e preparando-se para mudar, organizando caixas de livros e pap\u00e9is que ficariam meses sem ser abertas at\u00e9 o final da reforma da nova casa, Sato reencontrou a brochura. Leu algumas p\u00e1ginas e descobriu tratar-se de mem\u00f3rias da filha de OSCAR PEREIRA DA SILVA (1867 &#8211; 1939), grande pintor acad\u00eamico conhecido por obras que ilustram passagens da hist\u00f3ria do Brasil, como &#8220;O Desembarque de Pedro \u00c1lvares Cabral em Porto Seguro&#8221; e &#8220;A Funda\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo&#8221;, quadros que se encontram no Museu do Ipiranga e que s\u00e3o frequentemente reproduzidos em livros did\u00e1ticos. O sobrenome japon\u00eas se deve ao fato de Helena Pereira da Silva ter se casado com o pintor japon\u00eas Ryoukai Ohashi em 1933.<\/p>\n<p><strong>RYOUKAI OHASHI<\/strong> (1895 &#8211; 1943) foi um artista prol\u00edfico que fez parte de um grupo de quatro jovens japoneses que chegaram em 1927 em Paris para estudar arte. Em seu tempo, foi conhecido como talentoso pintor modernista na Fran\u00e7a, no Jap\u00e3o, na Argentina e no Brasil.<\/p>\n<p><strong>HELENA PEREIRA DA SILVA OHASHI<\/strong> (1895 &#8211; 1966) foi uma pintora habilidosa, com uma t\u00e9cnica acad\u00eamica apurada como a do pai, mas que posteriormente evoluiu para um estilo moderno. Ela tamb\u00e9m foi a primeira designer de moda brasileira a produzir comercialmente no exterior, onde na d\u00e9cada de 30 ela introduziu cole\u00e7\u00f5es de pr\u00eat-\u00e0-porter ocidental atualizadas com Paris para a loja de departamentos Matsuzakaya. Ambos viveram num dos per\u00edodos mais ativos da arte no s\u00e9culo XX, mas tamb\u00e9m um dos mais conflituosos, presenciando duas Guerras Mundiais.<\/p>\n<p><img data-attachment-id=\"2755\" data-permalink=\"https:\/\/www.abrademi.com\/index.php\/helena-pereira-da-silva-ohashi\/helena_and_ohashi_ryokai\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?fit=1280%2C956&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1280,956\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Helena_and_?hashi_Ry?kai\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?fit=300%2C224&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?fit=640%2C478&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"alignright  wp-image-2755\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?resize=327%2C244&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"244\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?resize=1024%2C765&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?resize=300%2C224&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?resize=720%2C540&amp;ssl=1 720w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena_and_Ohashi_Ryokai.png?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"(max-width: 327px) 100vw, 327px\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Mais alguns anos se passariam antes desta autobiografia vir \u00e0\u00a0luz. Em 26 de junho de 2004, Sato foi com a esposa \u00e0\u00a0Pinacoteca do Estado de S\u00e3o Paulo, que queria ver uma exposi\u00e7\u00e3o de tape\u00e7arias francesas. Por curiosidade, tamb\u00e9m foram ver o acervo permanente e l\u00e1 encontraram dois quadros feitos por Helena, de sua fase acad\u00eamica. Isso despertou a ideia de divulgar a autobiografia, pesquisar informa\u00e7\u00f5es recentes sobre a obra do casal Ohashi e de doar a brochura que possuem \u00e0\u00a0Pinacoteca.<\/p>\n<p>Embora o trabalho do casal Ohashi seja quase desconhecido no Brasil (provavelmente por n\u00e3o ter feito parte de nenhum grupo ou movimento espec\u00edfico como o dos modernistas, Helena n\u00e3o tem o adequado reconhecimento, constando como pintora do s\u00e9culo XIX na Pinacoteca, e poucos quadros de Ryoukai est\u00e3o na posse de particulares, sendo que nenhum museu em S\u00e3o Paulo tem uma obra dele dispon\u00edvel ao p\u00fablico), Sato descobriu atrav\u00e9s da internet em japon\u00eas que a obra dos Ohashi est\u00e1 sendo redescoberta e valorizada no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s ficar vi\u00fava em 1943 no Jap\u00e3o, Helena decidiu voltar ao Brasil em 1949, deixando 162 quadros de Ryoukai aos cuidados da irm\u00e3 dele, Kyoko, que ainda est\u00e1 viva. Em 1995, a casa de Kyoko desabou durante o grande terremoto de Kobe, mas ela conseguiu recuperar os quadros de Ryoukai e os doou ao Ashiya City Museum of Art &amp; History. Desde ent\u00e3o, esses quadros foram enviados para T\u00f3quio, onde v\u00eam sendo restaurados. Agora que o extenso trabalho de restaura\u00e7\u00e3o est\u00e1 terminando, o museu Ashiya programou uma exposi\u00e7\u00e3o dos quadros de Ryoukai para 26 de fevereiro a 10 de abril de 2005, no d\u00e9cimo anivers\u00e1rio do terremoto.<\/p>\n<p>Recentemente, no per\u00edodo de 24 de abril a 30 de maio de 2004, o museu Ashiya realizou uma exposi\u00e7\u00e3o intitulada &#8220;Mulher Moderna&#8221;, com obras de cinco artistas de seu acervo, todas da primeira metade do s\u00e9culo XX. Quadros de Helena fizeram parte dessa mostra. O museu tamb\u00e9m possui um livro sobre a obra do casal Ohashi e um dos quadros de Helena ilustra um cart\u00e3o postal que \u00e9 vendido na loja do museu. Al\u00e9m disso, o trabalho desenvolvido por Helena como designer de moda j\u00e1 foi objeto de uma tese de doutorado no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>A doa\u00e7\u00e3o da brochura \u00e0\u00a0Pinacoteca foi descartada ap\u00f3s um breve contato com funcion\u00e1rios da biblioteca. Embora a autobiografia de Helena P. da Silva Ohashi n\u00e3o esteja listada no fich\u00e1rio de livros, a bibliotec\u00e1ria respons\u00e1vel localizou uma brochura id\u00eantica, guardada no arquivo referente a objetos pessoais dos artistas do acervo, brochura essa doada em 1974 por Margarida P. da Silva Rangel, irm\u00e3 de Helena.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 20 anos mantendo uma brochura com a hist\u00f3ria de uma pessoa que lhe era desconhecida, Sato passou a referir-se \u00e0\u00a0autora como &#8220;Dona Helena&#8221;. A dita brochura, ali\u00e1s, por si revela especial carinho da fam\u00edlia de Dona Helena pela artista. O que provavelmente ocorreu h\u00e1 quase 40 anos foi que Dona Helena, j\u00e1 idosa, redigiu \u00e0 m\u00e3o suas mem\u00f3rias at\u00e9 15 de dezembro de 1965. Ap\u00f3s o falecimento de Dona Helena, em 14 de novembro de 1966, seus familiares preocuparam-se em mandar imprimir o texto em tipografia sobre papel chambril de alta gramatura e reproduzir alguns quadros dela em off-set, o que foi executado em dezembro de 1968 pela antiga Ind\u00fastria Gr\u00e1fica Saraiva S.A. (atual editora e rede de livrarias Saraiva). A encaderna\u00e7\u00e3o simples (grampos e colagem externa das extremidades com fita de gorgur\u00e3o) mostra que poucas c\u00f3pias foram feitas e n\u00e3o houve nenhuma inten\u00e7\u00e3o de comercializ\u00e1-las &#8211; apenas manter um registro de uma pessoa querida, digna, culta e viajada e que, algum dia pudesse ser redescoberta e valorizada por sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e vida fascinante.<\/p>\n<p><img data-attachment-id=\"2753\" data-permalink=\"https:\/\/www.abrademi.com\/index.php\/helena-pereira-da-silva-ohashi\/helena-ohashi-flores-obra_948297\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?fit=1400%2C1400&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1400,1400\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;0&quot;}\" data-image-title=\"Helena Ohashi flores obra_948297\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?fit=300%2C300&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?fit=640%2C640&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-2753 alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?resize=276%2C276&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"276\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?w=1400&amp;ssl=1 1400w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/Helena-Ohashi-flores-obra_948297.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w\" sizes=\"(max-width: 276px) 100vw, 276px\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Disponibilizando na internet as mem\u00f3rias de Dona Helena, esperamos colaborar com a divulga\u00e7\u00e3o do trabalho do casal Ohashi, bem como permitir a pesquisadores de arte e historiadores acesso a mais uma fonte de informa\u00e7\u00f5es, sob uma \u00f3tica pessoal e humana, da arte no Brasil e na Europa da primeira metade do s\u00e9culo XX, bem como da comunidade japonesa, pela qual Dona Helena revelou grande carinho e que, certamente, se recorda dela.<\/p>\n<p>A seguir, reproduzimos na \u00edntegra o texto escrito originalmente por Dona Helena. Observamos que desde 1965 houve v\u00e1rias reformas ortogr\u00e1ficas do portugu\u00eas no Brasil, motivo pelo qual alguns leitores podem estranhar a acentua\u00e7\u00e3o e a grafia de algumas palavras, sendo que muitas foram atualizadas pelo corretor autom\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o da ado\u00e7\u00e3o internacional do M\u00e9todo Hepburn de romaniza\u00e7\u00e3o do idioma japon\u00eas, acrescentamos ao lado de algumas express\u00f5es escritas por Dona Helena a mesma palavra em japon\u00eas na grafia Hepburn, entre par\u00eanteses, para facilitar a localiza\u00e7\u00e3o por sistemas de pesquisa (um exemplo \u00e9 o que ocorre com a maneira pela qual Dona Helena redigiu o nome do pr\u00f3prio marido &#8211; Riokai. Na grafia Hepburn ele \u00e9 RYOUKAI e, se usada a grafia de Dona Helena, ele n\u00e3o \u00e9 identificado na internet ou no Jap\u00e3o).<\/p>\n<p>Tomamos a liberdade de criar notas de rodap\u00e9 numeradas com informa\u00e7\u00f5es ou observa\u00e7\u00f5es complementares sobre pessoas e locais citados no texto. Assim, observamos que as notas n\u00e3o fazem parte do texto original da autora.<\/p>\n<p><strong>Ashiya City Museum of Art &amp; History<\/strong><br \/>\n<strong>Hyogo ken &#8211; Ashiya shi &#8211; Japan<\/strong><br \/>\n<strong>Tel.: 0797 &#8211; 385432 \/ Fax 38-5434<\/strong><br \/>\n<strong>asbihaku@h7.dion.ne.jp<\/strong><\/p>\n<p>ABRADEMI &#8211; julho de 2004<\/p>\n<p><strong>Helena Pereira da Silva Ohashi<\/strong><\/p>\n<h2><strong>MINHA VIDA<\/strong><br \/>\n<strong>Brasil &#8211; Paris &#8211; Jap\u00e3o<\/strong><br \/>\n<strong>S\u00e3o Paulo:\u00a0 1969<\/strong><\/h2>\n<h3>MINHA INF\u00c2NCIA<\/h3>\n<p>Chamava-se Helena a menina fr\u00e1gil, de franjinha sobre a testa, cabelos lisos e compridos, segurando seu pai pela m\u00e3o. Iam dar um passeio pela Avenida Paulista, n\u00e3o longe de sua casa. Seu cora\u00e7\u00e3o estava t\u00e3o feliz, que guardou por muito tempo a lembran\u00e7a. Sua m\u00e3e, dona J\u00falia, n\u00e3o gostava de sair de casa; seu pai, aos domingos, tinha-lhe d\u00f3 e dizia, &#8220;coitada, sempre s\u00f3zinha&#8221;: seu mundo era a casa, o jardim, o gato e o cachorro.<\/p>\n<p>Helena n\u00e3o gostava de brinquedos nem de bonecas. L\u00e1 ia &#8220;seu&#8221; Oscar com os grandes olhos e cabelos pretos, fartos bigodes retorcidos, sempre com uma express\u00e3o triste e resignada. Helena adorava o pai; tamb\u00e9m era raro negar-lhe alguma coisa. Em frente ao Parque Paulista, havia um quiosquezinho, onde um alem\u00e3o vendia cerveja e limonada &#8211; sent\u00e1vamo-nos nas cadeiras e v\u00edamos a cidade ao longe. Seu Oscar era de pouca fala.<\/p>\n<p>Voltava-se lentamente pelo mesmo caminho: ningu\u00e9m pela avenida deserta, passava-se diante de ricos palacetes, entrava-se pela rua Frei Caneca, atravessando-se os campos de barba de bode e cupinzeiros. Eu ia arrancando tudo o que era florzinha, para levar a minha m\u00e3e. Ela muitas v\u00eazes me contava que meu primeiro sorriso foi para uma rosa, uma rosa impressa no papel que forrava o quarto. Dona J\u00falia era francesa de Bordeaux, seus olhos verdes e seu cabelo pr\u00eato davam-lhe car\u00e1ter, era expansiva e alegre, gostava de m\u00fasica e tinha boa voz.<\/p>\n<p>Eu rabiscava desde a mais tenra idade: aos cinco anos j\u00e1 desenhava figuras de perfil, com olhos de frente; meu pai achava gra\u00e7a nesses desenhos primitivos e dizia: &#8220;um dia ser\u00e1s pintora&#8221;.<\/p>\n<p>Receb\u00edamos, poucas visitas: meus pais eram muito retra\u00eddos. A fam\u00edlia do lado paterno habitava o Rio e a do lado materno, a Fran\u00e7a. Fui filha \u00fanica durante muitos anos. No casar\u00e3o que habit\u00e1vamos \u00e0\u00a0Rua Augusta, 159, a vida n\u00e3o era divertida.<\/p>\n<p>Helena era uma crian\u00e7a t\u00edmida e an\u00eamica, com seus grandes olhos escuros, fartas sombrancelhas unidas na testa como as de seu pai; morena e feia de tra\u00e7os. Dona J\u00falia n\u00e3o queria que brincasse com outras crian\u00e7as, dizia ela para n\u00e3o adquirir maus costumes; meu pai detestava barulho: gritos, pulos, correrias. Ele era calmo e pouco expansivo e minha imagina\u00e7\u00e3o tinha que arranjar meios de se distrair. O jardim constitu\u00eda o meu campo de a\u00e7\u00e3o, vendo flores, insetos, brincando com o gato. Helena adoecia f\u00e1cilmente: toda febre subia alta: logo lhe era ministrado o c\u00e9lebre rem\u00e9dio da \u00e9poca, calomelano, droga que produzia verdadeiros malef\u00edcios para o corpo e principalmente para os dentes. Ficava, \u00e0s v\u00eazes, dois dias sem beber uma gota d\u2019\u00e1gua para que o rem\u00e9dio fizesse efeito.<\/p>\n<p>Os motivos de conversa entre os pais de Helena n\u00e3o variavam, giravam, sempre, sobre projetada viagem \u00e0\u00a0Fran\u00e7a. Nessa viagem tencionavam ver a Exposi\u00e7\u00e3o Universal e visitar os pais de dona J\u00falia. Helena conheceria, ent\u00e3o, seus av\u00f3s, que moravam em Dax, perto de Bordeaux, onde dona J\u00falia tinha nascido. Rever a Fran\u00e7a, que maravilha! &#8211; &#8220;Seu&#8221; Oscar n\u00e3o perderia um minuto: iria a Paris ver a exposi\u00e7\u00e3o; revigorar seus sonhos de arte e realizar novos trabalhos. Dona J\u00falia e Helena poderiam ficar com seus pais, mas para isso precisava-se resolver v\u00e1rios problemas. A casa era um estorvo a \u00easses projetos: mobiliada com gosto, a maioria das coisas vindas da Fran\u00e7a, tapetes, cortinas, roupas de cama e mesa, todas em fino linho, porcelanas, cristais. Como deixar essas coisas?&#8230;<\/p>\n<p>Procuraram alugar a casa a pessoas de trato: apareceram v\u00e1rios pretendentes, mas o que mais agradou a dona J\u00falia foi um m\u00e9dico, Dr. Correa, que morava com uma velha governanta. Prometeu \u00eale tudo o que os pais de Helena desejavam, trato rigoroso de tudo, inclusive do cachorro, dos peixinhos, e do belo jardim. O aluguel era elevado. Os alugu\u00e9is deveriam ser depositados no banco, todos os meses, e a entrega da casa na volta do sr. Oscar. Esse foi, ent\u00e3o, o inquilino preferido.<\/p>\n<p>&#8220;Seu&#8221; Oscar andava falando e dando ordens, tinha-se quebrado a quietude habitual. Um dia chegou dizendo &#8220;comprei hoje as viagens no navio franc\u00eas &#8220;La Bretagne&#8221;. Uma madrugada, Helena foi sacudida do sono pela sua m\u00e3e, &#8220;anda depressa, precisa-se ainda tomar caf\u00e9 e vestir&#8221;, todas as malas j\u00e1 estavam na porta, veio um carro nos procurar e nos levou \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o da Luz. Depois de atravessar Santos, sujo e quente, est\u00e1vamos embarcando no &#8220;BRETAGNE&#8221;, velho cargueiro, movido metade a carv\u00e3o e metade a velas. Foi transformado em navio de passageiros dada a grande escassez de navios.<\/p>\n<p>O primeiro porto foi o Rio de Janeiro, ficou a\u00ed uns dias, o que deu aos pais de Helena a ocasi\u00e3o de visitar a fam\u00edlia. Foi uma impress\u00e3o que Helena nunca iria esquecer, quando entrou na modesta casa de seu av\u00f4. Num dos quartos, um homem de barbas brancas, velho, doente, estava entrevado numa cama, sem poder se mexer, todo paralisado, queria falar, n\u00e3o podia, as l\u00e1grimas escorriam-lhe pelo rosto. Todos choravam; era o padrasto de &#8220;seu&#8221; Oscar, homem bom e que meu pai estimava; muito o entristeceu v\u00ea-lo nesse estado. Helena recebeu muitos mimos de suas tias e conheceu seus primos. De novo o BRETAGNE levantou \u00e2ncora rumo \u00e0\u00a0Fran\u00e7a, levou um m\u00eas para chegar at\u00e9 Marselha, ficamos uns dias nessa cidade para seguir a DAX. Helena \u00eda conhecer seus av\u00f3s maternos.<\/p>\n<p>Foi grande a alegria: todos fizeram muitos mimos \u00e0\u00a0netinha do BRASIL. Dona J\u00falia n\u00e3o foi visitar sua irm\u00e3 Marie Louise, estavam de mal h\u00e1 muitos anos. A av\u00f3 era baixa e gorda, chorava com frequ\u00eancia. Um ano se passou bem depressa, o Inverno j\u00e1 estava se aproximando, o frio, os dias curtos e meus pais resolveram voltar. Helena, que se lembrou tanto da viagem de ida, pouco ou nada reteve da volta.<\/p>\n<p>No Rio, ficamos uns dias; o padrasto de &#8220;seu&#8221; Oscar tinha falecido e minha av\u00f3 achava-se s\u00f3zinha e sem recursos. Dona J\u00falia, que tinha bom cora\u00e7\u00e3o, convidou-a a vir morar em S\u00e3o Paulo conosco, o que ela aceitou. Os pais de Helena estavam bem apreensivos a respeito da casa pois o inquilino n\u00e3o escrevera uma linha sequer. No banco, nada havia depositado. Foi grande e amarga a decep\u00e7\u00e3o quando viram a casa toda fechada; da rua viam-se os capins crescidos que invadiram o jardim e o pomar; foi preciso pular o muro e arrombar a porta. Dentro, tudo estragado e vazio. Vieram a saber que \u00eale logo vendera os m\u00f3veis e tudo o que haviam deixado, em seguida tinha alugado a casa e recebido os alugu\u00e9is. Ningu\u00e9m sabia de seu paradeiro. Um ladr\u00e3o, \u00easse dr. Correa! Foi-se morar na casa suja e vazia. &#8220;Seu&#8221; Oscar n\u00e3o tinha dinheiro, foi preciso comprar tudo de novo. Dona Balbina de Jesus estava longe de compreender os sofrimentos de seu filho e de dona J\u00falia: ela queria viver sua vida como tinha sempre vivido. Logo dona J\u00falia come\u00e7ou a pensar na tolice que cometera em convidar sua sogra a morar junto. Dona Balbina guardava ainda os costumes das Sinh\u00e1s, filhas de fazendeiros, que tinham escravos para tudo, como cria\u00e7\u00e3o. Preferia viver no desleixo a limpar seu quarto; a asma de que era atingida fazia muitos anos, n\u00e3o lhe tirava o gosto da vida. Durante o dia lia romances; fumava, com uma escarradeira ao lado e esperava o doceiro passar, comprava pela janela de seu quarto cocadas e doces que comia com caf\u00e9 e queijo.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Helena, que tinha tido uma educa\u00e7\u00e3o e costumes t\u00e3o diferentes, n\u00e3o se conformava com os caprichos de sua sogra. E dona Balbina, um dia, foi levada \u00e0\u00a0esta\u00e7\u00e3o, para ficar com suas filhas no Rio de Janeiro &#8211; foi a melhor solu\u00e7\u00e3o que acharam.<\/p>\n<p>J\u00e1 era tempo de pensarem na minha educa\u00e7\u00e3o escolar. Eu j\u00e1 sabia ler quando entrei pela primeira vez no grupo escolar do Bexiga. Meu pai tinha me comprado um chap\u00e9u de palha &#8220;Jeanbart&#8221;, de abas levantadas e duas fitas pendentes nas costas. Tinha tamb\u00e9m uma mochila para por os livros e o lanche.<\/p>\n<p>Fiquei atonita quando entrei na aula, ao ver tantas crian\u00e7as. Eu nada compreendia das li\u00e7\u00f5es da professora Enriqueta. \u00c0s tr\u00eas horas terminava e sa\u00eda-se aos sons de cantos patri\u00f3ticos. Eu n\u00e3o iria ficar muito tempo nesse grupo &#8211; era t\u00edmida e bobinha, as outras meninas me achavam sem d\u00favida diferente e me batiam, por n\u00e3o ter traquejo de conviver com outras crian\u00e7as. Voltando para casa, subiam-se, e desciam-se morros, no caminho havia riachos. Uma ocasi\u00e3o eu ia na frente com uma coleguinha e os irm\u00e3os dela atr\u00e1s, uns moleques terr\u00edveis. A um dado momento quando eu estava sobre uma t\u00e1bua atravessando o riacho, \u00eales, rindo, me empurraram e l\u00e1 fui eu com o meu vestido branco que ficou vermelho. Quando cheguei, minha m\u00e3e me repreendeu severamente, pensando que eu tinha brincado com os moleques. Fiquei t\u00e3o sentida com essa injusti\u00e7a, que logo me veio febre alta: era catapora. Nunca mais voltei a essa escola.<\/p>\n<p>Por algum tempo continuei a minha vida de antes, desenhava por toda superf\u00edcie que encontrava, meu pai achava que eu tinha jeito. Agora havia um col\u00e9gio na esquina da Avenida Paulista e rua Augusta: chamava-se Col\u00e9gio Ingl\u00eas. Os diretores e professores eram todos londrinos; meu pai queria que eu aprendesse \u00easse idioma e fui matriculada nessa escola. As alunas eram de ricas fam\u00edlias que moravam na Avenida Paulista, Matarazzo, Carlos de Campos, Castel\u00e3o. A m\u00e3e dessa menina era uma rica vi\u00fava, dona da melhor confeitaria da cidade. Beatriz era respeitada entre as meninas &#8211; trazia sempre bombons de chocolate, que distribu\u00eda entre elas. Ali havia as maldades do mundo em miniatura: eram m\u00e1s, orgulhosas, mentirosas. Diziam &#8220;em casa tem oito criadas&#8221;, outras tinham seis, cinco, quatro e chegava minha vez. &#8220;O que faz seu pai?&#8221; Eu dizia &#8220;\u00e9 pintor&#8221;. Diziam elas, &#8220;pintor de parede? Por isso \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 uma boba. Quantas empregadas tem na sua casa?&#8221; &#8220;Uma&#8221;, respondia eu. &#8220;Mas ent\u00e3o \u00e9 casa de pobre?&#8221; Sa\u00eda chorando e apanhando. Quando elas brigavam entre si e rasgavam os vestidos, era sempre Helena que era repreendida. Essa escola fechou devido aos diretores se entregarem ao v\u00edcio da bebida: corria a not\u00edcia de que a Madame era encontrada ca\u00edda no ch\u00e3o, dizendo asneiras. \u00c9 claro que sa\u00ed dal\u00ed sem saber nada de ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Meus pais tinham alugado um velho piano Pleyel e eu continuava os estudos com a professora do col\u00e9gio, dona Nicota, verdadeiro massacre, me deformando a m\u00e3o, durante anos, e n\u00e3o me ensinando solf\u00eajo. Eu tocava de ouvido.<\/p>\n<p>Passei, uns tempos sem col\u00e9gio. Meu pai me dava uns modelos para copiar &#8211; eram desenhos de cabe\u00e7as suavizadas e macias, sombras feitas ao esfuminho; meu pai sempre se zangava com minha falta de cuidado e pressa em terminar. O outro col\u00e9gio ficava longe, em Higien\u00f3polis. Um breque vinha buscar as alunas em suas casas. Eu devia me achar na porta j\u00e1 arrumada, pronta para subir, mas encontrava sempre um meio de me atrasar. O carro j\u00e1 estava longe, quando eu sa\u00eda da porta. Era um col\u00e9gio que dava aula de ingl\u00eas. Eu cursava o prim\u00e1rio: estudava as li\u00e7\u00f5es. Estava gostando do col\u00e9gio, mas, certa vez, para me esmerar num trecho bem decorado de Hist\u00f3ria do Brasil, em que constava que os portugu\u00eases cultivavam cana e eu, ao dizer que os portugu\u00eases tinham plantado muito a\u00e7\u00facar, todos riram, inclusive a professora, o que me envergonhou demais e n\u00e3o mais estudei as li\u00e7\u00f5es. quando era interrogada n\u00e3o respondia, de m\u00eado de dizer alguma bobagem. A cada fim de aula cantavam-se hinos protestantes.<\/p>\n<p>Fiquei pouco tempo nessa escola; meus pais falavam em ir para a Fran\u00e7a, sonho permanente de meu pai; seu Oscar, que vivia na arte d\u00eale, sacrificado em S\u00e3o Paulo. Meus desenhos n\u00e3o o satisfaziam; no piano, eu batucava de ouvido valsas, polcas. A moda me despertava inter\u00easse &#8211; gostava de vestir minhas bonecas de mo\u00e7as e preferia a companhia de meninas mais velhas do que eu.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes meu pai me levava ao circo; a bailarina sobre o cavalo me extasiava &#8211; como seria feliz se estivesse no lugar dela!<\/p>\n<p>Mas das impress\u00f5es de que at\u00e9 hoje me lembro, foi a viagem que fiz com meu pai ao Guaruj\u00e1. Fomos pela nova linha de trens que sa\u00eda da Esta\u00e7\u00e3o da Luz. Os carros eram novos e as poltronas de palhinha estavam estreando. No alto da serra o trem parou para se tomar caf\u00e9 e comer sandu\u00edches, que coisa formid\u00e1vel ver os grandes abismos, com suas verdejantes florestas, e o mar, ent\u00e3o! Eu estava muda de tanta emo\u00e7\u00e3o: era a primeira vez que o via de t\u00e3o perto&#8230;<\/p>\n<p>Guaruj\u00e1, nesse tempo, s\u00f3 tinha um hotel e raras casas, afastadas umas das outras, alguns troles parados e pouqu\u00edssimos visitantes. Nesse dia, o mar luminoso e verde vinha morrer na alva praia: eu corria, aturdida, apanhando conchas, que amarrava num lencinho. O dia estava radiante de sol e luz. &#8220;Seu&#8221; Oscar fretou um breque para ir aos rochedos das Tartarugas. Esses rochedos ficavam no alto das pedras escuras. L\u00e1 de cima via-se todo o mar, com seus fortes rugidos e o bater das ondas em f\u00faria sobre as pedras. Viam-se enormes tartarugas, que mergulhavam como nas priscas eras. Nunca me esqueci d\u00easse passeio t\u00e3o lindo, que encantou minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Apesar de terem nascido cat\u00f3licos, meus pais n\u00e3o eram crentes nem praticantes: &#8220;seu&#8221; Oscar sempre se dizia livre-pensador: minha m\u00e3e ia \u00e0\u00a0missa uma vez por ano no Domingo de P\u00e1scoa. Os cantos enchiam-lhe a alma de emo\u00e7\u00e3o. Dona Mariquinha Paim, uma das raras amigas de minha m\u00e3e muito devota, de cara redonda, \u00f3culos, cabelos puxados e sorriso beat\u00edfico, sempre de pr\u00eato, com sua capa cheia de babados, segundo meu pai, era, de longe, um padre perfeito. Ela, sempre dizia sorrindo: &#8220;coitado de &#8220;seu&#8221; Oscar, t\u00e3o acanhado, t\u00e3o modesto&#8221;. Meu pai a detestava. A visita foi para pedir a dona J\u00falia que deixasse Helena fazer a primeira comunh\u00e3o na Igreja do Esp\u00edrito Santo, que ficava num morro, atr\u00e1s de nossa casa. Sinh\u00e1, a filha dela, que tinha a mesma idade que eu, tamb\u00e9m ia cumprir \u00easse dever religioso; minha m\u00e3e consentiu e eu \u00eda ao catecismo com a crian\u00e7ada do bairro, aprender os mandamentos da lei de Deus. Nada compreendia de semelhantes hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>No dia da festa, estava feliz ao me ver toda de branco, com s\u00e1ia comprida, v\u00e9u, a grinalda; minha m\u00e3e me beijou com l\u00e1grimas nos olhos. Meus pais se vestiram bem, fomos os quatro, minha irm\u00e3 Margarida, linda como uma boneca, de touca de gaze e vestidinho de s\u00eada branca. \u00c0 tarde fomos fazer visitas e no fot\u00f3grafo Wolsac, para perpetuar a lembran\u00e7a d\u00easse dia, parou na nossa porta um belo carro cup\u00ea todo forrado de cetim, puxado por dois cavalos brancos.<\/p>\n<p>\u00c0 frente de nossa casa morava uma numerosa fam\u00edlia italiana; tinha uma menina que sempre vinha falar comigo atrav\u00e9s da grade do jardim; ela era sorridente e alegre; pouco a pouco foi-se infiltrando em casa e minha m\u00e3e nada dizia. Florentina era seu nome, vermelha de rosto, de olhos arregalados, sempre contente, declamava e me dizia: &#8220;Entre no Externato S\u00e3o Jos\u00e9&#8221;. Ela j\u00e1 estava num ano adiantado e isso muito influiu para entrar nessa escola, onde fiquei alguns anos. Meu pai ensinava aquarela a uma freira franc\u00easa, irm\u00e3 Ot\u00e1via e a uma professora, dona Augusta; elas tinham muita considera\u00e7\u00e3o por meu pai d\u00easse favor pois \u00eale n\u00e3o ensinava, tinha horror a alunas. Devido a isso a madre superiora sempre me punha em classes muito adiantadas, que eu n\u00e3o podia seguir.<\/p>\n<p>Meus pais venderam a casa da rua Augusta e fomos tempor\u00e1riamente morar na rua Bar\u00e3o de Iguape, numa pequena casa nova. Foi preciso vender quase todos os m\u00f3veis, para poderem caber. Nessa casa, h\u00e1 alguns anos meu pai era professor do Gin\u00e1sio do Estado: \u00eale sempre se queixava da lonjura da rua Augusta; pois tinha que tomar duas condu\u00e7\u00f5es. O Gin\u00e1sio ficava em frente \u00e0\u00a0Esta\u00e7\u00e3o da Luz. A nova casa que estavam construindo na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, ficava num terreno fundo de alguns metros, at\u00e9 chegar ao n\u00edvel da rua. Tinha dois andares. Meu pai fazia grandes quadros, sobre a Hist\u00f3ria do Brasil e trazia do Instituto Hist\u00f3rico documentos e livros. A vida de Anchieta muito influiu no meu esp\u00edrito e uma esp\u00e9cie de misticismo me invadiu; come\u00e7ava a achar os sacrif\u00edcios belos e o sofrimento uma chama a se oferecer a Deus&#8230;<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e tinha ca\u00eddo em profunda neurastenia; nada mais a interessava e as ideias mais l\u00fagubres tinham-se apoderado dela. Meu pai, vivia ocupad\u00edssimo; Gin\u00e1sio, retratos, quadros, decora\u00e7\u00f5es. Andava r\u00edspido e de mau humor. Eu frequentava o Externato S\u00e3o Jos\u00e9. Sempre fraca, p\u00e1lida, estava me transformando numa meninota: minha \u00fanica amiga era minha irm\u00e3. Apesar de ser muito mais velha brincava com ela. Instalados na nova casa, comecei a me interessar s\u00e9riamente pelos conselhos de meu pai: foi o in\u00edcio definitivo de meu gosto pela arte. Comecei a empenhar toda a minha paci\u00eancia em copiar os modelos que meu pai me dava; num ano fiz consider\u00e1veis progressos. Com dezesseis anos copiava na perfei\u00e7\u00e3o os modelos mais dif\u00edceis de pasmar meu pai, ficava o dia todo desenhando com diversos l\u00e1pis, miolo de p\u00e3o. Meu pai mandava enquadrar os melhores, o que muito me lisonjeava.<\/p>\n<p>Mor\u00e1vamos na parte de baixo da casa, sem frente para a rua; meus pais tinham receio que me viesse a ideia de namorar; de vez em quando minha m\u00e3e falava sobre as mo\u00e7as indignas que namoravam, a coisa mais feia que podia acontecer; essas mo\u00e7as nunca se casariam, j\u00e1 estavam perdidas. &#8220;O contr\u00e1rio da verdade&#8221; eu ouvia essas advert\u00eancias num sil\u00eancio completo&#8230; \u00c0s vezes ela me dizia que os homens eram maus e que o casamento era a escravid\u00e3o. Estava me inculcando uma mentalidade especial, de que levei anos para me libertar. Nunca pude ter os vestidos que sonhava; a moda estava nas etaminas de fundo branco com impress\u00f5es de buqu\u00eas de flores, alegre e juvenil; meu pai dizia que chamava a aten\u00e7\u00e3o; quando sa\u00edamos \u00eale tinha horror que olhassem para \u00eale. Sempre passava por ruas de travessa para n\u00e3o ser visto, n\u00e3o gostava de festas nem conv\u00edvios, era reservado e t\u00edmido. Seu grande prazer era s\u00f3 seu trabalho; domingos ou feriados \u00eale ficava o dia todo pintando. Nunca fui a reuni\u00e3o ou festa alguma. Todos os dias eram iguais naquele casar\u00e3o mal repartido, sem janelas para a rua. Eu procurava ter uma vida diferente, na minha imagina\u00e7\u00e3o de adolescente, desejava outras alegrias. Em casa n\u00e3o havia livros; meu pai comprou depois uma rica cole\u00e7\u00e3o de cinco livros de arte: eram reprodu\u00e7\u00f5es em cores de quadros de artistas de renome. Eu ficava apaixonada por essas obras e ficava longamente apreciando essas reprodu\u00e7\u00f5es; tinha tamb\u00e9m comprado reprodu\u00e7\u00f5es de grandes decora\u00e7\u00f5es em branco e pr\u00eato. N\u00e3o me era permitido ler o jornal, mas eu tinha arranjado meio de ler os romances que O ESTADO DE S\u00c3O PAULO publicava e de que &#8220;seu&#8221; Oscar era assinante. Seguiam-se \u00easses romances em v\u00e1rios meses; durante o dia eu \u00eda vigiando o jornal, por \u00faltimo \u00e0\u00a0noite era a criada que lia; eu retirava e disfar\u00e7ava, levava o jornal para meu quarto e lia \u00e0\u00a0luz de vela. Assim pude conhecer belos livros de Alexandre Dumas, A Dama de Monsor\u00f3, Catarina de M\u00e9dicis, Henrique III, O Colar da Rainha, ficava maravilhada com as intrigas e esplendores da corte da Fran\u00e7a, ali havia hist\u00f3rias de amor, mas na minha ingenuidade, pensava que \u00easses fatos s\u00f3 tinham existido em \u00e9pocas passadas.<\/p>\n<p>Eu ia desenhando sempre na esperan\u00e7a de poder um dia usar as tintas, que eu adorava, meu pai n\u00e3o queria e dizia sempre que o desenho era a base de tudo, que \u00eale tinha desenhado durante muitos anos na ESCOLA DE BELAS ARTES do Rio; mas um dia \u00eale amoleceu e eis-me com a paleta de aquarela na m\u00e3o. Foi um dia feliz \u00easse que comecei a pintar com \u00e1gua; nunca pensei que fosse t\u00e3o dif\u00edcil, medir a quantidade de \u00e1gua certa, n\u00e3o deixar secar e nem molhar demais, rapidez e ac\u00earto, eram coisa bem diferente do que eu sabia fazer; meus olhos se deliciavam nas cores delicadas e vivas.<\/p>\n<p>Chegou a not\u00edcia do falecimento de minha av\u00f3 na Fran\u00e7a, entraram pela primeira vez os vestidos de l\u00e3 preta enfeitados de fosco crepe pr\u00eato; minha m\u00e3e, que j\u00e1 andava neurast\u00eanica, agora tinha um bom motivo para piorar. Nem bem fazia um ano, que est\u00e1vamos mergulhados no pr\u00eato, morre o avo. Mais outro ano de tristes roupas, depois foi minha m\u00e3e; quatro anos de toda a minha tenra mocidade a cumprir um dever absurdo, in\u00fatil, cruel.<\/p>\n<p>Pass\u00e1vamos os tr\u00eas meses de f\u00e9rias em SANTO AMARO, numa enorme ch\u00e1cara, a casa tinha vastas pe\u00e7as, uma longa varanda, que tomava toda a fachada, ornada de colunas est\u00edlo cor\u00edntio, dava uma vaga id\u00e9ia de um templo grego. Tinha um grande jardim na frente e vasto pomar nos fundos: uma profus\u00e3o de goiabeiras, ameixeiras, laranjeiras e caquizeiros. Era uma abund\u00e2ncia de frutas nas \u00e1rvores pelo ch\u00e3o. Eu, Margarida e minha m\u00e3e faz\u00edamos longos passeios, meu pai trabalhava nas composi\u00e7\u00f5es para os pain\u00e9is do Teatro Municipal; os desenhos eram passados no papel, aumentados maior que o natural; servi de mod\u00ealo para quase todas as figuras de suas composi\u00e7\u00f5es. A principal delas era o teatro grego ambulante.<\/p>\n<p>Por essa \u00e9poca comecei, do natural, desenhos, aquarelas e pintura a \u00f3leo, objetos, flores, frutos; a paisagem foi bem mais tarde, eu estava feliz com o cheiro das tintas, e de mexer nas tintas e cores.<\/p>\n<p>seu aluno J. Marques Camp\u00e3o estava tamb\u00e9m passando uma temporada em Santo Amaro com sua fam\u00edlia; \u00eale vinha com frequ\u00eancia, meu pai e \u00eale trancavam-se numa das pe\u00e7as e ficavam horas pintando. Um mod\u00ealo que \u00eales tinham achado em Nho Quim, \u00f3timo caipira que se prestava a todas as poses conquanto n\u00e3o precisasse trabalhar. Depois da viagem que &#8220;seu&#8221; Oscar f\u00eaz a Bel\u00e9m do Par\u00e1 em 1910, seus sonhos iam se realizar, ir \u00e0\u00a0Fran\u00e7a. A maior tristeza, que \u00eale se queixava sempre era o meio mesquinho e refrat\u00e1rio \u00e0\u00a0 arte, em que vivia em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Foi feita uma exposi\u00e7\u00e3o de meus trabalhos em casa, no &#8220;atelier&#8221;. O sr. Freitas Valle e mais alguns amigos acharam que eu merecia a BOLSA DE ESTUDOS para ficar em Paris; nesse tempo era assim que os pensionistas \u00edam para o estrangeiro; a mesada era minguada, trezentos francos por m\u00eas n\u00e3o davam nem para pagar uma pens\u00e3o e era por tr\u00eas anos. Todos \u00easses acontecimentos me optaram que me tiravam de minha mon\u00f3tona vida; toda a minha exuber\u00e2ncia e paix\u00e3o se concentravam nos estudos, tudo me obrigava a criar um mundo \u00e0\u00a0parte, que s\u00f3 eu conhecia. Os preparativos da viagem foram se acelerando, o piano e as mob\u00edlias vendidos. Eu saia com minha m\u00e3e e Margarida, para fazer compras de roupas e acess\u00f3rios; usavam-se uns col\u00eates que partiam dos seios at\u00e9 os joelhos, punham o busto em rel\u00eavo e proemin\u00eancia, achatavam o ventre, salientavam atr\u00e1s, seis ligas prendiam as meias, ficava-se com o corpo rijo como um estojo e para completar usavam-se as saias &#8220;entrav\u00e9s&#8221; com uma estreita barra \u00e0\u00a0altura dos joelhos, que impediam de andar, precisava-se de muito cuidado para n\u00e3o cair. Os chap\u00e9us eram enormes e enterrados na cabe\u00e7a; tive um branco, com duas asas abertas na frente: parecia Merc\u00fario, o deus do com\u00e9rcio. E aproveitava para escolher feitios na moda, fiz quest\u00e3o de ter as saias que impediam de andar.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1911, fomos tomar o vapor no Rio; por essa ocasi\u00e3o conheci minha av\u00f3, eu era muito pequena quando ela passou uma temporada em S\u00e3o Paulo e n\u00e3o me lembrava mais dela, uma velhinha s\u00eaca e mi\u00fada, que vivia num sub\u00farbio do Rio, com uma filha solteirona, tia Robertina. Fomos visitar as outras duas tias e conheci meus primos e primas pela primeira vez. Chovia torrencialmente quando sub\u00edamos as escadas do navio holand\u00eas FR\u00cdSIA, chegando l\u00e1 em cima com nossas roupas totalmente molhadas. A viagem foi relativamente boa porque n\u00e3o ficamos doentes; \u00e0\u00a0passagem do Equador houve a tradicional festa; \u00e0 tarde, diversos jogos em que as crian\u00e7as e mo\u00e7as tomavam parte; minha m\u00e3e n\u00e3o quis que fossemos; \u00e0\u00a0noite houve um grande baile; meus pais pediram a janta mais c\u00eado para que eu n\u00e3o presenciasse semelhante espet\u00e1culo, poderia me despertar id\u00e9ias para coisas depravadas, como por exemplo, namorados. Eu era uma mo\u00e7a t\u00edmida, que estava longe de pensar em tal coisa. Fomos para o cub\u00edculo, que era nosso camarote. Vinte dias e est\u00e1vamos em CHERBOURG, fazia frio e ventava.<\/p>\n<p>Paris me decepcionou muito, achei escuro, suas casas todas iguais de cor de cinza, onde as roupas pretas dominavam no povo; s\u00f3 mudei de parecer quando pela primeira vez entrei no Museu do LOUVRE. Fazia frio em abril, \u00e0s \u00e1rvores dos parques, com seus galhos hirtos e pretos n\u00e3o era alegre; foi s\u00f3 com o sol, que come\u00e7aram a desabrochar uma folhinha cor de alface&#8230; Com nossas roupas leves, vindas do Brasil, tirit\u00e1vamos, meu pai dizia que n\u00e3o est\u00e1vamos vestidos como l\u00e1 e que era por isso que cham\u00e1vamos a aten\u00e7\u00e3o, coisa que o punha de mau humor. Minha m\u00e3e sempre se sentindo mal, pouco falava, ouvia rumores que logo \u00edamos ter um irm\u00e3ozinho. N\u00e3o podia crer tamanha desdita, eu n\u00e3o gostava de crian\u00e7a, a\u00ed sim que \u00eda ficar pr\u00easa de novo em casa. Est\u00e1vamos num hotelzinho de MONTMARTRE, o quarto era frio e escuro, Margarida ficava comigo e \u00eales saiam a procurar casa. Minha m\u00e3e gostava do campo e fomos morar num arrabalde de Paris, Sartrouville, perto da Maison Lafitte, na linha de trem St. Lazare, longe de tudo, e de Paris. A primeira coisa que peguei, chegando ao chal\u00e9, foi a febre escarlatina. Come\u00e7ou como forte resfriado e no dia seguinte estava cheia pelo corpo inteiro, de manchas vermelhas, febre de quarenta graus, quase morri, os m\u00e9dicos n\u00e3o sabiam o que eu tinha. Meus cabelos ca\u00edram todos e fiquei um m\u00eas acamada, s\u00f3 tomando leite. Margarida tamb\u00e9m pegou, mas como eu era grande, foi essa doen\u00e7a para mim, muito mais grave; minha m\u00e3e estava com seu ventre volumoso. S\u00f3 quando come\u00e7ou a fazer calor em junho, \u00e9 que recomecei a sair com meu pai; minha m\u00e3e ficava triste e desconsolada, s\u00f3zinha, sem poder quase se mexer devido ao seu estado, sua neurastenia tinha aumentado e s\u00f3 falava em morrer&#8230;<\/p>\n<p>Comecei o mod\u00ealo vivo pela primeira vez na Academia Julien des Passages des Panoramas; quando vi o mod\u00ealo nu, muito me intimidei. Eu ficava acanhada no meio das alunas, desenvoltas que riam e falavam entre elas; durante o repouso, em casa, eu continuava a pintar sob a dire\u00e7\u00e3o de meu pai, natureza morta. &#8220;Seu&#8221; Oscar tinha improvisado um &#8220;atelier&#8221;no s\u00f3t\u00e3o. Iniciou uma s\u00e9rie de c\u00f3pias grandes, de Murillo, Rembrandt, Fragonard. &#8211; Eu ficava pasmada diante da grande facilidade e exuber\u00e2ncia, que \u00eale possuia; fez tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de quadros de g\u00eanero, modelos do natural, com costumes Luiz XV &#8211; isso me tirava o \u00e2nimo e pensava no \u00edntimo &#8220;nunca hei de me aproximar d\u00eale&#8221;. Mas eu nada dizia. Ele tamb\u00e9m pouco se importava com minhas id\u00e9ias. Comecei no Museu do Louvre, sobre um cavalete especial num estrado, que os guardi\u00f5es alugavam, fiz em pequeno croquis para depois passar em grande, &#8220;le portrait de madame Vestier&#8221;, toda vestida de cetim e rendas, &#8220;La Melancolie&#8221; de Fragonard.<\/p>\n<p>Em outubro, o frio come\u00e7ou a apertar, eu ficava im\u00f3vel diante de um foguinho perto da lareira, o vento gelado entrava por todas as frestas da casa, minha m\u00e3e doente, nada de aparecer a cegonha, que esperavam de sde agosto; meu pai resolveu ir assim mesmo a Paris; alugou um apartamento na rue Darremont em Montmartre, quase pegado ao Cemit\u00e9rio P\u00e9re Lachaise &#8211; pelas janelas do apartamento s\u00f3 se viam enterros.<\/p>\n<p>Dia 23 de novembro nasceu mais uma irm\u00e3zinha e no dia 30 d\u00easse mesmo m\u00eas, minha m\u00e3e morria. Para completar a tristeza, caia a neve que eu via pela primeira vez. Foi um horr\u00edvel golpe me v\u00ear face a face com a morte; eu era sens\u00edvel e amorosa e como n\u00e3o conhecia mais ningu\u00e9m, tinha-lhe excessiva amizade. O frio cada vez mais forte, dias escuros e curtos, n\u00e3o era consolante. Est\u00e1vamos nessa extrema circunst\u00e2ncia, completamente s\u00f3s, minha m\u00e3e tendo ficado de mal com seus parentes. Eu e Margarida j\u00e1 est\u00e1vamos com coqueluche quando fomos ao enterro de dona J\u00falia em Dax, onde j\u00e1 estavam seus pais enterrados. L\u00e1 tinham uns parentes, que apareceram, foi um enterro de gala, o padre na frente cantando pela estrada do ponto final. A rec\u00e9m-nascida ficou com uma ama, que a levou para a sua casa para a criar numa aldeia perto de Guillancourt.<\/p>\n<p>As cartas que vinham do Brasil n\u00e3o eram boas: a casa da Avenida Brigadeiro Luis Antonio tinha cedido na parte dos fundos, devido aos maus alicerces, tinham aparecido rachaduras do alto abaixo das paredes, os inquilinos tinham sa\u00eddo e a casa estava vazia. Em dezembro embarcamos, todos de luto fechado. Eu e minha irm\u00e3 tossindo at\u00e9 perder o folego, com a terr\u00edvel coqueluche, que durou seis meses.<\/p>\n<p>Depois de consertada a casa, est\u00e1vamos morando nela; meu pai retomou suas aulas no Gin\u00e1sio e come\u00e7ou as grandes decora\u00e7\u00f5es da Sta. Cec\u00edlia. Eu estava t\u00e3o aturdida pelos acontecimentos, que n\u00e3o pensava em arte. Um dia apareceu o sr. Freitas Valle (era deputado), contrariado que eu tivesse voltado &#8220;agora que trabalhei para o aumento das mesadas dos pensionistas e prolongar a estada l\u00e1 por cinco anos&#8221;, dizia \u00eale. Veio v\u00e1rias v\u00eazes e convenceu meu pai a me levar outra vez para Paris. Margarida ficou no col\u00e9gio interno, e em mar\u00e7o de 1912 segu\u00edamos para a Europa.<\/p>\n<p>Descemos em Lisboa onde novamente ficamos uns dias, meu pai comprou uma viagem na Ag\u00eancia Cook para ir a Madrid e visitar todas as cidades da It\u00e1lia; eu, sempre com a tosse, que n\u00e3o me largava e tinha ainda piorado com o frio pois a primavera na europa \u00e9 o fim do inverno, sempre arrastando o luto completo com o grande v\u00e9u de crepe, que descia do chap\u00e9u atr\u00e1s e ia at\u00e9 os tornorzelos. Em Madrid, quase nada vi, ficando na cama o tempo todo; de l\u00e1 fomos a Vingtimilia, para seguir a G\u00eanova, minhas id\u00e9ias iam se transformando, que por tantos anos tinham sido de obedi\u00eancia e submiss\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o cr\u00e9dula quanto antes, meu pai me repreendia, o que muito me magoava, a revolta j\u00e1 estava se infiltrando em mim, nunca poder fazer nada do que eu queria; para contrariar meu pai, ficava emburrada, sem dizer palavra durante horas &#8211; \u00eale n\u00e3o dava pelo motivo e ficava bravo. Em G\u00eanova, fiquei na cama com minha tosse. Em Turim e Mil\u00e3o comecei a melhorar, vi a grande Catedral de m\u00e1rmore branco na imensa Pra\u00e7a, as ruas do centro estreitas e movimentadas, a Ceia de Cristo de Leonardo da Vinci. Resolvi teimosamente comprar uma lembran\u00e7a em cada cidade percorrida. Meu pai n\u00e3o estava de acordo, da\u00ed saiam palavras \u00e1speras, era frequente entre n\u00f3s a desintelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Em Veneza ficamos uns dias; achei uma maravilha essa cidade apesar de n\u00e3o estar preparada para apreciar tanta beleza; eu me prometia voltar um dia a \u00easse pa\u00eds de fadas. Fomos a Murano, f\u00e1brica famosa que ficava numa ilha; tinha uma esp\u00e9cie de museu das pe\u00e7as que fabricavam nos s\u00e9culos passados &#8211; meu pai ficou encantado e comprou muita coisa, um pote de um intenso azul marinho, um estojo com doze x\u00edcaras para caf\u00e9, verde esmeralda com florzinhas em rel\u00eavo sobre ouro; muitas delas iam ser quebradas na fronteira, pelos aduaneiros \u00e1vidos em descobrir fumo. Depois foi Floren\u00e7a &#8211; pass\u00e1vamos pelas ruas, meu pai fazia croquis no museu, a curiosa ponte Vecchia por dentro, de um lado e outro ourives. Em N\u00e1poles ficamos uns dias num hotel de luxo, no cume de uma montanha; de nossos quartos descortinava-se um panorama espl\u00eandido, com o mar azul e o Ves\u00favio na frente, com seu tenue filete de fuma\u00e7a. \u00cdamos comer fora em pequenos e pitorescos restaurantes, com a frente ornada de lindas parreiras. Assim que sent\u00e1vamos, vinham tr\u00eas a quatro m\u00fasicos tocando bandolim, viol\u00e3o e cantando as del\u00edcias da lua de mel. Eu ficava triste, desapontada, meu pai falava alguma coisa aos ouvidos d\u00eales, que se afastavam logo. Visitamos Capri, a ilha perdida no oceano azul, com seus laranjais em flor, a gruta Azul, Herculano e Pomp\u00e9ia. Andamos pelas ruas compridas ruas, todas cal\u00e7adas de grossas pedras, suas casas alinhadas, mas tristes e desoladas, sem telhados, sem portas, sem jardim, ru\u00ednas do terr\u00edvel terremoto do ano 79 de nossa era (1).<\/p>\n<p>(1) OBS.: Na \u00e9poca de Dona Helena n\u00e3o se sabia que as cidades de Pomp\u00e9ia e Herculano tinham, na verdade, sido varridas por uma erup\u00e7\u00e3o de cinzas seguida de um enorme fluxo pirocl\u00e1stico do Ves\u00favio, e n\u00e3o por um terremoto.<\/p>\n<p>Em Roma, ficamos uns dias visitando seus belos museus, ficamos sentados uma tarde toda nas ru\u00ednas do Coliseu, vendo o que foram os esplendores da Roma antiga; meu pai f\u00eaz diversos croquis a aquarela num caderno que \u00eale carregava sempre. Numa noite, o expresso nos levou a Paris. No consulado estavam diversas cartas do Brasil, todas com m\u00e1s not\u00edcias: minha irm\u00e3 Margarida tinha ficado muito doente no col\u00e9gio e estava na casa dos amigos Cordis e, depois, na sua madrinha Azevedo, \u00e0 espera que meu pai voltasse quanto antes; na nossa casa tinham-se aberto novas brechas nas paredes do fundo e amea\u00e7ava ruir. Foram os primos Saphores do lado materno, que arranjaram para mim uma pens\u00e3o familiar em Paris; minha tia Loachot devia vir de vez em quando me controlar.<\/p>\n<p>Foi \u00e0\u00a0s pressas que meu pai se despediu de mim me dando v\u00e1rios conselhos, frequentar as aulas na ACADEMIE JULIAN ou COLAROSSI, fazer umas c\u00f3pias grandes nos museus do Louvre e do Luxembourg, arranjar dos professores atestados de frequ\u00eancia e progresso, ter o cuidado de n\u00e3o sair \u00e0\u00a0noite, mandar os estudos pelo correio.<\/p>\n<p>O quarto em que eu ia morar era todo forrado em faille cor de rosa; sobre a cama tinha uma linda colcha da mesma cor recoberta de renda, a mob\u00edlia era branca. A parede da frente era toda de vidro. O pr\u00e9dio, novo, dava para a rua Pierre Curie, logo perto do Panteon, B. St. Michel e do Jardim de Luxembourg. Outra vida nova ia come\u00e7ar para mim mas eu estava t\u00e3o saturada, t\u00e3o atada \u00e0\u00a0vida sem personalidade, que apesar de estar com dinheiro, liberdade e entregue a meus gostos, me parecia haver uma vigil\u00e2ncia oculta e nada ousava fazer. Fiquei nessa mentalidade ainda por muito tempo; n\u00e3o estava preparada para ficar nessa grande capital e ter todos \u00easses privil\u00e9gios; poderia ter aproveitado muito mais se tivesse outra orienta\u00e7\u00e3o; sem traquejo nenhum da vida, me parecia estar ainda oprimida por invis\u00edveis la\u00e7os, e eu mesma achava que tudo o que eu fazia era ruim.<\/p>\n<p>Todos os dias eu ia \u00e0\u00a0&#8220;ACADEMIE JULIAN&#8221;- o professor era Chaumert, ali se fazia o mod\u00ealo vivo mulher e homem com &#8220;cache-sexe&#8221;; eu desenhava a fusain, pouco pintava, fazia as composi\u00e7\u00f5es sobre temas b\u00edblicos, que o professor dava uma vez por semana, conseguia ser bem colocada, \u00e0\u00a0s vezes era elogiada pelo colorido. Depois mudei para o COLAROSSI &#8211; ali era curso misto, tinha tamb\u00e9m \u00e0\u00a0tarde aula de retrato e curso de croquis. Ficava desanimada ao ver tantos alunos trabalharem bem, fortes, seguro do pincel e eu, naquela indecis\u00e3o e timidez; trabalhavam grandes telas e pintavam com desenvoltura; pouco a pouco ia compreendendo que eu estava pr\u00easa \u00e0\u00a0s regras a aos detalhes. Trabalhava o dia todo e no estio ia estrear na paisagem, para mim dific\u00edliama; fazia croquis no jardim do Luxembourg, \u00e0\u00a0beira do Sena; quando chovia ia \u00e0\u00a0s velhas igrejas St. Julien le Pauvre, e St. Severin. Comecei uma c\u00f3pia no museu de Luxembourg, que tinha quadros de artistas contempor\u00e2neos, &#8220;La Femme aux Cornichons de Bail&#8221;, &#8220;Jeune Fille au Chat de chaplins&#8221;, que ia mandando a meu pai com os desenhos de mod\u00ealo vivo.<\/p>\n<p>Consegui entrar na Escola de Belas Artes, no curso de Hebert; a\u00ed fiquei uns meses tudo fazendo para progredir; ali havia alunos bem traquejados, que desenhavam e pintavam admiravelmente bem. Durante \u00easse per\u00edodo de meus estudos n\u00e3o expus em sal\u00e3o nenhum, esperando trabalhar melhor para isso. Na pens\u00e3o em que eu morava, conheci uma fam\u00edlia brasileira do Cear\u00e1, cuja filha era pianista: Ester era toda sentimental e rom\u00e2ntica, tocava bem e apesar de sua fam\u00edlia ser muito devota iam a concertos e teatros; at\u00e9 \u00e0quela altura eu nada conhecia dessas coisas; Ester me procurava para irmos aos melhores concertos, e representa\u00e7\u00f5es. Eu ainda arrastava o luto e custei a me livrar &#8211; meu primeiro vestido de soir\u00e9e foi branco mas tinha um cinto de s\u00eada roxo, luto aliviado. Achava tudo isso, no meu subconsciente, que n\u00e3o estava procedendo bem. Nessa pens\u00e3o eu ia conhecer uma ingl\u00easa, Miss Gertrudes, que pintava; fizemos boa camaradagem e fomos nas f\u00e9rias de 1914 para Veneza. \u00c0s vezes eu ia visitar minha tia-av\u00f3 e minha irm\u00e3 Judith, que estava em Guillancourt com a ama. Fizemos uma agrad\u00e1vel viagem para ir a Veneza, passando pela Su\u00ed\u00e7a &#8211; da janela do trem viam-se as maravilhosas paisagens, os odorantes pinheiros; passamos uma noite em Lausanne e no dia seguinte Mil\u00e3o, onde ficamos dois dias e depois, Veneza de meus sonhos. A pens\u00e3o em que fomos ficava al\u00e9m do grande Canal, numa velha casa senhorial com um bras\u00e3o sobre a porta &#8211; os quartos eram enormes, aclarados \u00e0 noite por luz de lamparina, que projetava grandes sombras, que me gelavam de m\u00eado. O inconveniente era de ter-se que atravessar de barca cada vez que \u00edamos \u00e0 pra\u00e7a de S\u00e3o Marcos. Pint\u00e1vamos durante o dia; eu s\u00f3 tinha levado aquarela e me exercitava em reproduzir os incompar\u00e1veis reflexos das casas e das gondolas sobre as \u00e1guas; ainda n\u00e3o existiam como hoje lanchas e barcos a gasolina, que estragam tanto o pitoresco.<\/p>\n<p>Um dia, ouvimos na cidade que a Fran\u00e7a e a Alemanha estavam em guerra; mas diziam: &#8220;isso n\u00e3o pode durar mais que uma semana&#8221; &#8211; apenas durou cinco anos. Os dias iam passando a cada vez mais uma nova na\u00e7\u00e3o entrava em guerra, nosso dinheiro estava se fazendo escasso, miss Gertrudes pensava em voltar para a Inglaterra e eu, que faria ali s\u00f3zinha, sem conhecer ningu\u00e9m e sem dinheiro? Resolvi ir com ela at\u00e9 G\u00eanova, a\u00ed eu procuraria o consulado brasileiro. Eu tinha ido \u00e0 It\u00e1lia sem documentos e agora n\u00e3o podia voltar a Paris sem pap\u00e9is de identidade; tive em G\u00eanova uns dias de ang\u00fastia. O c\u00f4nsul arranjou por meu nome nos documentos de duas mo\u00e7as brasileiras que iam a Paris acompanhadas de um senhor franc\u00eas. Chegando a Paris, achei outra cidade a que eu tinha deixado, as ruas ermas e tristes, o com\u00e9rcio quase todo fechado, s\u00f3 havia condu\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea, de vez em quando batalh\u00f5es passavam ora silenciosos, ora com banda de m\u00fasica, que partia a alma de tristeza. Eu estava certa, como milhares de franceses, que isso ia logo terminar com a vit\u00f3ria da Fran\u00e7a. As poucas cartas que recebia de meu pai eram ordens para voltar, mandou-me mil francos para a viagem, mas n\u00e3o fui, esperando que acabasse a guerra, o que muito o contrariou; come\u00e7ando a v\u00ear que ia essa guerra durar muito tempo, pedi mais mil francos a meu pai que me mandou, dizendo que desta vez me abandonaria se n\u00e3o viesse. Embarquei ent\u00e3o em Bordeaux num vapor franc\u00eas, perseguido at\u00e9 Pernambuco por submarinos alem\u00e3es. Em Santos, meu pai me esperava no cais, me trouxe para casa, onde me apresentou \u00e0\u00a0sua nova esposa, filha e irm\u00e3; Margarida estava com elas. Vi logo que n\u00e3o passavam de umas aventureiras e fiquei detestando-as. Margarida tinha crescido demais, mas estava ali sem frequentar a escola e sem nada aprender; tinham-lhe enchido tanto a cabe\u00e7a a meu respeito, que ela tinha m\u00eado de mim e fugia quando me via. Estava eu morando embaixo, elas em cima no r\u00e9s da rua, meu pai saia o dia todo e quando chegava, estava sempre de mau humor: eu ali s\u00f3zinha, o dia todo na penumbra da casa escura e triste, dava tempo para pensar na minha vida de Paris. A independ\u00eancia que eu j\u00e1 tinha provado, agora era outra coisa, sem um vint\u00e9m, sem parentes, sem amigos. Tinha-me desnorteado, as ideias e gosto de arte, nada de meu pai me orientar no que poderia fazer. Eu tinha horror aos retratos por fotografia, que \u00eale me propunha. Ele n\u00e3o gostava da maneira mais livre, como tinha aprendido em Paris, dizia que s\u00f3 servia para estragar telas e tintas, que eu precisava acabar mais, e esbater, ter mais paci\u00eancia; nada d\u00eale se interessar em fazer a exposi\u00e7\u00e3o de meus estudos &#8211; levei cinco anos acumulando tost\u00e3o por tost\u00e3o para realizar \u00easse meu desejo.<\/p>\n<p>Durante \u00easse tempo, para fugir a um presente t\u00e3o ingrato, comecei a estudar s\u00e9riamente o piano, me preparei e no ano seguinte, fiz exame no conservat\u00f3rio, entrando no quinto ano, com o professor Wancolle, o melhor e de mais nome em S\u00e3o Paulo. Meu pai separou-se das aventureiras com quem vivia e fomos passar uns tempos na rua do Teatro; foi preciso o interm\u00e9dio do Juiz e de advogado para tirar Margarida, elas n\u00e3o queriam largar t\u00e3o boa pr\u00easa! O piano me tomava v\u00e1rias horas por dia, eu estava feliz de poder tocar os cl\u00e1ssicos; minha ambi\u00e7\u00e3o era ter uma boa t\u00e9cnica e poder interpretar o que sentia, Beethoven, Bach, Chopin; queria pintar mas tantos eram os empecilhos que fiquei uns tempos sem pegar nos pinc\u00e9is; para mim a arte era o \u00fanico motivo de viver. Eu ia me mantendo com alunas de desenho e pintura durante os cinco anos que fiquei na casa de meu pai. A minha sa\u00fade era ruim, sempre lutando com um corpo fraco e doentio. Sabia que era feia de rosto: isso ainda contribu\u00eda refugiar dentro de mim mesma, onde minha revolta achava consolo&#8230; Gostava de ler, tinha um temperamento sens\u00edvel e profundo, que mais ainda me fazia sofrer&#8230; Essa vida amarga e inolvid\u00e1vel de minha mocidade, durou bastante tempo. Encaminhei minha irm\u00e3, para a m\u00fasica. Ela estudava violino no Conservat\u00f3rio Musical. A educa\u00e7\u00e3o da minha irm\u00e3 passou a ser minha grande preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estavam preparando grandes festejos para o t\u00e9rmino da Grande Guerra Europ\u00e9ia, mas em vez disso foi uma terr\u00edvel epidemia de gripe, dita Espanhola, mal\u00e9fica e infecciosa; come\u00e7ou no Rio com jogadores de futebol, vindos da Europa, logo se propagou de tal maneira que foram poucas as pessoas que n\u00e3o a pegaram. S\u00e3o Paulo, por mais de uns meses, com as escolas e o com\u00e9rcio fechados, as ruas solit\u00e1rias e ermas, s\u00f3 se viam as ambul\u00e2ncias correndo, os pr\u00f3prios m\u00e9dicos fugiam, cada um ficava esperando os sintomas da doen\u00e7a, em sua casa. Fui a primeira a ter, depois foi minha irm\u00e3, e meu pai, as criadas j\u00e1 tinham partido para o isolamento. Vi a morte de perto: levantando-me para tratar de meu pai, reca\u00ed, e desta vez faltou pouco para chegar ao ponto final.<\/p>\n<p>Em 1918, meu pai casou-se de novo, com uma mo\u00e7a da fam\u00edlia Escobar; n\u00e3o devia durar muito essa uni\u00e3o, que s\u00f3 levou tr\u00eas meses, vindo ela a falecer.<\/p>\n<p>Esse desastre ia-lhe ser salutar, seu car\u00e1ter modificou-se para mais normal.<\/p>\n<p>Um dia veio visitar meu pai, um pintor alem\u00e3o, que estava terminando sua exposi\u00e7\u00e3o de pintura numa sala da rua Direita, oferecendo \u00easse local, que ia ficar vago. Meu pai me disse, &#8220;se eu tivesse dinheiro voc\u00ea poderia fazer uma exposi\u00e7\u00e3o de seus quadros&#8221;; mais que depressa eu lhe disse que tinha economias e que podia fazer. Em janeiro de 1919, abri minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, minhas telas eram de t\u00e9cnicas bem diferentes, natureza morta, feitas antes de ir a Paris e meus \u00faltimos estudos feitos com fatura mais larga, os motivos tamb\u00e9m eram dos mais variados. Os jornais muito elogiaram essa jovem pintora portadora de muito talento mas ainda \u00e0\u00a0 procura de sua personalidade; nesse tempo, os jornais n\u00e3o se faziam rogar para escrever sobre os artistas que come\u00e7avam a se mostrar. Os pintores n\u00e3o formavam grupos, muitos vieram \u00e0\u00a0 minha exposi\u00e7\u00e3o, a Arte Moderna, que estava come\u00e7ando era muito comentada, todos diziam que essa pintura louca nunca haveria de pegar. Tenho ainda um artigo de Monteiro Lobato, sobre a mostra que fiz; \u00eale estava nesse tempo escrevendo na Revista do Brasil.<\/p>\n<p>Conheci durante minha exposi\u00e7\u00e3o, que durou um m\u00eas, v\u00e1rios rapazes inteligentes, que vinham conversar comigo sobre arte, livros, eram acad\u00eamicos de Direito e intelectuais &#8211; R\u00eago Rangel, que vinha com mais frequ\u00eancia, foi trazendo outros, Correa J\u00fanior, Cle\u00f3menes Campos, Arlindo Barbosa, Paulo Gon\u00e7alves; todos gostavam de literatura e m\u00fasica. A exposi\u00e7\u00e3o terminada, continuaram a vir \u00e0\u00a0noite, \u00e0\u00a0 casa de meu pai. Sempre me recordei do sal\u00e3ozinho todo forrado de verde-escuro, a mob\u00edlia Luiz XV trazida de Paris, o belo esp\u00ealho oval com sua rica moldura de ouro e seus anjinhos segurando guirlandas de rosas, o belo lustre de cristal, as cortinas de renda branca, o tapete verde tamb\u00e9m vindo da Fran\u00e7a, v\u00e1rios quadros de meu pai adornavam a sala, mas o mais lindo era o piano meia cauda Gaveau, de madeira natural beije. Essa era a \u00fanica pe\u00e7a da casa bem mobiliada; quase todas as noites vinham nossos f\u00e3s. Era a corte, Margarida tocava sonatas de Corelli e belas Berceuses de Godard, Luiza de Azevedo as Czardas, eu fazia os acompanhamentos e tocava solos. Cle\u00f3menes Campos n\u00e3o resistia \u00e0\u00a0emo\u00e7\u00e3o da Sonata ao Luar de Beethoven, arrancava-lhe l\u00e1grimas. Ningu\u00e9m pensava em namoros; tudo era esp\u00edrito e ideal de Arte; foram uns tempos felizes \u00easses para n\u00f3s; eu come\u00e7ava a cr\u00ear que no dom\u00ednio dos sonhos podia-se viver intensamente.<\/p>\n<p>Meu pai \u00e0\u00a0s v\u00eazes vinha presidir nossas palestras liter\u00e1rias e musicais. Eu tinha acabado o curso de piano naqu\u00eale ano, tinha tantas mat\u00e9rias a fazer, que me atropelavam o estudo do piano, pelo qual eu tinha entrado no conservat\u00f3rio; fiz o curso completo de piano (7 anos) e dois anos de harmonia, me faltando ainda outras mat\u00e9rias e devido a isso n\u00e3o tirei o diploma.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2752\" aria-describedby=\"caption-attachment-2752\" style=\"width: 290px\" class=\"wp-caption alignright\"><img data-attachment-id=\"2752\" data-permalink=\"https:\/\/www.abrademi.com\/index.php\/helena-pereira-da-silva-ohashi\/helena-ohashi-paris-1921\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-paris-1921.jpg?fit=644%2C767&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"644,767\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"helena ohashi &#8211; paris 1921\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-paris-1921.jpg?fit=252%2C300&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-paris-1921.jpg?fit=640%2C762&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2752\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-paris-1921.jpg?resize=290%2C345&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-paris-1921.jpg?w=644&amp;ssl=1 644w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-paris-1921.jpg?resize=252%2C300&amp;ssl=1 252w\" sizes=\"(max-width: 290px) 100vw, 290px\" data-recalc-dims=\"1\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2752\" class=\"wp-caption-text\">Pintura de Helena Pereira Ohashi feita em Paris, em 1921<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dia meu pai me disse, &#8220;se voc\u00ea quiser ir a Paris para terminar seus estudos de pintura, que ficaram interrompidos, voc\u00eas podem ir&#8221;; creio que arranjou \u00easse meio para se livrar da nova vida que est\u00e1vamos levando. Em junho de 1920 embarc\u00e1vamos no velho vapor ingl\u00eas ANDES para a Fran\u00e7a; depois de uma viagem de trem de cinco horas, de Cherbourg a Paris, vendo a paisagem desbotada da Normandia, apareceu Paris, cor de cinza em todos os tons escuros, fuma\u00e7a e c\u00e9u emba\u00e7ado. Fomos direto para a casa da tia-av\u00f3 Loichot &#8211; Judith estava crescida, a prima Maria e a velha Loichot tinham-na criado em parte, desde a idade de tr\u00eas anos. Eu estava contente de me achar de novo nessa grande capital e de mostrar Paris a Margarida, que parecia estar decepcionada. Arranjei um apartamento no mesmo edif\u00edcio na parte de tr\u00e1s que dava para um p\u00e1tio cimentado: mobiliei-o muito modestamente e aluguei um piano. Come\u00e7amos nossa vida de estudos bem economica, a pens\u00e3o que meu pai mandava era escassa e dependia do c\u00e2mbio, dev\u00edamos viver as tr\u00eas e pagar os estudos. Margarida entrou na Escola Normal de M\u00fasica de Paris, Judith frequentava a escola e tinha come\u00e7ado o violoncelo, com o bom professor Dupuy. Eu ia \u00e0\u00a0 Academia de la Grande Chaumi\u00e9re, fiquei no curso livre, estudava com afinco e gosto, desenhando a fusain, pintura e \u00f3leo, j\u00e1 estava saindo das estritas regras; tinha nesse curso, composi\u00e7\u00e3o sobre temas cl\u00e1ssicos gregos e da Hist\u00f3ria da Fran\u00e7a, sempre conquistava bons lugares; em casa fazia natureza morta no intuito de expor; no estio ia com minhas irm\u00e3s ao Jardim de Luxembourg e \u00e0\u00a0s beiras do rio Sena; minha maneira de ver estava se transformando, j\u00e1 n\u00e3o era copiar servilmente do natural. Mandei durante anos, para o &#8220;Salon des Femmes paintres et sculpteurs&#8221;, telas que foram bem colocadas &#8211; o \u00faltimo envio que fiz a \u00easse sal\u00e3o foi o retrato de Margarida de vestido de veludo pr\u00eato com o violino, tamb\u00e9m uma cabe\u00e7a de Pierrot; algumas revistas de arte falaram. Eis o que diz La Revue Moderne, de mar\u00e7o de 1927: &#8220;Cette jeune et charmante Br\u00e9silienne s&#8217;attaque avec succ\u00e9s au portrait et a la nature morte. Fid\u00e9le au Salon des Femmes peintres o\u00e0\u00b9 elle a d\u00e9j\u00e0\u00a0 obtenu des bons succ\u00e9s, Melle. Pereira da Silva nous a envoy\u00e9 quelques oeuvres d&#8217;une grande distinction; un Pierrot seduisante un coin de Chemin\u00e9e, aux accessoires originaux et reflet sur la glace \u00e9tude extremement brillante et d&#8217;une rare perfection de tecnique&#8221;. (2)<\/p>\n<p>(2) TRADU\u00c7\u00c3O: &#8220;Esta jovem e charmosa brasileira se investe com sucesso no retrato e na natureza morta. Fiel ao Sal\u00e3o das Mulheres pintoras, onde ela j\u00e1 obteve bons sucessos, a Srta. Pereira da Silva nos enviou algumas obras de uma grande distin\u00e7\u00e3o; um Pierro sedutor, um canto de chamin\u00e9, com acess\u00f3rios originais e reflexo sobre o espelho, estudo extremamente brilhante e de uma rara perfei\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnica&#8221;.<\/p>\n<p>Tinha avers\u00e3o pelos modernos excessivos, admirava os mestres, bons desenhistas, com bela pasta, colorido rico e espont\u00e2neo. Ainda fiz umas c\u00f3pias no Museu do Louvre, La Source de Ingres, Dem\u00f3critas por Coypel e uma grande c\u00f3pia do tamanho natural Betsab\u00e9 de Rembrandt &#8211; essa foi a \u00faltima. Depois me aprimorei em fazer interiores do Museu do Louvre e do Museu de Cluny.<\/p>\n<p>O apartamento em que mor\u00e1vamos era de pe\u00e7as pequenas e escuras. N\u00e3o tinha meios para alugar um atelier. Eram car\u00edssimos. Em Paris a car\u00eancia de apartamentos era enorme mesmo para os franc\u00eases: muitos moravam em hot\u00e9is. Eis a raz\u00e3o pela qual n\u00e3o fiz grandes telas com figuras; meus modelos para retratos eram minhas irm\u00e3s. Era eu quem chefiava a casa e lutava com as dificuldades economicas; nosso luxo era ir ao teatro cl\u00e1ssico no Odeon: eu e Margarida assist\u00edamos com paix\u00e3o \u00e0s pe\u00e7as de Moli\u00e9re, Racine, Shakespeare. Comprava-se os bilhetes com muitos dias de anteced\u00eancia, sempre nas torrinhas. No estio ia-se \u00e0\u00a0Com\u00e9dia Franc\u00easa, que ficava longe e precisava de duas condu\u00e7\u00f5es &#8211; l\u00e1 vimos a maravilhosa C\u00e9cile Sorel nas pe\u00e7as de A. de Musset, o Chandelier, Carmosine, pe\u00e7as de Marivaux, outras modernas de Bataille. N\u00e3o falt\u00e1vamos a concertos de piano, de violino, recitais de dan\u00e7a, vimos Nioca-Nioca, bailarina indiana. Para ir a \u00easses espet\u00e1culos, faz\u00edamos as maiores economias, confeccionando nossos vestidos a fazendo todo o servi\u00e7o de casa. &#8211; S\u00f3 no ano 1925, que fomos as tr\u00eas, tivemos tr\u00eas meses de f\u00e9rias em Zaraus, nas fronteiras da Espanha, numa m\u00f3dica pens\u00e3o mantida por freiras. Ficamos l\u00e1 um m\u00eas, passeando e apreciando as paisagens t\u00e3o diferentes das de Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Margarida j\u00e1 estava com o diploma da Escola Normal de M\u00fasica, tocava de cor os belos e dif\u00edceis concertos de Bach, Mozart, Mendelsohn; a outra irm\u00e3 tinha progredido no violoncelo, toc\u00e1vamos belos trios. Eu era feliz nesse ambiente art\u00edstico, que enchia nossas vidas de sonho e de beleza&#8230; Em junho de 1925, Margarida deu seu primeiro conc\u00earto na sala Gaveau com um belo programa, teve bastante sucesso.<\/p>\n<p>Eu estava com uma cole\u00e7\u00e3o de trabalhos; resolvemos visitar meu pai, j\u00e1 fazia cinco anos que n\u00e3o o v\u00edamos e tamb\u00e9m mostrar o que t\u00ednhamos feito. Meu pai e seu compadre sr. Azevedo vieram nos buscar em Santos depois de uma viagem de vinte dias no Bage. Ficamos conversando uns dias sobre Paris, nossos estudos e do que se fazia em Paris ac\u00earca de pintura e arte. Achei meu pai bem modificado, j\u00e1 n\u00e3o era mais autorit\u00e1rio e briguento como antes. Ele pensava que tudo tinha ficado como antes em Paris e estranhava que eu n\u00e3o tivesse feito quadros grandes e bem acabados, composi\u00e7\u00f5es com figuras; mal sabia \u00eale com que sacrif\u00edcios eu tinha feito o que trazia, lutando sempre com a minha falta de sa\u00fade, dores de dentes alucinantes, tumores, etc&#8230;.<\/p>\n<p>Margarida deu seu segundo conc\u00earto no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo, foi um belo sucesso &#8211; ela era uma agrad\u00e1vel mo\u00e7a de rosto lindo, n\u00e3o lhe faltavam f\u00e3s e aventuras. Era elegante, eu gostava de a ver com tudo o que me faltava.<\/p>\n<p>Depois de muito esperar meu pai arranjou para fazer minha esposi\u00e7\u00e3o no Grande Sal\u00e3o do Club Comercial, \u00e0\u00a0 Rua S\u00e3o Bento, 1\u00ba andar. Tinha trazido bons trabalhos, tudo o que eu tinha exposto no Sal\u00e3o de Paris de &#8220;Femmes peintres et sculpteurs&#8221;, interiores do museu do Louvre, uma bela tela, a sala &#8220;du burreau Luiz XV&#8221; de 20-figura (medida), bem pintada, de efeito de luzs e colorido, tinha diversos trechos d\u00easse museu e do museu de Cluny, das velhas igrejas St. Julien le Pauvre, St. Severin, retratos, uma expressiva cabe\u00e7a de Pierrot em tons claros, um estudo que teve sucesso, &#8220;O arm\u00eanio&#8221;, publicado em cores na capa da revista Ariel de abril de 1926 tamb\u00e9m foi premiada na exposi\u00e7\u00e3o geral de Belas Artes do Rio de Janeiro. Tinha progredido, sa\u00eddo da pintura escura amarrada a f\u00f3rmula, estava com uma vis\u00e3o mais livre de colorido fresco e claro, uma t\u00e9cnica mais certa. Nessa \u00e9poca ainda se ficava um m\u00eas com a exposi\u00e7\u00e3o aberta. Muitos artistas vinham \u00e0\u00a0 minha exposi\u00e7\u00e3o, ainda n\u00e3o estava generalizada a pintura moderna , os pintores, a maioria era a favor dos cl\u00e1ssicos e o sal\u00e3o &#8220;Des Artistes Fran\u00e7ais&#8221; estavam nos comandos, n\u00e3o havia os grupos viperinos e inimigos, apenas se pronunciava o nome de Picasso &#8211; n\u00e3o supunham \u00eales que era o poderoso fundador de uma arte, a mais feia e desagrad\u00e1vel que jamais se viu; PEDRO ALEXANDRINO vinha a mi\u00fado falar da Fran\u00e7a e de Paris, sempre com Dona Candinha, sua mulher, que n\u00e3o o largava; gostava de ver meus estudos que lhe lembravam a Fran\u00e7a, obcecado de um dia voltar para \u00easse pa\u00eds; habitava uma casa velha com seus metais e suas esperan\u00e7as de acabar seus dias em Paris. Meu pai se lamentava por n\u00e3o viver na Fran\u00e7a sonho que \u00eale nunca realizou, como desejava.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde form\u00e1vamos consider\u00e1vel roda de poetas e literatos, alguns colegas, queixando-se sempre do meio refrat\u00e1rio \u00e0\u00a0 arte, vinha sempre o mesmo tema, &#8220;agora a \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 boa, n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0\u00a0 venda de quadros&#8221;, que diriam \u00eales hoje, em que a maioria dos pintores tem despesas e trabalho e que n\u00e3o vendem um quadro.<\/p>\n<p>J\u00e1 no fim do s\u00e9culo e princ\u00edpio d\u00easte, houve renovadores, mas eram artistas de g\u00eanio e grandes como Courbet, Manet, Renoir, Lautrec, C\u00e9zanne e muitos outros, fundando uma arte cheia de seiva, livrando a pintura de um classicismo an\u00eamico que sacrificava tudo, \u00e0 t\u00e9cnica ficando uma arte convencional, sem poder exprimir livremente suas emo\u00e7\u00f5es. Infelizmente \u00easse ben\u00e9fico movimento, iria se transformar na mais bruta anarquia, a ponto de qualquer um estar ao alcance de ser um grande pintor, incompreendido pelos ignorantes.<\/p>\n<p>Minha exposi\u00e7\u00e3o terminada, quer\u00edamos voltar \u00e0\u00a0 Fran\u00e7a; Margarida seguiu antes; eu tive a m\u00e1 ideia de fazer uma exposi\u00e7\u00e3o em Recife, levei umas cartas de apresenta\u00e7\u00e3o a uns maiorais da cidade, expus nos fundos de uma loja de fotografias \u00e0\u00a0 rua da Imperatriz, foi uma in\u00e9dita decep\u00e7\u00e3o; a mulher do secret\u00e1rio do Interior, a quem eu levei uma recomenda\u00e7\u00e3o era pintora, n\u00e3o veio \u00e0\u00a0 minha exposi\u00e7\u00e3o e nunca me convidou a ir \u00e0\u00a0 sua casa; fato mais curioso foi o dia da inaugura\u00e7\u00e3o com a banda de m\u00fasica da Prefeitura. Eu n\u00e3o queria, achando isso rid\u00edculo, mas me aconselharam a aceitar, que tudo o que era importante se abria com a banda municipal; sendo uma rua estreita e de muito tr\u00e2nsito, os componentes da banda tiveram que entrar na loja, que era estreita e comprida &#8211; os sons ficavam engavetados dentro fazendo um vacarme infernal. O pianista de nome mundial Rubinstein teve que aceitar essa situa\u00e7\u00e3o, para o seu primeiro conc\u00earto. Fiquei um m\u00eas com a exposi\u00e7\u00e3o aberta; n\u00e3o vendi uma s\u00f3 tela. A mulher em Pernambuco era muito atrasada, as mo\u00e7as s\u00f3 sa\u00edam acompanhadas de fam\u00edlia, as mulheres que se aventuravam s\u00f3s eram mal vistas; da exposi\u00e7\u00e3o eu ia para o hotel, encerrava-me no quarto, n\u00e3o sa\u00eda \u00e0\u00a0noite para evitar propostas imorais.<\/p>\n<p>Estava feliz de embarcar no grande transatl\u00e2ntico holand\u00eas, todo branco, que ia me levar \u00e0\u00a0Fran\u00e7a e de me encontrar de novo com minhas duas irm\u00e3s Margarida e Judith, que vieram me esperar no cais da Gare St. Lazare; parecia mentira estar de novo na Grande Capital cheia de desejo de pintar e progredir. Continuamos no nosso pequeno e escuro apartamento no primeiro andar, que dava para o p\u00e1tio; o que ganhei em S\u00e3o Paulo, na exposi\u00e7\u00e3o, pouco me deu e a minguada pens\u00e3o que meu pai nos mandava dava apenas para uma vida modesta.<\/p>\n<p>Em outubro de 1927, minha irm\u00e3 Margarida casou-se com um dos rapazes que frequentavam a casa de meu pai, R\u00eago Rangel, agora vice-consul do Consulado do Brasil em Marselha. Foi um belo casamento na igreja do nosso bairro, Montrouge, a 27 de outubro de 1927, o templo todo ornado de l\u00edrios e as fugas de Bach levavam para divinas regi\u00f5es. Margarida estava linda de noiva. Senti muita tristeza nessa separa\u00e7\u00e3o. Para esquecer um pouco decidi trabalhar com afinco. Fui estudar uns meses com o professor Biloul &#8211; \u00eale ensinava na Escola de Belas Artes de Paris, tinha aberto um atelier, trabalhava num estilo claro e simples, tinha bons alunos que desenhavam e pintavam muito bem, era uma fartura clara com semi-tons delicados, n\u00e3o era servilmente o que se via mas o que se sentia; meus gostos iam para uma base forte do desenho, gostava de Chabas, Grum Montezim, Maxence, meu desejo era expor no sal\u00e3o dos &#8220;Artistes Fran\u00e7ais&#8221;, mas era t\u00e3o dif\u00edcil ser aceito que nem ousava enviar; tinha tamb\u00e9m fases de d\u00favidas, que me deixavam bem deprimida ac\u00earca de minha capacidade de trabalho.<\/p>\n<p>Fui diversas v\u00eazes visitar minha irm\u00e3 em Marselha. Ela morava num belo e grande apartamento perto do hotel de &#8220;La Reserve&#8221;; bastava atravessar um magn\u00edfico jardim para se entrar nessa mans\u00e3o. Das janelas do apartamento, via-se o Mediterr\u00e2neo azul intenso, os navios ao longe, entrando no porto e anunciando sua chegada com a voz sonora da sereia. Achei pitoresco o velho porto de pescadores que tinha mais adiante, fiz diversos estudos. Fui a Martigues, encantadora ilha constru\u00edda no s\u00e9culo XVIII lembrando Veneza, hoje, cidade de pescadores e dos pintores; passei um m\u00eas trabalhando nas suas ruas, nas velhas ruas estreitas, suas casas velhas e coloridas, de um lado a outro, cordas secando as roupas com se fossem bandeirolas e estar sempre em festa; enquanto eu pintava, nas ruas ou no porto, sempre tinha a companhia de muitos gatos, em Martigues; fiz muitos estudos de mulheres de pr\u00eato remendando as r\u00eades \u00e0\u00a0 porta de suas casas. Grupos de pintores trabalhando em suas ruas estreitas. A luz diferente do dia inspirava. Trabalhei com muito gosto e paix\u00e3o, n\u00e3o perdi um s\u00f3 dia e sa\u00ed de l\u00e1 com a promessa, no meu desejo de voltar a \u00easse lugar. Conheci um pintor de nome, j\u00e1 velho, F. Oliver, que gostava de meus trabalhos, deu-me bons conselhos &#8211; &#8220;para compor meus estudos e p\u00f4r em relevo os motivos, devia sacrificar muita coisa&#8221;, dizia \u00eale. Levei bons estudos de Martigues.<\/p>\n<p>Chegando em Paris fui de novo \u00e0\u00a0 Grand-Chaumi\u00e9re; o inverno era rijo \u00easse ano, l\u00e1 era bem aquecido e tinha belos modelos. Ao meu lado instalou-se um rapaz japon\u00eas, com uma grande tela, sorria, n\u00e3o sabia falar franc\u00eas; no repouso entabulamos conversa\u00e7\u00f5es por meio do dicion\u00e1rio, um livro grande que \u00eale trazia no bolso e lhe dava com sua roupa preta uma vaga ideia de Pastor; levava muito tempo a achar uma palavra, e nisso a pose recome\u00e7ava&#8230; No fim da semana disse-me \u00eale que n\u00e3o vinha mais, que iria pintar paisagem; ent\u00e3o pedi a \u00eale uns selos de sua terra.<\/p>\n<p>O tempo foi passando e eis que um dia \u00eale aparece em casa. Uns meses depois \u00e9ramos bons amigos; convers\u00e1vamos por meio do dicion\u00e1rio. Ele era calmo, de tra\u00e7os regulares, com sua palidez oriental, tinha um sorriso bom e encantador, mostrando uma fileira de sadios e belos dentes; lhe davam car\u00e1ter fartas sombrancelhas e vasta cabeleira. Come\u00e7amos a ir pintar juntos &#8211; \u00eale trabalhava muito bem, j\u00e1 era um artista feito, veio a Paris n\u00e3o para estudar, mas para se aperfei\u00e7oar em arte, visitando museus, galerias e expor no sal\u00e3o; gostava de arte moderna. Quando o conheci estava morando em Bourg-la-Reine &#8211; tinha alugado um quarto na casa de uma fam\u00edlia de tintureiros; mais tarde, quando estivesse no Jap\u00e3o, iria compreender porque os rapazes japoneses iam morar em casas de fam\u00edlia e nos arrabaldes de Paris.<\/p>\n<p>Bourg-la-Reine era lindo s\u00f3 na primavera com suas macieiras em flor, e seus tenros verdes; fomos pintar muitas vezes. Foi \u00eale que modificou minha maneira de ver, levando-me a exposi\u00e7\u00f5es retrospectivas, galerias de exposi\u00e7\u00f5es individuais: Lautrec, C\u00e9zanne, Utrillo, Pissaro, G. Valladon. Riokai (Ryoukai Ohashi) pintava magistralmente as velhas ruas de Paris e seus bairros populares, expunha no Sal\u00e3o de Outono sempre bem colocado, os jornais de arte falavam nos seus envios e na sua personalidade. N\u00e3o media sacrif\u00edcios, no inverno rijo, sa\u00eda a pintar com grandes telas, voltava exausto, mas contente por trazer uma bela tela. Falava sempre de Bonnard, Gaughin, Van Gogh: eu pouco entendia de arte moderna, que, nessa \u00e9poca, se expandia cada vez mais.<\/p>\n<p>Yvonne Carro ficou sendo uma excelente amiga e colega; seu lindo rosto exprimia bondade; seus olhos azuis e seu sorriso, encantavam a todos que a conheciam; tudo nela era simpatia. Ela era uma talentosa pintora de flores e interiores, nos quais sempre punha uma figurinha rom\u00e2ntica para dar vida ao ambiente. Pintava ao gosto dos Artistes Fran\u00e7ais. Foi ela que me encorajou a enviar a \u00easse sal\u00e3o, e me aconselhou a fazer grandes telas: dizia sempre que eu tinha tanto talento, colorido vibrante, que devia mandar. Foi comigo a primeira vez levar duas telas \u00e0\u00a0secretaria do sal\u00e3o, achou que eu devia levar umas telas aos Mestres que recebiam uma vez por m\u00eas para saber qual a opini\u00e3o que tinham sobre meus trabalhos. Esses professores moravam em Neuilly, Passy, Etoile, ficavam bem longe do bairro pobre e petit bourgeois onde mor\u00e1vamos. Na volta ela estava radiante &#8211; &#8220;N\u00e3o disse? Eles acharam que tem muuito talento e que deve enviar.&#8221; Quando recebi o aviso &#8220;aceito&#8221;, chorava de alegria e emo\u00e7\u00e3o. Em mar\u00e7o de 1929, meu cora\u00e7\u00e3o batia quando entrei mostrando a carta d&#8217;Exposant, nesse vernissage que \u00e9 um dos grandes acontecimentos do ano: toda a Paris intelectual, artistas, os grandes nomes da arte ali estavam; Paris chic, vi o Presidente Dumergue, Yvonne Carro me apresentou a muitos pintores de nome que ela conhecia, passamos para ver nossos envios. Fim de romance, o meu era &#8220;une petite rue de Martigues&#8221;. Querida Carro, se n\u00e3o fosses tu, nunca teria tido a coragem de expor nesse sal\u00e3o, durante cinco anos, sem nunca ter sido recusada. Quantos artistas premiados e de nome no Brasil, que nunca conseguiram entrar nesse cobi\u00e7ado sal\u00e3o!<\/p>\n<p>Essa sorte de ser aceita me f\u00eaz progredir, me deu novo impulso e nova confian\u00e7a em meus envios; sentia a possibilidade de produzir um dia grandes obras. Como eu n\u00e3o tinha atelier nem modelos, comecei a pintar fora. Conhecia um casal de velhos, os Labrouses, que tinham um barrac\u00e3o com um jardim; cultivavam cris\u00e2ntemos para vender no dia de Finados e outras flores; a partir da primavera ao outono os dois velhos sa\u00edam cedo e ficavam l\u00e1 at\u00e9 anoitecer. Eles consentiram que eu fosse trabalhar no jardim d\u00eales e guardasse os apetrechos e cavalete, telas, tintas, no desp\u00eajo, o que muito me facilitou para fazer grandes telas. Que prazer pintar ao ar livre, \u00e0\u00a0sombra das \u00e1rvores, sobre a relva eu armava minha composi\u00e7\u00e3o &#8211; uma composi\u00e7\u00e3o das melhores foi &#8220;Le chapeau de paille d&#8217;Italie, La nappe bleu, Le panier de dessert&#8221;. Tamb\u00e9m enviei outras telas que conseguia fazer em casa, mais de imagina\u00e7\u00e3o do que do natural &#8211; &#8220;Verreries&#8221; e L&#8217;hereux berger, La coupe vert, Fayence et fruits &#8211; se eu tivesse me ocupado um pouco teria tido um pr\u00eamio com \u00easte \u00faltimo, que foi muito apreciado.<\/p>\n<p>Riokai (Ryoukai) expunha no Sal\u00e3o de Outono, Tuilleries e Independents, obtendo sucesso e boa coloca\u00e7\u00e3o, mencionado nos jornais de arte. Com Riokai conheci a colonia japon\u00easa em Paris: eram soci\u00e1veis e am\u00e1veis, tive uma vida mais interessante e minha solid\u00e3o povoada.<\/p>\n<p>Em 1930 o professor de Riokai veio visitar Paris, hospedando-se no Hotel des Reservoirs em Versailles, antiga morada da Marquesa de Pompadour. Um homem distinto e de grande fama no Jap\u00e3o, fomos convidados por \u00eale a passar um dia em Ville d&#8217;Avray, lugar lindo, cujo lago e floresta foram eternizados por Corot. O professor Okada tinha sempre uma escolta de amigos e pintores; nesse dia \u00e9ramos um grupo, onde cada um pintou; eu fiz um bom estudo, a entrada da floresta, que at\u00e9 hoje guardo. De todos os pintores que o rodeavam, era a Riokai que \u00eale dava prefer\u00eancia e o convidou para uma longa viagem no Oriente M\u00e9dio &#8211; foram \u00e0\u00a0Gr\u00e9cia, Constantinopla e voltaram pela It\u00e1lia trazendo belos cadernos de croquis, feitos a pena, das cidades em que passaram. Riokai era o aluno preferido do professor Okada, \u00eale me foi de grande ajuda quando cheguei ao Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia dia em que Riokai n\u00e3o viesse me buscar para ir a passeios, ou trabalhar fora de Paris; \u00e0\u00a0noite \u00edamos ao teatro ou conc\u00earto. Ele adorava a m\u00fasica e era insaci\u00e1vel, gostava de me ouvir tocar os cl\u00e1ssicos; foi um dos trechos de minha vida que mais intensamente vivi.<\/p>\n<p>Em 1931, tinha s\u00e9rias preocupa\u00e7\u00f5es a c\u00earca de minha vida economica, meu pai n\u00e3o me mandava mais a minguada pens\u00e3o, devido \u00e0\u00a0morat\u00f3ria, que impedia o dinheiro de sair do Brasil; tamb\u00e9m a pens\u00e3o de Riokai , que era agora meu noivo estava no fim, olh\u00e1vamos para um futuro bem turvo&#8230; Em novembro de 1930, deixando meu cora\u00e7\u00e3o com Riokai e a promessa de logo voltar, embarquei para o Brasil, levando minhas telas e muita esperan\u00e7a. meu pai foi me buscar no Rio; achei-o bem envelhecido, j\u00e1 n\u00e3o era mais o homem teimoso e autorit\u00e1rio de antes, seu atelier era numa garage \u00e0\u00a0rua Bento Freitas, que \u00eale tinha mandado acomodar, ali estavam seus quadros grandes. &#8220;Aclama\u00e7\u00e3o de Amador Bueno&#8221; tomava toda uma parede e outros menores de g\u00eanero, a mob\u00edlia Luiz XV e o tapete verde, que era o luxo da nossa casa da avenida Brigadeiro Luiz Antonio estavam em m\u00edsero estado; tinha um arm\u00e1rio com suas roupas, fraques, casaca, smoking, tudo estragado pela umidade, que tinha se infiltrado em tudo nesse local. Tinha-se casado pela quarta vez e morava em outro bairro. Fui para uma pens\u00e3o: n\u00e3o conheci sua \u00faltima esposa.<\/p>\n<p>Durante o dia eu passava no atelier armando as telas, que trouxera de Paris, fiz v\u00e1rios quadros de flores e estudos da feira de flores, com figuras de uma fatura larga, impressionista, alguns feitos a esp\u00e1tula, dava essa maneira muita frescura ao colorido. Conheci um dos amigos de meu pai, dr. Amaral e sua esposa dona Edith, gostavam muito de pintura e vinham sempre me visitar no atelier; \u00eales me animavam pois eu estava bem desiludida. Pedro Alexandrino vinha a mi\u00fado, gostava de conversar comigo, sobre Paris e ver meus estudos feitos em Martigues e na Bretanha; estava bem envelhecido, escuro, magro, ligeiramente mancando para tr\u00e1s, apreciava muito meus envios ao Sal\u00e3o dos Artistas Fran\u00e7ais de cunho impressionista, bem modulados, sem contorno. Ele muitas vezes me disse que eu devia ficar, pois o Brasil precisava de uma pintora de flores; depois falava de Paris como de um Para\u00edso; l\u00e1, sim, \u00e9 que se podia realizar, art\u00edsticamente. E com seu acento acaipirado, dizia: &#8220;Se Deus quiser ainda hei de voltar&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Meu pai continuava sempre muito atarefado com suas aulas no Gin\u00e1sio do Estado, retratos e trabalhos para exposi\u00e7\u00e3o; sua maneira tinha se modificado, pintava mais claro e n\u00e3o acabava tanto, mas sempre conservava aquela base de magistral desenho; eu sempre admirei, a facilidade com que \u00eale desenhava a figura, \u00e0s vezes de cor e sem mod\u00ealo. Os amigos de antes, quase todos tinham se dispersado. Cle\u00f3menes Campos, Luiza de Azevedo, Camp\u00e3o e a esposa, \u00e0s vezes nos reun\u00edamos; eu tinha trazido a vitrola e \u00e0\u00a0noite improvis\u00e1vamos um baile &#8211; eram sempre langorosos tangos. Minha exposi\u00e7\u00e3o foi feita na sede do Professorado Paulista &#8211; num pr\u00e9dio novo do Largo do Patriarca; a mentalidade j\u00e1 tinha mudado bem a respeito de exposi\u00e7\u00f5es de pintura. A imprensa cada vez mais sovina em seus artigos, n\u00e3o divulgava como antes; apenas algumas linhas para informar que a exposi\u00e7\u00e3o estava aberta. Minha cole\u00e7\u00e3o das telas grandes de Paris, todos os sal\u00f5es, em que durante cinco anos expus, ruas de Paris com suas carrocinhas vendendo legumes e frutas nos bairros populares os entendidos achavam que eu j\u00e1 era uma artista segura de seus pinc\u00e9is, com personalidade e um belo futuro diante de mim; ao lado disso, mas era decepcionante o que diziam, como &#8220;ladainha&#8221; agora a \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 boa, nada se vende&#8221; mas assim mesmo ainda consegui vender alguma cousa.<\/p>\n<p>A arte moderna dominava com muito cabotinismo, em S\u00e3o Paulo. A c\u00e9lebre Semana chegou com um atraso de trinta anos.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 tinha um desejo, voltar a Paris. Riokai me escrevia que eu estava demorando demais. Finda a exposi\u00e7\u00e3o, nada mais me prendia. Nesse mesmo ano meu pai me acompanhou at\u00e9 Santos, e ali no cais, me despedindo d\u00eale, o abracei para nunca mais tornar a v\u00ea-lo. Chovia a c\u00e2ntaros quando subi a escada do Monte Olivia, navio alem\u00e3o de classe \u00fanica.<\/p>\n<p>Em Lisboa fiquei tr\u00eas dias no Hotel do Rocio at\u00e9 tirar as bagagens da alf\u00e2ndega; o trem levou quase tr\u00eas dias para chegar a Paris atravessando Portugal e Espanha, viagem ruim, cansativa e desagrad\u00e1vel, com suas fronteiras e alf\u00e2ndegas, sempre desconfiados, quebrando os objetos das malas, \u00e0 procura de fumo, \u00e1lcool, dinheiro em ouro, coisas imagin\u00e1rias. Era noite quando o trem parou na Gare de Lion. Em casa encontrei Riokai, que me esperava; foi uma alegria \u00fanica, um abra\u00e7ar sem fim. Nunca mais \u00edamos nos separar&#8230; J\u00e1 sab\u00edamos quanto se sofria. Para Riokai, as not\u00edcias do Jap\u00e3o n\u00e3o eram boas, os meios de viver em Paris tinham acabado e \u00eale precisava voltar; eu, pouco dinheiro trazia e se n\u00e3o fosse a alegria de nossos cora\u00e7\u00f5es, ter\u00edamos s\u00e9rios motivos de afli\u00e7\u00e3o. Que fazer? Eis a angustiosa pergunta!&#8230; Est\u00e1vamos numa encruzilhada. Eu iria ao Jap\u00e3o s\u00f3 se l\u00e1 tivesse um empr\u00eago. Riokai escreveu ao seu professor de liceu, sr. Ossumi (Osumi), pondo-o ao par de meus desejos; logo veio resposta, meu lugar j\u00e1 estava arranjado em Tokio (Tokyo), na grande casa Matsuzakay\u00e1 (3), para desenhar modelos da moda ocidental, apresentar a moda, fazer cartazes.<\/p>\n<p>(3) MATSUZAKAYA \u00e9 o nome de uma grande rede de lojas de departamentos, fundada em Nagoya em 1611. Atualmente conta com nove divis\u00f5es, sendo as maiores as de Tokyo e Osaka, e \u00e9 associada \u00e0\u00a0Daimaru, empresa de distribui\u00e7\u00e3o de alimentos. A rede distribui uma ampla variedade de produtos e tem uma empresa associada em Hong Kong chamada Hang Long.<\/p>\n<p>Dia 3 de julho de 1933, podia se ver um casal feliz, saindo da Mairie do XIV distrito, eram Helena Pereira da Silva e Riokai (Ryoukai) Ohashi que acabavam de se casar. Minha irm\u00e3 Margarida e o grande Mestre, mundialmente conhecido, Aman Jean, serviram de testemunhas. Depois de ter tomado em casa uma ta\u00e7a de champanha, fomos para Versailles onde passamos a tarde pintando nos seus maravilhosos parques todos floridos; s\u00f3 voltamos quando as estr\u00ealas come\u00e7aram a brilhar. A convite de nossa tia Achalme, passamos a LUA DE MEL na casa dela em Bordeaux. Na volta um trabalho louco nos esperava, encaixotar tudo: eu tinha belas porcelanas, objetos de arte, um piano Gaveau; fizemos o sacrif\u00edcio de viajar em terceira classe para poder transportar essa dispendiosa bagagem, al\u00e9m dos grandes caixotes com os quadros de Riokai e os meus, os livros, uma comoda Luiz XIV. Parecia que se arrancava uma \u00e1rvore, cheia de profundas ra\u00edzes. Fazia treze anos que eu morava nesse apartamento. Foi triste sairmos de Paris. Riokai adorava esta cidade, \u00edamos enfrentar uma nova vida num pa\u00eds totalmente estranho, para mim seria duro, principalmente a l\u00edngua, t\u00e3o dif\u00edcil e t\u00e3o diferente mas como diz um prov\u00e9rbio antigo, o amor transp\u00f5e montanhas&#8230; Riokai foi a grande paix\u00e3o de minha vida, amei-o com ternura, t\u00ednhamos muita afinidade pessoal e de gostos, sempre acreditei que \u00eale tivesse os mesmos sentimentos por mim; f\u00eaz \u00eale tamb\u00e9m sacrif\u00edcios para me esposar.<\/p>\n<p>Em Marselha ficamos tr\u00eas dias, Riokai ainda pintou v\u00e1rias telas, levava sempre a caixa e o caderno de croquis. Tomamos o navio quase na hora de partir, o velho Kashima-Maru. Era numa bela tarde transparente e cada um silencioso e triste ouvia o cora\u00e7\u00e3o chorar&#8230; Em trinta e cinco dias estar\u00edamos no Jap\u00e3o. Os camarotes eram sujos; \u00e0\u00a0noite passeavam belos e gordos ratos, mansos. A comida era p\u00e9ssima, mas a tripula\u00e7\u00e3o gentil; os viajantes eram japoneses, logo fizemos camaradagem; pintava-se, lia-se, eram novos e interessantes os numerosos portos por que fomos tocando: N\u00e1poles, Port-Said, canal de Suez, Hong-Kong, Singapura, Changai (Xanghai) Kobe e Yokohama. Foi a viagem mais bela e interessante que fiz na minha vida.<\/p>\n<p>Desc\u00edamos em cada porto; tudo era novo para mim: \u00e0s vezes fic\u00e1vamos s\u00f3s; outras, em companhia de amigos. Riokai era \u00f3timo companheiro. O comandante, homem simples e am\u00e1vel, gostava dos artistas: muitas v\u00eazes nos convidou a ir tomar ch\u00e1 no seu camarote. Ele possu\u00eda um \u00e1lbum, em cujas p\u00e1ginas pintores que viajaram em seu navio deixaram um desenho como lembran\u00e7a. Riokai f\u00eaz-lhe o retrato e eu tamb\u00e9m. N\u00e3o havia nos anvos japoneses aquela estrita separa\u00e7\u00e3o de classes, como nos vapores estrangeiros; muitas v\u00eazes passageiros de primeira classe desciam para a terceira. Os oficiais vinham nos visitar, sempre me traziam doces.<\/p>\n<p>Em N\u00e1poles, o primeiro porto em que tocamos, visitamos um belo museu de arqueologia, situado no alto de uma rua do centro. Como era domingo, tudo estava fechado. Num restaurante pitoresco, com suas latadas de parreiras, nos instalamos; logo vieram duas meninas maltrapilhas &#8211; uma batia num pandeiro e cantava, a outra dan\u00e7ava a Tarantella, os gar\u00e7\u00f5es enxotavam-nas mas elas pouco se importavam. Mais adiante havia um famoso aqu\u00e1rio, mas preferimos ir passeando pela imensa avenida beira-mar, com suas intermin\u00e1veis balaustradas; o mar estava de um azul escuro intenso. Compramos uns cachos de enormes uvas do Ves\u00favio, parecendo ameixas. Riokai se pos a fazer uma linda vista do Castelo de Sto. \u00c2ngelo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, pela manh\u00e3 bem cedo, est\u00e1vamos em Port Said, Egito. Tudo estava fechado. Quando descemos do vapor, fomos andando por ruas, que pouco a pouco se animavam: homens de camisola branca, com o cl\u00e1ssico f\u00eaz de f\u00ealtro gren\u00e1 e mulheres do povo, todas de pr\u00eato, com o rosto velado at\u00e9 os olhos, indo para o mercado. Entramos num caf\u00e9 \u00e1rabe para pintar, nos instalamos numa mesinha mas era tal a aflu\u00eancia de curiosos, que foi preciso a pol\u00edcia intervir com casse-t\u00eate; tinham obstru\u00eddo a nossa frente e est\u00e1vamos ali aprisionados no meio d\u00eales. O Kashima-Maru levou uma noite e um dia para passar o Canal de Suez: viam-se os bedu\u00ednos com seus camelos, naquelas plan\u00edcies intermin\u00e1veis e cheias de p\u00e2ntanos. O por do sol dourava a paisagem. No canal s\u00f3 passavam dois navios de uma vez em sentido contr\u00e1rio; n\u00f3s, que \u00edamos ao Extremo Oriente e outro voltava para a Europa&#8230; S\u00f3 se ouvia o ru\u00eddo das correntes e ferragens. O dia terminou, mansamente. De madrugada j\u00e1 est\u00e1vamos entrando no b\u00edblico Mar Vermelho, passamos sem parar diante de um pequeno porto que levava \u00e0\u00a0 Meca. o mar estava agitado, t\u00ednhamos v\u00e1rios dias de c\u00e9u e mar, estava cada vez mais quente; nosso divertimento era pintar, ler e ver numerosos peixes-voadores. Riokai me disse: &#8220;Amanh\u00e3 vamos chegar a Hong-Kong, cidade chinesa&#8221;. Que lindo colorido mostrava quando o navio foi entrando no porto, com suas montanhas violetas, os barcos chineses, com suas velas de formas ex\u00f3ticas, sobre o mar verde; descemos com outros passageiros, contentes de andar em terra firme; gostei de ver o denso movimento, das ruas e com\u00e9rcio chin\u00eas. Por meio de um funicular fomos ao cume de uma montanha &#8211; de l\u00e1 avistava-se toda Hong-Kong. \u00c0 tarde pintamos seu porto, mas do conv\u00e9s do navio. Singapura &#8211; aqui o Kashima-Maru ficou tr\u00eas dias; fazia um calor abafador, \u00e0\u00a0 noite n\u00e3o refrescava, levamos os len\u00e7ois para dormir no passadilho; ali fic\u00e1vamos esperando a madrugada. era incr\u00edvel o mau cheiro, vindo das \u00e1guas podres do cais. Tivemos muita sorte de n\u00e3o pegar maleita. Singapura, mistura de todos os pa\u00edses do oriente, malaios, chineses, maometanos, judeus, japoneses, europeus, na maioria ingl\u00eases; apreciadores do luxo e do conforto, vastos gramados bem tratados para jogar t\u00eanis, golfe, um grande hotel, boate chic para os amadores da vida noturna, igrejas protestantes para as almas piedosas. O que gostei foram os telhados dos templos, uns de porcelana azul e outros verdes, seus mercados, expondo alimentos estranhos, patos e galinhas s\u00eacas; outras laqueadas; gostam de alimentos dissecados, ovos podres de pato, etc.<\/p>\n<p>O porto seguinte foi Changai (Xanghai), depois de ter navegado um dia e uma noite no c\u00e9lebre rio Amarelo (\u00eale tem \u00easse nome devido \u00e0\u00a0 sua cor lamacenta e opaca). Os cais estavam longe da cidade, custamos para achar o centro; na zona estrangeira, cada quarteir\u00e3o tinha as respectivas bandeiras de seus pa\u00edses e sua pol\u00edcia; os bancos eram guardados por soldados armados. Voltamos \u00e0\u00a0 noite cansad\u00edssimos; no camarote os ratos tinham feito das suas &#8211; levamos de Marselha alguns produtos para presentear os amigos no Jap\u00e3o, queijo, lingui\u00e7as de Lion, presunto e Riokai tinha amarrado tudo no forro, bem no meio &#8211; pois n\u00e3o \u00e9 que \u00easses infames bichos conseguiram pular e roer quase tudo?<\/p>\n<p>Mais um dia de c\u00e9u e mar. Numa luminosa manh\u00e3 come\u00e7aram a aparecer pequenas ilhas, com seus verdes cedros, pinheiros, ilhas que pareciam em miniatura, encaixadas num mar azul. &#8220;\u00c9 o Jap\u00e3o, Helena&#8221;, dizia Riokai, que beleza, pass\u00e1vamos t\u00e3o perto que pod\u00edamos ver os cedros e as flores. Algumas ilhas n\u00e3o eram habitadas. Foi dali que Riokai telegrafou \u00e0\u00a0 sua fam\u00edlia, que morava em Formosa. O irm\u00e3o de Riokai, Hideo-san, j\u00e1 nos esperava em Kobe, com sua tia. Os parentes que moravam em Formosa, n\u00e3o puderam vir.<\/p>\n<p>Fomos hospedados por uma noite na casa de um amigo de Riokai, violoncelista, que eu conhecera em Paris, sr. Nagai. A primeira impress\u00e3o que tive chegando em Kobe n\u00e3o foi boa &#8211; pela comprida estrada asfaltada que ia de Kobe a Ossaka (Osaka), chamada Kokudo (4), s\u00f3 casas pobres, barrac\u00f5es de madeira desbotada, com\u00e9rcio s\u00f3rdido. Ia saber, depois, que os ricos e abastados moravam em magn\u00edficos bangalos nas montanhas, mas devido a uma filosofia antiga, essas resid\u00eancias tinham \u00e0\u00a0roda, altas c\u00earcas. N\u00e3o deixavam ver a riqueza nem os belos jardins, aos pobres. Os ricos e abastados achavam imoral mostrar abund\u00e2ncia aos que n\u00e3o a tem.<\/p>\n<p>(4) KOKUDO significa &#8220;estrada nacional&#8221;, o equivalente no Brasil \u00e0\u00a0sigla BR. Assim como existem v\u00e1rias BRs, no Jap\u00e3o h\u00e1 v\u00e1rias kokudos, mas o nome desta especificamente n\u00e3o aparece no texto da autora.<\/p>\n<p>Sempre com seu irm\u00e3o Hideo-san, bem diferente de Riokai f\u00edsica e espiritualmente, alto, magro, falando bem o Ingl\u00eas, mas falho de sensibilidade, visitamos os maravilhosos e afamados templos e cidades de Kyoto e Nara. O \u00faltimo porto foi Yokohama; \u00e0\u00a0nossa espera achavam-se no mais muitos amigos de Riokai, primos, tios, que \u00eale j\u00e1 tinha visto do vapor e algumas japon\u00easas, que eu tinha conhecido em Paris. Cumprimentos de boas vindas e lindos ramalhetes de flores. Assim terminou nossa bela e interessante viagem da Fran\u00e7a ao Jap\u00e3o em setembro de 1933.<\/p>\n<h2>RECORDA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n<p>Pelo Kashima-Maru, chegamos a yokohama nos fins de setembro de 1933. \u00c9ramos dois pintores ainda em lua de mel, muito amigos e confiantes num futuro acolhedor. Era a primeira vez que eu ia conhecer o Oriente t\u00e3o sonhado; estava feliz e contente ao lado de Riokai, meu marido. Apesar de n\u00e3o falar a l\u00edngua, percebi logo que as pessoas eram am\u00e1veis e se esfor\u00e7avam por me compreender com gestos e sorrisos. Nos primeiros dias de nossa chegada a Tokio (Tokyo), nos hospedamos na casa de um amigo de Riokai, o sr. Kumagai, alto funcion\u00e1rio, que tinha acabado de construir num sub\u00farbio da cidade, uma bela casa t\u00edpicamente japon\u00easa. Logo na entrada, &#8220;guenkan&#8221; (genkan), tirei os sapatos pela primeira vez para pisar nos alvos &#8220;tatamis&#8221; de palhinha nova. Parecia que eu estava num estojo. As madeiras bem trabalhadas, perfumadas, sem pinturas, com suas colunas de tronco de cerejeira, metade embutidas na parede; grandes salas, divididas por tabiques de correr, em alvo papel decorado com discretos filetes em ouro, e moldura de laca preta; tudo numa austera simplicidade; aus\u00eancia de mob\u00edlia; s\u00f3 uma mesinha de laca com um vaso no &#8220;tokonoma&#8221;, lugar de honra. Um antigo e fino &#8220;kakemono&#8221;, pintura japon\u00easa, mudada em cadaa esta\u00e7\u00e3o do ano.<\/p>\n<p>Tinha, nos primeiros dias em que acordava nesse cen\u00e1rio, estranha sensa\u00e7\u00e3o de me achar nesse ambiente encantador. Ficamos poucos dias na casa d\u00easse amigo e logo fomos morar num sobradinho de boa apar\u00eancia em Assagaya (Asagaya), sub\u00farbio de Tokio. L\u00e1 todas as resid\u00eancias ficam longe do centro. Andava-se quase meia hora para chegar a uma esta\u00e7\u00e3o de trens. As primeiras visitas foram para o sr. Okada, mestre de renome no Jap\u00e3o, professor de Riokai, que eu tinha conhecido em Paris, em 1930. Ele morava numa bela casa, com vasto atelier ao lado, um grande jardim com as roseiras sempre em flor. Seu atelier era o centro de reuni\u00e3o de seus amigos e colegas. O sr. S. Okada (5) tinha sido o primeiro pintor japon\u00eas a estudar arte ocidental em Paris. Foi aluno de Corin (Collin), pintor de fama naquele tempo.<\/p>\n<p>(5) OKADA, SABUROSUKE (1869 &#8211; 1939) foi um dos pioneiros da pintura em estilo ocidental (Y\u00f5ga) no Jap\u00e3o e foi um dos fundadores do grupo Hakubakai, a &#8220;Sociedade do Cavalo Branco&#8221;, associa\u00e7\u00e3o criada em 1896 por artistas influenciados pela arte ocidental, mais especificamente pelo impressionismo, em oposi\u00e7\u00e3o ao Meiji Bijutsukai, que patrocinava a chamada &#8220;arte oficial&#8221;, ligada ao governo. Okada foi para a Fran\u00e7a em 1897 e estudou com Raphael Collin at\u00e9 1902. Foi eleito membro da Academia Imperial em 1919; tornou-se artista da Corte Imperial em 1934 e recebeu a Ordem da Cultura (Bunka-sh\u00f5) em 1938. Pintava principalmente paisagens e retratos femininos. Foi marido da escritora Yachiyo Okada (seu nome de solteira era Yachiyo Osanai; era irm\u00e3 do dramaturgo Kaoru Osanai).<\/p>\n<p>O prof. Okada possu\u00eda uma bela t\u00e9cnica fina e discreto colorido. Simpatiz\u00e1vamos pelos mesmos gostos &#8211; \u00eale apreciava as porcelanas de S\u00e9vres e de Saxe, tinha uma maravilhosa cole\u00e7\u00e3o de quimonos da \u00e9poca brilhante de Momoyama (6). Gostava de gatos, que o seguiam em bando, por onde \u00eale andava. Adiante e atr\u00e1s, era por \u00eales escolatado. Riokai tinha grande admira\u00e7\u00e3o e muita amizade pelo seu mestre, homem distinto de fina educa\u00e7\u00e3o. O professor Ossumi (Osumi) foi o que me arranjou o lugar no Matsuzakay\u00e1, morava n\u00e3o longe dal\u00ed; vivia modestamente, escrevia sobre antiguidades e colecionava objetos do passado.<\/p>\n<p>(6) AZUCHI-MOMOYAMA, nome em japon\u00eas do per\u00edodo no qual governaram os sh\u00f5guns ditadores, de 1582 a 1615 (ou de 1574 a 1615, dependendo do autor). O nome vem dos castelos de Oda Nobunaga (que ficava em Azuchi) e de Toyotomi Hideyoshi (que ficava em Momoyama, perto de Kyoto).<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois, comecei a trabalhar na se\u00e7\u00e3o de modas ocidentais no grande magazin do Matsuzakay\u00e1, fazendo desenhos de modelos, cartazes, etc. Meu sofrimento era cotidiano por n\u00e3o compreender, e poder falar a l\u00edngua. Poucos entendiam o Franc\u00eas. A maioria falava o Ingl\u00eas, l\u00edngua corrente no Oriente, o que me dificultava tudo, n\u00e3o sabendo \u00easse idioma que jamais consegui aprender.<\/p>\n<p>Nossa casa tinha v\u00e1rias pe\u00e7as com &#8220;tatami&#8221; (palhinha em lugar de assoalho) e uma sala na frente, assoalhada, de que fiz o sal\u00e3o. O piano gaveau que trouxe da Fran\u00e7a, uma comoda Luiz XIV e todas as lindas porcelanas alegravam e faziam lembrar minha saleta de Paris. Viv\u00edamos uma vida ativa e agitada, sempre pensando no futuro, que n\u00e3o era muito certo.<\/p>\n<p>Riokai f\u00eaz a sua primeira exposi\u00e7\u00e3o na Guinza (7), durante o inverno de 1933-34; foi muito apreciada. &#8211; Todas suas belas telas, ruas de Paris, foram expostas, mas o movimento da arte pict\u00f3rica no Jap\u00e3o, estava todo voltado para a arte moderna. No salon oficial eram aceitos e tinham sucessos os que mais criavam monstros; tamb\u00e9m uma liga surda contra os que tinham ido \u00e0 europa, estudar, inveja ou nacionalismo excessivo. Expus no Salon do mestre Okada, as telas que eu tinha enviado ao Salon de Paris des Artistes Fran\u00e7ais em 1933 &#8211; \u00easses trabalhos foram premiados.<\/p>\n<p>(7) GINZA, &#8220;assento de prata&#8221;, nome de bairro e avenida em Tokyo, que teve origem na Era Edo (1600 a 1868) como \u00e1rea onde se concentravam ourives e artes\u00e3os que fabricavam moedas para o sh\u00f5gun. No s\u00e9culo XX tornou-se \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o de bancos e de com\u00e9rcio de luxo.<\/p>\n<p>O frio fazia-se sentir cada vez mais rijo, acompanhado de um vento gelado e furioso. Uma manh\u00e3, quando olhei pela janela, apareceu uma paisagem toda branca, destacando num c\u00e9u cinzento; os pequenos flocos de neve ca\u00edam enchendo o ar; tanta pureza, tanto sil\u00eancio nesse cen\u00e1rio de neve; nosso telhado estava todo branco, com esp\u00eassa camada endurecida. Nas ruas enfiava-se os p\u00e9s at\u00e9 pelo meio das pernas para se poder andar; como tudo ia de costume, os japon\u00eases estavam alegres por ver a neve que tudo tinha invadido. No Natal havia festas e como eu fazia reclame para essa casa, devia me mostrar em lugares frequentados pela sociedade. Passamos o Christmas no Imperial Hotel (8) &#8211; Sal\u00f5es em estilo ingl\u00eas. Uma festa fria e r\u00edgida. Muitos adornos em papel colorido, os homens de smoking, com chap\u00e9uzinhos de papel de s\u00eada na cabe\u00e7a, cord\u00f5es de flores igualmente em papel ornando o pesco\u00e7o, orquestras, jazz, dan\u00e7as, mas achei triste. Os grandes sal\u00f5es em estilo ingl\u00eas mal aquecidos, mal aclarados &#8211; eu tiritava com vestido de soir\u00e9e branco e meu chale espanhol. Hideo-san, o irm\u00e3o de Riokai, estava feliz, estreava um smoking e com a namorada ao lado achava uma alegria esta festa. Fui apresentada a muita gente de alta categoria, mas como eu s\u00f3 falava o Franc\u00eas, pouco podia-se comunicar.<\/p>\n<p>(8) O IMPERIAL HOTEL em Tokyo foi inaugurado em 1890 como marco de luxo em hospedagem estilo ocidental, com aspectos de servi\u00e7o oriental. Passando ao s\u00e9culo XX como principal hotel da cidade, sofreu v\u00e1rias reformas, sendo a principal a constru\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio, que hoje \u00e9 a ala hist\u00f3rica do hotel, projetado pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright. Foi do Imperial Hotel que o Imperador Hirohito fez a hist\u00f3rica transmiss\u00e3o de r\u00e1dio declarando o fim da guerra e foi nele onde o General MacArthur instalou a sede do governo das For\u00e7as de Ocupa\u00e7\u00e3o, de 1945 a 1952. Finda a Ocupa\u00e7\u00e3o, o Imperial voltou exclusivamente \u00e0\u00a0atividade hoteleira e tem hospedado visitantes ilustres e celebridades do entretenimento e dos esportes, mantendo-se como um dos hot\u00e9is mais requintados da capital japonesa.<\/p>\n<p>A neve foi sumindo para dar lugar aos prel\u00fadios da primavera; nunca pensei que fosse t\u00e3o bela, t\u00e3o radiosa. Foi num \u00eaxtase que vi as cerejeiras em flor; fico imensamente grata ao Jap\u00e3o por ter me dado essa emo\u00e7\u00e3o de beleza para minha arte, para minha vida. Amor tamb\u00e9m seria o presente raro e maravilhoso do Jap\u00e3o&#8230; Come\u00e7amos a sair com nossas caixas de pintar fora. O parque Inogashira n\u00e3o ficava longe de casa, \u00edamos nos dias ermos da semana fazer longas passeatas pelos atalhos, \u00e0 beira do grande lago, onde as cerejeiras em flor se espelhavam. Nesse deslumbrante cen\u00e1rio, podia-se ver dois namorados, eram Helena e Riokai&#8230; Mais se penetrava pelos estreitos caminhos, mais denso eram os arvoredos floridos &#8211; era t\u00e3o delicada a vis\u00e3o que apenas se sentia a brisa perfumada d\u00easse para\u00edso em rosa; floria em conjunto, saudando a primavera.<\/p>\n<p>Esse ano de 1934 foi bem indeciso para n\u00f3s; eu estava come\u00e7ando no Matsuzakay\u00e1; executava os modelos com meus desenhos, mas ainda n\u00e3o tinha a certeza de ficar. A vida era cara em Tokio: aluguel, condu\u00e7\u00e3o, presentes, outra coisa que tive de conhecer, que aflige os japoneses e que lhes tira uma boa parte da receita que t\u00eam para viver &#8211; gasta-se muito para os &#8220;omiagues&#8221; (omiyage = presente). outra coisa curiosa era quando se convidava uns amigos para jantar, tinha-se a obriga\u00e7\u00e3o de mandar reconduzi-los de taxi a suas casas, \u00e0s vezes longe de um sub\u00farbio a outro.<\/p>\n<p>Fomos ver as maravilhas dos templos c\u00e9lebres. a convite de uma amiga, Matcha, passamos um dia espl\u00eandido, visitando e pintando Kamakura &#8211; paramos muito tempo diante do grande Buda em bronze, sentado sobre uma flor de lotus, de belo rosto e impass\u00edvel, o olhar perdido no vasto horizonte&#8230; Os peregrinos podiam entrar em seu peito divino, por uma escadinha, \u00e0\u00a0s suas costas. pintamos muito naquele dia &#8211; tenho ainda como lembran\u00e7a, um croqui. Kamakura, que lugar lindo &#8211; rodeado de montanhas ora azuis, ora roxas, os belos cedros adornam os p\u00e1tios dos numerosos templos que est\u00e3o nas montanhas. Riokai muito se orgulhava de me mostrar as belezas de seu pa\u00eds; exposi\u00e7\u00f5es, retrospectivas, de quimonos, pintura japon\u00easa, porcelanas, arranjo de flores &#8220;ikebana&#8221;, dan\u00e7a, teatro. Os japoneses conservam ainda hoje muito carinho pelos seus costumes tradicionais.<\/p>\n<p>Quando quer\u00edamos europeizar nossos passeios, \u00edamos a Guinza (Ginza), comprido boulevard, onde o com\u00e9rcio era feito \u00e0 maneira ocidental, belas e grandes vitrines mostrando artigos estrangeiros, caf\u00e9s, casas de ch\u00e1, com doces \u00e0\u00a0 maneira francesa. Era sempre certo Riokai encontar amigos dos tempos idos, que n\u00e3o acabavam mais, em cumprimentos e convites. Essa longa avenida ia dar num lugar de altas muralhas rodeadas de \u00e1gua e ponte p\u00eansil. Atr\u00e1s d\u00easses possantes muros de pedra ficava a resid\u00eancia imperial. O Imperador Hirohito nunca se mostrava a seu povo e \u00easte nunca pronunciava seu augusto nome, tido como de origem divina. Nas ruas viam-se pouqu\u00edssimas mulheres de roupas ocidentais; a generalidade andava de quimono com cores e estampados segundo a idade; s\u00f3 as colegiais vestiam uniformes, at\u00e9 as Faculdades. Muito me divertia ver os estudantes com longas capas pretas, uniformes pretos, com uma fileira de bot\u00f5es de metal como a pol\u00edcia, &#8220;guet\u00e1&#8221; nos p\u00e9s (geta = sapatos de madeira), casquetes ou bon\u00e9s de tr\u00eas bicos, alguns suj\u00edssimos, com o tecido a se desfazer. A princ\u00edpio eu me apiedava, mas depois soube que era uma honra arvorar um d\u00easses bon\u00e9s, significava os mais estudiosos, os mais inteligentes e capazes.<\/p>\n<p>O que me magoava era ser muito notada &#8211; para onde eu ia na rua, havia gente que parava para me ver, passavam-me verdadeira revista no traje e depois me fixavam nos olhos como se fosse uma curiosidade; mesmo no centro da cidade, era raro ver-se um estrangeiro; os poucos que havia habitavam Yokohama. Riokai tinha-me dito que n\u00e3o procurasse rela\u00e7\u00f5es com \u00eales; eu concordei, visto que considerava minha felicidade nas m\u00e3os de meu marido. Por \u00easse motivo, penetrei na vida e nos costumes tradicionais japoneses, alguns muito lindos, delicados, curiosos, bem diferentes dos nossos. Amoldei-me a muita coisa, dormir no ch\u00e3o, sem cama, ficar por muito tempo ajoelhada na almofada, em vez de sentada numa cadeira, me acostumar ao paladar das comidas, e apreciar os intermin\u00e1veis cumprimentos.<\/p>\n<p><img data-attachment-id=\"2754\" data-permalink=\"https:\/\/www.abrademi.com\/index.php\/helena-pereira-da-silva-ohashi\/helena-ohashi-quadro\/\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-quadro.jpg?fit=748%2C634&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"748,634\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"helena ohashi quadro\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-quadro.jpg?fit=300%2C254&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-quadro.jpg?fit=640%2C542&amp;ssl=1\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-2754 alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-quadro.jpg?resize=278%2C236&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"278\" height=\"236\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-quadro.jpg?w=748&amp;ssl=1 748w, https:\/\/i0.wp.com\/www.abrademi.com\/wp-content\/uploads\/2004\/07\/helena-ohashi-quadro.jpg?resize=300%2C254&amp;ssl=1 300w\" sizes=\"(max-width: 278px) 100vw, 278px\" data-recalc-dims=\"1\" \/>Uma curiosidade para mim foi ver as mulheres na generalidade, carregar os filhos nas costas; as irm\u00e3s mais velhas tamb\u00e9m carregam os irm\u00e3ozinhos da mesma maneira. Com uma esp\u00e9cie de \u00e9charpe, cruzando na frente, ficam assim com os bra\u00e7os livres. No inverno vestem haori (igual a &#8220;happi&#8221;) mais curto, que Kimono e que vestem por cima da crian\u00e7a, que se ajeita ficando s\u00f3 com a cabecinha de fora; as m\u00e3es enfiam as mangas e parecem estar com uma enorme bossa. Achei os quimonos um encanto, mas s\u00f3 das mo\u00e7as, um traje dispendioso, principalmente as cintas (obi). Estampados de fino gosto art\u00edstico, tecidos de pre\u00e7o, combina\u00e7\u00f5es de cores estranhas para nosso gosto. Achei as japonesas muito femininas, fr\u00e1geis, delicadas, vivendo exclusivamente para a fam\u00edlia. Os homens gozando de liberdade fora de casa, mas apesar da falta de independ\u00eancia da mulher, notei que em quase todos os ramos, artes, ci\u00eancias, altos estudos, havia mulheres. Os japon\u00eases fazem muita quest\u00e3o da instru\u00e7\u00e3o. Todas as mocinhas frequentavam o gin\u00e1sio at\u00e9 aos vinte anos para se casarem pouco tempo depois. A escolha do marido era ainda feita por interm\u00e9dio da fam\u00edlia, a interessada n\u00e3o podendo preferir livremente.<\/p>\n<p>O calor estava se fazendo sentir depois de copiosas chuvas que duraram um m\u00eas; os dias quentes de julho iam torrar os lindos e ternos verdes. O irm\u00e3o e a fam\u00edlia de Riokai, que moravam em Formosa (Taiwan), vieram passear em T\u00f3kio e me conheceram; como era novidade para \u00eales, estavam felizes pensando que est\u00e1vamos vivendo em mar de ouro. Havia japoneses casados com estrangeiras, a cr\u00edtica era severa para \u00easses casais, observando todas as atitudes das esposas &#8211; geralmente eram francesas ex-modelos ou alem\u00e3s ex-gar\u00e7onetes de restaurantes, que pensando subir de classe social, tinham vindo para o oriente mas algum tempo depois estavam se divorciando. Riokai tinha sempre o bom car\u00e1ter que eu havia conhecido em Paris, gostava de aliar sua arte \u00e0\u00a0minha, conversar como dois colegas que se compreendiam&#8230; Aconselhava-me a ser mais livre, na maneira de me exprimir mas era dif\u00edcil de me desfazer do classicismo em que fui instru\u00edda. Conseguindo me expandir numa fatura mais larga e mais vibrante, flores e paisagens j\u00e1 sa\u00edam de minha esp\u00e1tula com mais liberdade. Riokai adorava a m\u00fasica e o dia em que eu n\u00e3o estudava piano me ralhava. Uma noite tivemos a visita do professor Okada e de alguns nomes conhecidos na m\u00fasica, que vieram ouvir-me &#8211; toquei Chopin e Albeniz. Riokai ficava feliz quando eu tocava e me mostrava.<\/p>\n<p>Setembro. J\u00e1 fazia um ano que est\u00e1vamos em T\u00f3kio, a luz j\u00e1 ia se transformando, anunciando o outono. Sa\u00edmos uma manh\u00e3 muito cedo, para ir a Nikko visitar o majestoso templo todo branco e ouro, bem diferente dos outros que j\u00e1 tinha visto. Nikko, gl\u00f3ria do passado, pela sua riqueza e magnific\u00eancia de sua arquitetura e seus famosos olmeiros centen\u00e1rios, que v\u00e3o em fila pela longa estrada. O outono dourava a paisagem, e as folhas s\u00eacas iam colorindo o ch\u00e3o de ouro e p\u00farpura nessa orgia de cores, antes de cair na rigidez da morte&#8230; Riokai ia me explicando a hist\u00f3ria do tempo dos Shoguns, \u00easses grandes senhores que dominaram o Jap\u00e3o por s\u00e9culos. Foi \u00easse dia uma bela recorda\u00e7\u00e3o de minha vida. Na volta, como era longe de T\u00f3kio, fomos jantar em Assakuss\u00e1 (Asakusa, bairro do centro antigo de Tokyo), reputado pelo seu centro popular e seu movimento incr\u00edvel de suas estreitas art\u00e9rias. Hot\u00e9is, restaurantes, cinemas, casas de gueixas. Uma das coisas pitorescas eram os pequenos restaurantes, com uma enorme lanterna na porta indicando sua especialidade, suas cortinas na porta, cortadas em tiras e as serventes que ficavam na porta quando n\u00e3o havia fregueses. Foi em Assakuss\u00e1 que o terremoto de 1922 destruiu em massa casas e habitantes. O templo que se ergue numa pracinha, dedicado \u00e0\u00a0deusa Kannon \u00e9, ao que me contaram, rebocado com as cinzas dos mortos do terr\u00edvel se\u00edsmo que durou muitos dias.<\/p>\n<p>Tivemos a not\u00edcia que Matsuzakay\u00e1 ia me transferir definitivamente para Ossaka (Osaka) &#8211; tinham reformado a Matsuzakay\u00e1 dessa cidade no mais moderno estilo. Foram \u00eales que se encarregaram de fazer nossa mudan\u00e7a. Em dezembro de 1934, j\u00e1 est\u00e1vamos instalados numa boa pens\u00e3o perto do centro. Fui apresentada ao dono sr. Ito e aos diretores srs. Tsukamoto, Hattori, Shimura e outros. De fato era Matsuzakay\u00e1 uma importante casa com elevadores dos mais modernos, cal\u00e7adas e escadas rolantes, grandes sal\u00f5es para exposi\u00e7\u00e3o de arte, sala para concertos com belo piano de cauda, cole\u00e7\u00f5es de quimonos raros, grande restaurante com piscina no oitavo andar e parque de divers\u00f5es; havia l\u00e1 um min\u00fasculo santu\u00e1rio com um deus protetor do com\u00e9rcio &#8220;Oinari&#8221; (uma raposa); pedia-se a \u00eale como devia-se fazer para ganhar&#8230; No subsolo, tudo o que eram comest\u00edveis, encontrava-se produtos estrangeiros e dos melhores.<\/p>\n<p>Fomos logo convidados para fazer exposi\u00e7\u00e3o de nossos quadros numa das melhores salas. Era uma \u00e9poca em que estavam em voga as bonecas franc\u00easas; fiz uma bela cole\u00e7\u00e3o delas, que expus, quase todas da \u00e9poca Luiz XV &#8211; mandava vir de Paris todos os materiais, as marquesas tinham cabeleiras brancas, amplas saias em s\u00eada Pompadour ou de lindos brocados de cores suaves e todas minhas telas de Paris. Foi um sucesso de arte e de venda. Percebi que no Jap\u00e3o as pessoas n\u00e3o vinham s\u00f3 para v\u00ear e criticar, muitos eram compradores de poucos meios, querendo ter um quadrinho de arte em sua casa. logo em seguida, Riokai f\u00eaz exposi\u00e7\u00e3o de suas telas de Paris; tamb\u00e9m obteve grande \u00eaxito. Todos os anos exp\u00fanhamos juntos ou separados. Em Nagoya, onde havia outra grande sucursal, \u00e0s v\u00eazes me convidavam para ir apresentar a moda.<\/p>\n<p>Fizemos nessa cidade v\u00e1rias exposi\u00e7\u00f5es. Nagoya possui um maravilhoso castelo, constru\u00eddo sobre altas e imponentes muralhas. podia-se v\u00ear sob o seu telhado um enorme peixe cujas escamas eram de ouro maci\u00e7o; fazia a admira\u00e7\u00e3o dos turistas; \u00easse peixe era protegido por uma possante r\u00eade. Riokai pintou \u00easte castelo, f\u00eaz telas incompar\u00e1veis, que ficaram no Jap\u00e3o e no estrangeiro. Durante a guerra, o castelo, essa assombrosa obra de arte do passado foi destru\u00edda pelos inc\u00eandios e bombas do inimigo (9).<\/p>\n<p>(9) O Castelo de Nagoya foi reconstru\u00eddo em 1959.<\/p>\n<p>Desde 1\u00ba de janeiro de 1935 fomos habitar Ashi\u00e1 (Ashiya), rua Sanjo Gotanda, lugar pitoresco entre Ossaka e Kobe, afamado pelos seus milion\u00e1rios, que habitavam as montanhas em ricos bangalos adornados de grandes jardins e cedros verdes estendendo seus galhos em forma de para-sol; dali de cima via-se o mar, que era perto e Kobe mais adiante, lugar lindo para excurs\u00f5es e para veranear. Habit\u00e1vamos um bonito sobradinho com jardim \u00e0\u00a0 roda, havia v\u00e1rias \u00e1rvores entre as quais uma de grosso tronco prateado, c\u00e2nfora, em japon\u00eas &#8220;shono&#8221;, t\u00e3o \u00fatil na medicina; depois da chuva sentia-se seu forte odor.<\/p>\n<p>Riokai sabia que a minha paix\u00e3o eram as flores &#8211; uma primavera conseguiu \u00eale mostrar um tapete de tulipas das mais brilhantes cores; fiz algumas telas com \u00easses in\u00e9ditos modelos, tamb\u00e9m jacintos com as suas folhinhas perfumadas e crespas.<\/p>\n<p>Da nossa casa, um estreito corredor ia ter a Sanjo Gotanda, e esta curta rua ia desembocar numa larga estrada asfaltada, chamada Kokudo (vide obs. 4), que come\u00e7ava em Kobe e terminava em Ossaka, muito animada por toda sorte de ve\u00edculos, autom\u00f3veis, onibus, bondes, caminh\u00f5es e \u00e0\u00a0s v\u00eazes carros de bois; logo fomos apresentados a diversas fam\u00edlias importantes de Ashi\u00e1, os Yamamoto, Kikuti (Kikuchi), Fujita, Matsui; as filhas vinham aprender pintura com Riokai e piano comigo; eu s\u00f3 ia tr\u00eas vezes por semana a Matsuzakay\u00e1, e quando apresentava a moda todos os dias, ainda me restava tempo para pintar e estudar. Muitas vezes\u00edamos \u00e0 ilha de Awaji, toda rodeada de seu mar azul intenso, seu templo e seus t\u00edpicos telhados; Akashi, com seu belo castelo dando para um parque e seu velho porto de pesca, muitas vezes inspirou Riokai. Todos os anos \u00edamos fazer excurs\u00f5es longe, volt\u00e1vamos no dia seguinte; Yoshino foi uma das primitivas capitais do Jap\u00e3o, conservando ainda a atmosfera do passado; como essa cidade estava situada em altas montanhas, o inverno era rijo e longo; a primavera come\u00e7ava a florescer em maio. Numa esta\u00e7\u00e3ozinha ao p\u00e9 das montanhas entrava-se numa grande cesta fechada que ia devagarinho suspensa por uma longa corda de a\u00e7o movida a eletricidade, at\u00e9 chegar ao cume; \u00e0\u00a0s v\u00eazes parava no meio do trajeto, devido ao vento, e apreciava-se os abismos e precip\u00edcios que davam arrepios&#8230; Estava no centro dessa antiga e curiosa cidade, uma estreita rua cal\u00e7ada de grossas pedras; dos dois lados hot\u00e9is t\u00edpicamente japoneses, suas entradas caprichosamente arranjadas com suas criadas de aventais por cima do quimono; essa rua levava a gente a uma enorme porta toda de laca vermelha, telhado de pontas recurvadas; subia-se por uma alta e empinada escada de pedra para entrar nessa solene porta guardada por dois diabos de pedra, de carrancas amea\u00e7doras. Diziam os antigos que era para afugentar os maus esp\u00edritos e proteger o deus puro e inocente que estava no templo al\u00e9m da porta. Riokai celebrizou \u00easses s\u00edtios e essa porta dos deuses numa tela que foi reproduzida em cart\u00e3o postal, em cores. Pintei v\u00e1rias paisagens de montanhas com cerejeiras, seus verdes tenros e variados me encantavam. Todos os anos \u00edamos pintar; os hot\u00e9is em que fic\u00e1vamos eram in\u00e9ditos. \u00c0s seis da manh\u00e3, as criadas abriam as grandes janelas de correr, deixando entrar o ar gelado e fazendo uma algazarra louca, com seus espanadores, batendo em tudo e tirando a poeira imagin\u00e1ria; tinha que se sair do colch\u00e3o a muque. O pr\u00f3prio cobertor era um confort\u00e1vel quimono acolchoado de s\u00eada, que \u00e9 leve e muito quente; enfiava-se os bra\u00e7os novamente nas mangas no calor do corpo, em seguida vinha o banho e entrava-se numa esp\u00e9cie de piscina ao lado, mergulhava-se na \u00e1gua quase fervendo. Os japoneses dizem que \u00e9 bom para a sa\u00fade e ativa a circula\u00e7\u00e3o; de fato, sai-se de l\u00e1 vermelho como camar\u00e3o cozido. Esperava-se o almo\u00e7o que vinha numa enorme bandeja e numa esp\u00e9cie de marmita mas em laca, as caixinhas quadradas, contendo diversos alimentos, arroz com enguia muito gostoso, sopa (otsuyu), peixe grelhado, &#8220;sashimi&#8221; (peixe cru em fatias muito finas); tamb\u00e9m vinha &#8220;takuan&#8221;, um nabo amarelo, de cheiro b\u00e1rbaro, nunca pude me acostumar, o quejo roquefort seria um jasmim perto &#8211; custei para poder comer &#8220;sashimi&#8221; (peixe cru), mas \u00e9 realmente um excelente prato; no fim d\u00easse grande almo\u00e7o vinha o c\u00e9lebre &#8220;Otch\u00e1&#8221; (ch\u00e1 japon\u00eas), sem a\u00e7\u00facar, que durante o dia toma-se v\u00e1rias v\u00eazes numa x\u00edcara sem asa.<\/p>\n<p>Riokai gostava do movimento moderno em arte mas equilibrado e eu, que era adepta da arte cl\u00e1ssica de meu pai e continuando em Paris a pintura cheia de regras e restri\u00e7\u00f5es, ia deixando para tr\u00e1s o que eu j\u00e1 tinha feito; procurando me expandir numa vis\u00e3o mais livre para dar curso \u00e0\u00a0 minha personalidade, fiz estudos mais vibrantes, mais simples, flores, paisagens, a esp\u00e1tula procurando fugir do banal do &#8220;mil v\u00eazes feito&#8221;; via quanto era dif\u00edcil essa arte que se sente e que some quando se quer fix\u00e1-la&#8230; Riokai era meu conselheiro e eu tinha f\u00e9 no seu parecer sincero, sempre me dizia para fzaer como \u00eale pura arte e n\u00e3o produzir pintura para leigos; gost\u00e1vamos de apreciar nossos trabalhos depois de feitos.<\/p>\n<p>A vida que lev\u00e1vamos era bem ativa, t\u00ednhamos convites para as festas e casamentos, nas casas d\u00easses riqu\u00edssimos amigos; consideravam-nos como artistas e professores de seus filhos. Muitas vezes pensei, &#8220;que diferen\u00e7a o trato que se d\u00e1 aqui ao do Brasil&#8221; &#8211; l\u00e1 que ensina \u00e9 uma esp\u00e9cie de criado, escravo da necessidade, pode-se ser malcriado e n\u00e3o pagar os atrasados; a princ\u00edpio ficava constrangida de tantos presentes finos que recebia. &#8220;N\u00e3o fique aborrecida&#8221;, dizia-me Riokai, &#8220;aqui faz parte da tradi\u00e7\u00e3o se considerar o professor, que n\u00e3o \u00e9 obrigado a retribuir os presentes, igual aos bonzos que pagam com rezas&#8230;&#8221; T\u00ednhamos arranjado o primeiro andar de nosso sobradinho em atelier; dos dois lados eram janel\u00f5es de correr como s\u00e3o todas as janelas no Jap\u00e3o; tamb\u00e9m todas as pe\u00e7as t\u00eam arm\u00e1rios embutidos, mesmo nas casas pobres; ali colocam-se colch\u00f5es e cobertores que s\u00e3o tirados todas as noites e arrumados, sobre &#8220;tatamis&#8221; e no dia seguinte, rep\u00f5e-se no &#8220;oshiire&#8221; (arm\u00e1rio embutido), ficando a pe\u00e7a livre e espa\u00e7osa, sem arm\u00e1rio nem mob\u00edlias. Da nossa sacadinha via-se as belas \u00e1rvores de nosso jardim; quando Riokai n\u00e3o sa\u00eda para trabalhar fora, pintava-se no atelier. sempre vinham amigos para conversar, almo\u00e7ar ou jantar, gostavam da comida francesa; eu tinha ensinado minha cunhada Kyoko-san a fazer past\u00e9is, canja, arroz \u00e0\u00a0moda daqui. Eu gostava de certas iguarias japon\u00easas, como tempur\u00e1 e sukiaki, meu prato preferido.<\/p>\n<p>A \u00e9poca em que h\u00e1 mais frutas no Jap\u00e3o \u00e9 no estio e outono. No estio e no outono as frutas abundam no Jap\u00e3o. \u00c9 uma beleza v\u00ear os campos de morangos, frutas deliciosas, vendidas em caixinhas bem acondicionadas, as maravilhosas ma\u00e7\u00e3s de Hokkaido (Norte do Jap\u00e3o), os p\u00eassegos incompar\u00e1veis, saindo a pele como fosse uma luva, perfumados, macios, doces e lindos. Caquis aparecem l\u00e1 para o m\u00eas de outubro &#8211; tudo \u00e9 maravilhoso nessa fruta, a cor, a forma e sua suculenta polpa como se fosse sol concentrado. No inverno come-se \u00eale s\u00eaco, que ainda \u00e9 muito saboroso. Na esta\u00e7\u00e3o fria h\u00e1 muita tangerina, laranja, castanhas, avel\u00e3s, etc&#8230;.<\/p>\n<p>1\u00ba de janeiro, tem-se muitas obriga\u00e7\u00f5es nessa \u00e9poca. Os japon\u00eases ficam atarefad\u00edsssimos nos \u00faltimos dias de dezembro &#8211; limpa-se a casa toda, sobre a porta de entrada colocam um crust\u00e1ceo, espetado num &#8220;moti&#8221; (p\u00e3o de arroz), uma laranja, enfeitam com folhas de samambaia. Chama-se &#8220;shimenawa de oshogatsu&#8221;; todas as portas amanhecem no dia 1\u00ba com essa decora\u00e7\u00e3o e a bandeira branca com o sol nascente flutuando. Por dentro da entrada tamb\u00e9m, p\u00f5e-se um grande par de &#8220;moti&#8221;com um grande camar\u00e3o cozido bem vermelho por cima, adornado de folhas de samambaia, fazem comida para alguns dias pois s\u00f3 se cuida de receber cumprimentos e ir retribuir. Fora s\u00f3 se v\u00eam homens de fraque, apressados a irem cumprimentar os amigos; a educa\u00e7\u00e3o manda-se que se deve tirar todo agasalho, sobretudo, cachen\u00ea, etc.; \u00e9 um n\u00e3o acabar mais de felicita\u00e7\u00f5es; se se encontrar um amigo na rua, a mesma coisa se faz, sendo um frio de rachar. O com\u00e9rcio fecha por tr\u00eas dias, mas a verdade \u00e9 que a festa dura o m\u00eas inteiro. Nesse dia importante do ano novo eu trajava um quimono de s\u00eada pr\u00eata todo estampado de forro vermelho, mandava arrumar o la\u00e7o atr\u00e1s; Riokai punha fraque e gravata pr\u00eata; fic\u00e1vamos por dentro da entrada, esperando os visitantes e oferecendo sak\u00ea em min\u00fasculas ta\u00e7as.<\/p>\n<p>Dia tr\u00eas de janeiro, anivers\u00e1rio de Riokai, convid\u00e1vamos todos os anos Koisso e seu grupo para jantar; \u00easse amigo era rico, tinha um magn\u00edfico atelier numa montanha de Kobe com grandes e bem tratados jardins. Ele tinha sido colega de Riokai e tinha estado em Paris, sempre trabalhando apesar de seu atelier estar constantemente com amigos; gostava de Degas e Manet, procurava com um belo desenho e colorido s\u00f3brio chegar a \u00eassem mestres. Koisso Rioh\u00e9 (10) era muito apreciado no Jap\u00e3o, seu atelier era um centro de pintores, literatos e poetas; f\u00edsicamente se parecia com Riokai, era am\u00e1vel e meigo. Tinha sempre \u00e0\u00a0 sua disposi\u00e7\u00e3o dois belos modelos; quando saia era com uma escolta de amigos; divertia-me, dizer que era o general com seu estado-maior.<\/p>\n<p>(10) KOISO, RIOHEI (1903 &#8211; 1988) estudou na Fran\u00e7a de 1928 a 1930 e expos quadros no Salon d&#8217;automne em Paris, o mesmo do qual Ryoukai Ohashi participou. Em 1950 tornou-se professor na Universidade de Belas Artes e M\u00fasica de Tokyo (Tokyo Geijutsu Daigaku) e foi eleito membro da Academia de Arte do Jap\u00e3o (Nihon Geijutsuin) em 1983. Recebeu a Ordem da Cultura (Bunka-sh\u00f5) em 1984. Pintou principalmente nus e produziu v\u00e1rias ilustra\u00e7\u00f5es para revistas.<\/p>\n<p>Como achei interessantes muitos costumes do Jap\u00e3o! No inverno, homens, mulheres e crian\u00e7as usam uma esp\u00e9cie de bico de veludo pr\u00eato sobre a boca e nariz, amarrado \u00e0\u00a0s orelhas; pensam que assim se livram dos resfriados, n\u00e3o respirando o ar gelado. Os homens, no inverno, os que s\u00e3o mais elegantes usam umas longas capas com sobre-capa de drap pr\u00eato e uma minguada gola de pele de foca; \u00e9 exatamente o que usavam os &#8220;cochers de fiacres&#8221;, cocheiros que conduziam carros em Paris nos princ\u00edpios do s\u00e9culo, muitos com o cl\u00e1ssico chap\u00e9u de coco e guet\u00e1s (sapatos de madeira) nos p\u00e9s, presos s\u00f3 no ded\u00e3o; ficam monumentais com \u00easse severo traje. Coisa curiosa \u00e9 a festa dos meninos (11) &#8211; come\u00e7a no dia 5 de maio; toda fam\u00edlia, que tem filhos var\u00f5es, ergue \u00e0\u00a0 entrada de sua casa um comprido mastro; flutuando como bandeiras, enormes peixes feitos de morim, alguns vermelhos com escamas pintadas em branco, outros brancos com escamas vermelhas, olhos de ouro; se tiver um filho; \u00e9 um peixe, quantos filhos t\u00eam, tantos peixes s\u00e3o, todos amarrados ao mastro pela boca, que vai enchendo o peixe de ar dando-lhe vida e movimento; ao menor vento, parece que est\u00e3o nadando no ar; alguns compridos de cinco metros. Gostava de v\u00ear pela porteira do trem ou do onibus, a quantidade de peixes nadando ao ar livre.<\/p>\n<p>(11) Em japon\u00eas, KODOMO NO HI, &#8220;dia das crian\u00e7as&#8221;, mas o feriado \u00e9 especialmente dedicado aos meninos.<\/p>\n<p>&#8220;Momo no Sekku&#8221; (12) \u00e9 a festa das meninas &#8211; come\u00e7a no dia tr\u00eas de mar\u00e7o. Na melhor sala da casa &#8211; ergue-se uma esp\u00e9cie de altar &#8211; que vai do ch\u00e3o at\u00e9 o forro, como uma escada coberta de pano vermelho; no centro, dois personagens representando o Imperador e a Imperatriz; todas as bonecas s\u00e3o expostas, inclusive as que pertenceram \u00e0\u00a0s av\u00f3s e tatarav\u00f3s da fam\u00edlia, brinquedos de valor; convidam os amigos nessa sala toda adornada, oferecem sak\u00ea nas pequen\u00edssimas ta\u00e7as com a\u00e7\u00facar cristalizado, doces bonitos, para se ver, de diversas cores, com formas de flores de ameixeira, cerejeira. As meninas da fam\u00edlia aparecem com ricos quimonos, vermelhos, vivos, cabelo cortado em franjas sobre a testa, o cinto atr\u00e1s se la\u00e7a em forma de borboleta; s\u00e3o lindas como ricas bonecas, as meninas vestidas assim, dan\u00e7am &#8211; h\u00e1 sempre alguma av\u00f3 que toca shamissem (shamisen = instrumento de cordas t\u00edpico do Jap\u00e3o) e canta.<\/p>\n<p>(12) Tamb\u00e9m chamado de JOMI ou JOSHI NO SEKKU, estas s\u00e3o nomenclaturas antigas para o feriado hoje conhecido como HINAMATSURI.<\/p>\n<p>No Jap\u00e3o os velhos s\u00e3o tratados com muito acato e carinho na fam\u00edlia, sabem quantidade de etiquetas que v\u00e3o transmitindo a seus descendentes.<\/p>\n<p>As artes tradicionais s\u00e3o muito apreciadas, muitas se aprendem durante anos, como o arranjo das flores, a escrita, escrever-se com o pincel a nanquim os belos e art\u00edsticos caracteres chineses; a dan\u00e7a, que sempre achei um encanto, aprende-se desde crian\u00e7a. Os japoneses querem sempre aprender alguma coisa, mesmo depois de velhos; h\u00e1 sociedades para a c\u00e9lebre cerimonia do ch\u00e1, que \u00e9 um verdadeiro culto.<\/p>\n<p>A festa que eu tinha prazer era Omatsuri: cada templo a faz uma vez por ano em \u00e9pocas diferentes. Sai um pesad\u00edssimo andor (omikoshi), todo dourado, contendo a divindade; sobre o teto, no centro, paira um galo de ouro; o andor passeia pelas ruas do bairro carregado pelos rapazes do povo com grandes preces e cantos; uma multid\u00e3o acompanha essa prociss\u00e3o. Todo japon\u00eas \u00e9 shinto\u00edsta, culto dos antepassados desde a funda\u00e7\u00e0\u00a0o do Jap\u00e3o; tamb\u00e9m a maioria \u00e9 budista, n\u00e3o importa ter duas religi\u00f5es. Quando chega os meados de julho, dia 13, os japoneses ficam atarefados, agitados: \u00e9 a grande festa anual, o dia dos mortos (obon). Nas cidades dura tr\u00eas dias e na ro\u00e7a, um m\u00eas ou mais; no Jap\u00e3o nunca se sabe ao certo quando termina esta festa; longe de ser triste, s\u00e3o dias alegres. Dizem que o esp\u00edrito dos falecidos\u00a0 visitam suas fam\u00edlias e se estiverem pesarosos ou acabrunhados \u00eales sofrem&#8230; No pequeno santu\u00e1rio que tem cada fam\u00edlia, oferecem flores e alimentos, incenso. Na ro\u00e7a, dan\u00e7am, fazem casamentos, banquetes, grandes festas; todo japon\u00eas est\u00e1 contente quando chega essa \u00e9poca. L\u00e1 quase n\u00e3o h\u00e1 cemit\u00e9rios, incineram-se os mortos logo depois do ent\u00earro.<\/p>\n<p>Os japoneses gostam dos animais e os tratam bem; interessante ver as juntas de bois puxando o carro, todos cal\u00e7ados com sand\u00e1lias de palha para n\u00e3o ferir os p\u00e9s; tamb\u00e9m em julho e agosto, no mais forte do calor, os animais que puxam carro\u00e7a, burros, cavalos, usam chap\u00e9u de palha, e uma tolda que vai da nuca ao rabo, bem fixada no centro, lhes d\u00e1 uma apar\u00eancia de cavalos alados; coitados, mas pr\u00easos, ali nos freios&#8230; Tudo isso se via no Kokudo, pertinho de casa.<\/p>\n<p>O inverno era a esta\u00e7\u00e3o do ano que Riokai mais apreciava; \u00eale \u00eda com um colega, Susuki, pintar nas ro\u00e7as e \u00e0\u00a0s v\u00eazes no pa\u00eds natal, Hikone, uma cidadezinha antiga entre Kyoto e Nagoya; possu\u00eda um lindo castelo, que Riokai muitas v\u00eazes pintou, seu belo rio que serpenteava as montanhas, no inverno todas brancas de neve; numa velha porta de Hikone podia-se ver ainda o bras\u00e3o do samurai, que tinha sido avo de Riokai do lado materno.<\/p>\n<p>Himeji, um dos maiores castelos. Imenso, majestoso e altivo sobre suas muralhas de pedra, seus telhados caprichosamente trabalhados e seu maravilhoso parque, seus lagos povoados de peixes de estranhas formas, vermelhos com escamas de ouro, pr\u00eatos com o rabo dourado, um luxo extraordin\u00e1rio que a natureza empregou para decorar \u00easses peixes. Esse castelo ficava longe de casa. Minucha, eu assim o chamava, Riokai sempre \u00eda, \u00e0\u00a0s v\u00eazes, pintar nesses s\u00edtios; f\u00eaz telas soberbas dessa morada feudal e especializou-se em castelos do Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Em fevereiro \u00eale \u00eda pelas ro\u00e7as \u00e0 procura de ameixeiras em flor; \u00easse arbusto florescia como um milagre saindo de um tronco pr\u00eato e tortuoso; nas c\u00earcas \u00e0\u00a0beira das estradas, no campo, mas o frio era tal que eu nunca fui pintar essas flores que formavam tufos brancos, perfumados. Um p\u00e1ssaro chamado &#8220;uguissu&#8221; (ugisu = rouxinol) come\u00e7a seus maravilhosos cantos ao iniciar dessas flores e cala-se quando desfolham; sua cor n\u00e3o \u00e9 bonita mas seus gorgeios s\u00e3o incompar\u00e1veis. Os poetas exaltaram seu canto maravilhoso, que aliaram \u00e0s delicadas flores de ameixeiras&#8230;<\/p>\n<p>Eu esperava a primavera, abril, para me expandir, come\u00e7ar as excurs\u00f5es e romarias a Kotoen, foi um dos meus para\u00edsos&#8230; Lugar fe\u00e9rico pelas cerejeiras, pessegueiros e cam\u00e9lias em flor&#8230; Era uma imensa propriedade, que os donos nos deixavam pintar; ali, nos dias de semana, \u00e9ramos os \u00fanicos visitantes, toda aquela orgia de flores era s\u00f3 para n\u00f3s&#8230; Foram \u00easses passeios os tempos mais felizes de minha vida. Ficava-se o dia todo at\u00e9 escurecer, fazendo estudos, croquis, e enfrentando os caprichos da primavera, rajadas de chuvas e vento gelado, muito frio mas logo o sol radiante iluminando a paisagem, montanhas ao longe, um grande lago e a mais bela sinfonia que jamais vi em cor de rosa quase branco&#8230; Riokai sempre levava a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica para fixar os momentos felizes de nossas vidas&#8230; Numa dessas fotos, que guardo como querida lembran\u00e7a, estamos \u00e0\u00a0 frente de uma cerejeira, felizes com nossas caixas nas m\u00e3os, os galhos em flor nos cobriam os ombros. Fiz boas telas, muitos estudos \u00e0\u00a0esp\u00e1tula, que tiveram sucesso, em exposi\u00e7\u00f5es, em Kobe, Nagoya, Ossaka. Todos os anos exp\u00fanhamos no &#8220;salon&#8221; dessa cidade. Meu tempo era pouco para me dedicar a tantas coisas al\u00e9m da pintura, que era minha principal preocupa\u00e7\u00e3o &#8211; as exposi\u00e7\u00f5es, o piano, as alunas e o Matsuzakay\u00e1; tinha que pensar nos meus vestidos; ser elegante, pois eu tinha que apresentar a moda de Paris, nos desfiles de manequins. \u00c0s v\u00eazes os diretores dessa grande casa nos convidavam para sukiaki em Kyoto, cidade afamada pelos seus antigos e m\u00faltiplos templos e suas gueixas. Muitas v\u00eazes me perguntaram aqui o que eram as gueixas &#8211; seria dif\u00edcil a um estrangeiro compreender. H\u00e1 muitas categorias. Elas aprendem a vestir o quimono com eleg\u00e2ncia e fazer magistralmente o la\u00e7o do obi, atr\u00e1s, puxar bem o quimono atr\u00e1s para dar rel\u00eavo ao pesco\u00e7o nu, as atitudes, as regras da tradi\u00e7\u00e3o, como ajoelhar-se sobre a almofada, como andar, como cumprimentar, as regras \u00e0\u00a0 maneira das passadas etiquetas; algumas se dedicam \u00e0\u00a0s artes, cantam se acompanhando de um instrumento de longo cabo, &#8220;shamissen&#8221;; outras dan\u00e7am, tirando belos partidos com as longas mangas e leques, que movem numa atitude m\u00e1gica&#8230; H\u00e1 escolas de gueixas onde entram meninas; elas tomam o nome de &#8220;Maiko&#8221;. H\u00e1 muitas sociedades que d\u00e3o sempre banquetes, onde s\u00f3 v\u00e3o homens e acharam que seria triste uma festa sem mulheres. As gueixas s\u00e3o os adornos dessas reuni\u00f5es; enquanto comem ou conversam, elas cantam ou dan\u00e7am ou ficam perto dos h\u00f3spedes, enchendo as ta\u00e7as de sak\u00ea, sabem dizer piadas, que alegram o audit\u00f3rio; dizem que elas n\u00e3o exercem al\u00e9m disso nada de desonroso, s\u00f3 as de muito baixa casta \u00e9 que se entregam \u00e0\u00a0vida sexual. Houve gueixas famosas pela intelig\u00eancia e romances como Madame Butterfly. No dia seguinte ao banquete, elas v\u00e3o \u00e0\u00a0casa do cliente cobrar; \u00e9 geralmente a esposa que paga a conta. Todo japon\u00eas \u00e9 orgulhoso de suas gueixas e deseja saber qual a impress\u00e3o que o estrangeiro tem delas.<\/p>\n<p>Quantas v\u00eazes fomos a Nara pintar; fic\u00e1vamos dois ou mais dias trabalhando naquele maravilhoso parque, vastas extens\u00f5es de gramados, como se fossem macios tapetes de veludo verde, seus veados saindo em bando das florestas, muito mansos; alguns deixavam passar a m\u00e3o, para terem bolachas; lindos com seus grandes olhos, e apenas os chifres apontando. Kasugajinja era o imenso templo, de laca vermelha. Nara foi a primeira capital do Jap\u00e3o, c\u00f3pia de uma capital chinesa. Seu grande Buda d\u00e1 vida a \u00easse glorioso passado. Foram \u00easses passeios os tempos felizes de minha vida: arte, romance e amor&#8230; Nara era c\u00e9lebre tamb\u00e9m pelas suas flores de glic\u00ednias; em diversos lugares d\u00easse imenso parque havia telheiros de bambus, em que essas trpadeiras floresciam em cachos cerrados de cor lil\u00e1s, de doce perfume. Era a festa das glic\u00ednias; os japoneses, na primavera, n\u00e3o ficam em casa &#8211; v\u00e3o em massa apreciar a natureza em flor e por todos os lados havia japonesas de quimonos de primavera; tamb\u00e9m encontravam-se bonzos que serviam os templos, de cabe\u00e7a raspada, quimono branco, com outro por cima de gaze pr\u00eata, uma estola no pesco\u00e7o, parecida com a dos padres cat\u00f3licos quando dizem missa, v\u00e1rios ros\u00e1rios nos pulsos, uns de jade verde; pelo Jap\u00e3o inteiro os bonzos andam com \u00easses trajes, quase todos se casam, s\u00e3o doutos em estudos de teologia, sabendo escrever e exprmir-se bem e corretamente. Eu j\u00e1 estava come\u00e7ando a compreender melhor \u00easse dif\u00edcil idioma; os japoneses gostavam de me ouvir falar e riam; eu tamb\u00e9m, ria porque nunca pensei que um dia pudesse falar bem \u00easse dif\u00edcil idioma.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00eazes \u00edamos a Kobe, porto importante, com muito com\u00e9rcio; Consules estrangeiros que moravam l\u00e1 davam suas festas e tinham seus clubes, alem\u00e3es, ingl\u00eases, portugu\u00eases, italianos; das outras na\u00e7\u00f5es havia menos. O que havia muito era gente da Cor\u00e9ia &#8211; exerciam trabalhos subalternos, as mulheres todas de branco, os homens tamb\u00e9m, usando uma min\u00fascula cartolinha no cume da cabe\u00e7a; todos \u00eales grandes, uma ra\u00e7a muito diferente dos japoneses. No variado com\u00e9rcio de Kobe encontrava-se de tudo; muitas casas que vendiam material de pintura pois no Jap\u00e3o a corpora\u00e7\u00e3o era grande; lojas com bel\u00edssimas s\u00eadas para exporta\u00e7\u00e3o. P\u00e9rolas, cultivadas, que o grande cientista Mikimoto descobriu, teatros, cinema, divers\u00f5es, restaurante. T\u00ednhamos em Kobe grandes amigos, o consul da Fran\u00e7a e senhora, Madame Hauchcorne; jamais conheci pessoa t\u00e3o boa, inteligente, soci\u00e1vel; foi mesmo uma grande amiga a quem me apeguei com toda a ternura. Vinham \u00e0\u00a0 nossa casa jantar; Minuche, sua filha, era uma mo\u00e7a cheia de recato mas muito simp\u00e1tica. A todas as festas do consulado \u00e9ramos convidados, conc\u00earto de Jacques Tibeau e o violoncelista Charbonier; bailarinas espanholas de renome, que passavam por Kobe. Tivemos uma ocasi\u00e3o convite para ir ao grande jantar e baile de um coura\u00e7ado franc\u00eas ancorado em Kobe; a essas festas s\u00f3 ia a alta classe; tamb\u00e9m conhecemos a baronesa Fujita, que morava num imenso bangalo no cume de uma montanha em Suma. Falava muito bem o franc\u00eas sem nunca ter sa\u00eddo do Jap\u00e3o; foi tamb\u00e9m uma grande amiga; ela gostava de vir em casa, com suas duas filhas e sempre nos adquiria quadros, ora meus ora de Riokai. Todos gostavam d\u00eale; era soci\u00e1vel e seu sorriso captava todas as simpatias, gostava de tudo o que fosse arte; \u00e0\u00a0s v\u00eazes passava a noite toda sem dormir para ler um livro sobre arte. Durante \u00easses anos que ficamos em Ashi\u00e1 (Ashiya), a fam\u00edlia vinha \u00e0\u00a0s v\u00eazes passar uma temporada conosco; vinham de Formosa (Taiwan) onde habitavam meu sogro e minha sogra; \u00eale tinha sido professor de escola prim\u00e1ria e depois diretor. No dizer dos entendidos fazia belas poesias haikai; meu marido dizia que \u00eale era para o meio em que tinha vivido, muito inteligente; sempre me dei bem com todos da fam\u00edlia. Economicamente \u00e9ramos independentes, o que faz muito para a boa harmonia numa fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Houve \u00e9pocas em que fiquei anos sem ir ao consulado do Brasil; em Kobe, depois que procurei um consul para me fazer uma procura\u00e7\u00e3o, foi t\u00e3o cheio de emp\u00e1fias e complica\u00e7\u00f5es, que nunca mais l\u00e1 voltei. Em 1939, um novo consul do Brasil chegava a Kobe: era o sr. Alo\u00edsio de Magalh\u00e3es, homem inteligente, vibrante e amigo dos artistas. Fomos convid\u00e1-lo para nossa exposi\u00e7\u00e3o em Ossaka; eu n\u00e3o esperava v\u00ea-lo chegar; fazia s\u00f3 alguns dias que tinha vindo do Brasil a Kobe, com sua sobrinha Atala; foi uma alegre surpr\u00easa quando no dia do vernissage vimo-lo entrar na exposi\u00e7\u00e3o, todo sorridente &#8220;ainda tem alguns quadros para vender perguntou \u00eale?&#8221; Escolheu dois quadros nossos e logo nos convidou para ir a Kobe, a suas festas. Atala era \u00f3tima pianista, tendo sido aluna em Paris de Corto, sempre me aconselhava a fazer programa para concertos. O anivers\u00e1rio do consul Magalh\u00e3es foi festejado com um grande banquete em Kobe; todos os japoneses amigos do Brasil foram convidados. Riokai, por essa ocasi\u00e3o, conheceu alguns japoneses influentes. O consul Magalh\u00e3es insinuou-nos que dev\u00edamos fazer uma viagem ao Brasil por interm\u00e9dio do Gaimusho, &#8220;minist\u00e9rio das rela\u00e7\u00f5es estrangeiras&#8221;. Riokai tinha um grande desejo de conhecer o Brasil e essa era uma ocasi\u00e3o \u00fanica de se expandir; come\u00e7ou a desenvolver essa id\u00e9ia, que foi se fortalecendo para terminar numa realidade&#8230; Foi a T\u00f3kio v\u00e1rias v\u00eazes, n\u00e3o foi f\u00e1cil, mas como o Jap\u00e3o precisava de propaganda, encontrou amigos no Gaimusho que eram favor\u00e1veis. Nos fins de fevereiro de 1940 as coisas estavam quase certas. Em mar\u00e7o, Riokai foi a Formosa visitar a fam\u00edlia e fazer exposi\u00e7\u00e3o de nossos quadros. Eu embarquei uns dias depois, devido ao desfile de modelos que tinha que apresentar no Matsuzakay\u00e1.<\/p>\n<p>No cais de Irum estava toda a fam\u00edlia \u00e0\u00a0minha espera e logo tomamos o trem que nos levou a Taihoku, a capital da ilha; todos da fam\u00edlia de Riokai me acolheram bem e estavam contentes de me ver. Depois da exposi\u00e7\u00e3o terminada, que foi um sucesso, fizeram quest\u00e3o de fazer a nossa festa de casamento: sete anos depois! Meus sogros com quimonos de cerimonia ficaram na porta do grande sal\u00e3o do hotel recebendo os cumprimentos; eu e Riokai est\u00e1vamos ao lado, eu de vestido de soir\u00e9e de saia de cetim pr\u00eato, bem colante e blusa de lam\u00ea cor de rosa, dava um aspecto ex\u00f3tico ao ambiente. Mais de cinquenta talheres foram postos no melhor restaurante chin\u00eas da cidade.<\/p>\n<p>Passando pelas estreitas ruas t\u00edpicamente chin\u00easas, pude ver a sujeira incr\u00edvel das casas com suas portas abertas; nuvens de moscas enchiam o ar; sobre o lixo, as crian\u00e7as brincavam; chineses altos e magros, metidos nas suas roupas pr\u00eatas colantes, pareciam fantasmas. Suspirei quando sa\u00ed daquele antro. Achei Taihoku uma grande cidade, de ruas largas, compridas avenidas todas asfaltadas, com\u00e9rcio importante e com todas as regalias da \u00e9poca moderna, bonde, \u00f4nibus, telefone, apesar de ainda se ver os carros puxados por um homem, velho costume chin\u00eas. No Jap\u00e3o s\u00f3 em Kobe e Yokohama pode-se ver \u00easses &#8220;curam\u00e1s&#8221;(13): s\u00e3o sempre estrangeiros que acham interessante \u00easse modo de condu\u00e7\u00e3o, relegando o pr\u00f3ximo ao estado de cavalo.<\/p>\n<p>(13) Provavelmente a autora quis usar a express\u00e3o KURUMA, &#8220;carro&#8221; (autom\u00f3vel), para designar riquix\u00e1.<\/p>\n<p>No dia em que partimos, como a rua de meus sogros era muito estreita para entrar um t\u00e1xi, foi a \u00easse g\u00eanero de condu\u00e7\u00e3o que tivemos de recorrer. Ficou uma fila de &#8220;curum\u00e1s&#8221; na porta; minha sogra encabe\u00e7ava, eu e Riokai logo atr\u00e1s e em seguida os parentes; eu me diverti, tomando parte nesse in\u00e9dito desfile, at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o. Alguns parentes vieram at\u00e9 Irum. Das janelas do trem via-se a extens\u00e3o de terras bem trabalhadas, bem cultivadas, parecendo-se com a vegeta\u00e7\u00e3o do Brasil, bananeiras, palmeiras, coqueiros e canaviais e mesmo pequenos cafezais. Quarenta minutos percorridos deu para fazer uma id\u00e9ia do progresso; quando essa ilha estava sob o dom\u00ednio chin\u00eas eram s\u00f3 p\u00e2ntanos e terras incultas; os mandarins n\u00e3o faziam nenhum esfor\u00e7o para melhorar.<\/p>\n<p>Voltamos pelo Fuji-Maru a 28 de mar\u00e7o de 1940; ap\u00f3s quatro dias est\u00e1vamos desembarcando em Kobe. Riokai logo teve not\u00edcias que era certa nossa viagem ao Brasil, aprovada pelo Gaimusho. Da\u00ed come\u00e7amos a trabalhar no duro, fomos diversas v\u00eazes a T\u00f3kio; justamente havia uma miss\u00e3o brasileira em T\u00f3kio fazia uns dias e iam homenage\u00e1-los com grande recep\u00e7\u00e3o para serem apresentados ao Pr\u00edncipe Takamatsu-Mia e Princesa. (14) A miss\u00e3o foi introduzida pelo Embaixador do Brasil em T\u00f3kio e fomos convidados para essa cerimoniosa festa. Os pr\u00edncipes estavam de p\u00e9 sobre um estrado numa saleta, enquanto um secret\u00e1rio anunciava um por um o nome dos convidados; foi servida uma enorme mesa com as mais deliciosas iguarias. Ao discurso do embaixador, respondeu o pr\u00edncipe em Ingl\u00eas; houve outros discursos em que brilhou a ret\u00f3rica e a feliz cordialidade dos dois pa\u00edses. Terminado o banquete, vieram me procurar para falar com a princesa; achei-a muito am\u00e1vel, inteligente e linda com seu quimono cor de rosa.<\/p>\n<p>(14) TAKAMATSU, NOBUHITO (1905 &#8211; 1987) Pr\u00edncipe Imperial, terceiro filho do Imperador Taish\u00f5 e irm\u00e3o mais novo do Imperador Hirohito. Foi adido militar durante a Segunda Guerra e promovido capit\u00e3o em 1942. Pouco antes do fim da Guerra, fez parte de uma conspira\u00e7\u00e3o que afastou o general Hideki T\u00f5j\u00f5 do poder.<\/p>\n<p>Nossos trabalhos foram por essa ocasi\u00e3o expostos em T\u00f3kio, numa grande sala na Guinza &#8211; o Gaimusho fazia quest\u00e3o de mostrar nossas telas.<\/p>\n<p>Foram reproduzidos em cores tr\u00eas mil exemplares &#8220;cart\u00e3o postal&#8221; de dois quadros de Riokai, &#8220;Velho porto de Akashi&#8221;, e &#8220;Porta de Yoshino&#8221; e dois meus &#8220;Le chapeau de paille d&#8217;Italie&#8221; do Salon de Paris, 1933 e &#8220;Cerejeiras em flor do parque Inogashira&#8221;. Ficaram \u00f3timas essas reprodu\u00e7\u00f5es e tiveram sucesso no Brasil e Buenos Aires.<\/p>\n<p>Riokai veio com o t\u00edtulo de &#8220;pequeno embaixador da arte&#8221;. Como era princ\u00edpios de abril, T\u00f3kio estava toda engalanada de suas cerejeiras em flor &#8211; n\u00f3s tamb\u00e9m est\u00e1vamos contentes e agitados com tanta sorte. Na volta descemos numa esta\u00e7\u00e3o da Montanha Fuji; um funicular subia para depositar os turistas no grande hotel Gora Palace de grande luxo, frequentado s\u00f3 por milion\u00e1rios e titulares do Jap\u00e3o, que vinham veranear nesses encantadores s\u00edtios. Riokai dizia rindo que \u00e0\u00a0s v\u00eazes gostava de viver no seio da grandeza&#8230; Nosso quarto era imenso, claro como o dia. Janel\u00f5es com varanda davam para o vasto panorama. Foi um espet\u00e1culo que nunca hei de me esquecer&#8230; Via-se montanhas, colinas, lagos e cerejeiras floridas como no esplendor de uma imensa sinfonia, onde a Montanha Fuji mostrava na sua majestosa beleza sua coroa de neve; era t\u00e3o linda a paisagem nesse luminoso dia que receava-se respirar para n\u00e3o perturbar a divina harmonia. \u00c0 tarde fomos pintar \u00e0\u00a0beira dos c\u00e9lebres lagos de Hakone, que h\u00e1 nas imedia\u00e7\u00f5es. A viagem foi marcada para os fins de julho, no vapor que estreava-se, Hokoku-Maru. Dia 14 de julho dei uma audi\u00e7\u00e3o de minhas alunas e tamb\u00e9m encerrei minha estada no Matsuzakay\u00e1. Entreguei-me aos preparativos da viagem, meus vestidos, precisava me mostrar chique; estava numa posi\u00e7\u00e3o de destaque.<\/p>\n<p>Os cinquenta modelos que levei, foram cuidadosamente estudados, chap\u00e9us, luvas, sapatos, etc. Tamb\u00e9m de Riokai, \u00eale n\u00e3o se preocupava com \u00easse lado decorativo; estava atarefad\u00edssimo na embalagem dos quadros, d\u00eale e meus, que iam em grandes caixas, j\u00e1 emoldurados, al\u00e9m dos mil detalhes que se preciam para uma longa viagem dessas. A mim s\u00f3zinha teria sido imposs\u00edvel semelhante tarefa, com minha fr\u00e1gil sa\u00fade, mas apesar de tantas ocupa\u00e7\u00f5es, foi um trecho feliz de minha vida, em que a sorte nos sorria&#8230; Nos \u00faltimos dias de preparativos n\u00e3o se dava conta de tantos afazeres, visitas a toda hora, eram tantos os presentes que chegavam, recomenda\u00e7\u00f5es a amigos do Brasil, jornalistas para entrevistar-nos, &#8211; ficamos em pouco tempo personagens importantes.<\/p>\n<p>O dia de embarque chegou; o Hokoku-Maru, todo branco, estava atracado no cais de Kobe; brilhava num belo dia de estio, todo engalanado de serpentinas e bandeiras. O cais estava repleto, iam viajar japon\u00eases de classe. Depois de subirmos a ponte, ficamos logo rodeados de amigos, que j\u00e1 estavam no grande sal\u00e3o \u00e0\u00a0nossa espera. O mais agrad\u00e1vel foi ver o consul Magalh\u00e3es e Atala, que viam realizados seus votos; por todos os lados eram sorrisos, desejo de sucesso. O gongo com sua voz met\u00e1lica se f\u00eaz ouvir, e todos foram descendo; j\u00e1 est\u00e1vamos na rampa do navio, dizendo Adeus aos amigos e parentes que estavam no cais, eu com um enorme buqu\u00ea de rosas vermelhas nos bra\u00e7os e Riokai com seu belo sorriso, e agitando o leque (no Jap\u00e3o os homens usam leque no estio). O navio foi se destacando do cais, e a sereia enchia o ar com sua possante voz&#8230; Est\u00e1vamos exaustos e emocionados; ainda ficamos no conv\u00e9s para ver o sol todo de ouro, que se espelhava no mar e os gritos das gaivotas que nos diziam Adeus&#8230;<\/p>\n<p>Quando entramos no nosso camarote todo florido, eram tantos os presentes que se tinha dificuldade em se mover; cada caixa de bombons e outros presentes traziam um cart\u00e3ozinho de bons votos; a cada um cabia agradecer por carta. Riokai j\u00e1 estava pensando nisso.<\/p>\n<p>Depois de uns dias de aprendizagem das disciplinas organizadas do vapor, come\u00e7amos a tirar nossas caixas de tintas e pinc\u00e9is. Nosso camarote era todo branco, todo novo, grande e luxuoso; a janela dava para o mar e a porta para um corredor todo atapetado de vermelho, perto do grande sal\u00e3o, que por uma larga e curta escada ia dar no primeiro tombadilho. \u00edamos tocar em numerosos portos da China, da \u00cdndia, e da \u00c1frica. Riokai estava ativo em arrumar suas telas, papel, caixa de aquarela, cavalete port\u00e1til, etc. Ele tinha encontrado um bom amigo, o sr. Omori, que vinha substituir o embaixador em Buenos Aires; gostava muito da arte e do car\u00e1ter de Riokai. Quase todos os passageiros eram japon\u00eases que \u00edam \u00e0\u00a0 Argentina e ao Brasil.<\/p>\n<p>Como sempre, nessa longa viagem de quarenta e cinco dias, n\u00e3o faltaram alguns esc\u00e2ndalos. Um ex-consul de Portugal nas Filipinas, j\u00e1 maduro, gordo e barrigudo e sua esposa, engalfinharam-se de maneira espetacular, enchendo de gritos seu camarote. Infidelidade da sua sobrinha, que viajava junto, foi o motivo d\u00easse atentado a calma e ordem do navio&#8230;<\/p>\n<p>Numa bela manh\u00e3 apareceu o porto de Singapura. A convite de um amigo, sr. Tanaka, diretor da companhia Shossen-Kaisha, passamos um espl\u00eandido dia; depois de percorrer a ilha, fomos para um restaurante chin\u00eas que tinha uma torre em forma de pagode, com seus telhados de pocelana azul. Ali, num dos andares, saboreamos durante horas a del\u00edcias da comida chinesa, ouvindo seus cantos agudos e estridentes, acompanhados de seus instrumentos. Ao contr\u00e1rio dos japoneses, os chineses acham que o barulho traz alegria. Na volta da nossa viagem, dev\u00edamos encontrar-nos com \u00easte amigo para viajar por toda a \u00cdndia&#8230; Nossos planos n\u00e3o puderam se realizar devido ao ar de guerra que j\u00e1 estava soprando.<\/p>\n<p>Em Singapura, onde todas as ra\u00e7as existem, fiz muitos croquis a aquarela e escrevi &#8220;impress\u00f5es&#8221; sobre seus habitantes. Cada pa\u00eds usando seus trajes &#8211; t\u00edpicos malaios, chineses, indus, judeus, japoneses, \u00e1rabes e europeus. Os homens de turbante e barba, indicando sua casta, quase todos andam de roupa ocidental mas de turbante. As mulheres indus, algumas bonitas quando s\u00e3o mo\u00e7as, porque v\u00e3o engordando de tal maneira que parecem pipas, ao chegar a ser matronas, em geral t\u00eam grandes e belos olhos, vestindo o sari, saindo dos ombros em largas pregas como os gregos antigos, uma pedra preciosa embutida entre os c\u00edlios ou na asa do nariz; muitas usam pulseiras nos tornorzelos e an\u00e9is nos dedos dos p\u00e9s, com seu andar calmo e majestoso.<\/p>\n<p>Depois foi Hong-Kong, rodeado de mantanhas e seu mar povoado de pitorescas barcas &#8211; moram nelas fam\u00edlias inteiras, criando galinhas, porcos, cachorros, as mulheres lavam roupa, e cozinham, remam mais adiante quando querem mudar de lugar. Suas ruas formigando de gente, com suas carrocinhas servindo de restaurante ambulante, seus habitantes num cont\u00ednuo vai-v\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Colombo. riokai conhecia um negociante de j\u00f3ias indu, que tinha uma loja no centro &#8211; vendia-se ali de tudo, objetos em tartaruga, belas pulseiras em platina e safiras da \u00cdndia, j\u00f3ias com brilhantes, cachos de bananas, frutas s\u00eacas, etc. Ficou content\u00edssimo em rever Riokai; queria por for\u00e7a me vender uma rica pulseira, com safiras, dizia \u00eale que pagaria na volta, mas eu n\u00e3o quis. At\u00e9 no t\u00e1xi \u00eale veio com a j\u00f3ia sob os meus olhos, dava sem documento nenhum!<\/p>\n<p>Depois tivemos quinze dias de mar-c\u00e9u, o canto do mar, o ritmo das m\u00e1quinas, os peixes voadores e \u00e0\u00a0s v\u00eazes o dorso escuro de algum tubar\u00e3o seguindo o navio. A hora solene era o por do sol, mergulhando em sua gl\u00f3ria num mar de p\u00farpura e ouro; nas noites profundas e estreladas sonh\u00e1vamos &#8211; era o contato com a vida pura do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Houve festa a bordo \u00e0\u00a0passagem do Equador, muitos foram batizados com nomes de peixes, sardinhas, etc.. \u00c0 noite, grande baile. Riokai detestava fazer toalete e vestir o smoking para jantar, apesar de n\u00e3o ser o traje a rigor t\u00e3o estrito quanto nos transatl\u00e2nticos europeus. A comida era francesa e japonesa, muito bem feita por um mestre cuca franc\u00eas. Todos os dias pratos deliciosos servidos no requinte do luxo em pequenas mesas redondas.<\/p>\n<p>\u00c1frica. Mabassan, colonia ingl\u00easa, me pareceu bem pobre; depois foi Zanzibar. Indus, \u00e1rabes e pretos. Pela estrada que levava ao centro, de um lado e de outro, copiosas mangueiras, bananeiras, abacateiros, toda a vegeta\u00e7\u00e3o tropical. O de que gostei foi no quarteir\u00e3o \u00e1rabe, as casas todas caiadas de branco com suas portas de madeira escura, sem pintura, todas trabalhadas como rendas, as sacadinhas nas janelas, tamb\u00e9m de madeira, muito art\u00edstico, suas ruas ermas devido ao com\u00e9rcio estar dentro, de portas fechadas. Luxo e conforto era o bairro habitado pelos brit\u00e2nicos. Beira, colonia portugu\u00easa conservando seus velhos h\u00e1bitos, cidade feia e relaxada. Os portugu\u00eases s\u00e3o os donos, os pretos mantidos na ignor\u00e2ncia e servid\u00e3o. Durban, uma Inglaterra com outro clima, seus bondes el\u00e9tricos de dois andares como em Londres. Como era a primeira viagem do Hokoku-Maru, em cada porto davam recep\u00e7\u00f5es, grande mesa de doces, iguarias japonesas. Os principais da cidade eram convidados; divertia-nos ver subri pela escada os altos funcion\u00e1rios com suas fardas, as burguesas com suas filhas, aproveitando essa ocasi\u00e3o \u00fanica de se mostrarem. Achei Durban uma grande cidade, limpa, de com\u00e9rcio importante, com enormes vitrinas mostrando um casamento inteiro, a noiva e convidados. Os ingl\u00eases t\u00eam um fraco por essa cerimonia. Em grupos fomos fazer uma excurs\u00e3o nas montanhas, muito longe, onde havia ainda tribos de \u00edndios mansos vivendo em cho\u00e7as redondas de uma porta s\u00f3. Depois de certa hesita\u00e7\u00e3o o chefe apresentou suas esposas, um bando de mulheres de aspecto miser\u00e1vel, cabelos tingidos de vermelho e meticulosamente tran\u00e7ado com continhas de cor, penteados complicados &#8211; explicaram-nos que os cabelos assim arrumados duravam muitos anos. Muita crian\u00e7a barriguda e doentia. Viviam ali da ca\u00e7a e de alguns produtos que \u00edam vender na cidade. Os chefes estavam \u00e1vidos e discutiam com o int\u00e9rprete, quantos presentes tinham trazido. Port Elizabeth, s\u00f3 me lembro de seu longo e intermin\u00e1vel cais, que nos levou \u00e0\u00a0cidade, tudo novo e de mau gosto. Capetown, muito importante, toda ingl\u00easa, belas e grandes vitrinas s\u00f3 com mercadoria da metr\u00f3pole, um belo jardim bot\u00e2nico, com seus gramados bem tratados, copadas \u00e1rvores, que davam macias sombras. Vi pela primeira vez curiosas flores parecendo cabe\u00e7as de p\u00e1ssaros saindo de tufos de folhas escuras &#8211; soube que se chamavam aves do para\u00edso.<\/p>\n<p>Mais dez dias de mar e c\u00e9u. Uma bela manh\u00e3 avistou-se terra, umas long\u00ednquas tiras confundindo-se com o mar; s\u00f3 ao anoitecer \u00edamos chegar. Uma multid\u00e3o esperava o navio no cais, era a viagem de estr\u00e9ia, e todos queriam ver o enorme transatl\u00e2ntico japon\u00eas. Os hinos dos dois pa\u00edses se fizeram ouvir. oito dias ficou o Hokoku-Maru em Buenos Aires. Ficamos uma noite s\u00f3 no hotel e no dia seguinte o sr. Omori nos mandou buscar, donde fomos hospedados na Embaixada do Jap\u00e3o. Durante \u00easse tempo visitamos amigos, museus, etc. gostamos do aspecto de Buenos Aires, um tanto parecida com Paris. Logo foi o Uruguai e enfim Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Chegamos numa noite de chuvinha fina e pertinaz. Vieram ao nosso encontro o sr. Hasegawa, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nipo-Brasileira, alguns membros da Embaixada, escritores e jornalistas, Alexandre Konder, rep\u00f3rteres dos principais jornais do Rio, fot\u00f3grafos. J\u00e1 tinham not\u00edcias pelo Gaimusho de T\u00f3kio da nossa vinda e de nos dar o m\u00e1ximo de apoio. Arranjar local para fazer a exposi\u00e7\u00e3o foi um s\u00e9rio problema. O melhor era o Palace Hotel mas j\u00e1 estava tomado por mais de um ano. Foi preciso a influ\u00eancia do embaixador sr. Kudo para conseguirmos fazer a exposi\u00e7\u00e3o em novembro no Palace. Foi um sucesso &#8211;\u00a0 no dia do vernissage estavam presentes o embaixador e sra.; no centro da sala uma maravilhosa cesta de flores, onde pendiam, fitas comas cores japonesas, presente do embaixador. Intelectuais, jornalistas, artistas, pintores conhecidos e a melhor sociedade do Rio. Mas o que me encheu de intensa alegria foi rever uma querida e predileta amiga que havia conhecido, Maria Paula, h\u00e1 tantos anos, uma grande artista que sempre admirei; o tempo nada tinha alterado sua beleza e sua amizade.<\/p>\n<p>Foram muito apreciados os trabalhos de Riokai feitos em Paris e os castelos do Jap\u00e3o; a sua grande tela do Castelo de Himeji foi adquirida para a Embaixada. Meus quadros tamb\u00e9m tiveram muito \u00eaxito: as telas que tinha exposto em Paris e as cerejeiras do Jap\u00e3o; o sr. Osvaldo Teixeira, diretor do Museu Nacional de Belas Artes, adquiriu em nome do gov\u00earno para a galeria do museu, um trabalho de Riokai &#8220;Velho porto de Akashi&#8221; e um trabalho meu, &#8220;Pivoines&#8221;. Est\u00e1vamos nos orientando para vir a S\u00e3o Paulo, onde grandes dificuldades nos esperavam. N\u00e3o havia sala para expor. Alugamos por excessivo pre\u00e7o uma imensa sala do pr\u00e9dio Ita, na rua Bar\u00e3o de Itapetininga. Riokai teve que arrumar, mandar fazer reparti\u00e7\u00f5es com cavaletes, forrar de lona as paredes, por luz el\u00e9trica com grandes l\u00e2mpadas pois \u00easse local estava sujo e escuro &#8211; tivemos grandes despesas. Eu conhecia muitos pintores e amigos de antes, mas nenhum veio ao nosso encontro. Fiz uma confer\u00eancia sobre minha estada no Jap\u00e3o e toquei algumas m\u00fasicas de Kobune, compositor moderno do Jap\u00e3o na melhor r\u00e1dio de S\u00e3o Paulo, a R\u00e1dio Cruzeiro do Sul. A conselho de amigos oferecemos no dia da inaugura\u00e7\u00e3o, um coquetel com a presen\u00e7a do consul-geral do Jap\u00e3o sr. Narusse e dos funcion\u00e1rios do consulado; ficou repleto de visitantes. Artistas, jornalistas, pintores vieram para comer doces, as senhoras para mostrar os vestidos e sairem fotografadas nas revistas, podendo tamb\u00e9m se expandir, criticando os trabalhos.<\/p>\n<p>Terminada a exposi\u00e7\u00e3o em fins de 1940, fomos passar o primeiro de janeiro e mais dias em Registro, colonia japonesa para a cultura do arbusto do ch\u00e1. Ali Riokai iniciou uma s\u00e9rie de estudos, pintados a \u00f3leo sobre papel\u00e3o, permitindo \u00easse achado, fazer com mais rapidez e belo colorido paisagens e ruas do Brasil. Eu o acompanhava sempre e passava o tempo pintando. Voltando a S\u00e3o Paulo \u00eale foi com alguns amigos fazer uma viagem pelo Noroeste, expondo em v\u00e1rias cidades do interior onde a colonia japon\u00easa o acolheu com carinho. Eu fiquei em S\u00e3o Paulo: estava cansada e precisava me tratar. Ficamos em S\u00e3o Paulo at\u00e9 meados de abril, indo \u00e0\u00a0s v\u00eazes a Santos, que Riokai gostava de pintar e \u00e0\u00a0noite ir ao Cassino ver sumir m\u00e0gicamente sobre o pano verde somas fabulosas.<\/p>\n<p>O tempo que ficamos em S\u00e3o Paulo foi empregado em pintar fora, ruas, parques, enfrentando os transeuntes embasbacados; muitas v\u00eazes nos rodeavam tapando nossa vista, mas o que mais gost\u00e1vamos era pintar l\u00e1 de cima da janela dos arranha-c\u00e9us &#8211; com vistas amplas e magn\u00edficas e onde fic\u00e1vamos livres da curiosidade alheia.<\/p>\n<p>\u00c0 noite \u00edamos fazer visitas. O consul sr. Narusse nos ofereceu uma festa no consulado, seguida de grande jantar. Tive a alegria de ver no sal\u00e3o do consulado, um dos belos quadros de Riokai, adquirido pelo gov\u00earno japon\u00eas, trabalho que tinha figurado no Salon de outono de Paris, &#8220;Blanchisserie&#8221;.<\/p>\n<p>Pelo trem que nos levava ao Rio apreci\u00e1vamos a linda paisagem, com as paineiras em flor como buqu\u00eas cor de rosa&#8230; Ficamos uns dias no Natal Hotel da Cinel\u00e2ndia, onde habit\u00e1vamos um claro e luxuoso quarto que fazia esquina; depois fomos morar num apartamento \u00e0\u00a0rua S\u00e3o Clemente. Fomos \u00e0\u00a0Companhia Telefonica e no dia seguinte estava um empregado com dois telefones \u00e0\u00a0nossa escolha. Nossas vidas foram inteiramente dedicadas \u00e0\u00a0arte. Todos os dias sa\u00edamos pela manh\u00e3 com nossas caixas, pintando tudo quanto nos parecia interessante, ruas, panoramas, Copacabana, Paquet\u00e1, jardins, favelas, Urca, de Copacabana; a grande sala de jogo do Copacabana Palace era f\u00e9erica, \u00e0\u00a0noite com suas decora\u00e7\u00f5es branco e ouro, seus enormes lustres de cristal, hipnotizavam os olhos, o luxo em profus\u00e3o, as ricas toaletes das senhoras \u00e0\u00a0volta das mesas. S\u00f3 se via dinheiro no pano verde; e a diab\u00f3lica roleta sempre parando onde n\u00e3o se esperava era um dos para\u00edsos de Riokai.<\/p>\n<p>Frequent\u00e1vamos exposi\u00e7\u00f5es e festas na embaixada do Jap\u00e3o. Depois de cumprimentar o embaixador ao lado do retrato em grande do Imperador e da Imperatriz, nos amplos sal\u00f5es era servida grande mesa de iguarias, japon\u00easas e brasileiras. Os numerosos convidados formavam grupos na varanda, ou no jardim. Riokai f\u00eaz por essa ocasi\u00e3o a pedido do sr. A. Konder, a capa do livro &#8220;A imagem de bronze&#8221; de Nagayo (15), que estavam editando na Pongetti, a tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas de Konder. Hist\u00f3ria dos primeiros crist\u00e3os no Jap\u00e3o. Riokai f\u00eaz uma bel\u00edssima capa representando a hero\u00edna do romance com a medalha de bronze na m\u00e3o.<\/p>\n<p>(15) NAGAYO, YOSHIRO (1888 &#8211; 1961) escritor e dramaturgo. Entre suas obras destacam-se as pe\u00e7as &#8220;K\u00f5u to Ryuuh\u00f5&#8221; de 1917 e &#8220;Inadara no Ko&#8221; de 1920, e o romance &#8220;Takezawa Sensei to iu no Hito&#8221; de 1925. Tamb\u00e9m redigiu uma auto-biografia entitulada &#8220;Waga Kokoro no Henreki&#8221; em 1959 e durante anos contribuiu com a revista liter\u00e1ria &#8220;Shirakaba&#8221; (a b\u00e9tula branca). O livro ao qual Dona Helena se refere \u00e9 &#8220;Seid\u00f5 no Kirisuto&#8221;(o Cristo de bronze), de 1941.<\/p>\n<p>Uma resposta que n\u00e3o tardou a vir foi a do sr. Yokohama, amigo em Buenos Aires: dizia \u00eale ser favor\u00e1vel fazermos uma exposi\u00e7\u00e3o nessa cidade; era fins de maio, \u00e9poca boa para se expor na capital portenha. Riokai ficou contente ao receber essa not\u00edcia.<\/p>\n<p>A principal galeria de arte Muller, j\u00e1 tinha posto \u00e0\u00a0nossa disposi\u00e7\u00e3o para julho, diversas salas de sua galeria. Em fins de junho o navio cargueiro Toa-Maru nos depositou no cais gelado de Buenos Aires. O sr. Yokohama j\u00e1 estava \u00e0\u00a0nossa espera com seu confort\u00e1vel carro, que nos levou a uma boa pens\u00e3o, perto da Pra\u00e7a San Martin; nosso quarto dava para a rua, cada janela tinha uma sacada como em Paris, al\u00ed era tudo na penumbra, adeus ao sol do Brasil. Fomos logo apresentados \u00e0\u00a0 fam\u00edlia Yokohama, a sra. Matilde, muito simp\u00e1tica e inteligente. Argentina nata, cantora de talento, suas duas filhas Norma e Yolanda estudando na Universidade.<\/p>\n<p>O sr. Yokohama era um erudito em arte japon\u00easa e oriental. Foi uma grande sorte conhec\u00ea-los pois conservei at\u00e9 hoje \u00easses amigos sinceros, apreciadores da arte pura e cheia de personalidade de Riokai.<\/p>\n<p>No decorrer de julho abrimos a exposi\u00e7\u00e3o, com muito \u00eaxito, com a presen\u00e7a do embaixador do Jap\u00e3o, jornalistas, artistas e da melhor sociedade portenha. Riokai teve o merecido sucesso, por verdadeiros conhecedores da boa pintura &#8211; as velhas ruas de Paris encantaram os argentinos, os jornais deram-lhe os maiores elogios. Assim se referiam &#8220;Paris de Riokai Ohashi&#8221; \u00e9 aqu\u00eale que os turistas ricos n\u00e3o conhecem, s\u00e3o os velhos muros, com seus eloquentes cartazes, as velhas casas de linhas tr\u00e1gicas, as lojinhas pobres dos sub\u00farbios&#8221;&#8230; E eu feliz por v\u00ea-lo incensado. Quinquilas Martins, o mestre t\u00e3o querido nessa terra veio felicit\u00e1-lo; meus trabalhos tamb\u00e9m foram muito apreciados; a cr\u00edtica nos principais jornais me foi favor\u00e1vel, notando os quadros que eu tinha exposto no Sal\u00e3o dos Artistas Franceses em Paris, e as paisagens de cerejeiras do Jap\u00e3o. Dois quadros nossos foram oferecidos ao Museu Nacional de Belas Artes pela colonia japon\u00easa: &#8220;Boutique de Cicles&#8221;, bela tela com vermelhos vibrantes de Riokai e a minha &#8220;La coupe verte&#8221;, que tinha figurado no Sal\u00e3o de Paris, 1932.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o terminada, apesar de ser Buenos Aires de inverno rijo, \u00edamos pintar nas ruas, parques, o lindo jardim em frente \u00e0\u00a0Casa Rosada, Palermo, o imenso parque com belas alamedas e fizemos muitos croquis. Achamos Buenos Aires um pequeno Paris, harmonizando-se em cinza, com suas casas de poucos andares, todas no mesmo estilo, com balc\u00f5es de ferro forjado, um belo com\u00e9rcio de modas, sentia-se um gosto pronunciado pelas modas e decora\u00e7\u00f5es francesas; por tudo onde se \u00eda era no intuito de pintar, fotografar e filmar.<\/p>\n<p>Foi uma bela noitada de arte em que a sra. Yokohama se f\u00eaz ouvir num recital, com muito \u00eaxito, de m\u00fasica japon\u00easa. Al\u00e9m da arte Riokai e eu apreci\u00e1vamos os bons churrascos, o bom vinho, e as deliciosas ma\u00e7\u00e3s assadas.<\/p>\n<p>Tudo teria sido \u00f3timo se n\u00e3o fossem as m\u00e1s not\u00edcias divulgadas pelos jornais, entre o Jap\u00e3o e a Am\u00e9rica: a coisa culminou quando dezesseis navios mercantes japon\u00eases que iam passar pelo Canal do Panam\u00e1, foram impedidos por se achar o canal fechado, por ordem do gov\u00earno americano. Ficaram \u00easses navios alguns dias \u00e0\u00a0espera mas nada de as coisas se arranjarem e de novo voltaram ao Jap\u00e3o. A\u00ed foi piorando a situa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 estavam anunciando na ag\u00eancia que o \u00faltimo barco para o Jap\u00e3o seria o Buenos Aires- Maru; isso veio por verdadeiro transtorno em nossa vida. Que fazer diante dessa nova fase? Eu via a guerra de perto e preferia voltar ao Brasil. Riokai era confiante e achava que tudo se arranjaria, por via diplom\u00e1tica; queria por for\u00e7a voltar nesse \u00faltimo navio. Ficamos uns dias nessa terr\u00edvel luta; afinal cedi e nos meados de setembro tomamos o Buenos Aires-Maru, que estava atracado no cais fazia dez dias. Pela Calle Corrientes andavam grupos de japon\u00eases &#8211; alguns, Riokai tinha conhecido no Rio e em S\u00e3o Paulo. Ele estava todo feliz, dizendo &#8220;n\u00f3s tamb\u00e9m vamos&#8221;. Todo o dinheiro ganho com a venda dos quadros de Riokai e os meus foi febrilmente empregado nos \u00faltimos dias em roupas, objetos, at\u00e9 num piano e uma m\u00e1quina de costura port\u00e1til, a primeira exposta na cidade. Desde cedo ao anoitecer, que se comprava sem parar. No \u00faltimo dia adquirimos vinho, uisque, conservas, farinha, a\u00e7\u00facar pois do Jap\u00e3o vinham not\u00edcias que j\u00e1 n\u00e3o se encontravam mais \u00easses g\u00eaneros. Riokai estava t\u00e3o cansado que me disse antes de entrar no vapor: &#8220;Troque o resto de dinheiro em d\u00f3lares&#8221;. A tristeza me tinha invadido a alma; n\u00e3o quis ver o navio sair do cais; tinha a intui\u00e7\u00e3o que entrava no ciclo infernal da guerra.<\/p>\n<p>Foi uma triste viagem; nosso camarote era perto das privadas, permanecendo um cheiro infecto; a rota foi toda outra da que quando viemos, passando cinco dias depois pelo Estreito de Magalh\u00e3es. Desde que o navio entrou no estreito, andava t\u00e3o devagar que parecia parado, s\u00f3 montanhas de neve, o vento gelado soprando o dia todo, montes de g\u00ealo como castelos de cristal. Os habitantes dessa estranha selva nos seguiam de perto, enormes, gaivotas de plumagem escura. Riokai f\u00eaz uma s\u00e9rie de estudos dessas tristes e melanc\u00f3licas paisagens &#8211; entrou num barco de salvamento no &#8220;deck&#8221; de cima; ficava com o corpo gelado, pintando o dia todo; eu, com a garganta dilacerada por um cruel resfriado, a ponto de n\u00e3o poder mais engolir.<\/p>\n<p>A viagem prosseguiu entre mar e c\u00e9u at\u00e9 Yokohama. L\u00e1 estava toda a fam\u00edlia de Riokai \u00e0\u00a0nossa espera. Tinham vindo seus pais de Formosa; tive m\u00e1s not\u00edcias de Ashi\u00e1 (Ashiya) &#8211; logo pela minha sogra soube que o cachorro tinha sido esmagado por um caminh\u00e3o na noite anterior ao nosso embarque &#8211; chorei meu lulu; tamb\u00e9m, que meu belo casaco de rat musqu\u00e9 trazido de Paris, os bichos tinham inteiramente dado cabo d\u00eale pelo desleixo de Kyoko-san, a quem tinha recomendado cuidar. Yokohama &#8211; achei as ruas por onde passamos, de ordin\u00e1rio t\u00e3o concorridas, ermas, tudo fechado, o restaurante onde fomos nem arroz tinha. J\u00e1 n\u00e3o havia mais \u00easse produto. No dia seguinte est\u00e1vamos em Kobe, o cais deserto, a pol\u00edcia a bordo fazendo mil perguntas impertinentes. Alguns amigos vieram, mas estavam al\u00e9m do cais. Kobe, de costume t\u00e3o agitada e animada estava triste, todo o com\u00e9rcio fechado. depois da alf\u00e2ndega custou para se achar um t\u00e1xi.<\/p>\n<p>Nessa tarde de outono, da estrada que \u00eda de Kobe pelo Kokudo, os pl\u00e1tanos iam largando suas folhas vermelhas e amarelas, associando-se \u00e0\u00a0 minha tristeza&#8230; Alguns dias depois Riokai foi a T\u00f3kio para dar contas aos membros do Gaimusho do que t\u00ednhamos feito no Brasil; \u00eale f\u00eaz a esse respeito uma confer\u00eancia em que foi louvado; nossos trabalhos feitos durante a viagem ao Brasil e Argentina foram expostos no Mitsukoshi (16) mas todos tinham a opini\u00e3o voltada para a grande tens\u00e3o entre o Jap\u00e3o e a Am\u00e9rica; a guerra da China que n\u00e3o estava terminada; a arte ficava bem atr\u00e1s d\u00easses fatos importantes. Dois meses depois que chegamos era declarada a guerra, todos pensavam que \u00eda durar dias, mas durou anos.<\/p>\n<p>(16) MITSUKOSHI \u00e9 a maior rede de lojas de departamentos do Jap\u00e3o. Criada em 1673 por Takatoshi Mitsui em Edo (atual Tokyo) com o nome de Echigo-ya, a loja foi a origem da fortuna e posterior forma\u00e7\u00e3o do &#8220;zaibatsu&#8221; (conglomerado industrial e financeiro) da fam\u00edlia Mitsui. Em 1908 a empresa abriu uma grande loja de departamentos estilo europeu em Tokyo e atraiu consumidores organizando exposi\u00e7\u00f5es de arte. A rede foi rebatizada &#8220;Mitsukoshi&#8221; em 1928. Depois da Segunda Guerra e ap\u00f3s enfrentar dificuldades financeiras, a rede se recuperou financeira e comercialmente, enfatizando moda e arte. A partir de 1971, com a abertura de uma loja em Paris, a empresa se internacionalizou, com filiais em Roma, Dusseldorf e Singapura, especializando-se em expor obras de artistas contempor\u00e2neos japoneses, al\u00e9m de possuir 15 modernas lojas no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Em meados de 1942 houve um navio de troca de diplomatas e o consul A. de Magalh\u00e3es, que estava pr\u00easo em sua resid\u00eancia em Suma, p\u00f4s meu nome na lista de passageiros e me predisse o que \u00eda acontecer. Mas eu n\u00e3o tive a coragem de partir e deixar Riokai&#8230; Recusei essa ocasi\u00e3o \u00fanica por amor e fidelidade a meu marido&#8230; O pa\u00eds inteiro esperava a Vit\u00f3ria &#8211; eu nunca pensei que o Jap\u00e3o ganhasse; depois de quatro anos de guerra com a China, come\u00e7ar nova guerra com a Am\u00e9rica, foi uma diab\u00f3lica loucura inspirada por Hitler; foi \u00eale o causador da desgra\u00e7a do Jap\u00e3o, a sua sombra infernal.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s de nossa casa havia uma importante linha f\u00e9rrea, que \u00eda do norte ao sul do pa\u00eds; por ali passavam todos os dias os trens repletos de soldados que gritavam pelas porteiras Banzai (viva o Jap\u00e3o), os coitados, mal sabiam \u00eales que sair do Jap\u00e3o era morte certa; nenhum navio de guerra partia sem ser torpedeado mais adiante; as \u00e1guas japon\u00easas estavam infestadas de submarinos americanos. O Jap\u00e3o foi entristecendo, os mercados fechados, a ra\u00e7\u00e3o cada vez mais reduzida. Os jornais e o r\u00e1dio s\u00f3 anunciavam vit\u00f3rias.<\/p>\n<p>De fato, no princ\u00edpio o Jap\u00e3o conseguiu ir longe: Indo-China, Filipinas, Hong-Kong, todas as ilhas do Pac\u00edfico, a Mandch\u00faria mas foram vit\u00f3rias ef\u00eameras. O gov\u00earno militar s\u00f3 pregava \u00e0\u00a0popula\u00e7\u00e3o os maiores sacrif\u00edcios. N\u00e3o havia gasolina e foram todas as condu\u00e7\u00f5es suprimidas, os carros particulares tomados; s\u00f3 ficaram os bondes el\u00e9tricos, de longe em longe e os trens onde era quase por milagre que se conseguia entrar; al\u00e9m disso, para se viajar precisava-se de uma licen\u00e7a da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Eu e Riokai resolvemos pintar o que nos rodeava, paisagem era s\u00f3 por perto, as flores de nosso jardim, croquis, um posava para o outro; assim fiz o retrato de Riokai, de pulover azul, sentado perto de sua caixa de tintas &#8211; est\u00e1 no meu atelier e o vejo todos os dias. O que nos interessava na nossa vida era trocarmos id\u00e9ias; l\u00edamos muito, e coment\u00e1vamos nossas impress\u00f5es; os dias se passavam em Ashi\u00e1 entre o trabalho e o estudo, visita aos amigos que moravam perto, passeios de bicicleta \u00e0\u00a0beira-mar e a esperan\u00e7a de dias melhores. Houve ainda uma exposi\u00e7\u00e3o, que fomos ver no Daimaru (17), e Akashi de cris\u00e2ntemos; essas maravilhosas flores, belas como sempre, n\u00e3o conheciam os malef\u00edcios da guerra. Suas cores suaves e outras vibrantes de delicado perfume; h\u00e1 sociedades no Jap\u00e3o de cultivadores especialistas em cris\u00e2ntemos; muitos apresentam uma flor s\u00f3 de perfei\u00e7\u00e3o absoluta com suas folhas recortadas verde-escura, esmeralda. Desde a mais remota \u00e9poca, que o s\u00edmbolo imperial foi o cris\u00e2ntemo de ouro de dezesseis p\u00e9talas. Essa flor inspirou pintores e poetas, nas decora\u00e7\u00f5es de leques, quimonos, lacas e quantidade de objetos de arte.<\/p>\n<p>(17) DAIMARU \u00e9 uma rede de lojas de departamentos com sede em Osaka. Atuando hoje fortemente na \u00e1rea de supermercados e restaurantes, a Daimaru come\u00e7ou em 1727 em Kyoto como uma loja de roupas. Desde 1960 internacionalizou suas opera\u00e7\u00f5es, abrindo filiais em Hong Kong, Tail\u00e2ndia, Paris, Singapura e outros pa\u00edses. Atualmente est\u00e1 associada a outra grande empresa do varejo, a Matsuzakaya.<\/p>\n<p>1943 apareceu sombrio e triste, promissor para n\u00f3s das mais cru\u00e9is calamidades; a \u00fanica alegria que tive nesse funesto ano foi o dar dia 1\u00ba de junho no Instituto Franco-Japon\u00eas de Kyoto, um recital s\u00f3 de m\u00fasicas de clavecinistas franceses do s\u00e9culo XVIII. Depois de jantarmos a convite do diretor do Instituto, sr. Marcel Robert, desci \u00e0\u00a0 sala de conc\u00eartos onde havia um soberbo piano Erard. Fui muito aplaudida pelo audit\u00f3rio, que era composto quase s\u00f3 de estudantes. Quando voltamos para casa, Riokai, me beijando, disse: &#8220;voc\u00ea n\u00e3o sabe quanta alegria me deu voc\u00ea ao tocar ontem \u00e0\u00a0noite. Tirou v\u00e1rias fotos, com o grande buqu\u00ea de rosas que recebi.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante minha vida \u00eda para um triste destino. O \u00faltimo dia do calend\u00e1rio \u00eda me levar meu grande e incompar\u00e1vel amigo, o meu grande amor&#8230; Nos meados de julho come\u00e7ou \u00eale a ter estranhos dist\u00farbios que se localizavam na cabe\u00e7a, nos olhos, via manchas vermelhas e permanente dor de cabe\u00e7a; logo vieram outras perturba\u00e7\u00f5es cada vez mais graves. Em setembro fomos passar uns dias em \u00c1rima, lugar de altas montanhas com fontes de \u00e1gua fervendo; parecia que tudo concordava com a nossa ang\u00fastia, quando senti uma esp\u00e9cie de trovoada e em seguida fortes tremores e violentas sacudidelas. Compreendi que era um terremoto &#8211; nosso quarto dava para profundos abismos; Riokai estava deitado e eu petrificada pelo m\u00eado; minhas m\u00e3os pareciam garras que se tinham grudado n\u00eale. T\u00e3o calmo, \u00eale me dizia &#8220;vai passar, vai passar&#8221;&#8230; Pensava \u00eale melhorar com \u00easses banhos, mas qual, dali voltou pior. Os m\u00e9dicos n\u00e3o atinavam com a doen\u00e7a, mas quando tiraram as chapas da cabe\u00e7a, a terr\u00edvel mol\u00e9stia se revelou, tumor maligno no c\u00e9rebro. Eu n\u00e3o sabia que existia no mundo doen\u00e7a t\u00e3o medonha. Em outubro \u00eale foi internado no hospital da Universidade de Ossaka. Foram tr\u00eas meses de cruciantes sofrimentos, para \u00eale e para mim. Eu tinha uma amiga desde que cheguei ao Jap\u00e3o, Natsuko Ueno, que n\u00e3o me largou na desgra\u00e7a. Ficou me ajudando, compreensiva, falava a minha cunhada Kyoko-san que n\u00e3o me fizesse sofrer ainda mais com suas impertin\u00eancias. Devo muito a esta querida amiga; ficou para sempre na minha gratid\u00e3o. N\u00e3o havia recursos, rem\u00e9dios, m\u00e9dicos, nem mesmo alimentos nesse hospital; tudo estava voltado para a guerra.<\/p>\n<p>Dia 31 de dezembro a morte o levou. Eu fiquei muda, at\u00f4nita, n\u00e3o compreendendo nada, de tanto sofrimento in\u00fatil. Fiquei ali na casa triste e vazia vendo-o por todos os lugares e ouvindo sua voz me chamando no jardim&#8230;<\/p>\n<p>Eis o ep\u00edlogo de minha vida de arte no Jap\u00e3o, estreitamente unida \u00e0\u00a0vida e \u00e0\u00a0 arte de Riokai Ohashi.<\/p>\n<p>Vi\u00fava! Custei muito sobreviver a t\u00e3o grande infort\u00fanio. O sobradinho em que morava ficou triste, silencioso e no meu pensamento s\u00f3mente persistia Riokai, pois h\u00e1 poucos dias estava ali na cama e eu podia ainda ouvir sua voz. Agora pairava a terr\u00edvel verdade, o enigma estava m devorando.<\/p>\n<p>Como os dias eram longos&#8230; janeiro, o m\u00eas mais frio do Jap\u00e3o, com dias curtos e escuros. N\u00e3o podia fixar a aten\u00e7\u00e3o em coisa alguma, nem ler, nem pintar, at\u00e9 mesmo \u00easses ref\u00fagios me eram vedados. Assim passava o tempo s\u00f3zinha, pois senti como que abandonada mesmo pelos amigos quando sentem os estigmas da morte, a tristeza da alma&#8230; e ningu\u00e9m quer contato com \u00easses p\u00e1rias&#8230; Solid\u00e3o completa, passei v\u00e1rios meses no abandono. Minha cunhada Kyoko sumia e eu sentada no degrau da porta ficava tirando matinhos, como por ser inverno era raro. No jardim tudo era tristeza.<\/p>\n<p>A guerra persistia cada vez mais feroz. Passados alguns dias fomos levar as cinzas de Riokai \u00e0\u00a0Hikone, no templo em que \u00eale conhecia o Bonzo. No Jap\u00e3o existe um costume que sempre achei horr\u00edvel: depois da incinera\u00e7\u00e3o repartem as cinzas do morto entre os membros da fam\u00edlia que a depositam dentro de um saquinho no orat\u00f3rio da casa e o restante atiram num templo comum em Kyoto. Empenhei-me para que o guardassem inteiro em Hikone as cinzas de Riokai, pois sempre tive horror a essas coisas f\u00fanebres e para tratar disso imenso foi meu sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Para ir a Hikone nesses malditos templos era uma dificuldade, tomava-se o trem at\u00e9 Kyoto, l\u00e1 baldeava-se para um outro comboio at\u00e9 atingir Hikone. Os trens iam apinhados, bombardeavam as linhas e levavam muito tempo para consert\u00e1-las. Hikone era uma pequena cidade da prov\u00edncia e eu, estrangeira era logo notada, apesar de estar acompanhada pelo meu cunhado e Kyoko-san, ficavam pasmados ao me verem.<\/p>\n<p>Fomos v\u00e1rias v\u00eazes para as cerimonias do templo. Para a volta era duvidoso conseguir lugar no trem que vinha superlotado de longe e parava muito pouco. Certa vez viajei no lugar em que os vag\u00f5es se unem, de p\u00e9 e sacudida pelo correr das rodas, chegando em Kyoko desfalecida.<\/p>\n<p>A minha distra\u00e7\u00e3o em casa era a de colh\u00ear nas montanhas as flores de pinho que o vento fazia cair e que se encontravam perto das c\u00earcas. Serviam para fazer fogo na cozinha, pois n\u00e3o havia g\u00e1s, nem eletricidade, nem lenha, nem carv\u00e3o e nem mesmo f\u00f3sforos, tendo-se que empregar o sistema milenar de atrito entre duas pedras para se conseguir uma fa\u00edsca.<\/p>\n<p>Ia-se ficando cada dia mais pobre e miser\u00e1vel. Ra\u00e7\u00e3o s\u00f3 tinha o nome, j\u00e1 n\u00e3o davam mais nada e cada um que se arranjasse para n\u00e3o morrer de fome.<\/p>\n<p>Conhecia uma Senhora, cujo marido tinha trabalhado no escrit\u00f3rio de uma companhia em S\u00e3o Paulo. Apiedou-se de mim e, \u00e0\u00a0s v\u00eazes, ia eu \u00e0\u00a0sua casa para ver se o &#8220;hiakucho&#8221; (campon\u00eas) havia trazido alguma coisa. \u00c0s v\u00eazes vinham verduras, nabos, couves, batatas e quando se tinha muita sorte tamb\u00e9m ovos. Levava \u00eale essas coisas numa mala de roupas e de madrugada para disfar\u00e7ar. A boa amiga dividia comigo algumas verduras, entretanto para eu chegar \u00e0\u00a0 sua casa era um n\u00e3o acabar de perigos. Tomava um trem na linha de Hankin, o qual vinha repleto. Era preciso entrar de gatinhas por entre as pernas dos passageiros! Estava eu protegida por um capuz e uma capa acolchoada, a fim de atenuar os estilha\u00e7os em caso de bombardeio. Levava uma sacola pr\u00easa \u00e0s costas com os meus documentos, j\u00f3ias e rem\u00e9dios, pois n\u00e3o sabia se ao voltar encontraria minha casa no lugar.<\/p>\n<p>O trem passava por uma ponte estreita, sobre um rio s\u00eaco e cheio de pedras. Pelo fato de estar superlotado inclinava-se perigosamente e eu fechava os olhos de m\u00eado. Chegando a Nishinomi\u00e1 (Nishinomiya), esta\u00e7\u00e3o de entroncamento de linhas, demorava um bom tempo e assim eu podia ver as fundas covas por toda parte, \u00e0s quais chamavam de abrigos. S\u00f3mente terra e nenhuma cobertura. Houvesse algum aviso de avi\u00f5es inimigos e todos teriam que sair do trem e ajeitar-se ali. Quando as bombas caiam naqueles buracos soterravam os abrigados.<\/p>\n<p>Em Kobe existia uma rua comprida e larga que ia do centro at\u00e9 as montanhas e de um lado e outro s\u00f3 existia essa esp\u00e9cie de abrigo. Durante a noite muita gente ali caia e n\u00e3o mais podia sair.<\/p>\n<p>N\u00e3o havendo nenhum aviso de avi\u00f5es inimigos o trem novamente se movia. Descia eu em Mokudonosor, andava meia hora a p\u00e9 at\u00e9 a casa daquela amiga. \u00c0s v\u00eazes, o tal camponio que trazia as verduras n\u00e3o tinha vindo. O meu cora\u00e7\u00e3o batia quando ela dizia: veio! Levava uma trouxa que punha sobre a cabe\u00e7a e a\u00ed come\u00e7ava o supl\u00edcio do m\u00eado. J\u00e1 ia escurecendo e todo homem que eu visse, mesmo de longe, me gelava, pensando ser da pol\u00edcia civil. Era b\u00e1rbaro o que se contava ac\u00earca de pessoas que tinham sido apanhadas com alimentos de qualquer esp\u00e9cie. Eram levadas \u00e0\u00a0delegacia e de l\u00e1 \u00e0\u00a0s pris\u00f5es, tanto as que compravam como as que vendiam, sendo confiscado o produto.<\/p>\n<p>Chegando novamente em Mokudonosor (esta\u00e7\u00e3o perto de Ossaka) esperava o trem. Era preciso, por\u00e9m, que n\u00e3o houvesse bombardeios nessa cidade, caso contr\u00e1rio s\u00f3 teria condu\u00e7\u00e3o no dia seguinte e eu na plataforma tremia de terror, com meu capuz, capa acolchoada e cal\u00e7as, com um calor de trinta e cinco graus. Mas, pensava eu na minha preciosa trouxa que trazia, nos nabos, cenouras, batatas&#8230; e dizia lamentando: Senhor! porque vim? poderia ter evitado \u00easse perigo e \u00easses sustos!<\/p>\n<p>N\u00e3o chegando o comboio de Ossaka teria que passar a noite em um daqueles buracos a que chamavam de abrigos. N\u00e3o, nunca mais virei! E nisto o trem aparecia numa curva e logo me enfiava por entre as pernas dos que estavam em p\u00e9, com meu fardo.<\/p>\n<p>L\u00e1 ia eu pelo mesmo caminho, parando em cada esta\u00e7\u00e3o at\u00e9 chegar a Ashi\u00e1, onde eu fazia um supremo esfor\u00e7o para poder sair do trem ficando novamente na plataforma. Kyoko me esperava com a bicicleta e pondo tudo em cima da mesma e sem dar uma palavra ia-se andando at\u00e9 a casa. Muitos me perguntavam porque Kyoko San n\u00e3o ia em meu lugar. Ela, por\u00e9m, preferia morrer de fome e expor-se como eu a sustos de toda sorte.<\/p>\n<p>Comendo o menos poss\u00edvel, tinha-se alimento por alguns tempos. Os dias de 1944 passavam vagarosos e incertos e eu me recordava de meu recente passado, para isso tinmha lazer.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que Riokai tivera o horr\u00edvel pressentimento de seu pr\u00f3ximo fim? No triste ano de 1943, \u00eale que nunca havia feito nenhum autorretrato, f\u00eaz diversos a \u00f3leo, desenhos a s\u00e9pia onde se representava com uma express\u00e3o atormentada. Outra coisa in\u00e9dita, eu sempre detestei seguros de vida, o gov\u00earno estava fazendo propaganda para que todos fizessem. N\u00e3o queria que Riokai aderisse. Um dia bateram \u00e0\u00a0porta e \u00eale atendeu; um empregado da companhia de seguros, disse-me depois que \u00eale o fizera em meu nome. Fiquei triste&#8230;<\/p>\n<p>Uma coisa a que nunca me acostumei no Jap\u00e3o foi com os terremotos. Certa ocasi\u00e3o acordei com as trovoadas subterr\u00e2neas e logo depois a casa come\u00e7ou a mexer-se. Um grande terremoto para mim foi o de Ossaka. Ao chegar no Matsuzakay\u00e1, ouvi como que uma verdadeira orquestra, produzida pelos vidros das janelas de todos os andares. Olhando para o forro, vi-o mexendo, tamb\u00e9m as portas e o edif\u00edcio todo vibravam. Estava eu gelada de terror e queria fugir para a rua, mas me agarraram dizendo que f\u00f3ra era muito mais perigoso. Os telefones rompidos e nada de eu poder comunicar-me com Riokai.<\/p>\n<p>Todos \u00easses fatos nada eram em minha vida atual. Ver todos os dias o meu pequeno atelier vazio e desolado e tudo quanto \u00eale tanto amara. Tanto z\u00ealo. sua caixa de pintura, tintas, pinc\u00e9is, roupas, no quartinho pegado durante muito tempo n\u00e3o entrei, ali estava tudo o que \u00eale tinha tanto ap\u00eago&#8230; que coisa cruel a morte. Nada se leva do que tanto se ama. Muitas v\u00eazes pensei em sair dessa casa, mas como n\u00e3o havia meios de se arranjar outra tive que ficar \u00e0 for\u00e7a nessa sinistra morada, onde tudo me lembrava minha recente trag\u00e9dia. Tudo a respeito da guerra ia piorando durante \u00easse ano de 1944. Em junho fiz exposi\u00e7\u00e3o das telas de Riokai no Daimaru de Ossaka e apesar da guerra foi concorrida, vendi uns quadros. Ainda em outubro de 1944, fiz em T\u00f3kio no Mitsukoshi, a exposi\u00e7\u00e3o dos quadros de Riokai, tendo sido um fato her\u00f3ico na minha vida. Eu e minha cunhada Kyoko fizemos a embalagem, costuramos as telas com lona e tivemos que carregar todo \u00easse p\u00easo at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o que formigava de gente que esperava dias para embarcar. Uma horr\u00edvel confus\u00e3o passei com aqu\u00eales embrulhos e mais uma sacola \u00e0\u00a0s costas com alimentos para uns dias, e a ang\u00fastia de n\u00e3o poder embarcar. S\u00f3 mesmo a t\u00edtulo de promessa tentava-se semelhante viagem!<\/p>\n<p>Tanuki (texugo)! foi a \u00faltima alegria que dei a Riokai, quando \u00eale voltou do hospital em vinte de dezembro de 1943. Como \u00eale gostava muito de cachorros, fui a Kobe e ainda encontrei uma casa que vendia animais, ningu\u00e9m queria, como nutr\u00ed-los? Comprei um cachorrinho de pura ra\u00e7a japon\u00easa Nihon-Ken, lindo, cor de p\u00e3o torrado, orelhas triangulares e t\u00easas, focinho pr\u00eato. Custei a trazer \u00easse bicho no trem, comprimido e de p\u00e9, mas Riokai ficou t\u00e3o contente que compensou e, meu cunhado Hideo a dizer que eu estava louca em trazer \u00easse c\u00e3o. Coitado, sofreu horrores durante a guerra, conheceu os tormentos da fome! At\u00e9 roupas, toalhas, meias, pap\u00e9is, tudo sumia e depois eram encontrados nos escrementos. Ficou s\u00f3 com a pele nos ossos, esquel\u00e9tica e por algum tempo foi preciso escond\u00ea-lo, pois quem possuia animais precisava d\u00e1-los ao gov\u00earno, suas peles eram utilizadas para agasalhos dos soldados.<\/p>\n<p>Os americanos a partir de 1945 vinham cada vez mais a mi\u00fado bombardear as cidades abertas, primeiramente Nagasaki, Tokio, Yokohama, Nagoya, Kobe, Ossaka e Hiroshima por \u00faltimo.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio s\u00f3 vinham \u00e0\u00a0noite e a pouco e pouco a qualquer hora ouvia-se um tremendo ronco e bombardeios. O troar dos canh\u00f5es anti-a\u00e9reos enchendo o ar de terr\u00edveis estrondos. Nos \u00faltimos meses antes do armist\u00edcio as incurs\u00f5es de avi\u00f5es inimigos B-28 vinham em grupos de trezentos, num barulho infernal, voando perto dos telhados, jogando bombas incendi\u00e1rias a torto e a direito sobre quarteir\u00f5es inteiros residenciais. Vi certa noite arder em alucinante fogueira Kobe! N\u00e3o davam o menor valor \u00e0s vidas humanas e mal se sabia quando terminava o dia ou a noite. Al\u00e9m disso n\u00e3o havia alimentos de modo algum, mas a ang\u00fastia era tanta com os tremendos inc\u00eandios que n\u00e3o se pensava em comer. Eu s\u00f3 queria salvaguardar as pinturas de Riokai, pois esperava que minha casa ardesse. Pedi para alguns amigos ricos de Ashi\u00e1 que guardassem num quarto especial as telas de meu Riokai. Tamb\u00e9m havia conseguido por meio de amigos, numa ro\u00e7a longe, lugar para meu piano de cauda numa estrebaria. J\u00e1 estava tudo combinado. O campon\u00eas deveria vir busc\u00e1-lo em um carro de bois, mas quando \u00eale soube que eu era estrangeira n\u00e3o quis mais!<\/p>\n<p>Dia cinco de agosto Ashi\u00e1 foi quase que totalmente arrasada. Eu tinha passado a noite com uns amigos perto da praia e vi de perto as labaredas que cresciam de todos os lados, o crepitar do fogo, que faz sumir tudo. Pensei que iria ficar nessa noite medonha. O mundo inteiro soube da terr\u00edvel calamidade que aconteceu em Hiroshima, menos no Jap\u00e3o. Os jornais deram uma not\u00edcia \u00ednfima sobre uma bomba que havia aniquilado algumas pessoas, quando foram destru\u00eddas em alguns segundos duzentas e cinquenta mil vidas f\u00f3ra os doentes que at\u00e9 hoje permanecem. Felizmente essa monstruosa verdade n\u00e3o foi divulgada. Ter-se-ia morrido de horror.<\/p>\n<p>Dia quinze de agosto veio por um t\u00earmo a essa devasta\u00e7\u00e3o de cidades e vidas. O Armist\u00edcio! A paz incondicional!<\/p>\n<p>Ao meio-dia falou o imperador Hirohito. Parece que ningu\u00e9m compreendeu, t\u00e3o ruim estava o aparelho. Ningu\u00e9m acreditava, grupos de homens e mulheres andavam pelas ruas em ru\u00ednas chorando e dizendo: perdemos a guerra! Ainda ontem afirmavam que todos nossos sacrif\u00edcios iam ser compensados pela vit\u00f3ria. Enganaram-nos! Mas, todos estavam t\u00e3o cansados que nem se podiam crer nessa t\u00e3o grande sorte de n\u00e3o ter mais os cru\u00e9is bombardeios. Ficava-se dormindo o dia todo, n\u00e3o se podia crer na del\u00edcia de n\u00e3o ser metralhado.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias antes do armist\u00edcio n\u00e3o se podia mais sair de casa&#8230; e nem entrar: metralhavam a gente a domic\u00edlio! J\u00e1 se podia comprar alguma coisa: nabos ou couves no mercado negro, sem ser pr\u00easo e muito tempo se passou assim.<\/p>\n<p>Por toda parte s\u00f3 ruinas, lixo, moscas e ratos invadiam o forro das casas e de l\u00e1 caia sobre a gente um p\u00f3 pr\u00eato movente, eram as pulgas provenientes da urina dos ratos e provocavam coceira no pesco\u00e7o e inflama\u00e7\u00f5es pelo corpo. Kobe era um monte de lixo.<\/p>\n<p>tudo o que n\u00e3o havia sido aniquilado estava fechado. Viam-se fam\u00edlias inteiras, encostadas nas paredes da esta\u00e7\u00e3o. Ficavam ali sem alimento, sem amparo, sem lar. Tinham perdido tudo e muitos morriam de fome \u00e0\u00a0espera da Divina Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>As tropas de ocupa\u00e7\u00e3o americanas entraram depois de meses. Eu tinha ido a Suma e na volta passando por Kobe foi que, precipitadamente fecharam as portas da esta\u00e7\u00e3o e come\u00e7aram entrar os batalh\u00f5es americanos. Os mais valentes na frente, barbudos e de mais catadura, empunhando os fuz\u00eds e arrastando canh\u00f5es e apetrechos de guerra. Temiam repres\u00e1lias do povo, mas nada. Toda gente fugia e tinha m\u00eado d\u00eales. Depois chegaram as tropas negras, batalh\u00f5es intermin\u00e1veis. Os japon\u00eases estavam apavorados, nunca tinham visto pretos. Pouco a pouco o Jap\u00e3o inteiro encheu-se de soldados americanos, nas cidades e ro\u00e7as, por toda parte onde se ia l\u00e1 estavam \u00eales de farda caqui, bem alinhados, bem cal\u00e7ados, bem nutridos. Tinham pulseiras de rel\u00f3gio, an\u00e9is com pedras de cor e diziam que era o gov\u00earno japon\u00eas que pagava tudo isso, inclusive os bord\u00e9is! Corriam de jipes e andavam, nas farras. As mo\u00e7as se entregavam em troca de alimentos, eram s\u00f3 festas, bailes e ao lado, diante de nossos olhos, fam\u00edlias inteiras morrendo de fome. Comecei a visitar meus amigos, o sr. Harada e fam\u00edlia que tinha sido um \u00f3timo amigo de Riokai e que muito me ajudou. A m\u00e3e de uma boa aluna, a sra. Matsui, o pintor Koisso, o poeta Takenaka, perderam tudo nos alucinantes inc\u00eandios de Kobe. A sra. Celeste Cabral, esposa do consul de Portugal, os Coutos que moravam perto de Kobe, Henriette Hauchecorne que era professora no Instituto Franco-Japon\u00eas de Kyoto.<\/p>\n<p>Tive como alunos de pintura dois oficiais americanos. Um d\u00eales falava o franc\u00eas, o sr. Ide. Eram t\u00e3o altos que se abaixavam para poderem entrar na porta de minha casa, pagavam as aulas com maravilhosas ra\u00e7\u00f5es. Passei a conhecer as melhores conservas americanas, per\u00fas inteiros. Era s\u00f3 aquecer no banho-maria e tinha-se um fumegante bolo, delicioso e macio. Bombons de chocolate, caixas inteiras de cigarros. Fazia anos que tinha me esquecido dessas do\u00e7uras da vida&#8230; Eu e minhas cunhadas com\u00edamos e ainda dava para presentear meus amigos japon\u00eases. Ficaram um ano comigo \u00easses alunos, eram gentis e bem educados. Apresentaram-me ao Comandante em Chefe das tropas de Kobe, sr. Kutcheon que gostava de pintura e que me comprou v\u00e1rias telas de flores, o que me ajudou viver por mais dois anos. Tamb\u00e9m arranjou para que eu expusesse meus quadros em Yokohama no grande hotel, mas nada vendi.<\/p>\n<p>Como minha casa n\u00e3o tinha queimado, ia vendendo os cortes de l\u00e3 que trouxera de Buenos Aires, a p\u00easo de ouro e assim ia vivendo onde tudo subia de pre\u00e7o devido a terr\u00edvel infla\u00e7\u00e3o. Tinha tamb\u00e9m uns alunos de piano, mas isso nada rendia.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca produzi muito pouco, estava desanimada e desamparada, apesar de Riokai ter me deixado uma provis\u00e3o de telas, tintas, pinc\u00e9is em quantidade suficiente para abrir um com\u00e9rcio. At\u00e9 hoje tenho parte d\u00easses materiais. essa fartura, por\u00e9m, estava longe de me estimular.<\/p>\n<p>Fiz uma exposi\u00e7\u00e3o de trabalhos meus em Kobe a convite de uns colegas, que se encarregaram de armar a exposi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m nada vendi.<\/p>\n<p>Pintava paisagens pelos arredores, mas t\u00e3o triste e sempre com Riokai no pensamento&#8230; O \u00faltimo ano em que pintei foi 1948, perto de Takarazuka, Shu-Kugawa. S\u00f3 pensava nas obras deixadas por Riokai, sua carreira brutalmente rompida. Meu cora\u00e7\u00e3o dizia que s\u00f3 eu poderia salvar do esquecimento seus trabalhos, escrevendo sua vida, publicando suas obras. Essa id\u00e9ia cada vez tomava mais for\u00e7a, at\u00e9 tornar-se uma realidade.<\/p>\n<p>Os obst\u00e1culos eram grandes, n\u00e3o tinha meios, ficava car\u00edssimo, em tudo surgiam dificuldades. N\u00e3o havia papel nem mesmo no c\u00e2mbio negro, placas de metal para impress\u00e3o, cores, gente especializada para \u00easse trabalho de arte. Tudo estava desorganizado.<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha feito um esbo\u00e7o sobre a vida de Riokai em franc\u00eas. Estive v\u00e1rias v\u00eazes em Tokio, voltando sempre decepcionada, pois v\u00e1rias telas que desejava reproduzir em cores com tradu\u00e7\u00e3o em japon\u00eas nenhum literato queria fazer. Todos os dias trabalhava nessa obra que para mim era gigantesca, pois minha sa\u00fade ia mal e no m\u00eas de abril pensei que fosse meu fim. Uma crise card\u00edaca como nunca havia tido e que curei sem rem\u00e9dio algum. Vieram m\u00e9dicos, mas as farm\u00e1cias continuavam fechadas e vazias.<\/p>\n<p>Restabelecida, continuei vendendo tudo quanto podia para a publica\u00e7\u00e3o do livro. O sr. Marcel Robert, diretor da Casa Franco-Japon\u00easa de Kyoto, muito me ajudou nessa tarefa apresentando-me ao grande escritor Mijamoto Massakio que aceitou fazer a tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outubro de 1947 tive a imensa satisfa\u00e7\u00e3o de ver o belo livro com algumas obras de Riokai Ohashi, publicado pela editora de livros de arte Nippon Insatusu Cie. de Kyoto. Foi uma alegria t\u00e3o grande que me compensou de todos os tormentos, d\u00favidas, dificuldades incr\u00edveis que cercaram a publica\u00e7\u00e3o d\u00easse livro e que considero um triunfo na minha vida.<\/p>\n<p>Na primeira exposi\u00e7\u00e3o do livro franc\u00eas, depois da guerra, foi exposto juntamente com as telas &#8220;ruas&#8221; de Paris, na casa Franco-Japon\u00easa de Kyoto. Para a inaugura\u00e7\u00e3o veio o embaixador e v\u00e1rios diplomatas franc\u00eases a quem vendi algumas ruas de Paris que foram muito apreciadas por \u00eales.<\/p>\n<p>Nesse mesmo ano comprei a casa onde morava em Ashi\u00e1, vendendo os cortes de l\u00e3 e mais um brilhante que foi de minha m\u00e3e. Tudo se comprava e se vendia por verdadeiras fortunas.<\/p>\n<p>O que me preocupava era n\u00e3o poder ler os caracteres chin\u00eases e n\u00e3o poder escrever. Falava o suficiente para me fazer compreender, por\u00e9m isso n\u00e3o bastava e tinha sempre que pedir a outros para escrever e me explicarem a resposta.<\/p>\n<p>Nada de receber not\u00edcia do Brasil, o que me aumentava a tristeza e a id\u00e9ia de abandono. Muitos japon\u00eases que conhecia e vizinhos recebiam pacotes e cartas pela Cruz Vermelha, s\u00f3 para mim \u00e9 que nada vinha! Certo dia, por\u00e9m, recebi num pacote um verdadeiro tesouro. Tinha de tudo, tudo o que eu tanto desejava: sab\u00e3o, a\u00e7\u00facar, ch\u00e1, caf\u00e9, f\u00f3sforos, agulhas, coisas preciosas, e tempos depois mais outro pacote. Eram meus bons e generosos amigos de Buenos Aires, sr. e sra. Yokohama que me mandaram pensando na minha extrema pen\u00faria. A primeira carta que recebi do Brasil foi de uma querida amiga, Maria Paula de Barros Monteiro, uma carinhosa missiva me sugerindo voltar. Mas como? N\u00e3o havia navios para o Brasil, tinha que se ir via S\u00e3o Francisco atravessar a Am\u00e9rica at\u00e9 New York e dal\u00ed esperar um navio at\u00e9 o Brasil.<\/p>\n<p>As dificuldades eram enormes, imposs\u00edveis, incr\u00edveis. A verdadeira batalha que empreendi foi arranjar licen\u00e7a para fazer o passaporte que levou um ano e meio para conseguir.<\/p>\n<p>Vendi a casa e meu belo piano de cauda. Adquiri uma casinha que estavam construindo para minha cunhada Kyoko para n\u00e3o a largar na rua. Dei-lhe as mob\u00edlias, a m\u00e1quina de costura, e algum dinheiro no banco deixei uma parte dos quadros de Riokai que n\u00e3o podia trazer, em prateleiras bem arrumadas na sala da frente.<\/p>\n<p>Que tristeza dividir, liquidar tudo o que foi meu doce e tr\u00e1gico passado: pinturas, livros, roupas, objetos de Riokai me falavam com eloqu\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>O sr. Kodera, prefeito de Kobe, antes que eu partisse (um senhor de idade que conhecia e apreciava o Brasil) me incumbiu de levar duas riqu\u00edssimas bonecas japon\u00easas com quimonos bordados a ouro, dentro de suas caixas de vidro &#8211; uma para o Prefeito do Rio de Janeiro, sr. Mendes Moraes, outra para o Prefeito de S\u00e3o Paulo, sr. Asdrubal E. da Cunha e uma menos importante para mim. Tamb\u00e9m me deu para entregar oficialmente duas cartas, uma a cada Prefeito.<\/p>\n<p>Os dias iam se acabando. Tive que ir, devido ao passaporte, diversas v\u00eazes a tokio, pois era do Quartel General Americano que saia a ordem de embarque, mas n\u00e3o era muito certo, havia gente que no \u00faltimo momento ficava impedida de embarcar. Os exames m\u00e9dicos eram minuciosos e durante um m\u00eas tive que ir a Kobe fazer toda sorte de inje\u00e7\u00f5es contra var\u00edola, tifo negro, peste bubonica, febre amarela&#8230; algumas me levaram para a cama com mal-estar e febre alta. Al\u00e9m disso radiografia dos pulm\u00f5es, exame de fezes minucioso, porque em caso de vermes era proibido embarcar; exame de sangue e ginecol\u00f3gico (felizmente fui isenta. Era o gov\u00earno americano que exigia todos \u00easses exames).<\/p>\n<p>Os japon\u00eases n\u00e3o podiam sair do Jap\u00e3o e aos poucos estrangeiros que queriam sair, criavam toda sorte de dificuldades.<\/p>\n<p>Todos os dias vinham jornalistas para me entrevistar e eu ocupad\u00edssima com numerosa bagagem espalhadas pela casa. N\u00e3o tardou que eu tivesse uma gripe das bravas que me levou \u00e0\u00a0cama com febre alta, garganta esfolada, dor de cabe\u00e7a alucinante. Pensei n\u00e3o poder embarcar e minhas cunhadas foram colocando de qualquer jeito nas malas o que estava pelo ch\u00e3o. Isto me causou depois s\u00e9rios transtornos, pelos documentos necess\u00e1rios que eu n\u00e3o achava mais, pensando t\u00ea-los perdido.<\/p>\n<p>Dia 19 de mar\u00e7o de 1949 amanheceu com um vento gelado e tempestade de neve. Fiz um esfor\u00e7o supremo para vestir-me e arrumar as maletas e dizer adeus a Tanuki. J\u00e1 estava na porta o autom\u00f3vel da sra. Matsui me esperando, que me levou at\u00e9 o cais.<\/p>\n<p>Os flocos de neve enchiam o ar e as montanhas de Ashi\u00e1 estavam todas brancas. Nesse triste cen\u00e1rio meu cora\u00e7\u00e3o silenciosamente chorava. Adeus Ashi\u00e1, adeus Riokai querido&#8230; fui t\u00e3o feliz e infeliz nesses s\u00edtios. Tiritava eu no meu palet\u00f3 de raposa, com um len\u00e7o na cabe\u00e7a e minha febre. A gripe estava se instalando em mim por quase um m\u00eas.<\/p>\n<p>No cais foi que vi o cargueiro holand\u00eas &#8220;Straat-Malakka&#8221; que iria me levar ao Brasil em tr\u00eas meses e uma semana.<\/p>\n<p>De todos os lados surgiam amigos vindos de longe. Recebi um enorme ramalhete de cravos vermelhos que ainda mais me entristeceu. Um embarque assim para quem nunca mais volta tem alguma coisa de f\u00fanebre.<\/p>\n<p>Subi a escada. Meus amigos passaram a tarde comigo at\u00e9 o gongo dar o sinal da partida. A\u00ed foram as despedidas definitivas e minha tristeza e ang\u00fastia pioraram meu estado.<\/p>\n<p>O &#8220;Straat-Malakka&#8221; ia se afastando do cais e a \u00fanica passageira no conv\u00e9s era eu com olhos inchados de tantas l\u00e1grimas e agitando o len\u00e7o em um \u00faltimo adeus. Uma nova vida come\u00e7ava para mim.<\/p>\n<p>O meu camarote ara grande, todo branco e novo, com uma janela para o mar. Os &#8220;boys&#8221; eram chineses e falavam muito pouco o ingl\u00eas.<\/p>\n<p>No dia seguinte aportamos em Nagoya e recebi a visita de um casal amigo, sr. e sra. Hatia que conheci no Rio em 1940. Eram ricos industriais que me contaram as m\u00e1goas que haviam passado durante a guerra e que tinham perdido tudo. E agora n\u00e3o os deixavam voltar ao Brasil. Estavam passando verdadeira mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Sentia-me cada vez pior, parecia que me haviam raspado a garganta e j\u00e1 n\u00e3o podia engolir, uma tosse violenta que levaria dias e noites sem cessar.<\/p>\n<p>Yokohama me reservava ainda tristes momentos. Toda a fam\u00edlia de Riokai ali veio: meu sogro, minha sogra, minhas cunhadas e o irm\u00e3o de Riokai, Hideo. Estava eu de cama e todos tristes choravam. A minha sogra f\u00eaz-me prometer que voltaria depois de um ano. Coitados! Todos \u00eales foram bons para mim. Senti-me, com tantas emo\u00e7\u00f5es, acabrunhada que meu estado piorou depois que \u00eales sairam. Mandei chamar o m\u00e9dico de bordo, um chin\u00eas mi\u00fado e s\u00eaco que me disse em p\u00e9ssimo ingl\u00eas que eu estava passando muito mal e que precisava sair do navio, por n\u00e3o haver acomoda\u00e7\u00f5es para doentes.<\/p>\n<p>Isso me transtornou. Depois de haver liquidado tudo no Jap\u00e3o fiquei curtindo minha nova ang\u00fastia, quando bateram \u00e0\u00a0porta. Fui abrir. O Comandante, alinhado na sua farda azul, cort\u00eas e falando correntemente o franc\u00eas, depois de sentar-se disse-me: &#8220;Ouvi dizer que a Sra. quer descer do navio, \u00e9 verdade?&#8221; Apressei-me em responder: N\u00e3o, Sr. Comandante! Estou bem melhor e de modo algum quero sair, interromper uma viagem que esperei anos para realizar. Respondeu-me \u00eale: &#8220;Fique sossegada, pois s\u00f3 eu posso fazer descer um passageiro!&#8221;<\/p>\n<p>Depois de ouvi-lo melhorei. Passei alguns dias deitada sem trato algum, sem comer e sem beber, tossindo sem parar. Pensava com serenidade: o mar ser\u00e1 meu t\u00famulo.<\/p>\n<h2>CHANGHAI<\/h2>\n<p>Em Changhai n\u00e3o desci. No sal\u00e3o estavam as autoridades chinesas de Chankai Chek (Chiang Kai-shek).\u00c9ramos s\u00f3 dois passageiros: eu e um rapaz australiano.<\/p>\n<p>Os chin\u00eases estavam r\u00edspidos. Os comunistas j\u00e1 se achavam nos sub\u00farbios e a queda de Changhai era iminente. Nesse porto embarcaram alguns passageiros, entre os quais um grande gordo polaco que iria ser meu vizinho de camarote. Este passageiro seguiria at\u00e9 o Rio e sobressaiu-se pela voracidade em comer, pois tinha na mesa um longo card\u00e1pio e repetia os pratos enchendo de surpr\u00easa os passageiros e de indigna\u00e7\u00e3o os criados.<\/p>\n<p>Em Hong-Kong j\u00e1 me achava melhor. Recebemos ordem para descer a fim de sermos vacinados contra febre amarela, isto no hospital da cidade.<\/p>\n<p>O navio parou longe do cais e a tripula\u00e7\u00e3o inteira teve que ir. Mal podia eu parar de p\u00e9 e tive que descer a longa escada de cordas encostada ao vapor. O mar estava agitado e assim entrei na barca que nos levou at\u00e9 o cais.<\/p>\n<p>Depois de ter ido ao hospital, dei uma volta pela cidade, fui ao correio. O centro estava animado, os bancos guardados por sentinelas armadas de fuz\u00eds com baionetas. Tomei uma limonada em um bar, pois h\u00e1 anos n\u00e3o sabia o gosto do lim\u00e3o. Novamente me achei subindo a escada de cordas do &#8220;Straat- Malakka&#8221; e suspirei de al\u00edvio por haver conseguido voltar.<\/p>\n<p>Novos passageiros j\u00e1 haviam embarcado: um casal de ingl\u00eases, ela mo\u00e7a e conquistadora, \u00eale velho e sem pretens\u00f5es. Os namoricos com os oficiais se faziam nos corredores e \u00e0\u00a0s v\u00eazes defronte \u00e0\u00a0porta do camarote do velho marido. Todos os dias essa dama de copas estreava um vestido que dava uma nota alegre ao ambiente. Tamb\u00e9m a velha ingl\u00easa que embarcou em Hong-Kong parecia curiosa em seus trajes de mocinha, com seu rosto enrugado como papel crepon. Apresentou-se no dia do anivers\u00e1rio da rainha Juliana com um vestido de fil\u00f3 cor-de-rosa e uma guirlanda de rosinhas nos cabelos, as mangas curtas exibindo seus bra\u00e7os com peles fl\u00e1cidas. &#8220;Miss&#8221; Violet tinha 82 anos de idade.<\/p>\n<p>Nesse dia festivo todos os oficiais, capit\u00e3o e passageiros (12) tinham ido ao sal\u00e3o desde a manh\u00e3 para festejar o anivers\u00e1rio da rainha. Uisque em profus\u00e3o e cantos. At\u00e9 eu que nunca havia tomado essa bebida recebi um grande copo, o qual sorvi aos goles, como se fosse fogo.<\/p>\n<p>Todos cantavam de Roterdam a Amsterdam de Amsterdam e Roterdam e exclamavam: &#8220;Viva a nossa Rainha Juliana! Longa vida e feliz gov\u00earno. Viva!&#8221;&#8230; Depois fomos para a mesa onde foi oferecido um magn\u00edfico banquete, coisas deliciosas, tudo servido em toalha branca, imaculada, belas porcelanas, talheres de prata e finos cristais. O luxo nesse navio era a mesa com iguarias bem feitas e em profus\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora tinha tempo de relembrar meu passado e interrogar o futuro. Todos os portos que eu conhecia, exceto Penang e Manila, foram anunciados, mas eu j\u00e1 n\u00e3o tinha mais aqu\u00eale inter\u00easse feliz de quando passei com Riokai em 1940. Convenci-me de que o melhor seria fazer como as conchas &#8211; fechar-me na minha casa de madrep\u00e9rola, sendo os contatos com o mundo, s\u00f3 o sussurro do mar e o ritmo das m\u00e1quinas da ilha flutuante em que estava vivendo.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que aproximou um dos outros era a mesa. Em Manila, desci com o camarada Ivanovitch &#8211; \u00eale s\u00f3 pensava em comer as frutas do pa\u00eds, nada mais o interessava. O calor em Manila era t\u00f3rrido. O cais, longe do centro, ru\u00ednas por toda parte; diziam terem sido os recentes bombardeios.<\/p>\n<p>Depois de fretar um t\u00e1xi, percorremos grande parte da ilha. Gostei de ver as &#8220;carromatas&#8221; (cale\u00e7as) no estilo espanhol com duas grandes rodas pintadas de vermelho, puxadas por fogosos cavalos enfeitados de pompons vermelhos. Achei lindo o traje nacional das mulheres, enormes mangas de organdi como se fossem asas, gracioso chale em ponta atr\u00e1s e cruzando na frente sobre um corpete bem ajustado, a saia branca e comprida de baixo aparecendo toda bordada. Diziam que era um traja car\u00edssimo e que era o motivo pelo qual se viam poucos. Admirei-me tamb\u00e9m com o n\u00famero elevado de conventos e igrejas, sendo os sub\u00farbios muito pobre habitados pelos nativos.<\/p>\n<p>Para voltar ao navio, entramos numa limusine toda nova, verde-alface. Com os \u00faltimos raios do sol, subimos a escada do Straat-Malakka.<\/p>\n<p>O cais estava entulhado de grandes caixas de pinho, sacos, etc. Ia-se trabalhar toda a noite para carregar nos por\u00f5es do navio.<\/p>\n<h2>EM TR\u00c2NSITO AT\u00c9 SINGAPURA<\/h2>\n<p>At\u00e9 l\u00e1, mar e c\u00e9u, mais oito dias. Lia, pensava, escrevia, desenhava. \u00c0 tarde ia fazer croquis no deck e v\u00ear os peixes voadores &#8211; lindos, furta-cor &#8211; l\u00e1 dentro do mar deviam estar sendo perseguidos; procuravam fugir, alguns caiam dentro do vapor e adeus, vida!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se via o dorso escuro dos tubar\u00f5es, fazendo escolta em caso de alguma eventualidade&#8230;<\/p>\n<p>O mar, muito calmo, se movendo para dar passagem ao vapor; as noites, profundas e estreladas, faziam-me sentir ainda mais a solid\u00e3o. Juntos vimos essas mesmas estr\u00ealas, \u00easte mesmo c\u00e9u profundo. Amarga recorda\u00e7\u00e3o dos tempos felizes&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o podia conversar com outros passageiros por falar muito mal o ingl\u00eas, nem jogar bridge, nem flertar. Depois do jantar ia ao sal\u00e3o &#8220;fumoir&#8221; &#8211; ficava vendo os viajantes se ajeitando nas mesinhas quadradas de bridge, os &#8220;boys&#8221; chin\u00eases levando u\u00edsque e cerveja. Isso iria at\u00e9 de madrugada.<\/p>\n<p>Eu pensava quanto longe me achava dessa gente. Ningu\u00e9m para trocar uma id\u00e9ia. A cada porto eu havia feito croquis a l\u00e1pis e a \u00f3leo, as paredes do meu camarote estavam em permanente exposi\u00e7\u00e3o, que fazia a admira\u00e7\u00e3o dos &#8220;boys&#8221; chin\u00eases, que vinham apreciar meus trabalhos. Eram os \u00fanicos no vapor que se interessavam por arte&#8230;<\/p>\n<h2>SINGAPURA<\/h2>\n<p>Por entre ilhas verdes, o Straat-Malakka, numa bela tarde, entrou em Singapura. Ia ficar parado uma semana neste porto.<\/p>\n<p>Um calor abafador nos acolheu. At\u00e9 se chegar ao centro, que era longe, pude ver quarteir\u00f5es pobres, superpovoados e sujos, ruas estreitas onde os cheiros de diversas proveni\u00eancias enchem o ar, incenso com baforadas de alimentos fritos feitos em forninhos na porta da casa.<\/p>\n<p>Todas as indianas de sari, usando braceletes nos tornorzelos e an\u00e9is nos dedos dos p\u00e9s, entre os c\u00edlios ou na asa do nariz, uma pedra preciosa incrustada.<\/p>\n<p>No centro, o estilo d\u00f3rico para os edif\u00edcios p\u00fablicos, com suas colunas e escadarias, teto de templo grego bem ao gosto dos ingl\u00eases. Viam-se indianas elegantes, de saris de cores vivas, ornadas as beiras de franja de prata ou ouro; muitas t\u00eam grandes olhos, que lhe tomam uma boa parte do rosto. Elas t\u00eam muita linha no seu andar solene. Os homens, muitos usam a roupa ocidental, mas todos de turbante &#8211; a\u00ed pode-se ver a casta, a religi\u00e3o, etc. Nosso chofer ostenta uma vasta barba branca e um turbante cor-de-rosa!<\/p>\n<p>Visitamos alguns templos indu\u00edstas, com profus\u00e3o de deuses at\u00e9 o telhado.<\/p>\n<p>Singapura \u00e9 uma mistura de todas as ra\u00e7as do oriente: chin\u00eases, malaios, japon\u00eases, \u00e1rabes e europeus.<\/p>\n<p>Houve um fato inesperado no vapor. Iam embarcar tr\u00eas elefantes. Destinados ao Jardim Zool\u00f3gico do Rio de Janeiro, os paquidermes estavam no cais, enjaulados. Tinham vindo dos confins da \u00cdndia, com seus donos, que gritavam e falavam aos elefantes.<\/p>\n<p>De cima do navio, eu apreciava \u00easse espet\u00e1culo \u00fanico. Os curiosos enchiam o cais, esperando ver como seriam levados para dentro do vapor. Tiraram a tampa da jaula e depois de estar cada elefante bem amarrado pelo ventre, l\u00e1 ia \u00eale levado por um possante guindaste, que o depositava no deck traseiro do navio. Protestavam com fortes barritos, mas a habilidade dos homens era muito maior que a for\u00e7a d\u00eales.<\/p>\n<p>Foram todos acorrentados pelos p\u00e9s. Nos primeiros dias, nada queriam comer. Com a ponta da tromba, como uma m\u00e3ozinha, pegavam as mirradas ma\u00e7\u00e3s, que lev\u00e1vamos. Depois de as provarem, jogavam-nas violentamente.<\/p>\n<p>Todos os dias ia-se ver os elefantes, que nos olhavam com seus olhinhos min\u00fasculos e inteligentes, suas enormes orelhas como leques, sempre em movimento.<\/p>\n<h2>PENANG<\/h2>\n<p>Pequeno porto da pen\u00ednsula malaia, com seu cais de t\u00e1buas desjuntas. Desci com miss Violet, para visitar um templo budista num arrabalde longe. Passamos pelo centro pequeno e pobre; depois de alguns quilometros de estrada de terra e capinzais de ambos os lados, apareceu o velho templo com sua larga escada de pedra, solene e altiva, seu telhado de pontas, recurvado, com suas telhas de porcelana verde como se fossem novas. Davam-lhe muita beleza.<\/p>\n<p>No altar principal havia uma quantidade de serpentes nascidas na v\u00e9spera! Na profunda cisterna ao lado, um enorme of\u00eddio vivia. Fiquei horrorizada.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda, um bonzo convidava os visitantes a deixarem o nome e um donativo. Eu dei uma \u00ednfima moeda ingl\u00easa. Miss Violet correu na frente para nada deixar! O bonzo, l\u00e1 da escadaria, chamava-a como se fosse uma maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Teremos agora muitos dias de mar e c\u00e9u, para sair do Oceano \u00cdndico, e entrar no Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>O primeiro porto da \u00c1frica foi Mabasen, depois, Zanzibar, Dar-es-Salan, essas colonias sob o protetorado ingl\u00eas, todas muito pobres.<\/p>\n<p>Beira, Louren\u00e7o Marques, Colonias Portugu\u00easas, onde o pr\u00eato quase n\u00e3o \u00e9 gente, cidades miser\u00e1veis e feias onde se sente um gov\u00earno atrasado. Enfim, Durban.<\/p>\n<h2>DURBAN<\/h2>\n<p>Durban marca o maior percurso da viagem. Quase todos os passageiros desembarcam &#8211; desce tamb\u00e9m miss Violet, que a essa altura j\u00e1 n\u00e3o me conhece mais!<\/p>\n<p>O navio vai ficar uma semana nesse porto para a limpeza geral. Todos os dias saio com o sr. Ivanovitch. O cais \u00e9 longe do centro e tem que se ir a p\u00e9 ou ent\u00e3o num riquix\u00e1, esp\u00e9cie de aranha, com dias rodas e dois lugares, puxado por um homem, ataviado de plumas como um selvagem &#8211; os ingl\u00eases gostam disso.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 descrevi na viagem que fizemos em 1940, \u00easses portos em que tocamos, vou ser mais breve. Durban \u00e9 uma importante cidade com seus grandes edif\u00edcios p\u00fablicos, uma bela pra\u00e7a toda ajardinada, onde domina uma imponente est\u00e1tua da rainha Vit\u00f3ria, em frente \u00e0\u00a0 \u00e0\u201cpera e as ruas que saem pra\u00e7a, de um lado e de outro, o belo com\u00e9rcio de luxo &#8211; imensas vitrinas com vestidos de noiva, padrinhos e convidados; grandes bazares e pre\u00e7o fixo, com lindas vendedoras de pele branca e cabelos louros; bares de estrita limpeza. Tomamos um bonde de dois andares, como em Londres, e vamos at\u00e9 o ponto final. Percorremos as ruas do centro, os bairros residenciais com belos jardins e os sub\u00farbios nada de se ver pr\u00eatos!<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do Straat-Malakka partir, fui ao mercado de flores e comprei um enorme buqu\u00ea de cravos vermelhos; mandei p\u00f4r na mesa, bem na frente do comandante. Ficou t\u00e3o contente, olhava de perto e parecia aspirar o perfume das flores; o olhar em soslaio, percebi que \u00eale beijava um cravo&#8230;<\/p>\n<p>Sempre a possante voz da sereia, que me enche de nostalgia, estava anunciando a partida&#8230; As gaivotas, seguindo o vapor e depois a noite&#8230;<\/p>\n<h2>PORT ELIZABETH<\/h2>\n<p>Port Elizabeth. Toda a tarde fiquei no cais, pintando o Straat-Malakka. Havia alguns novos passageiros, um enorme tchecoslovaco, um casal de velhos alem\u00e3es, que iam a Buenos Aires e que se lamentavam por terem sido roubados de todos seus haveres, assim que entraram no vapor! E mais outros viajantes, que iam a Buenos Aires.<\/p>\n<p>Capetown. \u00c9 inverno, faz frio e come\u00e7a a amanhecer \u00e0\u00a0s oito horas! O aquecedor do navio funciona. Abro a mala para tirar agasalhos de inverno, vestido de l\u00e3, luvas. O centro \u00e9 longe; quero rever o Botanic Garden. Entro pela grande porta d\u00easse jardim; estou s\u00f3zinha, andando pelas alamedas de platanos que desprendem suas folhas amarelas &#8211; e o ch\u00e3o fica coberto de ricas cores. Lembro-me daquele dia feliz em que passei por essas mesmas al\u00e9ias com Riokai, mas era primavera e tudo estava verde&#8230; Sento-me um momento num banco para apreciar, adorar os quadrados de roseiras em flor &#8211; s\u00e3o s\u00f3 rosas perfumadas e belas, como se tratasse de uma festa para alguma divindade!<\/p>\n<p>Estou de volta; mal posso andar com meu pesad\u00edssimo casaco azul-claro feito de um cobertor americano, que consegui comprar no Jap\u00e3o. Sinto as vibra\u00e7\u00f5es do Straat-Malakka; sopra e se mexe; cada vez que sai do cais, parece que habito o peito de um enorme gigante. O mar bate contra seu corpo de a\u00e7o produzindo uma esp\u00e9cie de acompanhamento a seu ritmo interior. Da janela de meu camarote, vejo de vez em quando enormes gaivotas; acho bizarro pois o navio j\u00e1 est\u00e1 muito afastado da terra. Durante o almo\u00e7o, o comandante me diz que s\u00e3o tr\u00eas albatrozes que acompanham o navio, de dia, para se alimentarem e \u00e0\u00a0noite pousam sobre o mar. Penso: &#8220;tr\u00eas albatrozes, tr\u00eas elefantes, sem d\u00favida v\u00e3o-nos trazer sorte&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Agora vamos ter por alguns dias o deserto do mar. Coisas muito esperadas s\u00e3o as refei\u00e7\u00f5es de suculentos pratos &#8211; queijos holand\u00eases e toda sorte de gulodices, sobre alv\u00edssimas toalhas, apresentadas em cristais e porcelanas finas. \u00c0s sete e meia da manh\u00e3, bate o gongo anunciando a primeira refei\u00e7\u00e3o. O camarada Ivanovitch j\u00e1 est\u00e1 \u00e0\u00a0mesa comendo como um faminto; a cada refei\u00e7\u00e3o, repete os pratos do longo menu! Todos se riem d\u00eale e os gar\u00e7\u00e3os o odeiam mas \u00eale n\u00e3o percebe. Penso que far\u00e1 \u00eale quando sair do navio &#8211; nem em sanat\u00f3rio superalimentando dar-lhe-\u00e3o semelhante ra\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>O c\u00e9u se enche de nuvens, o mar at\u00e9 aqui t\u00e3o azul toma uma cor cinza opaco e escuro, o mar, tudo anuncia grande tempestade. Entro na cabine e sinto fortes oscila\u00e7\u00f5es. A noite toda o temporal se desenvolve, percebo as vibra\u00e7\u00f5es do navio, desde sua raiz; o barulho horr\u00edvel das ferralhas nos por\u00f5es; meu camarote \u00e9 s\u00f3 aclarado pelos raios, seguidos de terr\u00edveis trov\u00f5es. Nada p\u00e1ra n\u00eale &#8211; tudo \u00e9 jogado ao ch\u00e3o de um lado a outro; cheia de terror presencio s\u00f3zinha a \u00easte espet\u00e1culo imprevisto. O dia aparece num duvidoso crep\u00fasculo. A muito custo vou ao deck v\u00ear o mar furioso. O Straat-Malakka se enterra entre duas enormes montanhas d\u2019\u00e1gua. Parece uma folha ao vento nessa imensidade de mar louco e enfurecido. E minha vida como uma vela que pouco falta para apagar-se&#8230; Tudo vibra, tudo estala. Na mesa puseram uma c\u00earca e reduziram muito o card\u00e1pio. \u00c9-se obrigado a pegar nos pratos que fogem! Os boys lutam para nos trazer a comida. Agora chove e o vento uiva querendo arrancar tudo. Ao jantar digo ao comandante meu temor, \u00eale ri e me diz &#8220;fique sossegada, isso n\u00e3o \u00e9 nada; os ciclones que batem nas costas da China, isso sim, \u00e9 que se pode temer&#8221;. Durmo vestida, com meus documentos, em caso extremo. A noite inteira os elefantes fazem ouvir suas lamenta\u00e7\u00f5es o que ainda completa a tristeza d\u00easte temporal, que durou quatro dias e quatro noites! O grande e gordo tchecoslovaco, que subiu em Durban vem conversar comigo. Ele fala um pouco de franc\u00eas e me diz ter vindo da Austr\u00e1lia, onde morou v\u00e1rios anos, detestando principalmente as mulheres que s\u00f3 pensam em whisky, cavalos e autom\u00f3veis. Vai para Buenos Aires contratado para mostrar aos oper\u00e1rios como se lida com m\u00e1quinas dif\u00edceis. Ele \u00e9 feio e tem os dentes separados uns dos outros, o que lhe d\u00e1 um sorriso cruel. Faz-me a corte e me escreve bilhetinhos, que acha em cima da mesa, no sal\u00e3o. Agora sim, que fujo d\u00eale! Come\u00e7o a arrumar minhas coisas, as malas, a tirar tudo das paredes, das gavetas.<\/p>\n<h2>BUENOS AIRES<\/h2>\n<p>Buenos Aires. J\u00e1 mandei um telegrama a meus amigos, sr. e sra. Yokohama. O Straat-Malakka chega ao crep\u00fasculo da tarde; vai ficar oito dias neste porto. Nada de v\u00ear meus amigos! Ser\u00e1 que receberam o telegrama! Mas no dia seguinte vieram. Choramos juntos&#8230; Riokai, eu n\u00e3o podia me conter e de contar o desastre da minha vida. Convidaram-me a ir \u00e0\u00a0casa d\u00eales. J\u00e1 estava tudo bem mudado, as duas filhas Norma e Yolanda casadas. Dona Matilde me contando a persegui\u00e7\u00e3o que tinha havido \u00e0\u00a0colonia japon\u00easa e a not\u00edcia do tal grupo &#8220;Shindoremmei&#8221; (18) no Brasil; que era bom eu n\u00e3o falar, chegando l\u00e1, que o Jap\u00e3o tinha perdido a guerra. Exploravam \u00easse tema assassinando fam\u00edlias inteiras.<\/p>\n<p>(18) SHINDO RENMEI (Liga do Caminho dos S\u00faditos), organiza\u00e7\u00e3o extremista criada em 23 de setembro de 1945 em S\u00e3o Paulo com orienta\u00e7\u00e3o ultra-nacionalista japonesa, que explorava a falta de informa\u00e7\u00f5es sobre a guerra entre os imigrantes no Brasil. Logo ap\u00f3s o fim da Segunda Guerra, a colonia japonesa estava dividida entre dois grupos: 20% da colonia era considerada &#8220;makegumi&#8221; (derrotistas &#8211; formada principalmente por intelectuais, que sabiam outros idiomas al\u00e9m do japon\u00eas e que por isso tiveram acesso a informa\u00e7\u00f5es sobre a Guerra) e 80% era considerada &#8220;kachigumi&#8221; (vitoristas &#8211; que se recusavam a aceitar a derrota, liderada por imigrantes recentes educados no Jap\u00e3o militarista). Os membros da Shindo Renmei usavam da coer\u00e7\u00e3o para impor sua ideologia, assassinavam imigrantes considerados derrotistas, al\u00e9m de divulgar not\u00edcias falsas sobre uma fict\u00edcia vit\u00f3ria do Jap\u00e3o, causando confus\u00e3o e conflitos no meio da colonia. Dois fatores acabaram desmantelando a organiza\u00e7\u00e3o: a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia e a cria\u00e7\u00e3o de dois jornais em japon\u00eas (idioma que foi proibido pelo governo brasileiro durante a Guerra, medida esta que causou a grande desinforma\u00e7\u00e3o entre os imigrantes), o Jornal Paulista e o S\u00e3o Paulo Shimbun.<\/p>\n<p>Uma das primeiras coisas que fiz em Buenos Aires foi ir em romaria ao Museu Nacional de Belas Artes ver se estava ali o quadro de Riokai. Depois de muito andar por avenidas e ruas intermin\u00e1veis, \u00e0\u00a0tarde descobri o museu pois n\u00e3o havia t\u00e1xi e eu n\u00e3o conhecia a cidade. Percorrendo v\u00e1rias salas, nada de v\u00ear seu quadro, mas por \u00faltimo na galeria dos Estrangeiros l\u00e1 estava \u00eale brilhando no meio dos mestres de renome. Fiquei comovida, sabendo que arte n\u00e3o tem nacionalidade&#8230;<\/p>\n<p>Fui tamb\u00e9m fazer uma visita ao dono da Galeria Muller; levei um fasc\u00edculo do livro de Arte, que tinha feito no Jap\u00e3o. A princ\u00edpio n\u00e3o me reconheceu. Ainda me ofereceu fazer mais uma exposi\u00e7\u00e3o dos quadros de Riokai. A sra. Matilde foi uma dedicada amiga, me ajudando a levar telas de grandes dimens\u00f5es, do vapor para a casa dela. Ela foi vendendo e mandando o dinheiro para o Jap\u00e3o, para meu sogro. O capit\u00e3o foi generoso em consentir, a meu pedido, de convidar meus amigos para almo\u00e7ar no vapor. Durante a guerra, foi \u00eale judiado pelos japon\u00eases e detestava-os. Tivemos uma boa tarde relembrando os dias que passamos em 1941.<\/p>\n<h2>BRASIL<\/h2>\n<p>Brasil! Toca em Montevid\u00e9u mas n\u00e3o des\u00e7o; j\u00e1 estou com tudo arrumado, pacotes, maletas de m\u00e3o, mala de roupa; \u00eastes \u00faltimos dias emprego para v\u00ear de perto o centro do navio alto de tr\u00eas andares, suas m\u00e1quinas; admiro essa arquitetura complicada e maravilhosa, que se chama mec\u00e2nica e de que nada compreendo. Vencendo os mares e tempestades, n\u00e3o \u00e9 mais de carv\u00e3o que \u00eale se alimenta mas de \u00f3leo &#8211; tudo \u00e9 limpo, asseado e cada m\u00e1quina tem seu empr\u00eago como se fossem bra\u00e7os que trabalhassem ao mesmo tempo. Tem tamb\u00e9m uma possante chamin\u00e9, onde est\u00e1 sua sonora voz, que tanto me impressiona, \u00e0\u00a0 sa\u00edda de cada porto!<\/p>\n<p>O Straat-Malakka recebeu ordem de passar por S\u00e3o Francisco do Sul para carregamento de madeira. Pela manh\u00e3 bem cedo vejo do meu camarote altas montanhas arborizadas, uma igrejinha toda branca e coqueiros &#8211; \u00e9 o Brasil! Estamos entrando. N\u00e3o h\u00e1 cais, s\u00e3o umas t\u00e1buas desjuntas e mal dispostas, que t\u00eam \u00easse nome. Vamos ficar uns dias presos a\u00ed devido \u00e0 mar\u00e9 baixa. O pr\u00e1tico n\u00e3o quer se aventurar a fazer sair o vapor; mais adiante h\u00e1 um estreito com rochedos embaixo. O comandante me chama para traduzir; \u00eale est\u00e1 indignado, como \u00e9 que o pr\u00e1tico n\u00e3o decide? Eu sou levada l\u00e1 em cima onde funciona o comando e vivo um novo supl\u00edcio entre o pr\u00e1tico e o comandante.<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco do Sul \u00e9 uma \u00ednfima e atrasada cidade do interior. Chegamos num dia de prociss\u00e3o, o que dava uma nota in\u00e9dita \u00e0\u00a0s suas ruas. Vamos sair! Talvez iremos \u00e0 noite&#8230; Passa-se o tal estreito, a grande velocidade, estamos salvos! Por esta vez.<\/p>\n<p>Santos faz um calor de torrar. Des\u00e7o com o camarada Ivanovitch, que est\u00e1 pesaroso de deixar o vapor; \u00eale tamb\u00e9m est\u00e1 com um futuro incerto; j\u00e1 se foi o tempo em que s\u00f3 vivia para comer, feliz como um animal bem nutrido. Assim mesmo quer conhecer as comidas brasileiras. Entramos num caf\u00e9, pe\u00e7o guaran\u00e1, empadas, past\u00e9is &#8211; n\u00e3o gostou. Andamos pelo centro. Compro um cofrezinho e um cinzeiro ornado de asa de borboleta para dar como lembran\u00e7a ao comandante.<\/p>\n<p>Estamos reunidos pela \u00faltima vez ao jantar. O capit\u00e3o achou Santos horr\u00edvel, sujo e relaxado. Era a primeira vez que vinha ao Brasil. No dia seguinte j\u00e1 estava o navio entrando na barra, de madrugada. Eu, como sempre nessas ocasi\u00f5es, nervosa e agitada. Subi \u00e0\u00a0s &#8220;torrinhas&#8221;, onde estava o capit\u00e3o, para dizer-lhe adeus e agradecer-lhe toda a sua gentileza, e sua maestria em nos guiar atrav\u00e9s de dois oceanos. &#8220;Adeus&#8221; &#8211; e minha m\u00e3o sumiu na grande e grossa m\u00e3o do comandante Wlik.<\/p>\n<h2>CHEGADA AO RIO<\/h2>\n<p>Havia, como em todos os portos, uma infinidade de regras a cumprir, antes de poder descer, a pol\u00edcia fazendo mil perguntas, meus numerosos caixotes que deviam sair dos por\u00f5es, a profus\u00e3o de pacotes e maletas de m\u00e3o, os rep\u00f3rteres dos jornais do Rio procurando-me para entrevistar-me, fotografar-me. Era o primeiro vapor a vir do Jap\u00e3o depois de 1941. Faziam-me perguntas incr\u00edveis como por exemplo: &#8220;que pensa o Imperador Hirohito por ter perdido a guerra? o povo japon\u00eas gosta dos americanos? As mulheres agora s\u00e3o felizes por ter o direito ao voto? Carregam sempre os filhos nas costas? Sofreram muito durante a guerra?&#8221;<\/p>\n<p>A cada pergunta eu dava a mesma resposta &#8220;n\u00e3o sei&#8221;. Enfim Maria Paula apareceu com uma amiga. Como fiquei feliz em v\u00ea-la&#8230; Como se fosse uma querida irm\u00e3. Descemos. J\u00e1 est\u00e1vamos no cais formigando de gente; imposs\u00edvel tirar a minha grande bagagem da Alf\u00e2ndega naquele dia. \u00cdamos andando. O grande navio estava encostado no cais; agora estava eu em terra firme, n\u00e3o iria mais voltar. O pavilh\u00e3o holand\u00eas flutuava no alto mastro, com a bandeira brasileira. &#8220;Adeus&#8221;, dizia eu silenciosamente comovida. &#8220;Adeus, caro Straat-Malakka, que me trouxe do Jap\u00e3o ao Brasil em tr\u00eas meses e meio!&#8221;<\/p>\n<p>Nova vida ia come\u00e7ar para mim, cheia de d\u00favidas e incertezas. Maria Paula me levou a seu novo apartamento, grande e mobiliado com luxo, de muito gosto. Apresentou-me a seu marido, o professor Victor de Carvalho, que achei simp\u00e1tico e acolhedor. Alto, de rosto oval e olhos azuis, cheios de bondade e ao mesmo tempo en\u00e9rgico; eu, como sempre me encolhendo na minha timidez que estragou boa parte de minha vida. Maria Paula, sempre linda e elegante, dava-me os melhores conselhos &#8211; &#8220;vai v\u00ear&#8221;, dizia ela, &#8220;voc\u00ea com o nome de seu pai vai se arrumar bem aqui&#8221;. E levou-me para meu quarto todo claro, todo chique; tudo isso me acanhava. O almo\u00e7o foi servido com belos cristais e linda toalha, um menu e tanto &#8211; aqui era a comida brasileira, mas da gostosa!<\/p>\n<p>Fui conhecendo as amigas de Maria Paula &#8211; a Gilda, que fazia teatro, Norma, Adalgisa, os alunos de declama\u00e7\u00e3o. Maria Paula escrevia no jornal &#8220;A Noite&#8221; e tamb\u00e9m compunha lindas pe\u00e7as infantis, tendo tido algumas premiadas. Nossas conversas eram longas; eu, chorando contava-lhe os horrores que passei com a morte de Riokai, a devasta\u00e7\u00e3o que essa tristeza me f\u00eaz na estrutura de meu s\u00ear. Foi para mim pior que a guerra. Antes \u00eale tivesse ido e morresse l\u00e1 longe de mim, de um tiro perdido! Maria Paula n\u00e3o gostava de se atradar nessas conversas. &#8220;Vamos tratar de vender suas p\u00e9rolas&#8221; &#8211; dizia ela e arranjou amigas; e o dinheiro foi novamente entrando.<\/p>\n<p>As malas e os grandes caixotes foram para o &#8220;Gato Pr\u00eato&#8221;, dep\u00f3sito de m\u00f3veis; outra parte foi para o s\u00f3t\u00e3o do edif\u00edcio.<\/p>\n<p>Tanto acato, tanto carinho de Maria Paula me enternecia mas eu n\u00e3o queria ficar indefinidamente e pensava em vir a S\u00e3o Paulo; mas antes queria levar a linda boneca ao prefeito sr. Mendes Moraes. L\u00e1 fomos no dia e hora marcados, eu de vestido de gala, o presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Artistas Brasileiros, o sr. Manoel Santiago e o sr. Kaminagai, pintor de fama, que morava em Sta. Tereza. a boneca ia na sua caixa de vidro; eu levava as cartas do prefeito de Kobe. Chegando l\u00e1 encontramos os fot\u00f3grafos de alguns jornais e rep\u00f3rteres que esperavam a entrevista. Ficamos ali numa sala quase duas horas, quando apareceu o oficial de gabinete dizendo que sua excel\u00eancia n\u00e3o podia receber. Entreguei ao oficial de gabinete a boneca e as cartas e assim cumpri a miss\u00e3o que recebi do prefeito Kodera no Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos os dias era a luta para vender as p\u00e9rolas; eu tinha comprado o pacote e agora precisava vender uma a uma como no conta-gotas. Os bel\u00edssimos colares que trouxe foram vendidos barat\u00edssimos e mesmo asim custava a achar comprador. Como ia abrir-se o sal\u00e3o oficial em agosto, mandei duas telas minhas e duas de Riokai, &#8220;Boutique de fleurs&#8221; e &#8220;Place Pigalle&#8221;, e minha, cris\u00e2ntemos (tela grande) e d\u00e1lias vermelhas. Foram todas aceitas. Fui diversas v\u00eazes visitar meu amigo e colega sr. Osvaldo teixeira, Diretor do Museu de Belas Artes, sempre gentil e bom, um grande pintor que sempre admirei, seu desenho e suas composi\u00e7\u00f5es. Maria Paula tinha dado uma linda festa para meu anivers\u00e1rio (n\u00e3o sei como descobriu essa data) pois sempre escondi achando que me trouxe azar. Grande mesa de doces, lindos presentes; at\u00e9 Rique, seu cachorrinho, me regalou. Suas amigas vieram; meu primo Acquarone foi convidado. Fui presentada com uma linda malha vermelha e uma bela blusa de organdi, que o sr. Victor me deu. Quantas carinhosas aten\u00e7\u00f5es&#8230; ficava triste por nunca poder retribuir tantas marcas de afeto.<\/p>\n<h2>S\u00c3O PAULO<\/h2>\n<p>Meus planos e pensamentos iam para S\u00e3o Paulo &#8211; fazer uma exposi\u00e7\u00e3o de meus quadros, de Riokai e de meu pai; eu ainda tinha umas telas, vender as p\u00e9rolas e quem sabe, abrir um curso de pintura. Eu estava com Maria Paula j\u00e1 ia pelos tr\u00eas meses; precisava me resolver a viver minha vida. Comprei um bilhete na &#8220;Real&#8221; e vim de avi\u00e3o, pela primeira vez na minha vida. S\u00e3o Paulo me reservava tremenda luta. Os primeiros tr\u00eas dias passei na casa de uns conhecidos japon\u00eases mas eram tantos os percevejos \u00e0\u00a0noite, que quis sair dali o mais depressa poss\u00edvel. Achei a muito custo um quarto numa esp\u00e9cie de por\u00e3o, de uma pens\u00e3o na rua Augusta; na frente que dava para a rua, era uma garagem dividida por um tabique, divis\u00e3o de madeira mal posta, que n\u00e3o chegava at\u00e9 o forro. Nessa parte de tr\u00e1s \u00e9 que me instalei; era grande e devido a poder por algumas malas, fiquei sofrendo nesse recinto escuro, sem ar e sem luz durante nove meses! Tinha uma janela engradada como pris\u00e3o e uma porta que dava para uma \u00e1rea onde havia um tanque. A porta que servia para entrar e sair da rua dava para um estreito corredor escuro e frio onde as aranhas trabalhavam em paz. A dona da pens\u00e3o me deixou por mais alguns caixotes e malas; o restante tinha ficado no Rio, no Gato Pr\u00eato. Comecei a v\u00ear quanto era dif\u00edcil arranjar sala para fazer exposi\u00e7\u00e3o. Como eu tinha a boneca que trouxe para o prefeito de S\u00e3o Paulo, procurei o vereador dr. Yukishigue Tamura (19), que devido \u00e0\u00a0boneca, se interessou em arranjar o sagu\u00e3o do Teatro Municipal; foi devido a \u00eale que pude ter para a quinzena do m\u00eas de dezembro \u00easte local muito cobi\u00e7ado, onde tinham-se seguido exposi\u00e7\u00f5es de arte comercial dos pintores tchecoslovacos. Minha exposi\u00e7\u00e3o foi a \u00faltima; o teatro foi depois fechado por muito tempo devido aos reparos.<\/p>\n<p>(19) TAMURA, YUKISHIGUE nasceu em S\u00e3o Paulo em 1914. Formou-se em 1939 na tradicional Faculdade de Direito do Largo de S\u00e3o Francisco (hoje da USP) e seguiu carreira pol\u00edtica. Foi eleito vereador de S\u00e3o Paulo em 1947, deputado estadual em 1951 e deputado federal em 1955. Idealizou a implanta\u00e7\u00e3o da Usiminas e teve seu mandato cassado em 13\/12\/1968, quando o Congresso Nacional foi fechado pelo governo militar. Na d\u00e9cada de 70 voltou a ser eleito vereador de S\u00e3o Paulo. Yukishigue Tamura foi o primeiro descendente de japoneses eleito membro do Poder Legislativo brasileiro em suas tr\u00eas inst\u00e2ncias, e foi o primeiro &#8220;nikkei&#8221; (descendente de japoneses nascido fora do Jap\u00e3o) no mundo a chegar ao Congresso Nacional de um pa\u00eds. Atualmente aposentado, e desfrutando de sa\u00fade apesar da avan\u00e7ada idade, reside em S\u00e3o Paulo com a esposa e dedica-se \u00e0\u00a0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Os quadros estavam nos caixotes e muitos n\u00e3o tinham molduras; todos os desenhos e quadros de meu pai precisei emoldurar mas eu tinha confian\u00e7a e pensava &#8211; &#8220;se n\u00e3o vender os meus e de Riokai, os de meu pai ser\u00e3o adquiridos&#8221;. Gastei um dinheir\u00e3o de transportes, convites e cat\u00e1logos de luxo, molduras, etc., fora o colossal trabalho que tive eu s\u00f3zinha de tirar as telas das caixas, pregar, ver o melhor lugar. depois de uns dias, foi que conheci um rapaz japon\u00eas Jorge Mori (20) que muito me ajudou pr\u00e1tica e moralmente. Um grande futuro na arte, \u00easse amigo, cheio de talento e de entusiasmo pela pintura.<\/p>\n<p>O dia do &#8220;vernissage&#8221; chegou, a boneca foi exposta na entrada da escadaria; antes t\u00ednhamos ido levar o convite pessoalmente ao prefeito, \u00e0\u00a0sua casa, com o dr. Yukishigue Tamura. J\u00e1 havia muita gente, jornalistas, artistas, intelectuais, mas nada do prefeito Asdrubal Euritisses da Cunha chegar. Afinal veio um representante d\u00easse ilustre funcion\u00e1rio. e a cerimonia come\u00e7ou, falou brilhantemente o dr. Yukishigue Tamura e outros oradores e a exposi\u00e7\u00e3o foi aberta ao p\u00fablico. Expus meus quadros de Paris, do Jap\u00e3o e os de Riokai, nas ruas de Paris, de meu pai, quadros de g\u00eanero e desenhos. Os dias iam passando e nada de vender. Jorge Mori vinha todos os dias fazer-me companhia; nosso tema, invariavelmente era o mesmo &#8211; &#8220;que gente! Ningu\u00e9m se interessa por arte. O que apreciam \u00e9 a pintura tipo cromo, os comerciantes que vieram com \u00easses quadros fizeram fortunas!&#8221; dizia \u00eale.<\/p>\n<p>Por interm\u00e9dio de Jorge Mori conheci um cineast de &#8220;Atualidades&#8221;, que veio filmar os quadros da exposi\u00e7\u00e3o. Eu sa\u00ed conversando perto de um quadro com Jorge Mori. Passou \u00easse filme em todos os cinemas de S\u00e3o Paulo. Tive uma boa cr\u00edtica pelos jornais destacando-se a entrevista que a Gazeta publicou, &#8220;No Pa\u00eds das Cerejeiras&#8221;, onde estou ao lado do dr. Yukishigue Tamura. Os jornais japon\u00eases cotidianos falavam sobre \u00easse certamem de arte. Tamb\u00e9m recebi a visita do secret\u00e1rio do S\u00e3o Paulo Shimbum. O diretor d\u00easse jornal, sr. Mizumoto, queria saber como andava o lado financeiro da exposi\u00e7\u00e3o. &#8220;Muito mal&#8221; &#8211; respondi. Esse jornal se encarregou de fazer uma rifa &#8220;a\u00e7\u00e3o entre amigos&#8221; de dois quadros meus e um de Riokai. Foi o que me valeu, que me cobriu as despesas da exposi\u00e7\u00e3o mas ficou longe de dar o que se esperava. Os bilhetes foram comprados pela colonia japonesa de S\u00e3o Paulo e interior. Assim terminou essa mostra de arte, onde eu tinha posto minhas esperan\u00e7as, pelo menos de achar amadores para os quadros de meu pai&#8230; Fiquei definitivamente sabendo que era imposs\u00edvel para mim viver de pintura.<\/p>\n<p>(20) MORI, JORGE nasceu em 1933 e iniciou seus estudos de pintura em S\u00e3o Paulo com Yoshiya Takaoka em 1944. Aos 14 anos, fez sua primeira exposi\u00e7\u00e3o individual. Participou do Grupo art\u00edstico Guanabara, de 1950 a 1952. Em 1952, foi para Paris estudar desenho e pintura nas academias francesas, onde ficou dois anos. Voltou ao Brasil e expos no Museu de Arte Moderna da S\u00e3o Paulo. Em 1960 retornou a Paris, onde estudou a t\u00e9cnica cl\u00e1ssica da glacis. Desde ent\u00e3o, vem expondo em v\u00e1rias galerias e museus no Brasil e na Fran\u00e7a. Destaca-se sua participa\u00e7\u00e3o na Bienal de Trouville em 1976, onde ganhou o Primeiro Pr\u00eamio.<\/p>\n<p>Fui convidada para acompanhar uma soprano japon\u00easa e tocar umas m\u00fasicas no Teatro Municipal. Foi um grande festival que a colonia japon\u00easa ofereceu; conheci o vasto palco d\u00easse teatro, tive a emo\u00e7\u00e3o de tocar no grande piano de cauda as pe\u00e7as de Rameau e Couperin, fui aplaudida. Toquei ainda v\u00e1rias v\u00eazes num teatro do largo S\u00e3o Francisco, a convite d\u00easse jornal amigo. E eu sempre pensando em solocar as p\u00e9rolas! Colocava uma aqui, outra ali, sempre por um pre\u00e7o irris\u00f3rio, estando ainda as pessoas certas, que no Jap\u00e3o havia p\u00e9rolas como areia!<\/p>\n<p>Precisava tomar uma decis\u00e3o. Que iria eu fazer sem empr\u00eago, sem futuro, sempre gastando para viver, mesmo levando uma vida modesta. Ningu\u00e9m com quem em pudesse contar. Fui diversas v\u00eazes ao Rio visitar Maria Paula mas l\u00e1 tamb\u00e9m era muito dif\u00edcil de se arranjar alguma coisa, visto que eu n\u00e3o era mais mo\u00e7a e tinha, para entravar minha atividade, pouca sa\u00fade. Eu tinha uma amiga que estava no interior e ela me escreveu: &#8220;Por que n\u00e3o vem a Mogi-Mirim? \u00c9 perto de S\u00e3o Paulo e aqui voc\u00ea poderia abrir um curso de pintura e ter alunas com mais facilidade&#8221;. Fui um dia a essa cidadezinha &#8211; levava-se quatro horas para l\u00e1 chegar por via terrestre: n\u00e3o gostei, achei-a pobre e feia, mas era ainda melhor do que ficar em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o faltava gente para me aconselhar. Sem ajudar. Uns tempos depois comprava eu uma casinha na avenida Jorge Tibiri\u00e7\u00e1, 406, que mandei inteiramente reformar e me instalei nesse lugarejo, onde fiquei mais de tr\u00eas anos. Todo o interior \u00e9 parecido: o largo da matriz, as fam\u00edlias importantes habitam o centro, em confort\u00e1veis bangalos, possuem fazendas por perto e carro de luxo, de \u00faltimo mod\u00ealo \u00e0\u00a0porta e frequentam o clube onde os demais s\u00e3o exclu\u00eddos. Mogi-Mirim, com tanto passado, deveria ser hoje uma cidade mais civilizada e culta.<\/p>\n<p>Mas assim mesmo eu estava contente de sair daqu\u00eale por\u00e3o escuro e \u00famido de S\u00e3o Paulo, onde fiquei dez meses. Respirei ao ter sol e luz, espa\u00e7o para p\u00f4r as malas e caixotes. Fui ao Rio buscar as bagagens que estavam no Gato Pr\u00eato. Uma dificuldade: n\u00e3o havia transporte para Mogi-Mirim e tudo foi complicado e oneroso, mas que alegria! Eu tinha uma casa limpa, um jardim com um velho pessegueiro no centro, que se cobria de flores no m\u00eas de agosto e um gato, um bom companheiro! Agora, depois de tudo instalado, precisava falar com uns e outros, fazer-me conhecer nesse meio. J\u00e1 havia v\u00e1rios &#8220;curiosos&#8221; que eram conhecidos vindos de Campinas e que ensinavam a copiar cromos. logo se tornaram meus inimigos. Os alunos pagavam por um M\u00eas de aula cinquenta cruzeiros. E ainda achavam muito caro!&#8230;<\/p>\n<p>Abri um curso em Itapira, numa garagem. Nesta cidade apareceram mais alunas. O ensino era misto e havia professores de grupo, do gin\u00e1sio, mas eu implantei o estudo do natural. O que me foi duro. Ensinava piano e andava duas v\u00eazes por semana pelas acidentadas ladeiras de Itapira!<\/p>\n<p>Mas que diferen\u00e7a, pensava eu, com as alunas do Jap\u00e3o! Aqui elas queriam tocar coisas dif\u00edceis, sem ter o menor preparo; as m\u00e3es tratavam o professor, sem a menor considera\u00e7\u00e3o e queriam prejudic\u00e1-lo na mensalidade, sempre atrasada! Na pintura, s\u00f3 queriam c\u00f3pias de cromos, retocadas pelo professor, para encher as paredes de suas casas ou para dar de presente ou vender com lucro, pois julgavam caro o material.<\/p>\n<p>Outro trabalho tit\u00e2nico que empreendi: quando fui para o Jap\u00e3o em 1940, deixei \u00e0\u00a0guarda, no dep\u00f3sito da Escola de Belas Artes em S\u00e3o Paulo, um grande quadro hist\u00f3rico da autoria de meu pai, Aclama\u00e7\u00e3o de Amador Bueno. Fui me informar e soube que o gov\u00earno tinha mandado retirar \u00easse trabalho para ornar uma das salas do Ministro no Pal\u00e1cio do Gov\u00earno, hoje demolido. Isso \u00eales fizeram sem me pedir autoriza\u00e7\u00e3o. Eu estava no Jap\u00e3o, no f\u00f3co da guerra; talvez tivessem pensado que eu j\u00e1 n\u00e3o existisse.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia em que caminhos emaranhados estava me metendo para vender o &#8220;Aclama\u00e7\u00e3o de Amador Bueno&#8221;, de meu pai ao gov\u00earno. Prometiam compr\u00e1-los, mas passavam-se dias e meses, e nada. Quando eu n\u00e3o tinha aula em Mogi e em Itapira, l\u00e1 ia eu para S\u00e3o Paulo procurar uns e outros. Na Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o, passei horas, fazendo companhia \u00e0\u00a0s professoras procurando remo\u00e7\u00e3o. Passava dois e tr\u00eas dias em S\u00e3o Paulo, gastando dinheiro e levando vida pouco interessante. Veio-me a luminosa id\u00e9ia de procurar um colega que eu tinha perdido de vista e que eu conhecia de Paris, \u00eale estava como diretor da Pinacoteca. Fui visit\u00e1-lo, recebeu-me bem, era aqu\u00eale mesmo Mugnaini, calmo e ponderado, mas cheio de talento e de bondade. Aconselhou-me a procurar o sr. Alduino Estrada, que tamb\u00e9m eu conhecia, quando frequentava a casa de meu pai. Agora estava como diretor da Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o. Foi por interm\u00e9dio e apoio d\u00eastes dois amigos, que consegui, depois de um ano e meio de lutas, vender \u00easse quadro em princ\u00edpios de 1952, por cento e vinte e nove contos e quinhentos, da verba da Pinacoteca. O t\u00famulo de meu pai foi construido com \u00easse dinheiro e, felizmente, o seu quadro estava em lugar apropriado e ao abrigo do estrago do tempo.<\/p>\n<p>Quando voltei de S\u00e3o Paulo estava t\u00e3o exausta, que vim quase gemendo na perua que me levou a Mogi. Cheguei em casa com um mal estar indescrit\u00edvel e \u00e0\u00a0noite uma forte crise card\u00edaca, igual \u00e0\u00a0 que tinha tido no Jap\u00e3o. Imaginem o meu susto. s\u00f3zinha, pensei ser o fim. O m\u00e9dico foi chamado por populares que passavam na rua. Em vez de me animar, n\u00e3o; &#8220;\u00e9&#8221;, disse \u00eale, &#8220;isso poder\u00e1 repetir-se&#8221;. Que bela perspectiva, n\u00e3o acham? Repouso completo durante um m\u00eas, ningu\u00e9m para me tratar; a avizinha vinha \u00e0\u00a0s v\u00eazes me v\u00ear r\u00e0\u00a0pidamente, porque tinha m\u00eado de pegar. S\u00f3 meu gato Kotori ficava o dia todo comigo, como um bom amigo. Essa crise me deixou bem desanimada.<\/p>\n<p>Eu conhecia de muitos anos atr\u00e1s o professor B. Sampaio e sua numerosa fam\u00edlia; moravam em Campinas. \u00c0s v\u00eazes eu vinha visit\u00e1-los e me diziam: &#8220;venha fazer uma exposi\u00e7\u00e3o aqui. Os campineiros gostam de arte&#8221;. Foram gentis comigo, apresentando-me ao sr. Mendes, que me cedeu o sagu\u00e3o do Teatro Municipal e em novembro de 1951 abri uma exposi\u00e7\u00e3o, com alguns quadros de Riokai e de meu pai. Tive um trabalho tit\u00e2nico; eu s\u00f3zinha para a embalagem e transporte de Mogi para Campinas. Nenhum caminh\u00e3o queria se encarregar. Iam todos para S\u00e3o Paulo. Ningu\u00e9m para me ajudar. no dia da inaugura\u00e7\u00e3o fiz uma pequena confer\u00eancia sobre minha estada no Jap\u00e3o. Todas as tardes e noites, muitos visitantes, mas nada de compradores. Foi justo o que tirei para as despesas. Tr\u00eas dias antes de terminar, tive a contrariedade de ver minhas telas todas arrancadas das paredes e uma a mais importante, grande estudo de cris\u00e2ntemos, furada. Meus quadros ficaram espalhados pelo ch\u00e3o. Foi um trabalho para reencaixot\u00e1-los \u00e0\u00a0s pressas!<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 n\u00e3o tinha mais a preocupa\u00e7\u00e3o do quadro de meu pai para vender. Meu curso em Mogi, (uns ricos libaneses, Chaibs, tinham me cedido numa sala da f\u00e1brica, agora vazia, na mesma avenida em que eu morava) passou a ser minha nova preocupa\u00e7\u00e3o. Ali iam algumas alunas para estudar do &#8220;natural&#8221;, primeiro, desenho, e, depois, pintura. Consegui incutir-lhes um pouco de regras e de arte, pois pintar \u00e9 tamb\u00e9m uma disciplina.<\/p>\n<p>Em Itapira tamb\u00e9m tinham progredido. Fiz uma exposi\u00e7\u00e3o dos trabalhos das alunas no Clube XV de novembro, a primeira mostra de arte nessa cidade. Fiz tamb\u00e9m em Mogi-Mirim na Biblioteca Pedro Janusi, inaugurando com a presen\u00e7a do professor, diretor da Pinacoteca Tulio Mugnaini, e do professor Alduino Estrada, diretor do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u00faltima exposi\u00e7\u00e3o que fiz em Mogi foi em 1952. Com as alunas de Itapira, juntas nesse mesmo local.<\/p>\n<p>Em Mogi-Mirim tive o prazer de n\u00e3o ter vendido nenhuma tela minha.<\/p>\n<p>Vendi, a muito custo, dois quadros em Itapira, sendo que um, rifado, e, outro, por tr\u00eas contos, para um fazendeiro milion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ambiente ingrato. Nada havia de atraente nos arredores de Mogi: s\u00f3 mato, barba de bode, casa de cupim, terra vermelha e imensos cafezais. Como chove pouco no interior, as folhas tamb\u00e9m ficam empoeiradas e de um verde sujo, sem nenhuma flor. N\u00e3o sei como consegui fazer grandes telas com flores, em Mogi-Mirim!<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00eazes, eu ia visitar uma senhora muito idosa, que morava s\u00f3zinha num imenso casar\u00e3o perto do centro. Batia por longo tempo no seu port\u00e3o e ela aparecia \u00e0 janela com sua peruca mal ajustada. Dava-me uma enorme chave, que pesava bem um quilo, para que eu abrisse a porta da casa. Dela, toda contente e curvada pelos anos, s\u00f3 restava dois olhos azuis, vivos e inteligentes. Tinha sido uma poetisa renomada, em idos tempos.<\/p>\n<p>Dona Ebrantina Cardona, com v\u00e1rios livros publicados, mulher de vanguarda na sua mocidade, havia estudado medicina e depois se dedicado \u00e0s letras. Coitada! ainda teve um gesto her\u00f3ico: vendeu seu piano para mandar publicar seu \u00faltimo livro de poesia.<\/p>\n<p>Estava ali, abandonada, a meu v\u00ear, a \u00fanica pessoa de valor na cidade.<\/p>\n<p>Folheando um livrinho, publicado h\u00e1 muitos anos, achei que os fatos mais importantes dessa comarca, foram: a inaugura\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Mogiana por Pedro II (ficando o Imperador alguns dias na cidade), e tamb\u00e9m, a estadia, por algum tempo, do grande pintor Almeida J\u00fanior (20), quando, ainda, muito mo\u00e7o.<\/p>\n<p>(21) ALMEIDA J\u00daNIOR, JOS\u00c9 FERRAZ DE (Itu, 1850 &#8211; Piracicaba, 1899) foi um grande pintor acad\u00eamico brasileiro do s\u00e9c. XIX. Cursou a Academia Imperial de Belas-Artes no Rio de 1869 a 1874. D. Pedro II, em visita \u00e0\u00a0Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo, impressionou-se com o retrato de Antonio Queir\u00f3s Teles, pintado por Almeida J\u00fanior, e estimulou-o, concedendo-lhe bolsa de estudos para ir \u00e0\u00a0Europa. De 1876 a 1883, Almeida J\u00fanior frequentou a \u00c9cole des Beaux-Arts de Paris e foi aluno de Alexandre Cabanel. Pintou temas b\u00edblicos, assuntos brasileiros, retratos e quadros de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Todos os dias meu desejo de sair dessa terra ia-se tornando mania. Vinha frequentemente a Campinas para me abastecer de verduras, frutas, manteiga &#8211; nem essas coisas elementares se encontravam em Mogi!<\/p>\n<p>Por acaso passavam \u00e0\u00a0s v\u00eazes boas fitas, num dos dois cinemas. Certa vez, um grande circo foi parar nesse buraco. Fizeram passar pelo centro todos os componentes d\u00easse teatro nomade. Como eu me achava no largo, pude ver desfilar compungida, nos carros de pra\u00e7a, os an\u00f5es. Havia muitos homens e mulheres, com umas express\u00f5es tristes, mostradas como curiosidades. Era uma fila intermin\u00e1vel: vinham alguns camelos velhos e pelados, cavalos min\u00fasculos e feras enjauladas, mas magras e deprimidas pelo cativeiro. N\u00e3o gostei; francamente, n\u00e3o gostei.<\/p>\n<p>Os carros de bois que paravam em frente, numa venda \u00e0\u00a0minha casa, eram mais interessantes: \u00e0\u00a0s v\u00eazes, oito a dez bois, puxando com dificuldade, todos amarrados a uma pesada canga no pesco\u00e7o. as rodas de madeira maci\u00e7a, rinchando, eram ouvidas de longe.<\/p>\n<p>Adeus, Itapira; n\u00e3o me deixas saudades, com tuas ruas ermas e empinadas, verdadeiro inferno dos burros de carro\u00e7a, levando carga bem superior \u00e0s suas for\u00e7as.<\/p>\n<p>E sua vida calma, com prociss\u00f5es, casamentos e ricos da terra viajando para a Europa ou Argentina, etc&#8230;.<\/p>\n<p>Comprei uma casinha em Campinas, com um longo terreno de fundos. Aluguei a casa e mandei fazer no terreno restante um atelier, que foi terminado em novembro de 1953. Consta essa minha nova morada, de duas grandes pe\u00e7as, e mais cozinha e banheiro. Isso me deu muito trabalho e l\u00e1 se foram todas minhas economias!&#8230;<\/p>\n<p>Estou mais confiante, pois tenho a vida material mais segura e n\u00e3o preciso correr atr\u00e1s de alunos. Estou ainda com ilus\u00f5es, vou trabalhar para enviar ao Sal\u00e3o Paulista, uma cesta com flores diversas; um pote de metal com rosas brancas e mais outro estudo.<\/p>\n<p>Mas tive a decep\u00e7\u00e3o de ver tudo recusado, depois de ter sido aceita em Paris, no Salon des Artistes Fran\u00e7ais, durante cinco anos consecutivos, no Salon des Tuilleries e nos melhores Salons do Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1959, no Sal\u00e3o Oficial dos artistas Brasileiros de S\u00e3o Paulo, existiam tr\u00eas elementos no j\u00fari, sendo que dois de Campinas. Um tal Tortorelli, mais um grupo de italianos, se apoderaram do Sal\u00e3o Paulista. E n\u00e3o mais digo&#8230;<\/p>\n<p>Mas o porvir ainda ia me reservar desagrad\u00e1veis surpr\u00easas: logo vi que eram panelinhas que dominavam os &#8220;meios art\u00edsticos&#8221;, tanto de S\u00e3o Paulo como de Campinas. Tudo uma pin\u00f3ia!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m constatei que ensinar piano seria uma impossibilidade dada a exist\u00eancia dos muitos conservat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Em Campinas, h\u00e1 algumas academias de arte, subvencionadas pelo gov\u00earno. A meta para a maioria dos alunos \u00e9 a espetacular festa de formatura e o diploma. &#8220;Formado pelo Conservat\u00f3rio de Campinas&#8221;. Na Escola de Belas Artes d\u00e1-se a mesma coisa.<\/p>\n<p>Kaminagai, pintor de renome, tendo morado longos anos em Paris, estando no Rio, veio at\u00e9 esta cidade fazer uma bela exposi\u00e7\u00e3o no sagu\u00e3o do Municipal. Eu j\u00e1 o conhecia de 1940, quando vim com Riokai do Jap\u00e3o. Fomos a cada jornal levar o convite para a inaugura\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m convites para pessoas ricas com fama de apreciar pintura; entregamos cartas de apresenta\u00e7\u00e3o a americanos bem postos em Campinas. Uma bela mostra de pinturas art\u00edsticas, bem apresentadas em ricas molduras.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se mexeu! Os jornais deram apenas tr\u00eas linhas dizendo que a exposi\u00e7\u00e3o estava aberta ao p\u00fablico. Como estava acabando o prazo para a mostra, resolvi escrever um artigo. Mas cortaram muita coisa e saiu depois de um custo b\u00e1rbaro no dia do encerramento. Disse-me o pintor Kaminagai ter sido essa minha cronica a melhor cousa que levou de Campinas em 1955.<\/p>\n<p>Tenho crises de des\u00e2nimo. Por\u00e9m consigo venc\u00ea-las. Pinto, desenho, trabalho completamente isolada, repasso meu repert\u00f3rio, dec\u00f3ro os clavecinistas franceses (Daquin, Comperin, Rameau) gosto de Albeniz. Adoro os bons livros e leio muito, o que me faz suportar, meu retiro. Esfor\u00e7o-me para expressar o que sinto.<\/p>\n<p>n\u00e3o tenho amigos. As mulheres que conhe\u00e7o s\u00e3o muito femininas. Como m\u00e3es de fam\u00edlia, ocupam-se da casa, do marido e dos filhos. \u00c9 da moda, dos penteados, do trato das unhas e da beleza. Nada de cultura do esp\u00edrito. O sistema patriarcal perdura e n\u00e3o est\u00e1 prestes a se acabar.<\/p>\n<p>Mando para o Sal\u00e3o de Campinas algumas telas, outra vez recusadas. At\u00e9 parece anedota, custo a crer! N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, sofro persegui\u00e7\u00e3o d\u00easses cabotinos, porque sou mulher. e tamb\u00e9m porque sou filha de um grande pintor. E apesar de n\u00e3o ter vivido \u00e0\u00a0 sombra de um grande nome&#8230;<\/p>\n<h2>S\u00c3O PAULO, 1950<\/h2>\n<p>Uns tempos depois que cheguei a S\u00e3o Paulo, tive finalmente not\u00edcias de minha irm\u00e3 Margarida, tendo ela sabido que eu estava em S\u00e3o Paulo, pela minha irm\u00e3 Judith. Estava agora em Gotemborg (Su\u00e9cia). O Luiz, seu marido, dirigia o Consulado do Brasil, nessa cidade.<\/p>\n<p>Fiquei contente de ler sua carta. Isabel, minha sobrinha, j\u00e1 estava uma linda mo\u00e7a, pelas fotos que recebi. \u00c0s v\u00eazes me escreviam, contando-me como era a vida de l\u00e1 e de seu povo, um dos pa\u00edses mais evolu\u00eddos do mundo. Gostei de conhecer alguma coisa da Su\u00e9cia, atrav\u00e9s dessas cartas. Soube que Isabel estava noiva de um paulista e que iria se radicar em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h2>EXPOSI\u00c7\u00e0O DE RIOKAI &#8211; S\u00c3O PAULO, 1955<\/h2>\n<p>Fazia tempos que eu andava com o projeto de fazer em S\u00e3o Paulo uma exposi\u00e7\u00e3o das telas de Riokai. Para \u00easse fim fui diversas v\u00eazes a S\u00e3o Paulo arranjar local e organizar a exposi\u00e7\u00e3o. Era uma empr\u00easa \u00e1rdua, que me deu o que fazer. Um colega, sr. Takaoka foi comigo falar ao dono do cine Niter\u00f3i (21), que me cedeu o sal\u00e3o do hotel por alguns dias. O sal\u00e3o era grande. No meio, foram instaladas divis\u00f5es recobertas de lona para pendurar as telas.<\/p>\n<p>(22) CINE NITER\u00d3I foi o nome da primeira sala de exibi\u00e7\u00e3o fixa da comunidade japonesa em S\u00e3o Paulo. Yoshikazu Tanaka e seu irm\u00e3o abriram o Cine Niter\u00f3i em 1953, exibindo o filme &#8220;Genji Monogatari&#8221; de 1951, pr\u00eamio de Melhor Fotografia no Festival de Cannes. As instala\u00e7\u00f5es do Niter\u00f3i eram grandes, na rua Galv\u00e3o Bueno, onde hoje se localiza o Viaduto Osaka: cinema no subsolo, sal\u00e3o de eventos e restaurante no t\u00e9rreo, e hotel num andar superior. Rapidamente o Cine Niter\u00f3i tornou-se importante ponto de encontro de imigrantes e seus descendentes, e gerou a \u00e1rea de concentra\u00e7\u00e3o comercial t\u00edpicamente oriental que \u00e9 hoje o tur\u00edstico bairro da Liberdade. Em 1961, o Niter\u00f3i tornou-se distribuidor exclusivo das produ\u00e7\u00f5es da Toei D\u00f5ga, grande companhia cinematogr\u00e1fica japonesa. Em fun\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o da Avenida Radial Leste, o Niter\u00f3i teve de se mudar para um novo endere\u00e7o, na esquina da Avenida Liberdade com Rua Bar\u00e3o de Iguape, onde funcionou at\u00e9 seu fechamento em 1988.<\/p>\n<p>O aluguel e a compra de molduras, os cat\u00e1logos e convites, o transporte e as embalagens fizeram-me gastar um dinheir\u00e3o. Foi um trabalho extenuante, mas no dia 15 de maio de 1955, tive a alegria de inaugurar a mostra de telas de Paris e do Jap\u00e3o, homenagem ao meu saudoso Riokai. Minha sobrinha Isabel ajudou-me adquirindo a bela tela Vins et liqueurs. As outras, foram todos japon\u00eases que compraram, interessando-se pela exposi\u00e7\u00e3o. de brasileiro, s\u00f3 apareceu um fiscal para me aplicar multa, porque n\u00e3o tinha feito declara\u00e7\u00e3o na Prefeitura.<\/p>\n<p>No primeiro dia, ofereci um coquetel aos amigos e amadores artistas, intelectuais, jornalistas brasileiros e japon\u00eases.<\/p>\n<p>N\u00e3o ganhei nada com as vendas, tudo sendo absorvido nas despesas, por\u00e9m fiquei contente por haver mostrado mais uma vez a arte de Riokai.<\/p>\n<p>Com o tempo fui conhecendo melhor Campinas. Apesar de infensa \u00e0\u00a0 arte, \u00e9 uma cidade de muita tradi\u00e7\u00e3o e muito progressista, muito ligada \u00e0\u00a0 S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<h2>EMBARQUE NO AUGUSTUS, 1952<\/h2>\n<p>Um velho amigo de meu pai, sr. Altusino Estardo, ofereceu-se a comprar os trabalhos restantes de meu pai, com a condi\u00e7\u00e3o de acompanhar a Paris uma sobrinha sua. Como eu estava com umas complica\u00e7\u00f5es para receber uma heran\u00e7a duma tia, falecida em Bordeaux, aceitei a oferta. Em junho de 1952, fechei minha casa, deixando o gato aos cuidados da vizinha.<\/p>\n<h2>PARIS<\/h2>\n<p>Foi para mim uma grata surpr\u00easa poder rever Paris. A 26 de julho de 1952, estava eu entrando no grande transatl\u00e2ntico italiano &#8220;Augustus&#8221;, superlotado. Pareciam todos novos-ricos, aprendendo ali as boas maneiras.<\/p>\n<p>O navio s\u00f3 tocou em Dakar. Chegamos ao porto de desembarque, ao anoitecer, em Villefranche. O barco ficou longe; depois da pol\u00edcia, come\u00e7amos a descer numa lancha que nos levou em duas horas ao cais.<\/p>\n<p>Eu estava feliz de me ver livre: nem sombra da sobrinha do sr. Altusino Estardo. Conforme ficara combinado, devia encontrar-nos no cais.<\/p>\n<p>Fui para Nice passar uns tempos. Depois de percorrer algumas ruas dessa cidade que achei linda, clara, um mar azul turqueza, as casas brancas e outras coloridas, ensolaradas, voltei. Procurei a srta. Ossa, mas nada.<\/p>\n<p>Tomei naquela mesma noite o expresso para Paris, l\u00e1 chegando na manh\u00e3 de outro dia na Gare de Lyon.<\/p>\n<p>Assim que cheguei, fui visitar minha irm\u00e3 Judith Mathurin, que morava ainda no mesmo edif\u00edcio. N\u00e3o nos v\u00edamos h\u00e1 vinte anos. Choramos de emo\u00e7\u00e3o. T\u00ednhamos muito o que contar, apesar de estar ela muito fraca, devido a uma opera\u00e7\u00e3o melindrosa. Contou-me os sustos e os horrores da guerra; e eu tamb\u00e9m acrescentando minha calamidade individual, a morte de meu Riokai. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o sabia?&#8221;, disse-me ela. &#8220;Isabel se casou, h\u00e1 alguns dias, na Embaixada do Brasil em Londres (em junho), com um belo e inteligente rapaz de origem n\u00f3rdica, nascido em S\u00e3o Paulo&#8221;.<\/p>\n<p>Margarida tinha prometido ir a Paris para nos encontrarmos, mas desistiu e eu voltei de l\u00e1 sem v\u00ea-la. Logo ia conhecer minha sobrinha, nesse ano de 1952. Achei-a formosa. Depois o Luiz Einar, em 1953, uns anos depois, Cristian.<\/p>\n<p>Margarida voltou em 1954. Fui busc\u00e1-la no Rio, esperando-a no cais, depois de vinte e um anos sem nos v\u00ear, est\u00e1vamos quase irreconhec\u00edveis: t\u00ednhamos envelhecido bastante, mas que felicidade poder rev\u00ea-la!<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 n\u00e3o estava s\u00f3: tinha suas cartas, que at\u00e9 hoje continuam a vir, dando-me alegria na aridez de minha solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Revi o apartamento de Judith em Paris, onde morei, no primeiro andar dos fundos, durante treze anos. L\u00e1 estavam bem sujas as minhas janelas, que resistiram a duas grandes guerras. Nesse meu apartamento, passaram-se importantes trechos de minha vida. Lembro-me daquela tarde em que sa\u00ed com meu marido Riokai, para n\u00e3o mais voltar. E agora, a mesma mme. Morisot, conci\u00e9rge, arranjou-me um quarto pegado ao dela.<\/p>\n<p>Fiquei, porque estava perto de minha irm\u00e3, num quarto pouco confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nada de not\u00edcias da srta. Ossa. Ela estava em Roma. Eu j\u00e1 estava muito preocupada, pois a m\u00e3e e o tio haviam-me feito muitas recomenda\u00e7\u00f5es a seu respeito. Mandei um telegrama aos parentes e comecei a rev\u00ear Paris, que achei bem diferente: sujo e relaxado. N\u00e3o havia aquela fartura de antes, como nos grandes magazines no Louvre, no Printemps, e em outros. Nos museus, como o Louvre, o ch\u00e3o era um espelho e tudo meticulosamente limpo. Agora n\u00e3o. Dominavam, como sempre, os rebanhos de turistas as suas salas, seguindo os seus cicerones, como carneiros. Mas, felizmente, o Louvre continuava sendo o Louvre de sempre&#8230;<\/p>\n<p>Finalmente, depois de alguns dias, fui descobrir o paradeiro da sobrinha do sr. Altusino Estardo.<\/p>\n<p>Contou-me um \u00e1libi complicado. N\u00e3o houve meio de ela se interessar pelas belezas hist\u00f3ricas de Paris. Quase \u00e0\u00a0hora de fecharem o Louvre, chegamos apressadas. ela, de mau humor. Fomos diretas \u00e0\u00a0gioconda de Da Vinci. Foi a \u00fanica coisa que consegui mostrar-lhe. As boates e outros lugares alegres, eram de sua prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>Dal\u00ed dev\u00edamos nos encontrar em Veneza, para ir a G\u00eanova tomar o vapor Province rumo ao Brasil. Nos dias que se seguiram tratei de minha heran\u00e7a &#8211; o dinheiro estava no Credi Lyonnais. Por lei, dinheiro e valores n\u00e3o podiam sair da Fran\u00e7a. fui lesada nessa heran\u00e7a, e o pouco que tinha a receber foi-me dado em pequenas presta\u00e7\u00f5es. Ela s\u00f3 me causou transtornos e despesas, com documentos car\u00edssimos que precisavam ser legalizados ou passados pelo Consulado Franc\u00eas, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A vida noturna em Paris, que tanto atra\u00eda os estrangeiros n\u00e3o era mais a mesma. A guerra pos t\u00earmo a muita coisa.<\/p>\n<p>Eu, ensimesmada, sumida em recorda\u00e7\u00f5es. Lembrei-me de uma poesia de Musset: &#8220;Rien n&#8217;est plus triste que les souvenirs des jours heureux&#8221;. (23)<\/p>\n<p>(23) TRADU\u00c7\u00c3O &#8211; &#8220;Nada \u00e9 mais triste que as lembran\u00e7as dos dias felizes&#8221;.<\/p>\n<p>Em Paris, passei o melhor de meus dias, com a minha arte. Em Paris me esforcei para progredir. Em Paris vivi meu grande e luminoso amor, que me levou ao Oriente.<\/p>\n<p>Fui uma tarde fazer croquis no Grand Chaumi\u00e9re. A porteira, mme. Rose, reconheceu-me &#8211; t\u00ednhamos envelhecido vinte anos. Lembrou-se de Riokai. O mod\u00ealo era bonito \u00easse dia e fiz diversos croquis. Entrei na loja de tintas Castelucho; estava do mesmo jeito. Sempre a filha da casa no balc\u00e3o, mancando com seu aparelho na perna e seu ar duro ao atender os clientes. Comprei uma caixa de tintas e algum material de pintura. Depois fui andando pelo boulevard Montparnasse, passei na Rotonde, que agora n\u00e3o era frequentada por bo\u00eamios e por artistas, por dentro e nas mesinhas da cal\u00e7ada. No dome, igualmente me disseram que os artistas e bo\u00eamios tinham-se mudado para Saint Germain des Pr\u00e9s. Viraram existencialistas oportunistas.<\/p>\n<p>Passei pelo Sena, vendo e folheando livros nos antiqu\u00e1rios, vendo o rio e suas belas e antigas pontes. Fui ao March\u00e9 aux puces em Saint Auen, atravessando Paris de metro. Esse mercado \u00e9 curioso e imenso, verdadeira cidade &#8211; tem de tudo, s\u00f3 cousas velhas e usadas, m\u00f3veis, quadros, porcelanas, j\u00f3ias, vestidos da belle \u00e9poque, alguns bonitos, todos de renda, feita \u00e0\u00a0m\u00e3o. Pensava eu: &#8220;onde estar\u00e3o as belas donas de tanto luxo?&#8221;<\/p>\n<p>As barracas que vendem essas cousas s\u00e3o feitas de t\u00e1buas velhas, pretas, em estreitas ruas intermin\u00e1veis; parecem cemit\u00e9rio, al\u00e9m de tristes e feias.<\/p>\n<p>Tudo muito caro como se fosse nas lojas do centro. Comprei alguns metais antigos, tr\u00eas relojinhos de esmalte, como se usavam no s\u00e9culo passado, um tapete algeriano feito a m\u00e3o e caixinhas de porcelana de Limoges.<\/p>\n<p>Champs-Elys\u00e9es. Fui diversas v\u00eazes admirar a moda que se apresentava nas grandes casas. Haviam nas suas enormes vitrinas uma profus\u00e3o de bel\u00edssimos vestidos de soir\u00e9e. Cada mostru\u00e1rio de uma cor s\u00f3. Pensei: &#8220;\u00easse luxo deve ser para exporta\u00e7\u00e3o&#8221;. Nas ruas viam-se as parisienses, muito simples no trajar, quase todas de taier, pr\u00eato ou de cor s\u00f3bria, sem adornos. A maioria sem maquilagem. Pareceu-me que antes da guerra cuidavam mais da moda.<\/p>\n<p>tudo inacess\u00edvel para a bolsa m\u00e9dia. fui tratando de minha viagem a Veneza. Comprei numa ag\u00eancia italiana nos Grands Boulevards, a passagem; e alguns dias de hotel, porque nessa \u00e1poca do ano receava n\u00e3o encontrar onde dormir. Agosto \u00e9 o m\u00eas dos turistas em Veneza. Nessa ag\u00eancia venderam-me as di\u00e1rias no Hotel Bauer, um dos grandes Palaces, porque n\u00e3o havia outro: O quarto com sala de banho, dava para o grande canal.<\/p>\n<p>Chegando l\u00e1, deram-me um quarto escurovoltado para os telhados, e um banheiro longe, do quarto, pagando \u00easse ainda, \u00e0\u00a0parte. N\u00e3o quiseram saber de nada, aconselhando-me a reclamar na ag\u00eancia, quando chegasse a S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>O \u00faltimo dia que passei em Paris era luminoso, com um c\u00e9u azul. Minha irm\u00e3 Judith havia partido em f\u00e9rias, h\u00e1 alguns dias. Felizmente pude sair da Veneza acarcamanada<\/p>\n<p>Depois de mandar as bagagens para a esta\u00e7\u00e3o, fiquei desligada para sempre da Rue Severo, n\u00ba 8. Como o dia era lindo, fui de novo ao cais do Sena.<\/p>\n<p>Quantas recorda\u00e7\u00f5es do tempo em que ia a\u00ed pintar. Fiz muitos estudos de suas velhas pontes, refletidas no misterioso Sena. A Place Saint Michel com sua bela fonte e seus estudantes andando em grupos e mais adiante, as estreitas e antigas ruelas. La Rue du Chat que P\u00eache, la Rue des Femmes Sans T\u00eates, em frente ao Sena, s\u00f3 antiqu\u00e1rios e livrarias.<\/p>\n<p>J\u00e1 estava eu admirando as maravilhosas portas do Notre Dame com suas carreiras de Santos de pedra, magros e duros, alguns com ninhos que os pardais lhes fazem sobre a cabe\u00e7a, parecendo chap\u00e9us. Entrei na catedral. Coado sol iluminava seus maravilhosos vitrais, o interior majestoso e austero. Eu estava ali s\u00f3zinha. Que bom lugar para a medita\u00e7\u00e3o, mas quando de novo me achei fora, pensei que o sol, a luz, o verde das \u00e1rvores, eram-lhe ainda muito superiores.<\/p>\n<p>Passei a tarde no jardim de Luxembourg. depois de passear pelas al\u00e9ias, sentei-me perto dos tufos bem cerrados de flores perfumadas como o mel. Fiquei umas horas me recordando dos tempos em que ia pintar com minhas irm\u00e3s. Na fonte dos M\u00e9dicis, os dois namorados de pedra, com seus pombos dando-lhes vida, ali eram os mesmos&#8230; E depois de anos me vejo andando com minha caixa de tintas, pelas alamedas de pl\u00e1tanos, ao lado de Riokai, meu namorado. And\u00e1vamos devagarzinho, no esplendor de outono, procurando ponto. Nos dias de semana, ningu\u00e9m por aqu\u00eales s\u00edtios. S\u00f3 as est\u00e1tuas das rainhas, que a brisa ornava de folhas s\u00eacas.<\/p>\n<p>Como eram bons e doces aqu\u00eales tempos &#8211; e eu, sempre com minha filosofia, pensando: a vida \u00e9 t\u00e3o curta, n\u00e3o poderia ser assim at\u00e9 o fim?<\/p>\n<p>N\u00e3o, a prova \u00e9 que eu estava ali completamente transformada. Tudo tinha mudado, e as ef\u00eameras borboletinhas brancas e amarelas continuavam a trabalhar, sugando e visitando as flores; vibrando no ar, apressadas, porque iam durar s\u00f3 um dia.<\/p>\n<p>Ao escurecer, larguei Paris ali, e fui direto \u00e0\u00a0esta\u00e7\u00e3o. Naquela mesma noite, tomei o noturno que me levou no dia seguinte a uma hora na esta\u00e7\u00e3o central de Veneza.<\/p>\n<h2>VENEZA<\/h2>\n<p>Quantas lembran\u00e7as! Aqui passei com meu pai, quando ainda era meninota de luto fechado, mas assim mesmo, achei maravilhoso. Depois, em 1914, estive com uma colega ingl\u00easa, Miss Smith, e agora, sem d\u00favida, pela \u00faltima vez. Uma grande gondola preta de proa alevantada levou-me pelo grande canal ao Hotel Bauer. Entrei pelo seu vasto hall, todo atapetado de vermelho, um grande balc\u00e3o para os gerentes, todos engravatados, belas mob\u00edlias e quadros antigos adornavam as paredes. V\u00e1rios elevadores com seus empregados bem fardados, muitos americanos e estrangeiros. Como nos transatl\u00e2nticos de luxo, o jantar era servido no belo terra\u00e7o que dava para o grande canal, e via-se a c\u00e9lebre igreja de Santa Maria das Flores. Tinha que se vestir a rigor e n\u00e3o era meu ambiente. Sempre detestei a vida burgu\u00easa e materialista.<\/p>\n<p>Logo fui tratar de procurar a srta. Ossa, no albergo Marconi, mas ali de nada sabiam. Todos os dias eu atravessava a ponte de Rialto para ter a mesma resposta. O tempo era empregado em rev\u00ear essa cidade linda como um sonho, \u00fanica no mundo, suas velhas casas coloridas a se refletirem nos canais, suas gondolas pretas cortando as \u00e1guas t\u00e3o decantadas pelos poetas de todas as \u00e9pocas.<\/p>\n<p>Por \u00easse m\u00eas de agosto eram s\u00f3 dias claros e ensolarados &#8211; passava-se o dia fora. Fui \u00e0\u00a0Bienal que era no Lido. Todos os pa\u00edses estavam representados por seus artistas nos seus pavilh\u00f5es, em meio aos jardins, muitos trabalhos, mas pouca cousa boa.<\/p>\n<p>Fiquei a manh\u00e3 toda no Pal\u00e1cio Ducal, em contempla\u00e7\u00e3o diante da imensa tela de Tintoreto. Um assombro \u00easse trabalho, como \u00e9 que nesse tempo afastado, sem as facilidades de hoje, podia-se fazer uma tela com dez metros de largura por oito de altura? Cheio de figuras bem desenhadas animando \u00easse Para\u00edso (t\u00edtulo do painel), imaginado por Tintoreto.<\/p>\n<p>Que ventura rever a grande pra\u00e7a de S\u00e3o Marcos com sua catedral in\u00e9dita no estilo bizantino, com suas ab\u00f3badas todas de ouro. Mas o que alegra essa grande pra\u00e7a s\u00e3o seus numerosos pombos, mansos e soci\u00e1veis. Pousam de boa vontade nos ombros e bra\u00e7os dos turistas e \u00e0\u00a0s v\u00eazes na cabe\u00e7a. Os fot\u00f3grafos, sempre ocupados, a tirar os h\u00f3spedes de Veneza, que ir\u00e3o levar essa lembran\u00e7a para a vida.<\/p>\n<p>Ao meio-dia, parte um tiro de canh\u00e3o e todos os pombos voam apavorados de um le\u00e3o dourado, num fundo azul, em baixo de uma porta. Por dentro das galerias que enquadram essa grande pra\u00e7a, est\u00e3o belas lojas de rendas feitas a m\u00e3o, cristais de Murano, cada pe\u00e7a grande, livrarias, caixas de j\u00f3ias antigas. Sinto n\u00e3o poder comprar cousas que realmente me agradam. Grandes caf\u00e9s com suas mesinhas se espalhando pela pra\u00e7a, sempre formigando de gente vinda de toda parte do mundo.<\/p>\n<p>Minha preocupa\u00e7\u00e3o era grande: nada de saber do paradeiro da srta. Ossa. Resolvi ir a G\u00eanova para tomar o vapor Province, mesmo sem ela. Uma viagem escaldante de Veneza a G\u00eanova. Os trens italianos s\u00e3o bem pouco confort\u00e1veis para o estio. As poltronas estreitas, forradas de esp\u00eassa pel\u00facia, que aumentava ainda mais o calor. O trem era t\u00e3o comprido que n\u00e3o acabava mais, parando longe do cais, onde n\u00e3o se podia descer devido aos trilhos.<\/p>\n<p>Nada de se poder comprar um refr\u00easco, morrendo-se de s\u00eade. Cheguei na acidentada cidade de G\u00eanova ao anoitecer, cansada e fraca. Nada de poder arranjar hotel! Tive que ir para o centro. Passei a noite num hotelzinho.<\/p>\n<p>A primeira coisa que fiz foi ir logo \u00e0\u00a0ag\u00eancia do province. L\u00e1 me informaram que havia vindo uma mo\u00e7a \u00e0\u00a0minha procura, que estava no grande Hotel Inglaterra.<\/p>\n<p>Por fim a encontrei. Sua ousadia era t\u00e3o grande, que ainda queria discutir comigo, que eu n\u00e3o havia estado em Veneza! Tive de lhe pagar a conta do hotel, porque dizia n\u00e3o ter mais um vint\u00e9m. \u00c0 tarde, embarcamos no Province. O dia seguinte foi em Marselha. Disse n\u00e3o ter dinheiro nenhum e eu tamb\u00e9m lhe disse &#8220;estou nas mesmas condi\u00e7\u00f5es, guardando alguma coisa para as gorjetas do fim de viagem&#8221;.<\/p>\n<p>Assim mesmo quis descer para v\u00ear a cidade. Chegando ao port\u00e3o, apareceu o aduaneiro que quis por for\u00e7a abr\u00edssemos as bolsas. Ela, nada de querer.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o&#8221;, disse \u00eale, &#8220;n\u00e3o podem sair!&#8221; A\u00ed ela abriu a bolsa, que estava abarrotada de c\u00e9dulas de mil francos. Mas n\u00e3o perdeu o cinismo e disse rindo: &#8220;veja s\u00f3, eu n\u00e3o sabia que tinha tanto dinheiro!&#8221;<\/p>\n<p>Ela ainda f\u00eaz compras e depois de percorrer a Canebi\u00e9rre, entramos no Province, para passar dezessete dias no mesmo camarote.<\/p>\n<p>Ela passava o tempo na piscina e nos flertes, deixando o quarto num desleixo incr\u00edvel. Fiz uma viagem di\u00e1riamente contrariada. O ambiente era dos mais burgu\u00eases, as meninotas assanhadas para n\u00e3o perderem a ocasi\u00e3o de terem aventuras e mostrarem os vestidos, como sempre escandalosos, de tipo vulgar; mulheres casadas namorando a olhos nus os homens, fazendo conhecimentos para continua\u00e7\u00e3o em terra.<\/p>\n<p>Mais uma vez, Barcelona. O navio s\u00f3 ficou duas horas e desci no cais. Ali havia lojas que vendiam lembran\u00e7as, onde comprei uma bonequinha de castanholas.<\/p>\n<p>Dakar &#8211; por mais uma vez tomamos um onibus que passou pelo centro, vendo trechos da grande cidade \u00e0s pessoas. Os quarteir\u00f5es habitados pelos europeus, com belos bangalos, os bairros de pretos pobres, com carreiras de casinhas todas iguais. O que gostei de v\u00ear foram os pretos vestidos com seus trajes que lhes ficavam muito bem, os homens de amplas camisolas brancas, ou azul claro, um feitiche no pesco\u00e7o, o f\u00eaz de feltro vermelho na cabe\u00e7a parecendo um pote embocado; as mulheres, de corpetes ajustados, mangas curtas, grande decote, muitos colares, turbante, largas e amplas saias em cores variadas e vivas. E pensava como ficariam bem os pretos do Brasil com \u00easses trajes, em vez de usar a moda ocidental, que os enfeiam, n\u00e3o estando apropriada ao seu tipo.<\/p>\n<p>O resto da viagem, at\u00e9 o Rio, passei os dias lendo e pensando no meu futuro, na minha arte. J\u00e1 fazia uns meses que eu n\u00e3o havia pegado nos pinc\u00e9is.<\/p>\n<p>Chegamos ao Rio \u00e0\u00a0 noite.<\/p>\n<p>L\u00e1 estavam o tio, sr. Altusino e a m\u00e3e da srta. Ossa. Fiquei contente de lhes entregar a filha. Eles seguiram at\u00e9 Santos e eu desci no Rio, devido \u00e0s malas. Fiquei mais um dia para visitar Maria Paula.<\/p>\n<p>Cheguei t\u00e3o doente a S\u00e3o Paulo, que pensei tivesse de ir a um hospital. Mas n\u00e3o, no dia seguinte estava melhor e fui \u00e0\u00a0casa da srta. Ossa v\u00ear se minha bagagem havia chegado.<\/p>\n<p>Qual n\u00e3o foi minha surpr\u00easa ao v\u00ear minhas malas abertas. Disseram-me que haviam chegado assim. Alguns presentes de perfumes dados pela minha irm\u00e3 Judith haviam sumido, e outras coisas. Diante da minha resolu\u00e7\u00e3o de fazer queixa \u00e0\u00a0ag\u00eancia de transportes, disseram-me terem sido \u00eales mesmos que haviam aberto!<\/p>\n<h2>CAMPINAS<\/h2>\n<p>Como sempre gostei muito da paisagem, por onde ia procurava algum ponto interessante.<\/p>\n<p>Aqui, quem vai fazer paisagem, s\u00e3o homens; ainda se continua segunda a velha rotina &#8211; uma mulher \u00e9 uma mulher, o que \u00e9 notado n\u00e3o s\u00e3o suas capacidades nem seu talento, \u00e9 seu SEXO. N\u00e3o h\u00e1 coleguismo como nas cidades evolu\u00eddas. Muitas v\u00eazes me queixei disso; ent\u00e3o me convidaram a ir com \u00eales mas isso ficou em palavras. Al\u00e9m dos moleques, ainda h\u00e1 outros dissabores, as moscas, os insetos, o vento que arranca tudo, o sol que queima, f\u00f3ra os apetrechos pesados; \u00e9 duro aqui conseguir fazer uma paisagem, n\u00e3o conhe\u00e7o nem um ponto digno de tantos sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>Como passeio, h\u00e1 o bosque, um jardim zo\u00f3logico. Alguns bichos, como macacos, que vivem na imund\u00edcie, umas feras em pequenas jaulas, h\u00e1 um museu de hist\u00f3ria natural, mas como eu tenho horror a bichos empalhados, nunca entrei. H\u00e1 tamb\u00e9m no centro de ci\u00eancias e letras um museu de antiguidades, alguns retratos de Pedro II e de personagens do tempo do Imp\u00e9rio, tudo em mau estado, estragando-se com a poeira e o relaxamento. O mais s\u00e3o igrejas, conventos.<\/p>\n<p>No Teatro Municipal \u00e9 que h\u00e1 um curioso pano de boca, representando Carlos Gomes sentado perto do piano e suas \u00f3peras esvoa\u00e7ando \u00e0\u00a0roda d\u00eale, duma concep\u00e7\u00e3o engra\u00e7ada &#8211; muitas v\u00eazes pensei em escrever um artigo a respeito com \u00easte t\u00edtulo: &#8220;INSULTO A CARLOS GOMES&#8221;; isso seria um fato \u00fanico e certamente, os campineiros ficariam ultrajados com semelhante aud\u00e1cia.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que faz Campinas suport\u00e1vel \u00e9 passar \u00e0s v\u00eazes uma boa fita, donde vivo duas boas horas; algumas verdadeiras viagens; outras, mostrando as verdades humanas.<\/p>\n<p>Sempre minha arte me atormenta; j\u00e1 estou madura, seria tempo de fazer boa e dur\u00e1vel pintura, mas ainda n\u00e3o perdi a esperan\u00e7a. Mesmo que entulhe tudo em casa, mesmo que eu saiba que n\u00e3o posso expor e que ningu\u00e9m se interessa. Fiz muitos retratos, contando j\u00e1 uns dezenove, todos de gra\u00e7a s\u00f3 para o prazer de pintar a figura; alguns n\u00e3o gostaram e depois de uns tempos tiraram o retrato da parede para p\u00f4r uma fotografia!<\/p>\n<p>Sempre o artista se estimula pintando com o fim de expor; muitas v\u00eazes me pergunto com que fim pinto; n\u00e3o exponho, sou recusada mesmo no sal\u00e3o de Campinas! Os jornais n\u00e3o se interessam, os grupos de homens que pintam s\u00e3o meus inimigos porque sou mulher, como se a arte tivesse sexo! Mesmo com uma vontade inquebrant\u00e1vel seria de desanimar&#8230; H\u00e1 dias em que sou tomada de profunda tristeza, porque tudo se une contra mim, meu corpo \u00e9 um d\u00eales e devido \u00e0\u00a0falta de sa\u00fade, que estou neste dest\u00earro.<\/p>\n<p>Como dizia Pierre Mille, quando se l\u00ea muito e se adora os livros, acaba-se escrevendo. Acho que a literatura tem muitos pontos parecidos com a pintura; n\u00e3o me falta observa\u00e7\u00e3o, imagina\u00e7\u00e3o, mas sim t\u00e9cnica; foi um gosto inato que me f\u00eaz amar a leitura desde crian\u00e7a e no decorrer dos anos, adorar os grandes escritores, tendo a surpr\u00easa e a alegria de encontrar neles minhas ideias, meus sentimentos, o que muito me reconforta na solid\u00e3o em que vivo. Tenho muito material de pintura, muita tela, muitas tintas e pinc\u00e9is novos, tudo o que Riokai me deixou; muitas dessas tintas est\u00e3o secando nos tubos. H\u00e1 dias que abro as caixas &#8211; os lindos tubos ainda est\u00e3o intatos, tudo me diz &#8220;pinte, n\u00e3o fa\u00e7a caso das circunst\u00e2ncias&#8221;. Gosto do cheiro das tintas; para mim acordam reminisc\u00eancias porque nasci pintora, minha palheta \u00e9 a j\u00f3ia mais linda que possuo, tenho-lhe tanto ap\u00eago como se fosse um cora\u00e7\u00e3o dotado de alma&#8230; Todas as cores s\u00e3o minhas musas &#8211; blanc dargent, jaune de chrome, ocre, jaune, vermillon fran\u00e7ais, laque de crinson, bleu, cobalt, vert en\u00e9raude, brun Van Dyke mas conforme eu pinto, minha palheta muda se \u00e9 paisagem ou figura. Que id\u00e9ia! Vou fazer uma s\u00e9rie de biombos, uma exposi\u00e7\u00e3o de coisas decorativas, de tr\u00eas folhas, decoradas com flores do Brasil; belos motivos n\u00e3o faltam. Come\u00e7o a m\u00e3o na obra, mas a arma\u00e7\u00e3o sai cara &#8211; de um lado \u00e9 pintado e de outro, forrado com s\u00eada; vai tinta fina, ouro em p\u00f3 e verniz; vou empregar um capital; quanto ao trabalho me apraz faz\u00ea-lo de gra\u00e7a; tenho diversos croquis. Um primeiro que empreendia foi no estilo japon\u00eas, de papel esticado dos dois lados, rosas; e com fundo de ouro e uma roseira em flor e outro, o fundo azul e as decorativas e grandes flores vermelhas, bico de papagaio. Para ter uma id\u00e9ia do que podia ser expondo alguns, mandei para uma casa do centro de finos estofados e expuseram na vitrina. Ficou uns tr\u00eas meses l\u00e1; afinal vendi para recuperar o dinheiro do material, Cr$ 2.500,00.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e3o o m\u00ednimo valor \u00e0\u00a0 mulher pintora ou intelectual. Os homens fogem. \u00c0s v\u00eazes, h\u00e1 um ou outro, muito raro, um pouco melhor que as mulheres. Mas n\u00e3o se pode travar conhecimento com \u00eales, porque pensam logo ser de natureza diversa. As mulheres n\u00e3o gostam e se afastam de uma mulher evolu\u00edda. \u00c9 inveja no seu subconsciente atrasado.<\/p>\n<p>Convido-os a virem ao meu atelier. Os homens e suas esposas sabem que passei longos anos no Jap\u00e3o. Tenho de l\u00e1 muitas cousas, reprodu\u00e7\u00f5es, fotografias, belos quimonos, objetos preciosos, mas nem a t\u00edtulo de curiosidade querem vir. Nada os interessa a respeito de arte, t\u00e3o pouco os livros. As mulheres e mesmo os homens, n\u00e3o querem cansar a cabe\u00e7a. Para qu\u00ea? Os jornais e revistas informam. Vi pessoas alinhadas lerem o Guri e o Gibi. S\u00e3o maliciosos e s\u00f3 pensam em intrigas sexuais. N\u00e3o se pode conversar muito tempo com um homem ou se \u00e9 o meu caso, receber um colega porque j\u00e1 colocam as cousas do lado animal.<\/p>\n<p>E assim, vivo comprimida entre dois lados, completamente s\u00f3. \u00c0 noite, vou ao cinema, \u00e0\u00a0s v\u00eazes; \u00e9 a \u00fanica divers\u00e3o agrad\u00e1vel quando h\u00e1 uma boa fita. Nem teatro &#8211; s\u00f3 \u00e0\u00a0s v\u00eazes, mas sem valor. Festivais de r\u00e1dio s\u00e3o pouco interessantes para uma pessoa culta.<\/p>\n<p>Minha grande preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a pintura &#8211; penso constantemente, sonho em fazer grandes telas, paisagens, composi\u00e7\u00f5es, retratos. Na Odiss\u00e9ia de Homero acho meus assuntos prediletos: Ulisses na ilha da ninfa Calipso, Nausika, filha de rei. Gostaria de tentar cousas audaciosas, mas num harmonioso equil\u00edbrio, como faz\u00ea-las?<\/p>\n<p>Mesmo os empreendimentos mais modestos s\u00e3o cheios de obst\u00e1culos. Exposi\u00e7\u00e3o individual a um p\u00fablico indiferente \u00e9 verdadeira amargura. Tira todo o entusiasmo do artista. Na parte comercial, nada se vende. Material caro, custoso, molduras, transportes, convites para ningu\u00e9m se interessar. Os que pintam, v\u00eam s\u00f3 para criticar. S\u00e3o maldosos. Os jornais se esquivam de escrever. Pela manh\u00e3 fa\u00e7o minhas refei\u00e7\u00f5es, trato de minha gata Rosinha, arrumo meu interior. Gosto de ter um ambiente limpo e agrad\u00e1vel, cuido de minhas roupas; gosto de parecer mais mo\u00e7a. Como nunca fui bonita n\u00e3o sofro ao v\u00ear meu rosto no espelho &#8211; antes era comprido e magro, boca grande, pouco queixo, olhos escuros e grandes, express\u00e3o inteligente e triste, cabelos castanhos escuros &#8211; agora muitos d\u00easses tra\u00e7os se modificaram talvez para melhor&#8230;<\/p>\n<p>Em ideias ainda sou exuberante e entusiasta pelas coisas que me parecem justas e belas&#8230;<\/p>\n<p>Estou certa de que sou da mesma ess\u00eancia dos que me rodeiam; afastei-me demais procurando progredir, evoluir; tamb\u00e9m nunca tive a sorte de ter algum amigo importante ou parente que me ajudasse; estou convencida que com a pr\u00f3pria capacidade ningu\u00e9m sobe. Precisa-se neste mundo achar quem sirva de escada para se arranjar alguma coisa&#8230; O \u00fanico que me ajudou e ficava feliz com meus sucessos foi Riokai, meu Amor. Oito anos que estou morando em Campinas, oito anos perdidos, de luta surda no sil\u00eancio. Poderia ter sido \u00fatil a tantas coisas; entretanto, ningu\u00e9m me procura, ningu\u00e9m no meu bairro ou rua se interessa; conhe\u00e7o muita gente mas n\u00e3o seria capaz de dar um passo para v\u00ear meus quadros ou ouvir no piano as m\u00fasicas do meu repert\u00f3rio, ou simplesmente, conversarem sobre as in\u00fameras viagens que fiz, minha longa estada no oriente, a guerra que passei, l\u00e1, meus belos quimonos, etc. N\u00e3o, s\u00f3 d\u00e3o valor a quem habita num rico bangalo, tem autom\u00f3vel de luxo, faz viagem aos Estados Unidos em avi\u00f5es a jato, tem marido e numerosa fam\u00edlia. Nunca se ouve dizer que uma mulher \u00e9 muito inteligente ou tem muito talento, mas sim &#8220;ela \u00e9 muito rica&#8221;. &#8220;Essa gente vai \u00e0\u00a0missa, se confessa e comunga, mas n\u00e3o faz a menor coisa para melhorar a situa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo &#8211; s\u00e3o supinamente materialistas e mesquinhos. Mois\u00e9s deveria vir uma segunda vez para p\u00f4r abaixo o bezerro de ouro, que \u00eales adoram.<\/p>\n<p>A rua que habito \u00e9 deserta e erma; raros s\u00e3o os transeuntes; o que d\u00e1 mais vida s\u00e3o os gritos e clamores dos moleques que a certas horas andam pela rua Capit\u00e3o Francisco de Paula.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito tempo alimento o projeto de ir a Buenos aires; estou com dois caixotes, um grande e outro pequeno com as telas das ruas de Paris de Riokai. Como me preocupam os trabalhos d\u00eale! Sempre venho pensando, quando eu n\u00e3o existir, que ser\u00e1 feito dessas obras? J\u00e1 tive uma amostra da exposi\u00e7\u00e3o das telas d\u00eale, que fiz em S\u00e3o Paulo, em maio de 1958, no sal\u00e3o do cinema Niter\u00f3i &#8211; pouco vendi e a maioria me voltou.<\/p>\n<p>Ainda conservo magn\u00edficos amigos em Buenos Aires, sr. e sra. Yokohama; escrevo a \u00eales se seria poss\u00edvel fazer uma exposi\u00e7\u00e3o em Buenos Aires, das ruas de Paris de Riokai &#8211; tomaram informa\u00e7\u00f5es a respeito, e acharam que sim, que eu devia tentar. Nos fins de dezembro de 1958 estava eu tomando o Santos-Maru, chegando \u00e0\u00a0 capital portenha, dia 1\u00ba de janeiro de 1959. Fui acolhida no cais pela filha da sra. Matilde, Yolanda Yokohama Galardo, pelo sr. Konomi Miyamoto, chefe de Imigra\u00e7\u00e3o, estando meus amigos nessa ocasi\u00e3o no Mar del Prata. Mas assim que chegaram, foram me buscar no hotel, me levaram quase \u00e0\u00a0 for\u00e7a para a casa d\u00eales, onde fui h\u00f3spede durante v\u00e1rios dias; me receberam com a m\u00e1xima cortesia. Fui alvo de todas as finezas e delicadezas no seu belo chateau, onde estavam as ricas cole\u00e7\u00f5es do sr. Yokohama, objetos preciosos e antigos; sendo \u00eale um erudito em assuntos orientais, expos os quadros de Riokai numa das salas e ficava admirando as telas d\u00eale, \u00e0\u00a0medida que ia tirando dos caixotes. Suas gentil\u00edssimas filhas, Norma, uma intelectual e Yolanda, uma artista no canto, possuindo bela voz de soprano ligeiro, conhecida em v\u00e1rios pa\u00edses por seu talento, sua m\u00e3e sra. Matilde, tendo sido uma ex\u00edmia cantora.<\/p>\n<p>Apresentaram-me ao embaixador sr. Massao Tsuda, que nos recebu muiuto cordialmente e disse que gostava e j\u00e1 conhecia as obras de Riokai Ohashi; prometeu patrocinar, depois fomos \u00e0\u00a0casa d\u00eale, onde a esposa nos recebeu muito bem no grande sal\u00e3o; uma senhora simples, encantadora; sa\u00edmos de l\u00e1 contentes. O pr\u00e9dio dava numa linda pra\u00e7a toda arborizada; sobre a porta, brilhava o cris\u00e2ntemo imperial de ouro, de dezesseis p\u00e9talas.<\/p>\n<p>Foi fixada a exposi\u00e7\u00e3o para o 13 de julho na Galeria Velasquez. infelizmente, n\u00e3o pude ir assistir \u00e0\u00a0inaugura\u00e7\u00e3o, que foi um fato not\u00e1vel, registrado nos anais da arte; foi um sucesso e tamb\u00e9m de venda, mostrando quanto a elite argentina \u00e9 culta em quest\u00e3o de artes. Devo tudo \u00e0\u00a0minha ex\u00edmia amiga sra. Matilde Yokohama, que organizou e arranjou uma \u00f3tima galeria; as molduras eram lindas, o que tamb\u00e9m real\u00e7ava as obras. Fico feliz por ter feito o m\u00e1ximo que pude para sempre mostrar e levantar a mem\u00f3ria de meu saudoso Riokai, morto t\u00e3o mo\u00e7o e que \u00eale mesmo n\u00e3o pode colocar suas obras. Foi para mim a realiza\u00e7\u00e3o de um grande desejo, e tamb\u00e9m de soss\u00eago, pois a maioria das ruas de Paris ficar\u00e3o agrupadas em Buenos Aires.<\/p>\n<p>Em 1958. Tinha mandado duas telas ao sal\u00e3o japon\u00eas Seibi-Kai, sal\u00e3o de artes pl\u00e1sticas, comemorativas do cinquenten\u00e1rio da imigra\u00e7\u00e3o japon\u00easa no Brasil. N\u00e3o s\u00f3 fui aceita como uma das telas foi adquirida e premiada; n\u00e3o pude ir \u00e0\u00a0inaugura\u00e7\u00e3o, estava bem doente, chorei de emo\u00e7\u00e3o quando tive a not\u00edcia&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00eazes vou a S\u00e3o Paulo para me distrair; volto \u00e0 noite, cansad\u00edssima. Vou v\u00ear Isabel, minha sobrinha, meus sobrinhos-netos, todos felizes, vivendo normalmente e achando o mundo \u00f3timo. Isabel \u00e9 uma linda mulher sempre sorridente, com id\u00e9ias da \u00e9poca; seu marido, um belo rapaz sadio de rosto redondo e dois olhos do mais intenso azul &#8211; otimista, atarefado nos neg\u00f3cios, boas roupas. &#8220;Sem d\u00favida, digo eu c\u00e1 dentro, deve ser \u00easse o caminho da felicidade&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Estou no Rio e com muita vontade de conhecer Ouro Pr\u00eato. Num belo dia de outubro de 1958, eu e Margarida, estamos na rodovi\u00e1ria \u00e0\u00a0espera do onibus Belo Horizonte; passamos pelo Hotel Quitandinha e atravessamos o centro de Petr\u00f3polis, seus jardins engalanados de hort\u00eancias. Parou o onibus em Juiz de Fora. Achei uma viagem cansativa, a todo momento torneando grandes montanhas; chegamos \u00e0\u00a0noite em Belo Horizonte, com uma chuva torrencial mas um doce perfume das magn\u00f3lias em flor veio ao nosso encontro.<\/p>\n<p>No dia seguinte visitamos o centro, mas achei inferior a S\u00e3o Paulo; \u00e0\u00a0tarde, debaixo de chuva, fomos tomar o \u00f4nibus para Ouro Pr\u00eato. Passava-se por estreitas estradas contornando as montanhas e rente aos precip\u00edcios que davam arrepios. Chegando l\u00e1 \u00e0\u00a0tarde, ficamos maravilhadas pelo que j\u00e1 estava se vendo. Nosso quarto dava para a igreja de S\u00e3o Francisco de Assis. Nos dois dias que ficamos nessa cidade, onde tudo s\u00e3o recorda\u00e7\u00f5es de um rico e magn\u00edfico passado, n\u00e3o perdemos tempo, ficando o dia todo fora, apreciando a gloriosa arquitetura do grande Aleijadinho, as in\u00e9ditas igrejas t\u00e3o belas por fora como por dentro, suas ladeiras empinadas, com suas curiosas casas de um lado e de outro; suas fontes onde Mar\u00edlia de Dirceu conserva sua rom\u00e2ntica sombra; visitamos o museu da Inconfid\u00eancia &#8211; gostei imensamente, muito bem organizado, porcelanas, m\u00f3veis de grande valor, obras em madeira, esculpida do mestre Aleijadinho.<\/p>\n<p>Mariana, uma bela cidade, mas n\u00e3o chega \u00e0\u00a0beleza de OURO PRETO. Voltamos para o Rio felizes por ter visto tantas maravilhas e desejosas de voltar na primeira oportunidade, com minha caixa de tintas e rolo de telas.<\/p>\n<p>Sim, ainda estou em Campinas! Tenho trabalhado bastante, feito composi\u00e7\u00f5es. A Odiss\u00e9ia de Homero tem me inspirado. Gosto de me lembrar d\u00easses tempos fabulosos onde havia uma vida vibrante entre homens e deusas. Calipso, essa loura e vaporosa ninfa, muito me deleitou ilustrar sua lenda, vivendo nessa ilha feliz, nutrindo-se do n\u00e9ctar, bebida dos deuses, coroada de violeta, seus dias passavam-se cantando intermin\u00e1veis melodias. Um dia, um n\u00e1ufrago perdido no oceano veio perturbar-lhe a quietude&#8230; Narciso, outro assunto meu predileto. Belo e jovem, nunca tinha visto seu rosto perfeito. Um dia, inclinando-se \u00e0 beira de um rio, viu seu reflexo espelhado e ficou ali pr\u00easo de amor \u00e0 sua imagem at\u00e9 morrer&#8230; Numa densa floresta, as ninfas apavoradas fogem perseguidas por s\u00e1tiros e faunos ao som de flautas e pandeiros. Tenho uma boa cole\u00e7\u00e3o dessas composi\u00e7\u00f5es sobre papel.<\/p>\n<p>Minha gata Rosinha tem sido tamb\u00e9m um bom mod\u00ealo, s\u00f3 ou com seus filhos. Tamb\u00e9m vou expor rosas e paisagens. Estou decidida a fazer minha exposi\u00e7\u00e3o. A campanha vai ser dura para arranjar um local. Estamos em fins de 1962. Pe\u00e7o o Teatro Municipal. N\u00e3o me d\u00e3o dizendo que os cavaletes para pendurar os quadros est\u00e3o em cons\u00earto. Levo uma boa parte de cat\u00e1logo, fotografias, artigos de minhas passadas exposi\u00e7\u00f5es em Paris, no Jap\u00e3o e no Rio ao dr. Marino Ziziatti, que me cedeu a sala t\u00e9rrea do Centro de Ci\u00eancias e Letras para setembro de 1963. Estou contente por expor meus trabalhos. Janeiro &#8211; j\u00e1 penso nas miudezas que se precisa para realizar uma mostra de arte. Cat\u00e1logos, j\u00e1 trato dos convites, das molduras, dos que poder\u00e3o escrever alguma coisa, fazendo \u00easses preparativos bem antes para minha exposi\u00e7\u00e3o de 1963.<\/p>\n<p>Um bom e prestimoso amigo surge: o sr. Goto e sra., que muito me ajudaram transportando os quadros todos do atelier ao Centro de Ci\u00eancias e quando teminou trazendo-os de volta ao atelier. Ele foi quem estreou a exposi\u00e7\u00e3o adquirindo um quadro de rosas.<\/p>\n<p>A 4 de setembro de 1963, a entrada do Centro de Ci\u00eancias estava repleta de convidados e amadores, que esperavam a hora solene de cortar a fita simb\u00f3lica. Tive bons artigos, saindo do escuro em que estava h\u00e1 anos. Economicamente, me disseram que, eu tinha batido o recorde. Minhas rosas e gatos foram os mais apreciados, n\u00e3o havendo ainda p\u00fablico para gostar de mitologia.<\/p>\n<p>Foi para mim uma bela noitada a inaugura\u00e7\u00e3o de minha exposi\u00e7\u00e3o. Minha fam\u00edlia veio toda de S\u00e3o Paulo. Minha irm\u00e3, meu cunhado, Isabel, minha sobrinha. Durante os dias em que a exposi\u00e7\u00e3o ficou aberta para o p\u00fablico, tive o ensejo de conhecer v\u00e1rios rapazes interessante, inteligentes, gostando de arte, mas principalmente de livros. Muitos com id\u00e9ias revoltadas, contra o atraso mental d\u00easses que se tem na conta de gente da elite. Fiquei surpr\u00easa ao encontrar essa juventude, com muito das minhas id\u00e9ias e convic\u00e7\u00f5es (Com a infla\u00e7\u00e3o e a alta de custo-de-vida ningu\u00e9m pensa em comprar quadros).<\/p>\n<p>1964 continua para mim a mesma coisa. Tenho uma boa amiga, sra, Maria Rosa Peciolle Sampaio. Gosta da minha pintura e da Arte. Ela adquiriu boa parte de meus melhores quadros, que ornam seu sal\u00e3o. outra amiga que muito estimo \u00e9 a sra. Am\u00e9lia Sakamoto, mas ela mora longe, em S\u00e3o Paulo, no Alto do Ipiranga. \u00daltimamente ela est\u00eave no Jap\u00e3o, e viu v\u00e1rios amigos que conheci em 1940. Recebo \u00e0\u00a0s v\u00eazes cartas de amigos do Jap\u00e3o, que me d\u00e3o garnde alegria, como as do prof. Miamoto Massakio, homem ilustre, conhecido na literatura, tendo v\u00e1rios livros editados, que traduziu o livro de arte que fiz de Riokai Ohashi e sua obra. Outra grande amiga que tenho, conheci logo ap\u00f3s chegar ao Jap\u00e3o em 1934 e at\u00e9 hoje me escreve: \u00e9 a sra. Natsuko Ueno, que me foi de preciosa ajuda na doen\u00e7a de Riokai, durante a guerra.<\/p>\n<p>Em 1965, mais um acontecimento me estava reservado. Fui visitar bons amigos em S\u00e3o Paulo. Conversando com Eico Suzuki, arquiteta, pintora e escritora, disse-lhe como ficaria feliz se fizesse uma exposi\u00e7\u00e3o das obras de meu saudoso Riokai, das que \u00eale f\u00eaz no Brasil em 1940 e 41. Mas era muito dif\u00edcil encontrar local.<\/p>\n<p>Nisso, chegou o pai dela, o ilustre arquiteto e pintor dr. Suzuki (23), como sempre vivo, sorridente, comunicativo:<\/p>\n<p>&#8220;Dona Helena, fa\u00e7a a exposi\u00e7\u00e3o no centro Cultural Brasil-Jap\u00e3o, do qual fiz o edif\u00edcio. Amanh\u00e3 de manh\u00e3 a senhora me procura, que lhe apresentarei aos maiorais do Centro Cultural e ao dr. Suzuki, &#8220;disse \u00eale rindo&#8221;, tem o mesmo nome que eu e me substituiu na presid\u00eancia da sociedade Seibikai dos artistas japon\u00eases&#8221;.<\/p>\n<p>(24) SUZUKI, TAKESHI (1908 &#8211; 1987) foi o primeiro japon\u00eas a formar-se arquiteto no Brasil, em 1933, pela Universidade Mackenzie em S\u00e3o Paulo. Pintor, foi aluno de Teodoro Braga e foi o primeiro presidente do grupo art\u00edstico Seibikai, fundado em 1947, cargo que ocupou por dez anos, e do Grupo Guanabara. Projetou e construiu v\u00e1rios edif\u00edcios, entre eles o Centro-Cultural Brasil-Jap\u00e3o e o Pavilh\u00e3o Japon\u00eas, no Parque do Ibirapuera. Foi o primeiro presidente do Hakuiokai, grupo de teatro cl\u00e1ssico Noh (1960 a 1987) e foi o primeiro e \u00fanico instrutor de Noh na Am\u00e9rica Latina, diplomado pelo chefe do estilo H\u00f5sho. Publicou o livro &#8220;Budismo &#8211; Do Primitivo ao Japon\u00eas&#8221; em 1986.<\/p>\n<p>No dia seguinte, j\u00e1 ficara tudo arranjado para o dia 10 de junho de 1965. Nesse dia de manh\u00e3, grande parte dos artistas dessa sociedade ajudaram a armar a exposi\u00e7\u00e3o; em algumas horas ficou bem apresentada uma linda mostra em homenagem a Riokai Ohashi.<\/p>\n<p>Essa exposi\u00e7\u00e3o durou tr\u00eas dias, havendo um coquetel; muitos amigos, que Riokai tinha conhecido em 1940 vieram, pintores hoje de renome como Takaoka (25), que f\u00eaz a apresenta\u00e7\u00e3o no cat\u00e1logo, ao lado do grande pintor Koisso Rioh\u00ea, do Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>(25) TAKAOKA, YOSHIYA (1909 &#8211; 1978) pintor japon\u00eas radicado no Brasil, participou do Sal\u00e3o de Belas Artes em 1933. No Sal\u00e3o Nacional de Belas Artes de 1939, conquistou a medalha de prata. Ficou no Rio de Janeiro at\u00e9 1944. Em S\u00e3o Paulo, foi um dos fundadores do Grupo Seibikai de pintores e participou do Grupo Guanabara, que esteve ativo de 1950 a 1959. A Pinacoteca do Estado possui um autorretrato de Takaoka.<\/p>\n<p>Todos os compradores dos trabalhos de Riokai foram japon\u00eases; meu cunhado Luiz do R\u00eago Rangel foi uma exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos me ajudaram, estando eu hospedada em casa de minha irm\u00e3 Margarida. Isabel, minha sobrinha, seu marido e filhos, minha irm\u00e3 e o cunhado foram todas as noites \u00e0\u00a0exposi\u00e7\u00e3o; tive tamb\u00e9m a alegria de estar com velhos amigos, que fazia anos n\u00e3o via.<\/p>\n<p>Dr. Suzuki f\u00eaz muito para o \u00eaxito da exposi\u00e7\u00e3o, tanto na parte de arte, me levando \u00e0s reda\u00e7\u00f5es dos principais jornais japon\u00eases e arranjando compradores para indenizar as grandes despesas que tive. Minha boa amiga sra. Am\u00e9lia Sakamoto veio me fazer companhia e tivemos longas conversas sobre o Jap\u00e3o, onde ela tinha estado recentemente. Seu filho Roberto trouxe seu amigo Sassa, rec\u00e9m-chegado do Jap\u00e3o, rapaz inteligente, fot\u00f3grafo ex\u00edmio, que ilustrou v\u00e1rios trechos da exposi\u00e7\u00e3o, grupos de amigos, quadros, e me fotografou perto do retrato de Riokai, que fiz no Jap\u00e3o em 1942, e guardo como querida lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Fiquei contente por haver conseguido fazer essa exposi\u00e7\u00e3o. ainda me restam numerosos estudos feitos durante a estada d\u00eale no Brasil, mas sem esperan\u00e7a de exp\u00f4-los devido \u00e0s dificuldades cada vez mais crescentes. Faltam alguns dias para surgir o novo ano. Em arte, poucas realiza\u00e7\u00f5es ser\u00e3o feitas. A infla\u00e7\u00e3o cada vez mais se acentua e os pre\u00e7os dos bens de consumo, e outros, aumentam.<\/p>\n<p>S\u00f3mente os &#8220;tubar\u00f5es&#8221; \u00e9 que n\u00e3o apertam o cinto e se aproveitam com a infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Meus pensamentos e minha arte s\u00e3o minha fortaleza. Ainda pintei meu autorretrato (como me vejo), n\u00e3o s\u00f3 por fora, mas o esp\u00edrito que me anima; d\u00e1lias vermelhas, descobri novos movimentos nas flores e nas folhas. Isso sim, ainda me d\u00e1 ap\u00eago \u00e0\u00a0vida.<\/p>\n<p>Gosto de escrever (alguma cousa) de tudo quanto ferve e me comprime de revolta, no meu esp\u00edrito curioso e refrat\u00e1rio ao rebanho em que vivo. Os componentes dessa massa s\u00f3 d\u00e3o valor ao dinheiro. Tem carro? De luxo? Viaja aos Estados Unidos? Tem vasto bangal\u00f4 com criados? \u00c9 o que faz a nobreza dessa casta inculta e materialista.<\/p>\n<p>Para essa gente, sou uma mulher de idade indefinida, alta, magra, vi\u00fava, de \u00f3culos escuros, que mora s\u00f3 com seu gato, \u00e0s v\u00eazes se encontra na rua quando se vai \u00e0s compras.<\/p>\n<p>As mulheres, minhas vizinhas, com as quais raramente falo, n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo cultivo, s\u00e3o m\u00e3es de fam\u00edlia que nem mesmo tempo para ver hist\u00f3rias em quadrinhos t\u00eam. A casa, os filhos, a religi\u00e3o, os vestidos e penteados, doen\u00e7as, etc., tomam todo o seu tempo.<\/p>\n<p>Eu me retraio cada vez mais no divino ref\u00fagio, que para mim \u00e9 fora do tempo e que sempre adoro: a Arte!<\/p>\n<p>Helena Pereira da Silva Ohashi.<\/p>\n<p>15 de dezembro de 1965.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>INTRODU\u00c7\u00c3O ou &#8220;Por que Isto Est\u00e1 Aqui?&#8221; O visitante desta p\u00e1gina deve estar se perguntando<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_is_tweetstorm":false,"jetpack_publicize_feature_enabled":true},"categories":[5],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p4elUM-87","jetpack-related-posts":[{"id":125,"url":"https:\/\/www.abrademi.com\/index.php\/eventos\/","url_meta":{"origin":503,"position":0},"title":"Eventos","date":"17 de janeiro de 1998","format":false,"excerpt":"COSPLAY PARTY A festa de 14\u00ba Anivers\u00e1rio da ABRADEMI, realizada no dia 01 de fevereiro de 1998, foi um sucesso. 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