HISTÓRIA
DA ABRADEMI, A
PRIMEIRA ASSOCIAÇÃO DE MANGÃ DA AMÉRICA
LATINA - 4
ABRADEMI E A VISITA DE OSAMU TEZUKA AO
BRASIL
Era a primeira vez que um
profissional de mangá visitava o Brasil, e não só
isso, Osamu Tezuka era uma
celebridade para a comunidade nipo-brasileira, conhecido como Deus do
Mangá.
A mídia deu um bom espaço
para Tezuka. O mangá ainda era desconhecido no Brasil, mas
Tezuka foi tratado
como um grande artista, recebendo destaque nos noticiários
nacionais. A
comunidade também divulgou com ênfase a vinda dele. A
Abrademi, cumprindo o seu
papel, também divulgou utilizando seus meios.
No dia 29 de setembro de
1984, Noriyuki (presidente) e Erena Suganuma (diretora de
patrimônio) foram ao
Aeroporto de Congonhas recebê-lo. Kiyoshi Kadono e Jô
Takahashi da Fundação
Japão, patrocinadora de sua visita, estavam lá
também. Todos procuravam no meio
de tantos japoneses que desembarcavam, o Tezuka, provavelmente de
óculos, de
pequeno porte e cansado da longa viagem. Qual não foi a surpresa
ao vê-lo
pessoalmente, um homem alto e encorpado, aparentando grande
disposição.
A Fundação Japão levou-o ao
hotel e depois para as visitas programadas. A exposição
de Osamu Tezuka fora
aberta na noite do dia 27 de setembro de 1984, no Masp, com grande
sucesso.
Pela primeira vez estavam reunidos os trabalhos dos desenhistas
brasileiros de
HQ, como Maurício de Sousa, Eugênio Colonnese, Jayme
Cortez, Cláudio Seto,
Edmundo Rodrigues, Paulo Fukue, Watson Portela, Roberto Kussumoto,
Seabra,
Shimamoto, Vilachã, Rodval Matias, Michio Yamashita, Jorge Kato,
Ofeliano de
Almeida, Gedeone Malagola, Mozart Couto, Rodolfo Zalla, Rubens
Cordeiro,
Roberto Fukue, Flávio Colin, Franco de Rosa, Drago, Kimil
Shimizu, Paulo Paiva,
Gustavo Machado, Novaes, Ely Barbosa, Bilau, Drago, Jonas Schiafino,
Toni
Fernandes, e Eduardo Vetillo. Wilson Iguti participou com sua
exposição de
esculturas e modelos utilizados para fabricação de
brinquedos licenciados de
personagens de HQ.
Tezuka visitou a sua
exposição e a da Abrademi no dia 30, um domingo. Nessa
noite, foram registradas
as presenças de Maurício de Sousa, Jayme Cortez, Wagner
Augusto, Ely Barbosa,
Zaé Jr., Gedeone Malagola, Paulo Paiva, Rodolfo Zalla, Toni
Fernandes, César
Ricardo Silva, Cocolete, Antonio Vieira, Jal, Worney, Alvimar, Eduardo
Vetillo,
Bin Kondo, Tomie Ohtake e Naumin Aizen, conforme documentos da
época.
Todos queriam falar com o
artista japonês. Tezuka assistiu metade do filme
“Piconzé”, o segundo longa
metragem de animação feito no Brasil, de autoria do
saudoso Yppe Nakashima, e pediu
para sair, pois queria ver os trabalhos dos brasileiros.
Durante meia hora, Tezuka,
acompanhado por Noriyuki Sato, olhou um por um dos trabalhos coletados
pela
Abrademi, teceu ligeiros comentários, e sempre quando foi
apresentado a um
profissional, conversou animadamente, comentando e até
criticando seus
trabalhos.
Diante dos originais de
Jayme Cortez e de Julio Shimamoto, Tezuka parou e disse que eles eram
grandes
desenhistas.
Foi um coquetel muito
concorrido porque todos queriam conhecê-lo, além da
presença da TV Globo e dos
maiores profissionais do Brasil, e dos habituais fotógrafos de
fim de semana.
Houve exibição de desenhos
de Osamu Tezuka: Quadros de uma Exposição – Tenrankai no
E (39 min), Contos de
1001 noites – Senya Ichiya Monogatari (128 min), O Piralho Manda Chuva
–
Amefuri Kozo (23 min), Astro Boy - Tetsuwan Atomu (23 min), e O
Pássaro de Fogo
- Phenix 2772 (100 min), nos dias 29 e 30/9, e 1º e 2/10.
Dentro de sua
intensa
programação, Tezuka ministrou uma palestra para a
coletividade nipo-brasileira,
na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, uma palestra especial para
os
profissionais brasileiros no Hotel Caesar Park, e uma aula especial
para os
associados da Abrademi (foto ao lado, com Noriyuki e o Mestre Tezuka).
Todas essas palestras foram gravadas pelo Marcos Mikio
Oiwa e pelo Worney, e foram transcritas por Sumire Misawa e Noriyuki
Sato e
publicadas no fanzine Quadrix nº 4 (na Edição
Abrademi, esse Quadrix é o nº 2).
AULA DA ABRADEMI - RESUMO DA TRANSCRIÇÃO
"Nos 40 anos em que desenhei
mangá, encontrei com muitos grupos como de vocês em Tokyo,
New York, Los
Angeles, San Francisco ou mesmo em Paris. Orientei muitos jovens e
avaliei suas
HQs. Estou contente em encontra-los pela primeira vez aqui no Brasil,
mas como
profissional vou avaliar seus trabalhos com muita severidade. Gostaria
que não
ficassem zangados com o que eu disser, ou que não se desanimem
achando que não
são capazes e desistam de fazer mangá. Pelo
contrário gostaria que
participassem ativamente da Abrademi. Bem, aceitem isso como uma
observação de
um velho.
Em Los Angeles, Paris ou
Tokyo, o que digo a todos em primeiro lugar é que nunca imitem
os
profissionais. Explicando em poucas palavras é notório
que vocês são fanáticos
por mangá, que cresceram lendo mangá, e que por isso
agora estão fazendo mangá.
E já que cresceram lendo mangá de muitos autores, quando
gostam de um
determinado autor acabam sem querer imitando seu traço.
É verdade que eu gostava
muito de Disney e, quando era criança, imitava os desenhos de
Walt Disney, mas
isso só quando estava no primário e no ginásio. No
colegial, já estava me
profissionalizando.
Imitando os outros não vai
passar disso. Isso, porque ao ser comparado dirão por exemplo
que: Ah, esse
desenho parece com o do Maurício, ou coisa parecida. Pior quando
perguntarem
como é seu desenho. Não convém ter que dizer que
é parecido com o do Maurício.
Antes de ontem (30/9), na
exposição, vi desenhos de muita gente, mas notei que
principalmente os desenhos
das mulheres pareciam muito com os de revistas de mangá feminino
da atualidade.
Aquele tipo de desenho não
presta, de forma alguma. Se ficarem fazendo aquele tipo de desenho
não vão se
tornar mais hábeis do que isso. Estão fazendo
ilustração por distração.
Havia pelo menos um terço
desse tipo de desenho.
É claro que podem ler mangá,
mas o que deve aprender é a forma de elaborar o conteúdo,
pois desenhistas
profissionais, com experiência, sabem como ressaltar o que
é essencial para
contar a história. A técnica do desenho pode ser
aprendida aos poucos e com o
tempo torna-se hábil.
As HQs americanas chamadas
Underground Comics têm desenhos tão ruins que nem podemos
ficar olhando. São
feios mas o conteúdo é extremamente engraçado e
original. Por isso acho que o
mangá é constituído por 80% de idéia e 20%
de desenho.
As
moças que gostam de
mangá
feminino desenham sempre os rostos voltados para a esquerda. Isso
porque
desenham com a mão direita. Se fossem canhotas, os rostos seriam
voltados para
a direita. Isso acontece porque estão desenhando o que gosta por
puro prazer. É
bom desenhar por divertimento, mas isso não passa de hobby,
não é caminho para
se tornar desenhista de mangá."
O debate de Osamu Tezuka com
os profissionais aconteceu no dia 1º de outubro, no Caesar Park
Hotel.
Participaram cerca de 50 profissionais, entre eles: Jayme Cortez,
Roberto
Kussumoto, Louis Chilson, Walbercy Camargo, Ely Barbosa,
Maurício de Sousa e
Tatiana Belinsky.
Passadas a correria da
exposição e a visita de Osamu Tezuka, a Abrademi promoveu
um encontro com dois
desenhistas japoneses que estiveram de passagem no Brasil fazendo uma
pesquisa
para desenhar uma HQ passada na América do Sul.
Jun Ikemiyagi (roteirista) e
Kenshin Shinzado (desenhista) se encontraram com a Abrademi no dia 8 de
outubro
de 1984. Participaram Roberto Kussumoto, Wilson Iguti, Paulo Fukue,
Michio Yamashita,
Kimil Shimizu, Mikio Oiwa, Valdir Gamboa, Worney Almeida, Emy Kawakami,
Ricardo
Komatsu e Francisco Noriyuki.
No
acontecimento, falaram
bastante sobre a remuneração do trabalho,
criação da história, capa,
associações de profissionais, etc. Foi uma reunião
bastante informativa.
Nesse mês de outubro, a
Abrademi registrou o ingresso de 64 novos associados e anunciou para
novembro,
o curso Noções Básicas de Desenho dividido em
três aulas dominicais.
Verificou-se que, antes de ensinar o mangá propriamente dito,
deveria ensinar
as noções de desenho.
Depois do “furacão” Osamu
Tezuka que certamente deu uma grande luz para o tema “mangá”, a
preocupação da
Abrademi foi em como não esfriar o assunto, e como a entidade
sobreviveria nos
próximos anos.
Na verdade, naquela época o
mangá não era publicado no Brasil, e nem havia
exibições de animê nas TVs. A
visita de Osamu Tezuka levou a mídia a se interessar por Osamu
Tezuka, mas nem
por isso seus trabalhos foram publicados (o que só aconteceria
em 2000) e nem mesmo
os seus animês foram exibidos na TV.
(continua...)
<>Ao utilizar
este texto, favor citar a fonte:
www.abrademi.com - autor: Francisco Noriyuki
Sato, presidente
da Abrademi de
1984 a 1986 e de 1988 a 1996.