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Editorial:
O
RETORNO DO BOLETIM
Na ata de fundação da ABRADEMI,
escrita em fevereiro de 1984, consta como objetivo
principal "a divulgação do mangá". Na
época, parecia que tal objetivo
jamais seria alcançado. Nem nos jornais da colônia
japonesa as pessoas tinham
idéia do que era um mangá. Chegou-se a ser confundido com
uma cooperativa de
fruticultores - daí o acento no "gá". Numa época
em que a
sociedade brasileira via as histórias em quadrinhos como
"subleitura
perniciosa à juventude", a Abrademi batalhou pelo reconhecimento
do mangá como
manifestação de cultura e arte, e realizou as primeiras
exposições do gênero
em museus, galerias e universidades. Em tempos nos quais não
haviam
computadores pessoais, internet ou celulares, o contato entre os
associados era à base de boletins datilografados, impressos em
mimeógrafos a álcool
ou xerox.
Cada carta representava uma luta contra as
dificuldades de comunicação,
de um correio distante, caro e demorado, tanto para o endereçado
como para o
remetente. Nas reuniões as dezenas de cartas eram divididas
entre os diretores para que cada
uma fosse adequadamente respondida. Era o mínimo - na maioria
dos casos o
máximo - que podia-se fazer. Em 1996, num único mês
a Abrademi respondeu 83
cartas, e imprimiu e remeteu mais de 4 mil boletins. Naquele mês,
só em despesa com
correio foi gasto 1097 reais. A única renda da ABRADEMI vinha
dos cursos, que
mal cobriram a impressão dos boletins - muito menos o custo do
correio. Para
tentar cobrir o déficit, foi organizada uma festa para arrecadar
fundos que se
tornou o primeiro MangáCon. O resto é história.
Ao longo de duas décadas surgiram
muitos amigos. Foi tocante a
consideração que a entidade sempre recebeu da admirada
classe dos dubladores, que citou em
eventos e entrevistas nos últimos anos que a ABRADEMI foi a
pioneira na
construção da comunidade fanzinística do
mangá e do animê no Brasil. A Abrademi criou cursos,
eventos e concursos, fanzines (um dos quais foi usado para dar nome
a uma livraria em São Paulo), implantou o concurso de cosplay e
o animê-kê no Brasil e realizou shows. Tudo podia ter dado
errado, mas fomos pioneiros porque
arriscamos quando ninguém queria arriscar. Também
aprendemos pela experiência
um triste fato universal: o de que todos os pioneiros têm
críticos e
detratores (que são invejosos, incapazes, revoltados,
perdedores... a lista é enorme).
Na virada do milênio, constatamos que
muito havia mudado desde a época
em que ninguém sabia o que era o mangá. Se estivesse vivo
hoje, o Tezuka sensei
não conseguiria mais andar à vontade pelas ruas, como ele
fez durante sua
primeira e única visita ao Brasil. O mangá e o
animê estavam de tal forma
assimilados pela juventude no país, que a luta para manter a
associação com
múltiplas atividades e divulgar o assunto não era mais
necessária. A Abrademi havia
cumprido o objetivo. Os pioneiros estavam cansados e precisavam reduzir
o ritmo.
De 2000 para cá, coisas inesperadas
passaram a ocorrer. Mesmo sem
atualização, nosso site continuou recebendo um volume
considerável de visitas.
No Orkut, ex-associados criaram uma comunidade auto-denominada "Os
Ex-ABRADEMI" (coisa estranha, ter gente usando uma passagem de muitos
anos
atrás pela associação como identidade). Ao longo
de 2005 vários mails chegaram pedindo a retomada ou
realização de atividades. Pessoas das quais não se
tinha notícia há muito
entraram em contato. Chegaram os filhos e netos, de mudanças de
cidades, de países, de profissão, de estado civil e de
estado de saúde -
histórias humanas, como é natural ocorrer após
mais de duas décadas de estrada,
pois a vida segue e envelhecer é inevitável.
A maior parte das mensagens, entretanto,
não eram de ex-associados. Eram
mails de fãs pedindo "informações e
conteúdo sobre mangás e animês"
em nosso site (pedidos estranhos, considerando que o site da ABRADEMI,
que
entrou no ar em 10 de janeiro de 1998, foi feito para divulgar
atividades internas da associação).
Um "retorno" da ABRADEMI, nos moldes em que ela atuava antes de 2000,
é inviável hoje, mas a atualização do site
como um tipo de
revista digital foi cogitada. Conversando com os membros que ainda se
mantêm em
contato, a idéia foi discutida e chegou-se a uma
reformulação do site da
ABRADEMI.
Assim, a partir de agora, março de
2006, o BOLETIM ABRADEMI volta
exclusivamente no site, retomando a numeração em que
parou quando era impresso
em papel, sofrendo atualizações trimestrais ou a qualquer
momento. Qualquer pessoa poderá saber o que ocorre nesta velha
associação, que faz parte da história do
mangá e do animê no Brasil, mas está
antenada com tudo que ocorre neste curioso mundo em constante
mutação. Depois de 5 anos sem emitir boletim, este
primeiro está extenso.
O site será reformulado com a
criação de espaços para comentar o que
acontece internacionalmente no meio dos mangás e animês,
com matérias escritas
por membros da associação, que serão divididas em
blocos temáticos. 20 ANOS DE
CAVALEIROS homenageia a criação do mangá e do
animê que deu início ao atual
movimento fanzinístico no país. GEKIGÁ REVIEW
é especializado em mangás
dramáticos para o público adulto. SHÕJO WORLD
mostra que o mundo dos mangás
femininos é mais variado e complexo do que se imagina. LEITURA
CRÍTICA
centraliza matérias de análise. ANIMÊ CORNER
é o espaço reservado à animação
japonesa. Por exclusão, o que não se referir aos temas
citados estará no MANGÁ
NEWS. Esperamos tornar o site da ABRADEMI o maior arquivo de
informações em
português de caráter cultural sobre o mundo do
mangá e do animê disponibilizado
na internet. Temos consciência de nosso papel de referência
e de formação de
opinião no assunto.
Quando a ABRADEMI passou a atuar em low
profile há 5 anos, sabia-se que essa saída dos
holofotes reduziria o
reconhecimento da característica artística do
mangá e do animê no Brasil, pela
qual a entidade batalhou ao longo de décadas, e que o comercial
prevaleceria. Era uma
tendência irreversível. Nos últimos anos,
mangá e animê viraram
"produto". O lado positivo disso foi a popularização do
mangá e do
animê, que sempre foi o principal objetivo de quem realmente
queria divulgar o
assunto. O reverso da moeda foi que na hora em que mangás e
animês passaram a
ser tratados como "produto", como mais um gibi ou DVD na prateleira,
o lado artístico foi relegado a segundo plano, e desvalorizado
pelo fato do
mangá e do animê terem se popularizado.
Novos e talentosos
desenhistas brasileiros surgiram nos últimos anos,
mas mesmo com o crescimento do comércio de mangás e de
produtos relacionados a
animês, oportunidades para desenhistas não foram ampliadas
na mesma proporção.
Ao contrário, elas vêm escasseando. Por isso, ainda pedem
para a Abrademi realizar cursos e o Contest, que foram portas de
entrada para vários desenhistas hoje na ativa no Brasil.
Agradecemos a todos
que nos escreveram ou enviaram mails pedindo isso, mas a atual
diretoria não pensa em retomar
os cursos ou o Contest. A Abrademi já fez a sua parte. Durante
18 anos, os cursos,
eventos e concursos da ABRADEMI formaram um público amplo e
sólido para o mangá
e o animê no Brasil em condições totalmente
adversas. Agora que as condições
são comercialmente melhores, cabe às editoras e demais
empresas que lidam com
mangás e animês, que lucram com o apreço dos
fãs, fazerem um pequeno esforço
para realizar cursos e concursos confiáveis, e criar efetivas
oportunidades de
publicação e mercado no Brasil, já que
literalmente vivem deste público.
A Diretoria
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