INTRODUÇÃO ou
"Por que Isto Está Aqui?"
O visitante desta página deve estar se perguntando o que esta
auto-biografia está fazendo aqui, hospedada num site referente a mangá, animê e
cultura pop japonesa?
Em 1984, Oshiro Sanenari, então jornalista do São Paulo Shinbum, deu
despretensiosamente a seu amigo, o também jornalista e ex-presidente da
ABRADEMI Francisco Noriyuki Sato, uma brochura encadernada à mão, aparentemente
retirada de uma inundação ou de algum tipo de sério problema de umidade. Na
capa da brochura constava o nome da autora, Helena Pereira da Silva Ohashi, e o
título "Minha Vida - Brasil - Paris - Japão". Sem saber o que fazer
com a brochura, Sato simplesmente a guardou e esqueceu-a.
Em 1999, já casado e preparando-se para mudar, organizando caixas de
livros e papéis que ficariam meses sem ser abertas até o final da reforma da
nova casa, Sato reencontrou a brochura. Leu algumas páginas e descobriu
tratar-se de memórias da filha de OSCAR PEREIRA DA SILVA (1867 - 1939), grande
pintor acadêmico conhecido por obras que ilustram passagens da história do
Brasil, como "O Desembarque de
Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro" e "A Fundação de São
Paulo", quadros que se encontram no Museu do Ipiranga e que são
freqüentemente reproduzidos em livros didáticos. O sobrenome japonês se deve ao
fato de Helena Pereira da Silva ter se casado com o pintor japonês Ryoukai
Ohashi em 1933.
RYOUKAI OHASHI (1895 - 1943) foi um artista prolífico que fez parte de
um grupo de quatro jovens japoneses que chegaram em 1927 em Paris para estudar
arte. Em seu tempo, foi conhecido como talentoso pintor modernista na França,
no Japão, na Argentina e no Brasil. (ver pintura de Ryokai)
HELENA PEREIRA DA SILVA OHASHI (1895 -
1966) foi uma pintora habilidosa, com uma técnica acadêmica apurada como a do
pai, mas que posteriormente evoluiu para um estilo moderno. Ela também foi a
primeira designer de moda brasileira a produzir comercialmente no exterior,
onde na década de 30 ela introduziu coleções de prêt-à-porter ocidental
atualizadas com Paris para a loja de departamentos Matsuzakaya. Ambos viveram
num dos períodos mais ativos da arte no século XX, mas também um dos mais
conflituosos, presenciando duas Guerras Mundiais. (ver pintura de Helena Ohashi)
Mais alguns anos se passariam antes desta auto-biografia vir à luz. Em
26 de junho de 2004, Sato foi com a esposa à Pinacoteca do Estado de São Paulo,
que queria ver uma exposição de tapeçarias francesas. Por curiosidade, também
foram ver o acervo permanente e lá encontraram dois quadros feitos por Helena,
de sua fase acadêmica. Isso despertou a idéia de divulgar a auto-biografia,
pesquisar informações recentes sobre a obra do casal Ohashi e de doar a
brochura que possuem à Pinacoteca.
Embora o trabalho do casal Ohashi seja quase desconhecido no Brasil
(provalvelmente por não ter feito parte de nenhum grupo ou movimento específico
como o dos modernistas, Helena não tem o adequado reconhecimento, constando
como pintora do século XIX na Pinacoteca, e poucos quadros de Ryoukai estão na
posse de particulares, sendo que nenhum museu em São Paulo tem uma obra dele
disponível ao público), Sato descobriu através da internet em japonês que a
obra dos Ohashi está sendo redescoberta e valorizada no Japão.
Após ficar viúva em 1943 no Japão, Helena decidiu voltar ao Brasil em
1949, deixando 162 quadros de Ryoukai aos cuidados da irmã dele, Kyoko, que
ainda está viva. Em 1995, a casa de Kyoko desabou durante o grande terremoto de
Kobe, mas ela conseguiu recuperar os quadros de Ryoukai e os doou ao Ashiya
City Museum of Art & History. Desde então, esses quadros foram enviados
para Tokyo, onde vêm sendo restaurados. Agora que o extenso trabalho de
restauração está terminando, o museu Ashiya programou uma exposição dos quadros
de Ryoukai para 26 de fevereiro a 10 de abril de 2005, no décimo aniversário do
terremoto.
Recentemente, no período de 24 de abril a 30 de maio de 2004, o museu
Ashiya realizou uma exposição entitulada "Mulher Moderna", com obras
de cinco artistas de seu acervo, todas da primeira metade do século XX. Quadros
de Helena fizeram parte dessa mostra. O museu também possui um livro sobre a
obra do casal Ohashi e um dos quadros de Helena ilustra um cartão postal que é
vendido na loja do museu. Além disso, o trabalho desenvolvido por Helena como
designer de moda já foi objeto de uma tese de doutorado no Japão.
A doação da brochura à Pinacoteca foi descartada após um breve contato
com funcionários da biblioteca. Embora a auto-biografia de Helena P. da Silva
Ohashi não esteja listada no fichário de livros, a bibliotecária responsável
localizou uma brochura idêntica, guardada no arquivo referente a objetos
pessoais dos artistas do acervo, brochura essa doada em 1974 por Margarida P.
da Silva Rangel, irmã de Helena.
Após 20 anos mantendo uma brochura com a história de uma pessoa que lhe
era desconhecida, Sato passou a referir-se à autora como "Dona
Helena". A dita brochura, aliás, por si revela especial carinho da família
de Dona Helena pela artista. O que provavelmente ocorreu há quase 40 anos foi
que Dona Helena, já idosa, redigiu à mão suas memórias até 15 de dezembro de
1965. Após o falecimento de Dona Helena em 14 de novembro de 1966, seus
familiares preocuparam-se em mandar imprimir o texto em tipografia sobre papel
chambril de alta gramatura e reproduzir alguns quadros dela em off-set, o que foi
executado em dezembro de 1968 pela antiga Indústria Gráfica Saraiva S.A. (atual
editora e rede de livrarias Saraiva). Aencadernação simples (grampos e colagem
externa das extremidades com fita de gorgurão) mostra que poucas cópias foram
feitas e não houve nenhuma intenção de comercializá-las - apenas manter um
registro de uma pessoa querida, digna, culta e viajada e que, algum dia pudesse
ser redescoberta e valorizada por sua produção artística e vida fascinante.
Disponibilizando na internet as memórias de Dona Helena, esperamos
colaborar com a divulgação do trabalho do casal Ohashi, bem como permitir a
pesquisadores de arte e historiadores acesso a
mais uma fonte de informações, sob uma ótica pessoal e humana, da arte
no Brasil e na Europa da primeira metade do século XX, bem como da comunidade
japonesa, pela qual Dona Helena revelou grande carinho e que, certamente, se
recorda dela.
A seguir, reproduzimos na íntegra o texto escrito originalmente por Dona
Helena. Observamos que desde 1965 houve várias reformas ortográficas do
português no Brasil, motivo pelo qual alguns leitores podem estranhar a
acentuação e a grafia de algumas palavras.
Em função da adoção internacional do Método Hepburn de romanização do
idioma japonês, acrescentamos ao lado de algumas expressões escritas por Dona
Helena a mesma palavra em japonês na grafia Hepburn, entre parênteses, para
facilitar a localização por sistemas de pesquisa (um exemplo é o que ocorre com
a maneira pela qual Dona Helena redigiu o nome do próprio marido - Riokai. Na
grafia Hepburn ele é RYOUKAI e, se usada a grafia de Dona Helena, ele não é
identificado na internet ou no Japão).
Tomamos a liberdade de criar notas de rodapé numeradas com informações
ou observações complementares sobre pessoas e locais citados no texto. Assim,
observamos que as notas não fazem parte do texto original da autora.
Ashiya City Museum of Art & History
Hyogo ken - Ashiya shi - Japan
Tel.: 0797 - 385432 / Fax 38-5434
asbihaku@h7.dion.ne.jp
Helena Pereira da Silva Ohashi
MINHA VIDA
Brasil - Paris - Japão
São Paulo 1969
MINHA INFÂNCIA
Chamava-se Helena a menina frágil, de franjinha sôbre a testa, cabelos
lisos e compridos, segurando seu pai pela mão. Iam dar um passeio pela Avenida
Paulista, não longe de sua casa. Seu coração estava tão feliz, que guardou por
muito tempo a lembrança. Sua mãe, dona Júlia, não gostava de sair de casa; seu
pai, aos domingos, tinha-lhe dó e dizia, "coitada, sempre sòzinha":
seu mundo era a casa, o jardim, o gato e o cachorro.
Helena não gostava de brinquedos nem de bonecas. Lá ía "seu"
Oscar com os grandes olhos e cabelos pretos, fartos bigodes retorcidos, sempre
com uma expressão triste e resignada. Helena adorava o pai; também era raro
negar-lhe alguma coisa. Em frente ao Parque Paulista, havia um quiosquezinho,
onde um alemão vendia cerveja e limonada - sentávamo-nos nas cadeiras e víamos
a cidade ao longe. Seu Oscar era de pouca fala.
Voltava-se lentamente pelo mesmo caminho: ninguém pela avenida deserta,
passava-se diante de ricos palacetes, entrava-se pela rua Frei Caneca,
atravessando-se os campos de barba de bode e cupinzeiros. Eu ía arrancando tudo
o que era florzinha, para levar a minha mãe. Ela muitas vêzes me contava que
meu primeiro sorriso foi para uma rosa, uma rosa impressa no papel que forrava
o quarto. Dona Júlia era francesa de Bordeaux, seus olhos verdes e seu cabelo
prêto davam-lhe caráter, era expansiva e alegre, gostava de música e tinha boa
voz.
Eu rabiscava desde a mais tenra idade: aos cinco anos já desenhava
figuras de perfil, com olhos de frente; meu pai achava graça nesses desenhos
primitivos e dizia: "um dia serás pintora".
Recebíamos, poucas visitas: meus pais eram muito retraídos. A família do
lado paterno habitava o Rio e a do lado materno, a França. Fui filha única
durante muitos anos. No casarão que habitávamos à Rua Augusta, 159, a vida não
era divertida.
Helena era uma criança tímida e anêmica, com seus grandes olhos escuros,
fartas sombrancelhas unidas na testa como as de seu pai; morena e feia de
traços. Dona Júlia não queria que brincasse com outras crianças, dizia ela para
não adquirir maus costumes; meu pai detestava barulho: gritos, pulos,
correrias. Êle era calmo e pouco expansivo e minha imaginação tinha que
arranjar meios de se distrair. O jardim constituia o meu campo de ação, vendo
flôres, insetos, brincando com o gato. Helena adoecia fàcilmente: tôda febre
subia alta: logo lhe era ministrado o célebre remédio da época, calomelano,
droga que produzia verdadeiros malefícios para o corpo e principalmente para os
dentes. Ficava, às vêzes, dois dias sem beber uma gota dágua para que o remédio
fizesse efeito.
Os motivos de conversa entre os pais de Helena não variavam, giravam,
sempre, sôbre projetada viagem à França. Nessa viagem tencionavam ver a
Exposição Universal e visitar os pais de dona Júlia. Helena conheceria, então,
seus avós, que moravam em Dax, perto de Bordeaux, onde dona Júlia tinha
nascido. Rever a França, que maravilha! - "Seu" Oscar não perderia um
minuto: iria a Paris ver a exposição; revigorar seus sonhos de arte e realizar
novos trabalhos. Dona Júlia e Helena poderiam ficar com seus pais mas para isso
precisava-se resolver vários problemas. A casa era um estôrvo a êsses projetos:
mobiliada com gôsto, a maioria das coisas vindas da França, tapetes, cortinas,
roupas de cama e mesa, tôdas em fino linho, porcelanas, cristais. Como deixar
essas coisas?...
Procuraram alugar a casa a pessoas de trato: apareceram vários
pretendentes, mas o que mais agradou a dona Júlia foi um médico, Dr. Correa,
que morava com uma velha governanta. Prometeu êle tudo o que os pais de Helena
desejavam, trato rigoroso de tudo, inclusive do cachorro, dos peixinhos, e do
belo jardim. O aluguel era elevado. Os aluguéis deveriam ser depositados no
banco, todos os meses, e a entrega da casa na volta do sr. Oscar. Êsse foi,
então, o inquilino preferido.
"Seu" Oscar andava falando e dando ordens, tinha-se quebrado a
quietude habitual. Um dia chegou dizendo "comprei hoje as viagens no navio
francês "La Bretagne". U'a madrugada, Helena foi sacudida do sono
pela sua mãe, "anda depressa, precisa-se ainda tomar café e vestir",
tôdas as malas já estavam na porta, veio um carro nos procurar e nos levou à
Estação da Luz. Depois de atravessar Santos, sujo e quente, estávamos
embarcando no "BRETAGNE", velho cargueiro, movido metade a carvão e
metade a velas. Foi transformado em navio de passageiros dada a grande escassez
de navios.
O primeiro pôrto foi o Rio de Janeiro, ficou aí uns dias, o que deu aos
pais de Helena a ocasião de visitar a família. Foi uma impressão que Helena
nunca iria esquecer, quando entrou na modesta casa de seu avô. Num dos quartos,
um homem de barbas brancas, velho, doente, estava entrevado numa cama, sem
poder se mexer, todo paralisado, queria falar, não podia, as lágrimas
escorriam-lhe pelo rosto. Todos choravam; era o padrasto de "seu"
Oscar, homem bom e que meu pai estimava; muito o entristeceu vê-lo nesse
estado. Helena recebeu muitos mimos de suas tias e conheceu seus primos. De
nôvo o BRETAGNE levantou âncora rumo à França, levou um mês para chegar até
Marselha, ficamos uns dias nessa cidade para seguir a DAX. Helena ía conhecer
seus avós maternos.
Foi grande a alegria: todos fizeram muitos mimos à netinha do BRASIL.
Dona Júlia não foi visitar sua irmã Marie Louise, estavam de mal há muitos
anos. A avó era baixa e gorda, chorava com freqüência. Um ano se passou bem
depressa, o Inverno já estava se aproximando, o frio, os dias curtos e meus
pais resolveram voltar. Helena, que se lembrou tanto da viagem de ida, pouco ou
nada reteve da volta.
No Rio, ficamos uns dias; o padrasto de "seu" Oscar tinha
falecido e minha avó achava-se sòzinha e sem recursos. Dona Júlia, que tinha
bom coração, convidou-a a vir morar em São Paulo conosco, o que ela aceitou. Os
pais de Helena estavam bem apreensivos a respeito da casa pois o inquilino não
escrevera uma linha sequer. No banco, nada havia depositado. Foi grande e
amarga a decepção quando viram a casa tôda fechada; da rua viam-se os capins
crescidos que invadiram o jardim e o pomar; foi preciso pular o muro e arrombar
a porta. Dentro, tudo estragado e vazio. Vieram a saber que êle logo vendera os
móveis e tudo o que haviam deixado, em seguida tinha alugado a casa e recebido
os aluguéis. Ninguém sabia de seu paradeiro. Um ladrão, êsse dr. Correa! Foi-se
morar na casa suja e vazia. "Seu" Oscar não tinha dinheiro, foi
preciso comprar tudo de nôvo. Dona Balbina de Jesus estava longe de compreender
os sofrimentos de seu filho e de dona Júlia: ela queria viver sua vida como
tinha sempre vivido. Logo dona Júlia começou a pensar na tolice que cometera em
convidar sua sogra a morar junto. Dona Balbina guardava ainda os costumes das
Sinhás, filhas de fazendeiros, que tinham escravos para tudo, como criação.
Preferia viver no desleixo a limpar seu quarto; a asma de que era atingida
fazia muitos anos, não lhe tirava o gôsto da vida. Durante o dia lia romances;
fumava, com uma escarradeira ao lado e esperava o doceiro passar, comprava pela
janela de seu quarto cocadas e doces que comia com café e queijo.
A mãe de Helena, que tinha tido uma educação e costumes tão diferentes,
não se conformava com os caprichos de sua sogra. E dona Balbina, um dia, foi
levada à estação, para ficar com suas filhas no Rio de Janeiro - foi a melhor
solução que acharam.
Já era tempo de pensarem na minha educação escolar. Eu já sabia ler
quando entrei pela primeira vez no grupo escolar do Bexiga. Meu pai tinha me
comprado um chapéu de palha "Jeanbart", de abas levantadas e duas
fitas pendentes nas costas. Tinha também uma mochila para por os livros e o
lanche.
Fiquei atônita quando entrei na aula, ao ver tantas crianças. Eu nada
compreendia das lições da professôra Enriqueta. Às três horas terminava e
saía-se aos sons de cantos patrióticos. Eu não iria ficar muito tempo nesse
grupo - era tímida e bobinha, as outras meninas me achavam sem dúvida diferente
e me batiam, por não ter traquejo de conviver com outras crianças. Voltando
para casa, subiam-se, e desciam-se morros, no caminho havia riachos. Uma
ocasião eu ía na frente com uma coleguinha e os irmãos dela atrás, uns moleques
terríveis. A um dado momento quando eu estava sôbre uma tábua atravessando o
riacho, êles, rindo, me empurraram e lá fui eu com o meu vestido branco que
ficou vermelho. Quando cheguei, minha mãe me repreendeu severamente, pensando
que eu tinha brincado com os moleques. Fiquei tão sentida com essa injustiça,
que logo me veio febre alta: era catapora. Nunca mais voltei a essa escola.
Por algum tempo continuei a minha vida de antes, desenhava por tôda
superfície que encontrava, meu pai achava que eu tinha jeito. Agora havia um
colégio na esquina da Avenida Paulista e rua Augusta: chamava-se Colégio
Inglês. Os diretores e professôres eram todos londrinos; meu pai queria que eu
aprendesse êsse idioma e fui matriculada nessa escola. As alunas eram de ricas
famílias que moravam na Avenida Paulista, Matarazzo, Carlos de Campos,
Castelão. A mãe dessa menina era uma rica viúva, dona da melhor confeitaria da
cidade. Beatriz era respeitada entre as meninas - trazia sempre bombons de
chocolate, que distribuía entre elas. Ali havia as maldades do mundo em
miniatura: eram más, orgulhosas, mentirosas. Diziam "em casa tem oito
criadas", outras tinham seis, cinco, quatro e chegava minha vez. "O
que faz seu pai?" Eu dizia "é pintor". Diziam elas, "pintor
de parede? Porisso é que você é uma bôba. Quantas empregadas tem na sua
casa?" "Uma", respondia eu. "Mas então é casa de
pobre?" Saía chorando e apanhando. Quando elas brigavam entre si e
rasgavam os vestidos, era sempre Helena que era repreendida. Essa escola fechou
devido aos diretores se entregarem ao vício da bebida: corria a notícia de que
a Madame era encontrada caída no chão, dizendo asneiras. É claro que saí dalí
sem saber nada de inglês.
Meus pais tinham alugado um velho piano Pleyel e eu continuava os
estudos com a professôra do colégio, dona Nicota, verdadeiro massacre, me
deformando a mão, durante anos, e não me ensinando solfêjo. Eu tocava de
ouvido.
Passei, uns tempos sem colégio. Meu pai me dava uns modelos para copiar
- eram desenhos de cabeças suavizadas e macias, sombras feitas ao esfuminho;
meu pai sempre se zangava com minha falta de cuidado e pressa em terminar. O
outro colégio ficava longe, em Higienópolis. Um breque vinha buscar as alunas
em suas casas. Eu devia me achar na porta já arrumada, pronta para subir, mas
encontrava sempre um meio de me atrasar. O carro já estava longe, quando eu
saía da porta. Era um colégio que dava aula de inglês. Eu cursava o primário:
estudava as lições. Estava gostando do colégio, mas, certa vez, para me esmerar
num trecho bem decorado de História do Brasil, em que constava que os
portuguêses cultivavam cana e eu, ao dizer que os portuguêses tinham plantado
muito açúcar, todos riram, inclusive a professôra, o que me envergonhou demais
e não mais estudei as lições. quando era interrogada não respondia, de mêdo de
dizer alguma bobagem. A cada fim de aula cantavam-se hinos protestantes.
Fiquei pouco tempo nessa escola; meus pais falavam em ir para a França,
sonho permanente de meu pai; seu Oscar, que vivia na arte dêle, sacrificado em
São Paulo. Meus desenhos não o satisfaziam; no piano, eu batucava de ouvido
valsas, polcas. A moda me despertava interêsse - gostava de vestir minhas
bonecas de moças e preferia a companhia de meninas mais velhas do que eu.
Às vezes meu pai me levava ao circo; a bailarina sôbre o cavalo me
extasiava - como seria feliz se estivesse no lugar dela!
Mas das impressões de que até hoje me lembro, foi a viagem que fiz com
meu pai ao Guarujá. Fomos pela nova linha de trens que saía da Estação da Luz.
Os carros eram novos e as poltronas de palhinha estavam estreando. No alto da
serra o trem parou para se tomar café e comer sanduíches, que coisa formidável
ver os grandes abismos, com suas verdejantes florestas, e o mar, então! Eu
estava muda de tanta emoção: era a primeira vez que o via de tão perto...
Guarujá, nesse tempo, só tinha um hotel e raras casas, afastadas umas
das outras, alguns troles parados e pouquíssimos visitantes. Nesse dia, o mar
luminoso e verde vinha morrer na alva praia: eu corria, aturdida, apanhando
conchas, que amarrava num lencinho. O dia estava radiante de sol e luz.
"Seu" Oscar fretou um breque para ir aos rochedos das Tartarugas.
Êsses rochedos ficavam no alto das pedras escuras. Lá de cima via-se todo o
mar, com seus fortes rugidos e o bater das ondas em fúria sôbre as pedras.
Viam-se enormes tartarugas, que mergulhavam como nas priscas eras. Nunca me
esqueci dêsse passeio tão lindo, que encantou minha infância.
Apesar de terem nascido católicos, meus pais não eram crentes nem
praticantes: "seu" Oscar sempre se dizia livre-pensador: minha mãe ía
à missa uma vez por ano no Domingo de Páscoa. Os cantos enchiam-lhe a alma de
emoção. Dona Mariquinha Paim, uma das raras amigas de minha mãe muito devota,
de cara redonda, óculos, cabelos puxados e sorriso beatífico, sempre de prêto,
com sua capa cheia de babados, segundo meu pai, era, de longe, um padre
perfeito. Ela, sempre dizia sorrindo: "coitado de "seu" Oscar,
tão acanhado, tão modesto". Meu pai a detestava. A visita foi para pedir a
dona Júlia que deixasse Helena fazer a primeira comunhão na Igreja do Espírito
Santo, que ficava num morro, atrás de nossa casa. Sinhá, a filha dela, que
tinha a mesma idade que eu, também ía cumprir êsse dever religioso; minha mãe
consentiu e eu ía ao catecismo com a criançada do bairro, aprender os
mandamentos da lei de Deus. Nada compreendia de semelhantes histórias.
No dia da festa, estava feliz ao me ver tôda de branco, com sáia
comprida, véu, a grinalda; minha mãe me beijou com lágrimas nos olhos. Meus
pais se vestiram bem , fomos os quatro, minha irmã Margarida, linda como uma
boneca, de touca de gaze e vestidinho de sêda branca. À tarde fomos fazer
visitas e no fotógrafo Wolsac, para perpetuar a lembrança dêsse dia, parou na
nossa porta um belo carro cupê todo forrado de cetim, puxado por dois cavalos
brancos.
À frente de nossa casa morava uma numerosa família italiana; tinha uma
menina que sempre vinha falar comigo através da grade do jardim; ela era
sorridente e alegre; pouco a pouco foi-se infiltrando em casa e minha mãe nada
dizia. Florentina era seu nome, vermelha de rosto, de olhos arregalados, sempre
contente, declamava e me dizia: "Entre no Externato São José". Ela já
estava num ano adiantado e isso muito influiu para entrar nessa escola, onde
fiquei alguns anos. Meu pai ensinava aquarela a uma freira francêsa, irmã
Otávia e a uma professôra, dona Augusta; elas tinham muita consideração por meu
pai dêsse favor pois êle não ensinava, tinha horror a alunas. Devido a isso a
madre superiora sempre me punha em classes muito adiantadas, que eu não podia
seguir.
Meus pais venderam a casa da rua Augusta e fomos temporàriamente morar
na rua Barão de Iguape, numa pequena casa nova. Foi preciso vender quase todos
os móveis, para poderem caber. Nessa casa, há alguns anos meu pai era professor
do Ginásio do Estado: êle sempre se queixava da lonjura da rua Augusta; pois
tinha que tomar duas conduções. O Ginásio ficava em frente à Estação da Luz. A
nova casa que estavam construindo na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, ficava
num terreno fundo de alguns metros, até chegar ao nível da rua. Tinha dois
andares. Meu pai fazia grandes quadros, sôbre a História do Brasil e trazia do
Instituto Histórico documentos e livros. A vida de Anchieta muito influiu no
meu espírito e uma espécie de misticismo me invadiu; começava a achar os
sacrifícios belos e o sofrimento uma chama a se oferecer a Deus...
Minha mãe tinha caído em profunda neurastenia; nada mais a interessava e
as idéias mais lúgubres tinham-se apoderado dela. Meu pai, vivia ocupadíssimo;
Ginásio, retratos, quadros, decorações. Andava ríspido e de mau humor. Eu
freqüentava o Externato São José. Sempre fraca, pálida, estava me transformando
numa meninota: minha única amiga era minha irmã. Apesar de ser muito mais velha
brincava com ela. Instalados na nova casa, comecei a me interessar sèriamente
pelos conselhos de meu pai: foi o início definitivo de meu gôsto pela arte.
Comecei a empenhar tôda a minha paciência em copiar os modelos que meu pai me
dava; num ano fiz consideráveis progressos. Com dezesseis anos copiava na
perfeição os modelos mais difíceis de pasmar meu pai, ficava o dia todo
desenhando com diversos lápis, miolo de pão. Meu pai mandava enquadrar os
melhores, o que muito me lisonjeava.
Morávamos na parte de baixo da casa, sem frente para a rua; meus pais
tinham receio que me viesse a idéia de namorar; de vez em quando minha mãe
falava sôbre as moças indignas que namoravam, a coisa mais feia que podia
acontecer; essas moças nunca se casariam, já estavam perdidas. "O
contrário da verdade" eu ouvia essas advertências num silêncio completo...
Às vezes ela me dizia que os homens eram maus e que o casamento era a
escravidão. Estava me inculcando uma mentalidade especial, de que levei anos
para me libertar. Nunca pude ter os vestidos que sonhava; a moda estava nas
etaminas de fundo branco com impressões de buquês de flôres, alegre e juvenil;
meu pai dizia que chamava a atenção; quando saíamos êle tinha horror que
olhassem para êle. Sempre passava por ruas de travessa para não ser visto, não
gostava de festas nem convívios, era reservado e tímido. Seu grande prazer era
só seu trabalho; domingos ou feriados êle ficava o dia todo pintando. Nunca fui
a reunião ou festa alguma. Todos os dias eram iguais naquele casarão mal
repartido, sem janelas para a rua. Eu procurava ter uma vida diferente, na
minha imaginação de adolescente, desejava outras alegrias. Em casa não havia
livros; meu pai comprou depois uma rica coleção de cinco livros de arte: eram
reproduções em côres de quadros de artistas de renome. Eu ficava apaixonada por
essas obras e ficava longamente apreciando essas reproduções; tinha também
comprado reproduções de grandes decorações em branco e prêto. Não me era
permitido ler o jornal, mas eu tinha arranjado meio de ler os romances que O
ESTADO DE SÃO PAULO publicava e de que "seu" Oscar era assinante.
Seguiam-se êsses romances em vários meses; durante o dia eu ía vigiando o
jornal, por último à noite era a criada que lia; eu retirava e disfarçava,
levava o jornal para meu quarto e lia à luz de vela. Assim pude conhecer belos
livros de Alexandre Dumas, A Dama de Monsoró, Catarina de Médicis, Henrique
III, O Colar da Rainha, ficava maravilhada com as intrigas e esplendores da
côrte da França, ali havia histórias de amor, mas na minha ingenuidade, pensava
que êsses fatos só tinham existido em épocas passadas.
Eu ia desenhando sempre na esperança de poder um dia usar as tintas, que
eu adorava, meu pai não queria e dizia sempre que o desenho era a base de tudo,
que êle tinha desenhado durante muitos anos na ESCOLA DE BELAS ARTES do Rio;
mas um dia êle amoleceu e eis-me com a paleta de aquarela na mão. Foi um dia
feliz êsse que comecei a pintar com água; nunca pensei que fôsse tão difícil,
medir a quantidade de água certa, não deixar secar e nem molhar demais, rapidez
e acêrto, eram coisa bem diferente do que eu sabia fazer; meus olhos se
deliciavam nas côres delicadas e vivas.
Chegou a notícia do falecimento de minha avó na França, entraram pela
primeira vez os vestidos de lã preta enfeitados de fôsco crepe prêto; minha
mãe, que já andava neurastênica, agora tinha um bom motivo para piorar. Nem bem
fazia um ano, que estávamos mergulhados no prêto, morre o avô. Mais outro ano
de tristes roupas, depois foi minha mãe; quatro anos de tôda a minha tenra
mocidade a cumprir um dever absurdo, inútil, cruel.
Passávamos os três meses de férias em SANTO AMARO, numa enorme chácara,
a casa tinha vastas peças, uma longa varanda, que tomava tôda a fachada, ornada
de colunas estílo coríntio, dava uma vaga idéia de um templo grego. Tinha um
grande jardim na frente e vasto pomar nos fundos: uma profusão de goiabeiras,
ameixeiras, laranjeiras e caquizeiros. Era uma abundância de frutas nas árvores
pelo chão. Eu, Margarida e minha mãe fazíamos longos passeios, meu pai
trabalhava nas composições para os painéis do Teatro Municipal; os desenhos
eram passados no papel, aumentados maior que o natural; servi de modêlo para
quase todas as figuras de suas composições. A principal delas era o teatro
grego ambulante.
Por essa época comecei, do natural, desenhos, aquarelas e pintura a
óleo, objetos, flôres, frutos; a paisagem foi bem mais tarde, eu estava feliz
com o cheiro das tintas, e de mexer nas tintas e côres.
seu aluno J. Marques Campão estava também passando uma temporada em
Santo Amaro com sua família; êle vinha com freqüência, meu pai e êle
trancavam-se numa das peças e ficavam horas pintando. Um modêlo que êles tinham
achado em Nhô Quim, ótimo caipira que se prestava a tôdas as pôses conquanto
não precisasse trabalhar. Depois da viagem que "seu" Oscar fêz a
Belém do Pará em 1910, seus sonhos iam se realizar, ir à França. A maior
tristeza, que êle se queixava sempre era o meio mesquinho e refratário à arte,
em que vivia em São Paulo.
Foi feita uma exposição de meus trabalhos em casa, no
"atelier". O sr. Freitas Valle e mais alguns amigos acharam que eu
merecia a BÔLSA DE ESTUDOS para ficar em Paris; nesse tempo era assim que os
pensionistas íam para o estrangeiro; a mesada era minguada, trezentos francos
por mês não davam nem para pagar uma pensão e era por três anos. Todos êsses
acontecimentos me opitaram que me tiravam de minha monótona vida; tôda a minha
exuberância e paixão se concentravam nos estudos, tudo me obrigava a criar um
mundo à parte, que só eu conhecia. Os preparativos da viagem foram se
acelerando, o piano e as mobílias vendidos. Eu saia com minha mãe e Margarida,
para fazer compras de roupas e acessórios; usavam-se uns colêtes que partiam
dos seios até os joelhos, punham o busto em relêvo e proeminência, achatavam o
ventre, salientavam atrás, seis ligas prendiam as meias, ficava-se com o corpo
rijo como um estôjo e para completar usavam-se as saias "entravés"
com uma estreita barra à altura dos joelhos, que impediam de andar,
precisava-se de muito cuidado para não cair. Os chapéus eram enormes e
enterrados na cabeça; tive um branco, com duas asas abertas na frente: parecia
Mercúrio, o deus do comércio. E aproveitava para escolher feitios na moda, fiz
questão de ter as saias que impediam de andar.
Em março de 1911, fomos tomar o vapor no Rio; por essa ocasião conheci
minha avó, eu era muito pequena quando ela passou uma temporada em São Paulo e
não me lembrava mais dela, uma velhinha sêca e miúda, que vivia num subúrbio do
Rio, com uma filha solteirona, tia Robertina. Fomos visitar as outras duas tias
e conheci meus primos e primas pela primeira vez. Chovia torrencialmente quando
subíamos as escadas do navio holandês FRÍSIA, chegando lá em cima com nossas
roupas totalmente molhadas. A viagem foi relativamente boa porque não ficamos
doentes; à passagem do Equador houve a tradicional festa; à tarde, diversos
jogos em que as crianças e moças tomavam parte; minha mãe não quis que
fôssemos; à noite houve um grande baile; meus pais pediram a janta mais cêdo
para que eu não presenciasse semelhante espetáculo, poderia me despertar idéias
para coisas depravadas, como por exemplo, namorados. Eu era uma moça tímida, que
estava longe de pensar em tal coisa. Fomos para o cubículo, que era nosso
camarote. Vinte dias e estávamos em CHERBOURG, fazia frio e ventava.
Paris me decepcionou muito, achei escuro, suas casa tôdas iguais de côr
de cinza, onde as roupas pretas dominavam no povo; só mudei de parecer quando
pela primeira vez entrei no Museu do LOUVRE. Fazia frio em abril, às árvores
dos parques, com seus galhos hirtos e pretos não era alegre; foi só com o sol,
que começaram a desabrochar uma folhinhas côr de alface... Com nossas roupas
leves, vindas do Brasil, tiritávamos, meu pai dizia que não estávamos vestidos
como lá e que era porisso que chamávamos a atenção, coisa que o punha de mau
humor. Minha mãe sempre se sentindo mal, pouco falava, ouvia rumores que logo
íamos ter um irmãozinho. Não podia crer tamanha desdita, eu não gostava de
criança, aí sim que ía ficar prêsa de novo em casa. Estávamos num hotelzinho de
MONTMARTRE, o quarto era frio e escuro, Margarida ficava comigo e êles saiam a
procurar casa. Minha mãe gostava do campo e fomos morar num arrabalde de Paris,
Sartrouville, perto da Maison Lafitte, na linha de trem St. Lazare, longe de
tudo, e de Paris. A primeira coisa que peguei, chegando ao chalé, foi a febre
escarlatina. Começou como forte resfriado e no dia seguinte estava cheia pelo
corpo inteiro, de manchas vermelhas, febre de quarenta graus, quase morri, os
médicos não sabiam o que eu tinha. Meus cabelos caíram todos e fiquei um mês
acamada, só tomando leite. Margarida também pegou mas como eu era grande, foi
essa doença para mim, muito mais grave; minha mãe estava com seu ventre
volumoso. Só quando começou a fazer calor em junho, é que recomecei a sair com
meu pai; minha mãe ficava triste e desconsolada, sòzinha, sem poder quase se
mexer devido ao seu estado, sua neurastenia tinha aumentado e só falava em
morrer...
Comecei o modêlo vivo pela primeira vez na Academia Julien des Passages
des Panoramas; quando vi o modêlo nu, muito me intimidei. Eu ficava acanhada no
meio das alunas, desenvoltas que riam e falavam entre elas; durante o repouso,
em casa, eu continuava a pintar sob a direção de meu pai, natureza morta.
"Seu" Oscar tinha improvisado um "atelier"no sótão. Iniciou
uma série de cópias grandes, de Murillo, Rembrandt, Fragonard. - Eu ficava
pasmada diante da grande facilidade e exuberância, que êle possuia; fez também
uma série de quadros de gênero , modelos do natural, com costumes Luiz XV -
isso me tirava o ânimo e pensava no íntimo "nunca hei de me aproximar
dêle". Mas eu nada dizia. Êle também pouco se importava com minhas idéias.
Comecei no Museu do Louvre, sôbre um cavalete especial num estrado, que os
guardiões alugavam, fiz em pequeno croquis para depois passar em grande,
"le portrait de madame Vestier", tôda vestida de cetim e rendas,
"La Melancolie" de Fragonard.
Em outubro, o frio começou a apertar, eu ficava imóvel diante de um
foguinho perto da lareira, o vento gelado entrava por tôdas as frestas da casa,
minha mãe doente, nada de aparecer a cegonha, que esperavam de sde agôsto; meu
pai resolveu ir assim mesmo a Paris; alugou um apartamento na rue Darremont em
Montmartre, quase pegado ao Cemitério Père Lachaise - pelas janelas do
apartamento só se viam enterros.
Dia 23 de novembro nasceu mais uma irmãzinha e no dia 30 dêsse mesmo
mês, minha mãe morria. Para completar a tristeza, caia a neve que eu via pela
primeira vez. Foi um horrível golpe me vêr face a face com a morte; eu era
sensível e amorosa e como não conhecia mais ninguém, tinha-lhe excessiva
amizade. O frio cada vez mais forte, dias escuros e curtos, não era consolante.
Estávamos nessa extrema circunstância, completamente sós, minha mãe tendo
ficado de mal com seus parentes. Eu e Margarida já estávamos com coqueluche
quando fomos ao enterro de dona Júlia em Dax, onde já estavam seus pais
enterrados. Lá tinham uns parentes, que apareceram, foi um enterro de gala, o
padre na frente cantando pela estrada do ponto final. A recém-nascida ficou com
uma ama, qua a levou para a sua casa para a criar numa aldeia perto de
Guillancourt.
As cartas que vinham do Brasil não eram boas: a casa da Avenida
Brigadeiro Luis Antonio tinha cedido na parte dos fundos, devido aos maus
alicerces, tinham aparecido rachaduras do alto abaixo das paredes, os
inquilinos tinham saído e a casa estava vazia. Em dezembro embarcamos, todos de
luto fechado. Eu e minha irmã tossindo até perder o fôlego, com a terrível
coqueluche, que durou seis meses.
Depois de consertada a casa, estávamos morando nela; meu pai retomou
suas aulas no Ginásio e começou as grandes decorações da Sta. Cecília. Eu
estava tão aturdida pelos acontecimentos, que não pensava em arte. Um dia
apareceu o sr. Freitas Valle (era deputado), contrariado que eu tivesse voltado
"agora que trabalhei para o aumento das mesadas dos pensionistas e
prolongar a estada lá por cinco anos", dizia êle. Veio várias vêzes e
convenceu meu pai a me levar outra vez para Paris. Margarida ficou no colégio
interno, e em março de 1912 seguíamos para a Europa.
Descemos em Lisboa onde novamente ficamos uns dias, meu pai comprou uma
viagem na Agência Cook para ir a Madrid e visitar tôdas as cidades da Itália;
eu, sempre com a tosse, que não me largava e tinha ainda piorado com o frio
pois a primavera na europa é o fim do inverno, sempre arrastando o luto
completo com o grande véu de crepe, que descia do chapéu atrás e ia até os
tornorzelos. Em Madrid, quase nada vi, ficando na cama o tempo todo; de lá
fomos a Vingtimilia, para seguir a Gênova, minhas idéias iam se transformando,
que por tantos anos tinham sido de obediência e submissão. Já não era tão
crédula quanto antes, meu pai me repreendia, o que muito me magoava, a revolta
já estava se infiltrando em mim, nunca poder fazer nada do que eu queria; para
contrariar meu pai, ficava emburrada, sem dizer palavra durante horas - êle não
dava pelo motivo e ficava bravo. Em Gênova, fiquei na cama com minha tosse. Em
Turim e Milão comecei a melhorar, vi a grande Catedral de mármore branco na
imensa Praça, as ruas do centro estreitas e movimentadas, a Ceia de Cristo de
Leonardo da Vinci. Resolvi teimosamente comprar uma lembrança em cada cidade
percorrida. Meu pai não estava de acôrdo, daí saiam palavras ásperas, era
freqüente entre nós a desinteligência.
Em Veneza ficamos uns dias; achei uma maravilha essa cidade apesar de
não estar preparada para apreciar tanta beleza; eu me prometia voltar um dia a
êsse país de fadas. Fomos a Murano, fábrica famosa que ficava numa ilha; tinha
uma espécie de museu das peças que fabricavam nos séculos passados - meu pai
ficou encantado e comprou muita coisa, um pote de um intenso azul marinho, um
estôjo com doze xícaras para café, verde esmeralda com florzinhas em relêvo
sôbre ouro; muitas delas iam ser quebradas na fronteira, pelos aduaneiros
ávidos em descobrir fumo. Depois foi Florença - passávamos pelas ruas, meu pai
fazia croquis no museu, a curiosa ponte Vecchia por dentro, de um lado e outro
ourives. Em Nápoles ficamos uns dias num hotel de luxo, no cume de uma
montanha; de nossos quartos descortinava-se um panorama esplêndido, com o mar
azul e o Vesúvio na frente, com seu tenue filete de fumaça. Íamos comer fora em
pequenos e pitorescos restaurantes, com a frente ornada de lindas parreiras.
Assim que sentávamos, vinham três a quatro músicos tocando bandolim, violão e
cantando as delícias da lua de mel. Eu ficava triste, desapontada, meu pai
falava alguma coisa aos ouvidos dêles, que se afastavam logo. Visitamos Capri,
a ilha perdida no oceano azul, com seus laranjais em flor, a gruta Azul,
Herculano e Pompéia. Andamos pelas ruas compridas ruas, tôdas calçadas de
grossas pedras, suas casas alinhadas, mas tristes e desoladas, sem telhados,
sem portas, sem jardim, ruínas do terrível terremoto do ano 79 de nossa era
(1).
(1) OBS.: Na época de Dona Helena não se sabia que as cidades de Pompéia
e Herculano tinham, na verdade, sido varridas por uma erupção de cinzas seguida
de um enorme fluxo piroclástico do Vesúvio, e não por um terremoto.
Em Roma, ficamos uns dias visitando seus belos museus, ficamos sentados
uma tarde tôda nas ruínas do Coliseu, vendo o que foram os esplendores da Roma
antiga; meu pai fêz diversos croquis a aquarela num caderno que êle carregava
sempre. Numa noite, o expresso nos levou a Paris. No consulado estavam diversas
cartas do Brasil, tôdas com más notícias: minha irmã Margarida tinha ficado
muito doente no colégio e estava na casa dos amigos Cordis e, depois, na sua
madrinha Azevedo, à espera que meu pai voltasse quanto antes; na nossa casa
tinham-se aberto novas brechas nas paredes do fundo e ameaçava ruir. Foram os
primos Saphores do lado materno, que arranjaram para mim uma pensão familiar em
Paris; minha tia Loachot devia vir de vez em quando me controlar.
Foi às pressas que meu pai se despediu de mim me dando vários conselhos,
freqüentar as aulas na ACADEMIE JULIAN ou COLAROSSI, fazer umas cópias grandes
nos museus do Louvre e do Luxembourg, arranjar dos professôres atestados de
freqüência e progresso, ter o cuidado de não sair à noite, mandar os estudos
pelo correio.
O quarto em que eu ia morar era todo forrado em faille côr de rosa;
sôbre a cama tinha uma linda colcha da mesma côr recoberta de renda, a mobília
era branca. A parede da frente era tôda de vidro. O prédio, nôvo, dava para a
rua Pierre Curie, logo perto do Panteon, B. St. Michel e do Jardim de
Luxembourg. Outra vida nova ia começar para mim mas eu estava tão saturada, tão
atada à vida sem personalidade, que apesar de estar com dinheiro, liberdade e
entregue a meus gostos, me parecia haver uma vigilância oculta e nada ousava
fazer. Fiquei nessa mentalidade ainda por muito tempo; não estava preparada
para ficar nessa grande capital e ter todos êsses privilégios; poderia ter
aproveitado muito mais se tivesse outra orientação; sem traquejo nenhum da
vida, me parecia estar ainda oprimida por invisíveis laços, e eu mesma achava
que tudo o que eu fazia era ruim.
Todos os dias eu ia à "ACADEMIE JULIAN"- o professor era
Chaumert, ali se fazia o modêlo vivo mulher e homem com "cache-sexe";
eu desenhava a fusain, pouco pintava, fazia as composições sôbre temas
bíblicos, que o professor dava uma vez por semana, conseguia ser bem colocada,
às vezes era elogiada pelo colorido. Depois mudei para o COLAROSSI - ali era
curso misto, tinha também à tarde aula de retrato e curso de croquis. Ficava
desanimada ao ver tantos alunos trabalharem bem, fortes, seguro do pincel e eu,
naquela indecisão e timidez; trabalhavam grandes telas e pintavam com
desenvoltura; pouco a pouco ia compreendendo que eu estava prêsa às regras a
aos detalhes. Trabalhava o dia todo e no estio ia estrear na paisagem, para mim
dificíliama; fazia croquis no jardim do Luxembourg, à beira do Sena; quando
chovia ia às velhas igrejas St. Julien le Pauvre, e St. Severin. Comecei uma
cópia no museu de Luxembourg, que tinha quadros de artistas contemporâneos,
"La Femme aux Cornichons de Bail", "Jeune Fille au Chat de
chaplins", que ia mandando a meu pai com os desenhos de modêlo vivo.
Consegui entrar na Escola de Belas Artes, no curso de Hebert; aí fiquei
uns meses tudo fazendo para progredir; ali havia alunos bem traquejados, que
desenhavam e pintavam admiràvelmente bem. Durante êsse período de meus estudos
não expus em salão nenhum, esperando trabalhar melhor para isso. Na pensão em
que eu morava, conheci uma família brasileira do Ceará, cuja filha era
pianista: Ester era tôda sentimental e romântica, tocava bem e apesar de sua
família ser muito devota iam a concertos e teatros; até aquela altura eu nada
conhecia dessas coisas; Ester me procurava para irmos aos melhores concertos, e
representações. Eu ainda arrastava o luto e custei a me livrar - meu primeiro
vestido de soirée foi branco mas tinha um cinto de sêda roxo, luto aliviado.
Achava tudo isso, no meu subconsciente, que não estava procedendo bem. Nessa
pensão eu ia conhecer uma inglêsa, Miss Gertrudes, que pintava; fizemos boa
camaradagem e fomos nas férias de 1914 para Veneza. Às vezes eu ia visitar
minha tia-avó e minha irmã Judith, que estava em Guillancourt com a ama.
Fizemos uma agradável viagem para ir a Veneza, passando pela Suíça - da janela
do trem viam-se as maravilhosas paisagens, os odorantes pinheiros; passamos uma
noite em Lausanne e no dia seguinte Milão, onde ficamos dois dias e depois,
Veneza de meus sonhos. A pensão em que fomos ficava além do grande Canal, numa
velha casa senhorial com um brasão sôbre a porta - os quartos eram enormes,
aclarados à noite por luz de lamparina, que projetava grandes sombras, que me
gelavam de mêdo. O inconveniente era de ter-se que atravessar de barca cada vez
que íamos à praça de São Marcos. Pintávamos durante o dia; eu só tinha levado
aquarela e me exercitava em reproduzir os incomparáveis reflexos das casas e
das gôndolas sôbre as águas; ainda não existiam como hoje lanchas e barcos a
gasolina, que estragam tanto o pitoresco.
Um dia, ouvimos na cidade que a França e a Alemanha estavam em guerra;
mas diziam: "isso não pode durar mais que uma semana" - apenas durou
cinco anos. Os dias iam passando a cada vez mais uma nova nação entrava em
guerra, nosso dinheiro estava se fazendo escasso, miss Gertrudes pensava em
voltar para a Inglaterra e eu, que faria ali sòzinha, sem conhecer ninguém e
sem dinheiro? Resolvi ir com ela até Gênova, aí eu procuraria o consulado
brasileiro. Eu tinha ido à Itália sem documentos e agora não podia voltar a
Paris sem papéis de identidade; tive em Gênova uns dias de angústia. O cônsul
arranjou pôr meu nome nos documentos de duas moças brasileiras que iam a Paris
acompanhadas de um senhor francês. Chegando a Paris, achei outra cidade a que
eu tinha deixado, as ruas ermas e tristes, o comércio quase todo fechado, só
havia condução subterrânea, de vez em quando batalhões passavam ora
silenciosos, ora com banda de música, que partia a alma de tristeza. Eu estava
certa, como milhares de franceses, que isso ia logo terminar com a vitória da
França. As poucas cartas que recebia de meu pai eram ordens para voltar,
mandou-me mil francos para a viagem, mas não fui, esperando que acabasse a
guerra, o que muito o contrariou; começando a vêr que ia essa guerra durar
muito tempo, pedi mais mil francos a meu pai que me mandou, dizendo que desta
vez me abandonaria se não viesse. Embarquei então em Bordeaux num vapor
francês, perseguido até Pernambuco por submarinos alemães. Em Santos, meu pai
me esperava no cais, me trouxe para casa, onde me apresentou à sua nova espôsa,
filha e irmã; Margarida estava com elas. Vi logo que não passavam de umas
aventureiras e fiquei detestando-as. Margarida tinha crescido demais mas estava
ali sem freqüentar a escola e sem nada aprender; tinham-lhe enchido tanto a
cabeça a meu respeito, que ela tinha mêdo de mim e fugia quando me via. Estava
eu morando embaixo, elas em cima no rés da rua, meu pai saia o dia todo e
quando chegava, estava sempre de mau humor: eu ali sòzinha, o dia todo na penumbra
da casa escura e triste, dava tempo para pensar na minha vida de Paris. A
independência que eu já tinha provado, agora era outra coisa, sem um vintém,
sem parentes, sem amigos. Tinha-me desnorteado, as idéias e gôsto de arte, nada
de meu pai me orientar no que poderia fazer. Eu tinha horror aos retratos por
fotografia, que êle me propunha. Êle não gostava da maneira mais livre, como
tinha aprendido em Paris, dizia que só servia para estragar telas e tintas, que
eu precisava acabar mais, e esbater, ter mais paciência; nada dêle se
interessar em fazer a exposição de meus estudos - levei cinco anos acumulando
tostão por tostão para realizar êsse meu desejo.
Durante êsse tempo, para fugir a um presente tão ingrato, comecei a
estudar sèriamente o piano, me preparei e no ano seguinte, fiz exame no
conservatório, entrando no quinto ano, com o professor Wancolle, o melhor e de
mais nome em São Paulo. Meu pai separou-se das aventureiras com quem vivia e
fomos passar uns tempos na rua do Teatro; foi preciso o intermédio do Juiz e de
advogado para tirar Margarida, elas não queriam largar tão boa prêsa! O piano
me tomava várias horas por dia, eu estava feliz de poder tocar os clássicos;
minha ambição era ter uma boa técnica e poder interpretar o que sentia,
Beethoven, Bach, Chopin; queria pintar mas tantos eram os empecilhos que fiquei
uns tempos sem pegar nos pincéis; para mim a arte era o único motivo de viver.
Eu ia me mantendo com alunas de desenho e pintura durante os cinco anos que
fiquei na casa de meu pai. A minha saúde era ruim, sempre lutando com um corpo
fraco e doentio. Sabia que era feia de rosto: isso ainda contribuía refugiar
dentro de mim mesma, onde minha revolta achava consôlo... Gostava de ler, tinha
um temperamento sensível e profundo, que mais ainda me fazia sofrer... Essa
vida amarga e inolvidável de minha mocidade, durou bastante tempo. Encaminhei
minha irmã, para a música. Ela estudava violino no Conservatório Musical. A
educação da minha irmã passou a ser minha grande preocupação.
Estavam preparando grandes festejos para o término da Grande Guerra
Européia, mas em vez disso foi uma terrível epidemia de gripe, dita Espanhola,
maléfica e infecciosa; começou no Rio com jogadores de futebol, vindos da
Europa, logo se propagou de tal maneira que foram poucas as pessoas que não a
pegaram. São Paulo, por mais de uns meses, com as escolas e o comércio
fechados, as ruas solitárias e ermas, só se viam as ambulâncias correndo, os
próprios médicos fugiam, cada um ficava esperando os sintomas da doença, em sua
casa. Fui a primeira a ter, depois foi minha irmã, e meu pai, as criadas já
tinham partido para o isolamento. Vi a morte de perto: levantando-me para
tratar de meu pai, recaí, e desta vez faltou pouco para chegar ao ponto final.
Em 1918, meu pai casou-se de nôvo, com uma moça da família Escobar; não
devia durar muito essa união, que só levou três meses, vindo ela a falecer.
Êsse desastre ia-lhe ser salutar, seu caráter modificou-se para mais
normal.
Um dia veio visitar meu pai, um pintor alemão, que estava terminando sua
exposição de pintura numa sala da rua Direita, oferecendo êsse local, que ia
ficar vago. Meu pai me disse, "se eu tivesse dinheiro você poderia fazer
uma exposição de seus quadros"; mais que depressa eu lhe disse que tinha
economias e que podia fazer. Em janeiro de 1919, abri minha primeira exposição,
minhas telas eram de técnicas bem diferentes, natureza morta, feitas antes de
ir a Paris e meus últimos estudos feitos com fatura mais larga, os motivos
também eram dos mais variados. Os jornais muito elogiaram essa jovem pintora
portadora de muito talento mas ainda à procura de sua personalidade; nesse
tempo, os jornais não se faziam rogar para escrever sôbre os artistas que
começavam a se mostrar. Os pintores não formavam grupos, muitos vieram à minha
exposição, a Arte Moderna, que estava começando era muito comentada, todos
diziam que essa pintura louca nunca haveria de pegar. Tenho ainda um artigo de
Monteiro Lobato, sôbre a mostra que fiz; êle estava nesse tempo escrevendo na
Revista do Brasil.
Conheci durante minha exposição, que durou um mês, vários rapazes
inteligentes, que vinham conversar comigo sôbre arte, livros, eram acadêmicos
de Direito e intelectuais - Rêgo Rangel, que vinha com mais freqüência, foi
trazendo outros, Correa Júnior, Cleómenes Campos, Arlindo Barbosa, Paulo
Gonçalves; todos gostavam de literatura e música. A exposição terminada,
continuaram a vir à noite, à casa de meu pai. Sempre me recordei do salãozinho
todo forrado de verde-escuro, a mobília Luiz XV trazida de Paris, o belo
espêlho oval com sua rica moldura de ouro e seus anjinhos segurando guirlandas
de rosas, o belo lustre de cristal, as cortinas de renda branca, o tapete verde
também vindo da França, vários quadros de meu pai adornavam a sala mas o mais
lindo era o piano meia cauda Gaveau, de madeira natural beije. Essa era a única
peça da casa bem mobiliada; quase tôdas as noites vinham nossos fãs. Era a
côrte, Margarida tocava sonatas de Corelli e belas Berceuses de Godard, Luiza
de Azevedo as Czardas, eu fazia os acompanhamentos e tocava solos. Cleómenes
Campos não resistia à emoção da Sonata ao Luar de Beethoven, arrancava-lhe
lágrimas. Ninguém pensava em namoros; tudo era espírito e ideal de Arte; foram
uns tempos felizes êsses para nós; eu começava a crêr que no domínio dos sonhos
podia-se viver intensamente.
Meu pai às vêzes vinha presidir nossas palestras literárias e musicais.
Eu tinha acabado o curso de piano naquêle ano, tinha tantas matérias a fazer,
que me atropelavam o estudo do piano, pelo qual eu tinha entrado no
conservatório; fiz o curso completo de piano (7 anos) e dois anos de harmonia,
me faltando ainda outras matérias e devido a isso não tirei o diploma.
Um dia meu pai me disse, "se você quiser ir a Paris para terminar
seus estudos de pintura, que ficaram interrompidos, vocês podem ir"; creio
que arranjou êsse meio para se livrar da nova vida que estávamos levando. Em
junho de 1920 embarcávamos no velho vapor inglês ANDES para a França; depois de
uma viagem de trem de cinco horas, de Cherbourg a Paris, vendo a paisagem
desbotada da Normandia, apareceu Paris, côr de cinza em todos os tons escuros,
fumaça e céu embaçado. Fomos direto para a casa da tia-avó Loichot - Judith
estava crescida, a prima Maria e a velha Loichot tinham-na criado em parte,
desde a idade de três anos. Eu estava contente de me achar de nôvo nessa grande
capital e de mostrar Paris a Margarida, que parecia estar decepcionada.
Arranjei um apartamento no mesmo edifício na parte de trás que dava para um
pátio cimentado: mobiliei-o muito modestamente e aluguei um piano. Começamos
nossa vida de estudos bem econômica, a pensão que meu pai mandava era escassa e
dependia do câmbio, devíamos viver as três e pagar os estudos. Margarida entrou
na Escola Normal de Música de Paris, Judith freqüentava a escola e tinha
começado o violoncelo, com o bom professor Dupuy. Eu ia à Academia de la Grande
Chaumière, fiquei no curso livre, estudava com afinco e gôsto, desenhando a
fusain, pintura e óleo, já estava saindo das estritas regras; tinha nesse
curso, composição sobre temas clássicos gregos e da História da França, sempre
conquistava bons lugares; em casa fazia natureza morta no intuito de expor; no
estio ia com minhas irmãs ao Jardim de Luxembourg e às beiras do rio Sena;
minha maneira de ver estava se transformando, já não era copiar servilmente do
natural. Mandei durante anos, para o "Salon des Femmes paintres et
sculpteurs", telas que foram bem colocadas - o último envio que fiz a êsse
salão foi o retrato de Margarida de vestido de veludo prêto com o violino,
também uma cabeça de Pierrot; algumas revistas de arte falaram. Eis o que diz
La Revue Moderne, de março de 1927: "Cette jeune et charmante Brèsilienne
s'attaque avec succès au portrait et a la nature morte. Fidèle au Salon des
Femmes peintres où elle a déjà obtenu des bons succès, Melle. Pereira da Silva
nous a envoyé quelques oeuvres d'une grande distinction; un Pierrot seduisante
un coin de Cheminée, aux accessoires originaux et reflet sur la glace étude
extremement brillante et d'une rare perfection de tecnique". (2)
(2) TRADUÇÃO: "Esta jovem e charmosa brasileira se investe com
sucesso no retrato e na natureza morta. Fiel ao Salão das Mulheres pintoras,
onde ela já obteve bons sucessos, a Srta. Pereira da Silva nos enviou algumas
obras de uma grande distinção; um Pierrô sedutor, um canto de chaminé, com
acessórios originais e reflexo sobre o espelho, estudo extremamente brilhante e
de uma rara perfeição de técnica".
Tinha aversão pelos modernos excessivos, admirava os mestres, bons
desenhistas, com bela pasta, colorido rico e espontâneo. Ainda fiz umas cópias
no Museu do Louvre, La Source de Ingres, Demócritas por Coypel e uma grande
cópia do tamanho natural Betsabé de Rembrandt - essa foi a última. Depois me
aprimorei em fazer interiores do Museu do Louvre e do Museu de Cluny.
O apartamento em que morávamos era de peças pequenas e escuras. Não
tinha meios para alugar um atelier. Eram caríssimos. Em Paris a carência de
apartamentos era enorme mesmo para os francêses: muitos moravam em hotéis. Eis
a razão pela qual não fiz grandes telas com figuras; meus modelos para retratos
eram minhas irmãs. Era eu quem chefiava a casa e lutava com as dificuldades
econômicas; nosso luxo era ir ao teatro clássico no Odeon: eu e Margarida
assistíamos com paixão às peças de Molière, Racine, Shakespeare. Comprava-se os
bilhetes com muitos dias de antecedência, sempre nas torrinhas. No estio ia-se
à Comédia Francêsa, que ficava longe e precisava de duas conduções - lá vimos a
maravilhosa Cécile Sorel nas peças de A. de Musset, o Chandelier, Carmosine,
peças de Marivaux, outras modernas de Bataille. Não faltávamos a concertos de
piano, de violino, recitais de dança, vimos Nioca-Nioca, bailarina indiana.
Para ir a êsses espetáculos, fazíamos as maiores economias, confeccionando
nossos vestidos a fazendo todo o serviço de casa. - Só no ano 1925, que fomos
as três, tivemos três meses de férias em Zaraus, nas fronteiras da Espanha,
numa módica pensão mantida por freiras. Ficamos lá um mês, passeando e
apreciando as paisagens tão diferentes das de França.
Margarida já estava com o diploma da Escola Normal de Música, tocava de
cor os belos e difíceis concertos de Bach, Mozart, Mendelsohn; a outra irmã
tinha progredido no violoncelo, tocávamos belos trios. Eu era feliz nesse
ambiente artístico, que enchia nossas vidas de sonho e de beleza... Em junho de
1925, Margarida deu seu primeiro concêrto na sala Gaveau com um belo programa,
teve bastante sucesso.
Eu estava com uma coleção de trabalhos; resolvemos visitar meu pai, já
fazia cinco anos que não o víamos e também mostrar o que tínhamos feito. Meu
pai e seu compadre sr. Azevedo vieram nos buscar em Santos depois de uma viagem
de vinte dias no Bage. Ficamos conversando uns dias sôbre Paris, nossos estudos
e do que se fazia em Paris acêrca de pintura e arte. Achei meu pai bem
modificado, já não era mais autoritário e briguento como antes. Êle pensava que
tudo tinha ficado como antes em Paris e estranhava que eu não tivesse feito
quadros grandes e bem acabados, composições com figuras; mal sabia êle com que
sacrifícios eu tinha feito o que trazia, lutando sempre com a minha falta de
saúde, dores de dentes alucinantes, tumores, etc....
Margarida deu seu segundo concêrto no Teatro Municipal de São Paulo, foi
um belo sucesso - ela era uma agradável moça de rosto lindo, não lhe faltavam
fãs e aventuras. Era elegante, eu gostava de a ver com tudo o que me faltava.
Depois de muito esperar meu pai arranjou para fazer minha esposição no
Grande Salão do Club Comercial, à Rua São Bento, 1º andar. Tinha trazido bons
trabalhos, tudo o que eu tinha exposto no Salão de Paris de "Femmes
peintres et sculpteurs", interiores do museu do Louvre, uma bela tela, a
sala "du burreau Luiz XV" de 20-figura (medida), bem pintada, de
efeito de luzs e colorido, tinha diversos trechos dêsse museu e do museu de
Cluny, das velhas igrejas St. Julien le Pauvre, St. Severin, retratos, uma
expressiva cabeça de Pierrot em tons claros, um estudo que teve sucesso,
"O armênio", publicado em côres na capa da revista Ariel de abril de
1926 também foi premiada na exposição geral de Belas Artes do Rio de Janeiro.
Tinha progredido, saído da pintura escura amarrada a fórmula, estava com uma
visão mais livre de colorido fresco e claro, uma técnica mais certa. Nessa
época ainda se ficava um mês com a exposição aberta. Muitos artistas vinham à
minha exposição, ainda não estava generalizada a pintura moderna , os pintores,
a maioria era a favor dos clássicos e o salão "Des Artistes Français"
estavam nos comandos, não havia os grupos viperinos e inimigos, apenas se
pronunciava o nome de Picasso - não supunham êles que era o poderoso fundador
de uma arte, a mais feia e desagradável que jamais se viu; PEDRO ALEXANDRINO
vinha a miúdo falar da França e de Paris, sempre com Dona Candinha, sua mulher,
que não o largava; gostava de ver meus estudos que lhe lembravam a França,
obcecado de um dia voltar para êsse país; habitava uma casa velha com seus
metais e suas esperanças de acabar seus dias em Paris. Meu pai se lamentava por
não viver na França sonho que êle nunca realizou, como desejava.
À tarde formávamos considerável roda de poetas e literatos, alguns
colegas, queixando-se sempre do meio refratário à arte, vinha sempre o mesmo
tema, "agora a época não é boa, não é favorável à venda de quadros",
que diriam êles hoje, em que a maioria dos pintores tem despesas e trabalho e
que não vendem um quadro.
Já no fim do século e princípio dêste, houve renovadores mas eram
artistas de gênio e grandes como Courbet, Manet, Renoir, Lautrec, Cézanne e
muitos outros, fundando uma arte cheia de seiva, livrando a pintura de um
classicismo anêmico que sacrificava tudo, à técnica ficando uma arte
convencional, sem poder exprimir livremente suas emoções. Infelizmente êsse
benéfico movimento, iria se transformar na mais bruta anarquia, a ponto de
qualquer um estar ao alcance de ser um grande pintor, incompreendido pelos
ignorantes.
Minha exposição terminada, queríamos voltar à França; Margarida seguiu
antes; eu tive a má idéia de fazer uma exposição em Recife, levei umas cartas
de apresentação a uns maiorais da cidade, expus nos fundos de uma loja de
fotografias à rua da Imperatriz, foi uma inédita decepção; a mulher do
secretário do Interior, a quem eu levei uma recomendação era pintora, não veio
à minha exposição e nunca me convidou a ir à sua casa; fato mais curioso foi o
dia da inauguração com a banda de música da Prefeitura. Eu não queria, achando
isso ridículo mas me aconselharam a aceitar, que tudo o que era importante se
abria com a banda municipal; sendo uma rua estreita e de muito trânsito, os
componentes da banda tiveram que entrar na loja, que era estreita e comprida -
os sons ficavam engavetados dentro fazendo um vacarme infernal. O pianista de
nome mundial Rubinstein teve que aceitar essa situação, para o seu primeiro
concêrto. Fiquei um mês com a exposição aberta; não vendi uma só tela. A mulher
em Pernambuco era muito atrasada, as môças só saíam acompanhadas de família, as
mulheres que se aventuravam sós eram mal vistas; da exposição eu ia para o
hotel, encerrava-me no quarto, não saía à noite para evitar propostas imorais.
Estava feliz de embarcar no grande transatlântico holandês, todo branco,
que ia me levar à França e de me encontrar de nôvo com minhas duas irmãs
Margarida e Judith, que vieram me esperar no cais da Gare St. Lazare; parecia
mentira estar de nôvo na Grande Capital cheia de desejo de pintar e progredir.
Continuamos no nosso pequeno e escuro apartamento no primeiro andar, que dava
para o pátio; o que ganhei em São Paulo, na exposição, pouco me deu e a
minguada pensão que meu pai nos mandava dava apenas para uma vida modesta.
Em outubro de 1927, minha irmã Margarida casou-se com um dos rapazes que
freqüentavam a casa de meu pai, Rêgo Rangel, agora vice-cônsul do Consulado do
Brasil em Marselha. Foi um belo casamento na igreja do nosso bairro, Montrouge,
a 27 de outubro de 1927, o templo todo ornado de lírios e as fugas de Bach
levavam para divinas regiões. Margarida estava linda de noiva. Senti muita
tristeza nessa separação. Para esquecer um pouco decidi trabalhar com afinco.
Fui estudar uns meses com o professor Biloul - êle ensinava na Escola de Belas
Artes de Paris, tinha aberto um atelier, trabalhava num estilo claro e simples,
tinha bons alunos que desenhavam e pintavam muito bem, era uma fartura clara
com semi-tons delicados, não era servilmente o que se via mas o que se sentia;
meus gostos iam para uma base forte do desenho, gostava de Chabas, Grum
Montezim, Maxence, meu desejo era expor no salão dos "Artistes
Français", mas era tão difícil ser aceito que nem ousava enviar; tinha
também fases de dúvidas, que me deixavam bem deprimida acêrca de minha
capacidade de trabalho.
Fui diversas vêzes visitar minha irmã em Marselha. Ela morava num belo e
grande apartamento perto do hotel de "La Reserve"; bastava atravessar
um magnífico jardim para se entrar nessa mansão. Das janelas do apartamento,
via-se o Mediterrâneo azul intenso, os navios ao longe, entrando no pôrto e
anunciando sua chegada com a voz sonora da sereia. Achei pitoresco o velho
pôrto de pescadores que tinha mais adiante, fiz diversos estudos. Fui a
Martigues, encantadora ilha construída no século XVIII lembrando Veneza, hoje,
cidade de pescadores e dos pintores; passei um mês trabalhando nas suas ruas,
nas velhas ruas estreitas, suas casas velhas e coloridas, de um lado a outro,
cordas secando as roupas com se fôssem bandeirolas e estar sempre em festa;
enquanto eu pintava, nas ruas ou no pôrto, sempre tinha a companhia de muitos
gatos, em Martigues; fiz muitos estudos de mulheres de prêto remendando as rêdes
à porta de suas casas. Grupos de pintores trabalhando em suas ruas estreitas. A
luz diferente do dia inspirava. Trabalhei com muito gôsto e paixão, não perdi
um só dia e saí de lá com a promessa, no meu desejo de voltar a êsse lugar.
Conheci um pintor de nome, já velho, F. Oliver, que gostava de meus trabalhos,
deu-me bons conselhos - "para compor meus estudos e pôr em relevo os
motivos, devia sacrificar muita coisa", dizia êle. Levei bons estudos de
Martigues.
Chegando em Paris fui de novo à Grand-Chaumière; o inverno era rijo êsse
ano, lá era bem aquecido e tinha belos modelos. Ao meu lado instalou-se um
rapaz japonês, com uma grande tela, sorria, não sabia falar francês; no repouso
entabulamos conversações por meio do dicionário, um livro grande que êle trazia
no bôlso e lhe dava com sua roupa preta uma vaga idéia de Pastor; levava muito
tempo a achar uma palavra, e nisso a pôse recomeçava... No fim da semana
disse-me êle que não vinha mais, que iria pintar paisagem; então pedi a êle uns
selos de sua terra.
O tempo foi passando e eis que um dia êle aparece em casa. Uns meses
depois éramos bons amigos; conversávamos por meio do dicionário. Êle era calmo,
de traços regulares, com sua palidez oriental, tinha um sorriso bom e
encantador, mostrando uma fileira de sadios e belos dentes; lhe davam caráter
fartas sombrancelhas e vasta cabeleira. Começamos a ir pintar juntos - êle
trabalhava muito bem, já era um artista feito, veio a Paris não para estudar
mas para se aperfeiçoar em arte, visitando museus, galerias e expor no salão;
gostava de arte moderna. Quando o conheci estava morando em Bourg-la-Reine -
tinha alugado um quarto na casa de uma família de tintureiros; mais tarde,
quando estivesse no Japão, iria compreender porque os rapazes japoneses iam
morar em casas de família e nos arrabaldes de Paris.
Bourg-la-Reine era lindo só na primavera com suas macieiras em flôr, e
seus tenros verdes; fomos pintar muitas vezes. Foi êle que modificou minha
maneira de ver, levando-me a exposições retrospectivas, galerias de exposições
individuais: Lautrec, Cézanne, Utrillo, Pissaro, G. Valladon. Riokai (Ryoukai
Ohashi) pintava magistralmente as velhas ruas de Paris e seus bairros
populares, expunha no Salão de Outono sempre bem colocado, os jornais de arte
falavam nos seus envios e na sua personalidade. Não media sacrifícios, no
inverno rijo, saía a pintar com grandes telas, voltava exausto mas contente por
trazer uma bela tela. Falava sempre de Bonnard, Gaughin, Van Gogh: eu pouco
entendia de arte moderna, que, nessa época, se expandia cada vez mais.
Yvonne Carro ficou sendo uma excelente amiga e colega; seu lindo rosto
exprimia bondade; seus olhos azuis e seu sorriso, encantavam a todos que a
conheciam; tudo nela era simpatia. Ela era uma talentosa pintora de flôres e
interiores, nos quais sempre punha uma figurinha romântica para dar vida ao
ambiente. Pintava ao gôsto dos Artistes Français. Foi ela que me encorajou a
enviar a êsse salão, e me aconselhou a fazer grandes telas: dizia sempre que eu
tinha tanto talento, colorido vibrante, que devia mandar. Foi comigo a primeira
vez levar duas telas à secretaria do salão, achou que eu devia levar umas telas
aos Mestres que recebiam uma vez por mês para saber qual a opinião que tinham
sôbre meus trabalhos. Êsses professôres moravam em Neuilly, Passy, Étoile,
ficavam bem longe do bairro pobre e petit bourgeois onde morávamos. Na volta
ela estava radiante - "Não disse? Êles acharam que tem muuito talento e
que deve enviar." Quando recebi o aviso "aceito", chorava de
alegria e emoção. Em março de 1929, meu coração batia quando entrei mostrando a
carta d'Exposant, nesse vernissage que é um dos grandes acontecimentos do ano:
tôda a Paris intelectual, artistas, os grandes nomes da arte ali estavam; Paris
chic, vi o Presidente Dumergue, Yvonne Carro me apresentou a muitos pintores de
nome que ela conhecia, passamos para ver nossos envios. Fim de romance, o meu
era "une petite rue de Martigues". Querida Carro, se não fôsses tu,
nunca teria tido a coragem de expor nesse salão, durante cinco anos, sem nunca
ter sido recusada. Quantos artistas premiados e de nome no Brasil, que nunca
conseguiram entrar nesse cobiçado salão!
Essa sorte de ser aceita me fêz progredir, me deu nôvo impulso e nova
confiança em meus envios; sentia a possibilidade de produzir um dia grandes
obras. Como eu não tinha atelier nem modelos, comecei a pintar fora. Conhecia
um casal de velhos, os Labrouses, que tinham um barracão com um jardim;
cultivavam crisântemos para vender no dia de Finados e outras flôres; a partir
da primavera ao outono os dois velhos saíam cedo e ficavam lá até anoitecer.
Êles consentiram que eu fôsse trabalhar no jardim dêles e guardasse os
apetrechos e cavalete, telas, tintas, no despêjo, o que muito me facilitou para
fazer grandes telas. Que prazer pintar ao ar livre, à sombra das árvores, sôbre
a relva eu armava minha composição - uma composição das melhores foi "Le
chapeau de paille d'Italie, La nappe bleu, Le panier de dessert". Também
enviei outras telas que conseguia fazer em casa, mais de imaginação do que do
natural - "Verreries" e L'hereux berger, La coupe vert, Fayence et
fruits - se eu tivesse me ocupado um pouco teria tido um prêmio com êste
último, que foi muito apreciado.
Riokai (Ryoukai) expunha no Salão de Outono, Tuilleries e Independents,
obtendo sucesso e boa colocação, mencionado nos jornais de arte. Com Riokai
conheci a colônia japonêsa em Paris: eram sociáveis e amáveis, tive uma vida
mais interessante e minha solidão povoada.
Em 1930 o professor de Riokai veio visitar Paris, hospedando-se no Hotel
des Reservoirs em Versailles, antiga morada da Marquesa de Pompadour. Um homem
distinto e de grande fama no Japão, fomos convidados por êle a passar um dia em
Ville d'Avray, lugar lindo, cujo lago e floresta foram eternizados por Corot. O
professor Okada tinha sempre uma escolta de amigos e pintores; nesse dia éramos
um grupo, onde cada um pintou; eu fiz um bom estudo, a entrada da floresta, que
até hoje guardo. De todos os pintores que o rodeavam, era a Riokai que êle dava
preferência e o convidou para uma longa viagem no Oriente Médio - foram à
Grécia, Constantinopla e voltaram pela Itália trazendo belos cadernos de
croquis, feitos a pena, das cidades em que passaram. Riokai era o aluno
preferido do professor Okada, êle me foi de grande ajuda quando cheguei ao
Japão.
Não havia dia em que Riokai não viesse me buscar para ir a passeios, ou
trabalhar fora de Paris; à noite íamos ao teatro ou concêrto. Êle adorava a
música e era insaciável, gostava de me ouvir tocar os clássicos; foi um dos
trechos de minha vida que mais intensamente vivi.
Em 1931, tinha sérias preocupações a cêrca de minha vida econômica, meu
pai não me mandava mais a minguada pensão, devido à moratória, que impedia o
dinheiro de sair do Brasil; também a pensão de Riokai , que era agora meu noivo
estava no fim, olhávamos para um futuro bem turvo... Em novembro de 1930,
deixando meu coração com Riokai e a promessa de logo voltar, embarquei para o
Brasil, levando minhas telas e muita esperança. meu pai foi me buscar no Rio;
achei-o bem envelhecido, já não era mais o homem teimoso e autoritário de
antes, seu atelier era numa garage à rua Bento Freitas, que êle tinha mandado
acomodar, ali estavam seus quadros grandes. "Aclamação de Amador
Bueno" tomava tôda uma parede e outros menores de gênero, a mobília Luiz
XV e o tapete verde, que era o luxo da nossa casa da avenida Brigadeiro Luiz
Antonio estavam em mísero estado; tinha um armário com suas roupas, fraques,
casaca, smoking, tudo estragado pela umidade, que tinha se infiltrado em tudo
nesse local. Tinha-se casado pela quarta vez e morava em outro bairro. Fui para
uma pensão: não conheci sua última espôsa.
Durante o dia eu passava no atelier armando as telas, que trouxera de
Paris, fiz vários quadros de flôres e estudos da feira de flôres, com figuras
de uma fatura larga, impressionista, alguns feitos a espátula, dava essa
maneira muita frescura ao colorido. Conheci um dos amigos de meu pai, dr.
Amaral e sua espôsa dona Edith, gostavam muito de pintura e vinham sempre me
visitar no atelier; êles me animavam pois eu estava bem desiludida. Pedro
Alexandrino vinha a miúdo, gostava de conversar comigo, sôbre Paris e ver meus
estudos feitos em Martigues e na Bretanha; estava bem envelhecido, escuro,
magro, ligeiramente mancando para trás, apreciava muito meus envios ao Salão
dos Artistas Français de cunho impressionista, bem modulados, sem contôrno. Êle
muitas vezes me disse que eu devia ficar, pois o Brasil precisava de uma
pintora de flôres; depois falava de Paris como de um Paraíso; lá, sim, é que se
podia realizar, artìsticamente. E com seu acento acaipirado, dizia: "Se
Deus quiser ainda hei de voltar..."
Meu pai continuava sempre muito atarefado com suas aulas no Ginásio do
Estado, retratos e trabalhos para exposição; sua maneira tinha se modificado,
pintava mais claro e não acabava tanto, mas sempre conservava aquela base de
magistral desenho; eu sempre admirei, a facilidade com que êle desenhava a
figura, às vezes de cor e sem modêlo. Os amigos de antes, quase todos tinham se
dispersado. Cleómenes Campos, Luiza de Azevedo, Campão e a espôsa, às vezes nos
reuníamos; eu tinha trazido a vitrola e à noite improvisávamos um baile - eram
sempre langorosos tangos. Minha exposição foi feita na sede do Professorado
Paulista - num prédio novo do Largo do Patriarca; a mentalidade já tinha mudado
bem a respeito de exposições de pintura. A imprensa cada vez mais sovina em
seus artigos, não divulgava como antes; apenas algumas linhas para informar que
a exposição estava aberta. Minha coleção das telas grandes de Paris, todos os
salões, em que durante cinco anos expus, ruas de Paris com suas carrocinhas
vendendo legumes e frutas nos bairros populares os entendidos achavam que eu já
era uma artista segura de seus pincéis, com personalidade e um belo futuro
diante de mim; ao lado disso, mas era decepcionante o que diziam, como
"ladainha" agora a época não é boa, nada se vende" mas assim
mesmo ainda consegui vender alguma cousa.
A arte moderna dominava com muito cabotinismo, em São Paulo. A célebre Semana
chegou com um atraso de trinta anos.
Eu só tinha um desejo, voltar a Paris. Riokai me escrevia que eu estava
demorando demais. Finda a exposição, nada mais me prendia. Nesse mesmo ano meu
pai me acompanhou até Santos, e ali no cais, me despedindo dêle, o abracei para
nunca mais tornar a vê-lo. Chovia a cântaros quando subi a escada do Monte
Olivia, navio alemão de classe única.
Em Lisboa fiquei três dias no Hotel do Rocio até tirar as bagagens da
alfândega; o trem levou quase três dias para chegar a Paris atravessando
Portugal e Espanha, viagem ruim, cansativa e desagradável, com suas fronteiras
e alfândegas, sempre desconfiados, quebrando os objetos das malas, à procura de
fumo, álcool, dinheiro em ouro, coisas imaginárias. Era noite quando o trem parou
na Gare de Lion. Em casa encontrei Riokai, que me esperava; foi uma alegria
única, um abraçar sem fim. Nunca mais íamos nos separar... Já sabíamos quanto
se sofria. Para Riokai, as notícias do Japão não eram boas, os meios de viver
em Paris tinham acabado e êle precisava voltar; eu, pouco dinheiro trazia e se
não fosse a alegria de nossos corações, teríamos sérios motivos de aflição. Que
fazer? Eis a angustiosa pergunta!... Estávamos numa encruzilhada. Eu iria ao
Japão só se lá tivesse um emprêgo. Riokai escreveu ao seu professor de liceu,
sr. Ossumi (Osumi), pondo-o ao par de meus desejos; logo veio resposta, meu
lugar já estava arranjado em Tokio (Tokyo), na grande casa Matsuzakayá (3),
para desenhar modelos da moda ocidental, apresentar a moda, fazer cartazes.
(3) MATSUZAKAYA é o nome de uma grande rede de lojas de departamentos,
fundada em Nagoya em 1611. Atualmente conta com nove divisões, sendo as maiores
as de Tokyo e Osaka, e é associada à Daimaru, empresa de distribuição de
alimentos. A rede distribui uma ampla variedade de produtos e tem uma empresa
associada em Hong Kong chamada Hang Long.
Dia 3 de julho de 1933, podia se ver um casal feliz, saindo da Mairie do
XIV distrito, eram Helena Pereira da Silva e Riokai (Ryoukai) Ohashi que
acabavam de se casar. Minha irmã Margarida e o grande Mestre, mundialmente
conhecido, Aman Jean, serviram de testemunhas. Depois de ter tomado em casa uma
taça de champanha, fomos para Versailles onde passamos a tarde pintando nos
seus maravilhosos parques todos floridos; só voltamos quando as estrêlas
começaram a brilhar. A convite de nossa tia Achalme, passamos a LUA DE MEL na
casa dela em Bordeaux. Na volta um trabalho louco nos esperava, encaixotar
tudo: eu tinha belas porcelanas, objetos de arte, um piano Gaveau; fizemos o
sacrifício de viajar em terceira classe para poder transportar essa dispendiosa
bagagem, além dos grandes caixotes com os quadros de Riokai e os meus, os
livros, uma cômoda Luiz XIV. Parecia que se arrancava uma árvore, cheia de
profundas raízes. Fazia treze anos que eu morava nesse apartamento. Foi triste
sairmos de Paris. Riokai adorava esta cidade, íamos enfrentar uma nova vida num
país totalmente estranho, para mim seria duro, principalmente a língua, tão
difícil e tão diferente mas como diz um provérbio antigo, o amor transpõe
montanhas... Riokai foi a grande paixão de minha vida, amei-o com ternura,
tínhamos muita afinidade pessoal e de gostos, sempre acreditei que êle tivesse
os mesmos sentimentos por mim; fêz êle também sacrifícios para me esposar.
Em Marselha ficamos três dias, Riokai ainda pintou várias telas, levava
sempre a caixa e o caderno de croquis. Tomamos o navio quase na hora de partir,
o velho Kashima-Maru. Era numa bela tarde transparente e cada um silencioso e
triste ouvia o coração chorar... Em trinta e cinco dias estaríamos no Japão. Os
camarotes eram sujos; à noite passeavam belos e gordos ratos, mansos. A comida
era péssima, mas a tripulação gentil; os viajantes eram japoneses, logo fizemos
camaradagem; pintava-se, lia-se, eram novos e interessantes os numerosos portos
por que fomos tocando: Nápoles, Port-Said, canal de Suez, Hong-Kong, Singapura,
Changai (Xanghai) Kobe e Yokohama. Foi a viagem mais bela e interessante que
fiz na minha vida.
Descíamos em cada pôrto; tudo era nôvo para mim: às vezes ficávamos sós;
outras, em companhia de amigos. Riokai era ótimo companheiro. O comandante,
homem simples e amável, gostava dos artistas: muitas vêzes nos convidou a ir
tomar chá no seu camarote. Êle possuía um álbum, em cujas páginas pintores que
viajaram em seu navio deixaram um desenho como lembrança. Riokai fêz-lhe o
retrato e eu também. Não havia nos anvos japoneses aquela estrita separação de
classes, como nos vapores estrangeiros; muitas vêzes passageiros de primeira
classe desciam para a terceira. Os oficiais vinham nos visitar, sempre me
traziam doces.
Em Nápoles, o primeiro pôrto em que tocamos, visitamos um belo museu de
arqueologia, situado no alto de uma rua do centro. Como era domingo, tudo
estava fechado. Num restaurante pitoresco, com suas latadas de parreiras, nos
instalamos; logo vieram duas meninas maltrapilhas - uma batia num pandeiro e
cantava, a outra dançava a Tarantella, os garções enxotavam-nas mas elas pouco
se importavam. Mais adiante havia um famoso aquário, mas preferimos ir
passeando pela imensa avenida beira-mar, com suas intermináveis balaustradas; o
mar estava de um azul escuro intenso. Compramos uns cachos de enormes uvas do
Vesúvio, parecendo ameixas. Riokai se pôs a fazer uma linda vista do Castelo de
Sto. Ângelo.
No dia seguinte, pela manhã bem cedo, estávamos em Port Said, Egito.
Tudo estava fechado. Quando descemos do vapor, fomos andando por ruas, que
pouco a pouco se animavam: homens de camisola branca, com o clássico fêz de
fêltro grená e mulheres do povo, tôdas de prêto, com o rosto velado até os
olhos, indo para o mercado. Entramos num café árabe para pintar, nos instalamos
numa mesinha mas era tal a afluência de curiosos, que foi preciso a polícia
intervir com casse-tête; tinham obstruído a nossa frente e estávamos ali
aprisionados no meio dêles. O Kashima-Maru levou uma noite e um dia para passar
o Canal de Suez: viam-se os beduínos com seus camelos, naquelas planícies
intermináveis e cheias de pântanos. O pôr do sol dourava a paisagem. No canal
só passavam dois navios de uma vez em sentido contrário; nós, que íamos ao
Extremo Oriente e outro voltava para a Europa... Só se ouvia o ruído das
correntes e ferragens. O dia terminou, mansamente. De madrugada já estávamos
entrando no bíblico Mar Vermelho, passamos sem parar diante de um pequeno pôrto
que levava à Meca. o mar estava agitado, tínhamos vários dias de céu e mar,
estava cada vez mais quente; nosso divertimento era pintar, ler e ver numerosos
peixes-voadores. Riokai me disse: "Amanhã vamos chegar a Hong-Kong, cidade
chinesa". Que lindo colorido mostrava quando o navio foi entrando no
pôrto, com suas montanhas violetas, os barcos chineses, com suas velas de
formas exóticas, sôbre o mar verde; descemos com outros passageiros, contentes
de andar em terra firme; gostei de ver o denso movimento, das ruas e comércio
chinês. Por meio de um funicular fomos ao cume de uma montanha - de lá
avistava-se tôda Hong-Kong. À tarde pintamos seu pôrto, mas do convés do navio.
Singapura - aqui o Kashima-Maru ficou três dias; fazia um calor abafador, à
noite não refrescava, levamos os lençois para dormir no passadilho; ali
ficávamos esperando a madrugada. era incrível o mau cheiro, vindo das águas
podres do cais. Tivemos muita sorte de não pegar maleita. Singapura, mistura de
todos os países do oriente, malaios, chineses, maometanos, judeus, japoneses,
europeus, na maioria inglêses; apreciadores do luxo e do confôrto, vastos
gramados bem tratados para jogar tênis, gôlfe, um grande hotel, boate chic para
os amadores da vida noturna, igrejas protestantes para as almas piedosas. O que
gostei foram os telhados dos templos, uns de porcelana azul e outros verdes,
seus mercados, expondo alimentos estranhos, patos e galinhas sêcas; outras
laqueadas; gostam de alimentos dissecados, ovos podres de pato, etc.
O pôrto seguinte foi Changai (Xanghai), depois de ter navegado um dia e
uma noite no célebre rio Amarelo (êle tem êsse nome devido à sua côr lamacenta
e opaca). Os cais estavam longe da cidade, custamos para achar o centro; na
zona estrangeira, cada quarteirão tinha as respectivas bandeiras de seus países
e sua polícia; os bancos eram guardados por soldados armados. Voltamos à noite
cansadíssimos; no camarote os ratos tinham feito das suas - levamos de Marselha
alguns produtos para presentear os amigos no Japão, queijo, lingüiças de Lion,
presunto e Riokai tinha amarrado tudo no fôrro, bem no meio - pois não é que
êsses infames bichos conseguiram pular e roer quase tudo?
Mais um dia de céu e mar. Numa luminosa manhã começaram a aparecer
pequenas ilhas, com seus verdes cedros, pinheiros, ilhas que pareciam em
miniatura, encaixadas num mar azul. "É o Japão, Helena", dizia
Riokai, que beleza, passávamos tão perto que podíamos ver os cedros e as
flôres. Algumas ilhas não eram habitadas. Foi dali que Riokai telegrafou à sua
família, que morava em Formosa. O irmão de Riokai, Hideo-san, já nos esperava
em Kobe, com sua tia. Os parentes que moravam em Formosa, não puderam vir.
Fomos hospedados por uma noite na casa de um amigo de Riokai,
violoncelista, que eu conhecera em Paris, sr. Nagai. A primeira impressão que
tive chegando em Kobe não foi boa - pela comprida estrada asfaltada que ia de
Kobe a Ossaka (Osaka), chamada Kokudô (4), só casas pobres, barracões de
madeira desbotada, comércio sórdido. Ia saber, depois, que os ricos e abastados
moravam em magníficos bangalôs nas montanhas, mas devido a uma filosofia
antiga, essas residências tinham à roda, altas cêrcas. Não deixavam ver a
riqueza nem os belos jardins, aos pobres. Os ricos e abastados achavam imoral
mostrar abundância aos que não a tem.
(4) KOKUDO significa "estrada nacional", o equivalente no
Brasil à sigla BR. Assim como existem várias BRs, no Japão há várias kokudos,
mas o nome desta especificamente não aparece no texto da autora.
Sempre com seu irmão Hideo-san, bem diferente de Riokai fìsica e
espiritualmente, alto, magro, falando bem o Inglês, mas falho de sensibilidade,
visitamos os maravilhosos e afamados templos e cidades de Kyoto e Nara. O
último pôrto foi Yokohama; à nossa espera achavam-se no mais muitos amigos de
Riokai, primos, tios, que êle já tinha visto do vapor e algumas japonêsas, que
eu tinha conhecido em Paris. Cumprimentos de boas vindas e lindos ramalhetes de
flôres. Assim terminou nossa bela e interessante viagem da França ao Japão em
setembro de 1933.
RECORDAÇÕES
Pelo Kashima-Maru, chegamos a yokohama nos fins de setembro de 1933.
Éramos dois pintores ainda em lua de mel, muito amigos e confiantes num futuro
acolhedor. Era a primeira vez que eu ia conhecer êes Oriente tão sonhado;
estava feliz e contente ao lado de Riokai, meu marido. Apesar de não falar a
língua, percebi logo que as pessoas eram amáveis e se esforçavam por me
compreender com gestos e sorrisos. Nos primeiros dias de nossa chegada a Tokio
(Tokyo), nos hospedamos na casa de um amigo de Riokai, o sr. Kumagai, alto
funcionário, que tinha acabado de construir num subúrbio da cidade, uma bela
casa tìpicamente japonêsa. Logo na entrada, "guenkan" (genkan), tirei
os sapatos pela primeira vez para pisar nos alvos "tatamis" de
palhinha nova. Parecia que eu estava num estôjo. As madeiras bem trabalhadas,
perfumadas, sem pinturas, com suas colunas de tronco de cerejeira, metade
embutidas na parede; grandes salas, divididas por tabiques de correr, em alvo
papel decorado com discretos filetes em ouro, e moldura de laca preta; tudo
numa austera simplicidade; ausência de mobília; só uma mesinha de laca com um
vaso no "tokonoma", lugar de honra. Um antigo e fino "kakemono",
pintura japonêsa, mudada em cadaa estação do ano.
Tinha, nos primeiros dias em que acordava nesse cenário, estranha
sensação de me achar nesse ambiente encantador. Ficamos poucos dias na casa
dêsse amigo e logo fomos morar num sobradinho de boa aparência em Assagaya
(Asagaya), subúrbio de Tokio. Lá todas as residências ficam longe do centro.
Andava-se quase meia hora para chegar a uma estação de trens. As primeiras
visitas foram para o sr. Okada, mestre de renome no Japão, professor de Riokai,
que eu tinha conhecido em Paris, em 1930. Êle morava numa bela casa, com vasto
atelier ao lado, um grande jardim com as roseiras sempre em flôr. Seu atelier
era o centro de reunião de seus amigos e colegas. O sr. S. Okada (5) tinha sido
o primeiro pintor japonês a estudar arte ocidental em Paris. Foi aluno de Corin
(Collin), pintor de fama naquele tempo.
(5) OKADA, SABURÕSUKE (1869 - 1939) foi um dos pioneiros da pintura em
estilo ocidental (Yõga) no Japão e foi um dos fundadores do grupo Hakubakai, a
"Sociedade do Cavalo Branco", associação criada em 1896 por artistas
influenciados pela arte ocidental, mais especificamente pelo impressionismo, em
oposição ao Meiji Bijutsukai, que patrocinava a chamada "arte
oficial", ligada ao governo. Okada foi para a França em 1897 e estudou com
Raphael Collin até 1902. Foi eleito membro da Academia Imperial em 1919;
tornou-se artista da Corte Imperial em 1934 e recebeu a Ordem da Cultura
(Bunka-shõ) em 1938. Pintava principalmente paisagens e retratos femininos. Foi
marido da escritora Yachiyo Okada (seu nome de solteira era Yachiyo Osanai; era
irmã do dramaturgo Kaoru Osanai).
O prof. Okada possuía uma bela técnica fina e discreto colorido.
Simpatizávamos pelos mesmos gostos - êle apreciava as porcelanas de Sèvres e de
Saxe, tinha uma maravilhosa coleção de quimonos da época brilhante de Momoyama
(6). Gostava de gatos, que o seguiam em bando, por onde êle andava. Adiante e
atrás, era por êles escolatado. Riokai tinha grande admiração e muita amizade
pelo seu mestre, homem distinto de fina educação. O professor Ossumi (Osumi)
foi o que me arranjou o lugar no Matsuzakayá, morava não longe dalí; vivia
modestamente, escrevia sôbre antigüidades e colecionava objetos do passado.
(6) AZUCHI-MOMOYAMA, nome em japonês do período no qual governaram os
shõguns ditadores, de 1582 a 1615 (ou de 1574 a 1615, dependendo do autor). O
nome vêm dos castelos de Oda Nobunaga (que ficava em Azuchi) e de Toyotomi
Hideyoshi (que ficava em Momoyama, perto de Kyoto).
Três meses depois, comecei a trabalhar na seção de modas ocidentais no
grande magazin do Matsuzakayá, fazendo desenhos de modelos, cartazes, etc.. Meu
sofrimento era cotidiano por não compreender, e poder falar a língua. Poucos
entendiam o Francês. A maioria falava o Inglês, língua corrente no Oriente, o
que me dificultava tudo, não sabendo êsse idioma que jamais consegui aprender.
Nossa casa tinha várias peças com "tatami" (palhinha em lugar
de assoalho) e uma sala na frente, assoalhada, de que fiz o salão. O piano
gaveau que trouxe da França, uma cômoda Luiz XIV e tôdas as lindas porcelanas
alegravam e faziam lembrar minha saleta de Paris. Vivíamos uma vida ativa e
agitada, sempre pensando no futuro, que não era muito certo.
Riokai fêz a sua primeira exposição na Guinza (7), durante o inverno de
1933-34; foi muito apreciada. - Tôdas suas belas telas, ruas de Paris, foram
expostas mas o movimento da arte pictórica no Japão, estava todo voltado para a
arte moderna. No salon oficial eram aceitos e tinham sucessos os que mais
criavam monstros; também uma liga surda contra os que tinham ido à europa,
estudar, inveja ou nacionalismo excessivo. Expus no Salon do mestre Okada, as
telas que eu tinha enviado ao Salon de Paris des Artistes Français em 1933 -
êsses trabalhos foram premiados.
(7) GINZA, "assento de prata", nome de bairro e avenida em
Tokyo, que teve origem na Era Edo (1600 a 1868) como área onde se concentravam
ourives e artesãos que fabricavam moedas para o shõgun. No século XX tornou-se
área de concentração de bancos e de comércio de luxo.
O frio fazia-se sentir cada vez mais rijo, acompanhado de um vento
gelado e furioso. Uma manhã, quando olhei pela janela, apareceu uma paisagem
tôda branca, destacando num céu cinzento; os pequenos flocos de neve caíam
enchendo o ar; tanta pureza, tanto silêncio nesse cenário de neve; nosso
telhado estava todo branco, com espêssa camada endurecida. Nas ruas enfiava-se
os pés até pelo meio das pernas para se poder andar; como tudo ia de costume,
os japonêses estavam alegres por ver a neve que tudo tinha invadido. No Natal
havia festas e como eu fazia reclame para essa casa, devia me mostrar em
lugares freqüentados pela sociedade. Passamos o Christmas no Imperial Hotel (8)
- Salões em estilo inglês. Uma festa fria e rígida. Muitos adôrnos em papel
colorido, os homens de smoking, com chapèuzinhos de papel de sêda na cabeça,
cordões de flôres igualmente em papel ornando o pescoço, orquestras, jazz,
danças mas achei triste. Os grandes salões em estilo inglês mal aquecidos, mal
aclarados - eu tiritava com vestido de soirèe branco e meu chale espanhol.
Hideo-san, o irmão de Riokai, estava feliz, estreava um smoking e com a
namorada ao lado achava uma alegria esta festa. Fui apresentada a muita gente
de alta categoria mas como eu só falava o Francês, pouco podia-se comunicar.
(8) O IMPERIAL HOTEL em Tokyo foi inaugurado em 1890 como marco de luxo
em hospedagem estilo ocidental, com aspectos de serviço oriental. Passando ao
século XX como principal hotel da cidade, sofreu várias reformas, sendo a
principal a construção do prédio, que hoje é a ala histórica do hotel,
projetado pelo arquiteto americano Frank Lloyd Wright. Foi do Imperial Hotel
que o Imperador Hirohito fez a histórica transmissão de rádio declarando o fim
da guerra e foi nele onde o General MacArthur instalou a sede do governo das
Forças de Ocupação, de 1945 a 1952. Finda a Ocupação, o Imperial voltou
exclusivamente à atividade hoteleira e tem hospedado visitantes ilustres e
celebridades do entretenimento e dos esportes, mantendo-se como um dos hotéis
mais requintados da capital japonesa.
A neve foi sumindo para dar lugar aos prelúdios da primavera; nunca
pensei que fôsse tão bela, tão radiosa. Foi num êxtase que vi as cerejeiras em
flôr; fico imensamente grata ao Japão por ter me dado essa emoção de beleza
para minha arte, para minha vida. Amor também seria o presente raro e
maravilhoso do Japão... Começamos a sair com nossas caixas de pintar fora. O
parque Inogashira não ficava longe de casa, íamos nos dias ermos da semana
fazer longas passeatas pelos atalhos, à beira do grande lago, onde as
cerejeiras em flôr se espelhavam. Nesse deslumbrante cenário, podia-se ver dois
namorados, eram Helena e Riokai... Mais se penetrava pelos estreitos caminhos,
mais denso eram os arvoredos floridos - era tão delicada a visão que apenas se
sentia a brisa perfumada dêsse paraíso em rosa; floria em conjunto, saudando a
primavera.
Êsse ano de 1934 foi bem indeciso para nós; eu estava começando no
Matsuzakayá; executava os modelos com meus desenhos mas ainda não tinha a
certeza de ficar. A vida era cara em Tokio: aluguel, condução, presentes, outra
coisa que tive de conhecer, que aflige os japoneses e que lhes tira uma boa
parte da receita que têm para viver - gasta-se muito para os
"omiagues" (omiyage = presente). outra coisa curiosa era quando se
convidava uns amigos para jantar, tinha-se a obrigação de mandar reconduzi-los
de taxi a suas casas, às vezes longe de um subúrbio a outro.
Fomos ver as maravilhas dos templos célebres. a convite de uma amiga,
Matcha, passamos um dia esplêndido, visitando e pintando Kamakura - paramos
muito tempo diante do grande Buda em bronze, sentado sôbre uma flôr de lotus,
de belo rosto e impassível, o olhar perdido no vasto horizonte... Os peregrinos
podiam entrar em seu peito divino, por uma escadinha, às suas costas. pintamos
muito naquele dia - tenho ainda como lembrança, um croquis. Kamakura, que lugar
lindo - rodeado de montanhas ora azuis, ora roxas, os belos cedros adornam os
pátios dos numerosos templos que estão nas montanhas. Riokai muito se orgulhava
de me mostrar as belezas de seu país; exposições, retrospectivas, de quimonos,
pintura japonêsa, porcelanas, arranjo de flores "ikebana", dança,
teatro. Os japoneses conservam ainda hoje muito carinho pelos seus costumes
tradicionais.
Quando queríamos europeizar nossos passeios, íamos a Guinza (Ginza),
comprido boulevard, onde o comércio era feito à maneira ocidental, belas e
grandes vitrines mostrando artigos estrangeiros, cafés, casas de chá, com doces
à maneira francesa. Era sempre certo Riokai encontar amigos dos tempos idos,
que não acabavam mais, em cumprimentos e convites. Essa longa avenida ia dar
num lugar de altas muralhas rodeadas de água e ponte pênsil. Atrás dêsses
possantes muros de pedra ficava a residência imperial. O Imperador Hirohito
nunca se mostrava a seu povo e êste nunca pronunciava seu augusto nome, tido
como de origem divina. Nas ruas viam-se pouquíssimas mulheres de roupas
ocidentais; a generalidade andava de quimono com côres e estampados segundo a
idade; só as colegiais vestiam uniformes, até as Faculdades. Muito me divertia
ver os estudantes com longas capas pretas, uniformes pretos, com uma fileira de
botões de metal como a polícia, "guetá" nos pés (geta = sapatos de
madeira), casquetes ou bonés de três bicos, alguns sujíssimos, com o tecido a
se desfazer. A princípio eu me apiedava mas depois soube que era uma honra
arvorar um dêsses bonés, significava os mais estudiosos, os mais inteligentes e
capazes.
O que me magoava era ser muito notada - para onde eu ia na rua, havia
gente que parava para me ver, passavam-me verdadeira revista no traje e depois
me fixavam nos olhos como se fôsse uma curiosidade; mesmo no centro da cidade,
era raro ver-se um estrangeiro; os poucos que havia habitavam Yokohama. Riokai
tinha-me dito que não procurasse relações com êles; eu concordei, visto que
considerava minha felicaidade nas mãos de meu marido. Por êsse motivo, penetrei
na vida e nos costumes tradicionais japoneses, alguns muito lindos, delicados,
curiosos, bem diferentes dos nossos. Amoldei-me a muita coisa, dormir no chão,
sem cama, ficar por muito tempo ajoelhada na almofada, em vez de sentada numa
cadeira, me acostumar ao paladar das comidas, e apreciar os intermináveis
cumprimentos.
Uma curiosidade para mim foi ver as mulheres na generalidade, carregar
os filhos nas costas; as irmãs mais velhas também carregam os irmãozinhos da
mesma maneira. Com uma espécie de écharpe, cruzando na frente, ficam assim com
os braços livres. No inverno vestem haori (igual a "happi") mais
curto, que Kimono e que vestem por cima da criança, que se ajeita ficando só
com a cabecinha de fora; as mães enfiam as mangas e parecem estar com uma
enorme bossa. Achei os quimonos um encanto mas só das môças, um traje
dispendioso, principalmente as cintas (obi). Estampados de fino gôsto
artístico, tecidos de preço, combinações de côres estranhas para nosso gôsto.
Achei as japonesas muito femininas, frágeis, delicadas, vivendo exclusivamente
para a família. Os homens gozando de liberdade fora de casa mas apesar da falta
de independência da mulher, notei que em quase todos os ramos, artes, ciências,
altos estudos, havia mulheres. Os japonêses fazem muita questão da instrução.
Tôdas as mocinhas freqüentavam o ginásio até aos vinte anos para se casarem
pouco tempo depois. A escolha do marido era ainda feita por intermédio da
família, a interessada não podendo preferir livremente.
O calor estava se fazendo sentir depois de copiosas chuvas que duraram
um mês; os dias quentes de julho iam torrar os lindos e ternos verdes. O irmão
e a família de Riokai, que moravam em Formosa (Taiwan), vieram passear em Tókio
e me conheceram; como era novidade para êles, estavam felizes pensando que
estávamos vivendo em mar de ouro. Havia japoneses casados com estrangeiras, a
crítica era severa para êsses casais, observando tôdas as atitudes das espôsas
- geralmente eram francesas ex-modelos ou alemãs ex-garçonetes de restaurantes,
que pensando subir de classe social, tinham vindo para o oriente mas algum
tempo depois estavam se divorciando. Riokai tinha sempre o bom caráter que eu
havia conhecido em Paris, gostava de aliar sua arte à minha, conversar como
dois colegas que se compreendiam... Aconselhava-me a ser mais livre, na maneira
de me exprimir mas era difícil de me desfazer do classicismo em que fui instruída.
Conseguindo me expandir numa fatura mais larga e mais vibrante, flôres e
paisagens já saíam de minha espátula com mais liberdade. Riokai adorava a
música e o dia em que eu não estudava piano me ralhava. Uma noite tivemos a
visita do professor Okada e de alguns nomes conhecidos na música, que vieram
ouvir-me - toquei Chopin e Albeniz. Riokai ficava feliz quando eu tocava e me
mostrava.
Setembro. Já fazia um ano que estávamos em Tókio, a luz já ia se
transformando, anunciando o outono. Saímos uma manhã muito cedo, para ir a
Nikko visitar o majestoso templo todo branco e ouro, bem diferente dos outros
que já tinha visto. Nikko, glória do passado, pela sua riqueza e magnificência
de sua arquitetura e seus famosos olmeiros centenários, que vão em fila pela
longa estrada. O outono dourava a paisagem, e as fôlhas sêcas iam colorindo o
chão de ouro e púrpura nessa orgia de côres, antes de cair na rigidez da
morte... Riokai ia me explicando a história do tempo dos Shoguns, êsses grandes
senhores que dominaram o Japão por séculos. Foi êsse dia uma bela recordação de
minha vida. Na volta, como era longe de Tókio, fomos jantar em Assakussá
(Asakusa, bairro do centro antigo de Tokyo), reputado pelo seu centro popular e
seu movimento incrível de suas estreitas artérias. Hotéis, restaurantes,
cinemas, casas de gueixas. Uma das coisas pitorescas eram os pequenos
restaurantes, com uma enorme lanterna na porta indicando sua especialidade,
suas cortinas na porta, cortadas em tiras e as serventes que ficavam na porta
quando não havia fregueses. Foi em Assakussá que o terremoto de 1922 destruiu
em massa casas e habitantes. O templo que se ergue numa pracinha, dedicado à
deusa Kannon é, ao que me contaram, rebocado com as cinzas dos mortos do
terrível seísmo que durou muitos dias.
Tivemos a notícia que Matsuzakayá ia me transferir definitivamente para
Ossaka (Osaka) - tinham reformado a Matsuzakayá dessa cidade no mais moderno
estilo. Foram êles que se encarregaram de fazer nossa mudança. Em dezembro de
1934, já estávamos instalados numa boa pensão perto do centro. Fui apresentada
ao dono sr. Itô e aos diretores srs. Tsukamoto, Hattori, Shimura e outros. De
fato era Matsuzakayá uma importante casa com elevadores dos mais modernos,
calçadas e escadas rolantes, grandes salões para exposição de arte, sala para
concertos com belo piano de cauda, coleções de quimonos raros, grande
restaurante com piscina no oitavo andar e parque de diversões; havia lá um
minúsculo santuário com um deus protetor do comércio "Oinari" (uma rapôsa);
pedia-se a êle como devia-se fazer para ganhar... No subsolo, tudo o que eram
comestíveis, encontrava-se produtos estrangeiros e dos melhores.
Fomos logo convidados para fazer exposição de nossos quadros numa das
melhores salas. Era uma época em que estavam em voga as bonecas francêsas; fiz
uma bela coleção delas, que expus, quase tôdas da época Luiz XV - mandava vir
de Paris todos os materiais, as marquesas tinham cabeleiras brancas, amplas
saias em sêda Pompadour ou de lindos brocados de côres suaves e tôdas minhas
telas de Paris. Foi um sucesso de arte e de venda. Percebi que no Japão as
pessoas não vinham só para vêr e criticar, muitos eram compradores de poucos
meios, querendo ter um quadrinho de arte em sua casa. logo em seguida, Riokai
fêz exposição de suas telas de Paris; também obteve grande êxito. Todos os anos
expúnhamos juntos ou separados. Em Nagoya, onde havia outra grande sucursal, às
vêzes me convidavam para ir apresentar a moda.
Fizemos nessa cidade várias exposições. Nagoya possui um maravilhoso
castelo, construído sôbre altas e imponentes muralhas. podia-se vêr sob o seu
telhado um enorme peixe cujas escamas eram de ouro maciço; fazia a admiração
dos turistas; êsse peixe era protegido por uma possante rêde. Riokai pintou
êste castelo, fêz telas incomparáveis, que ficaram no Japão e no estrangeiro.
Durante a guerra, o castelo, essa assombrosa obra de arte do passado foi
destruída pelos incêndios e bombas do inimigo (9).
(9) O Castelo de Nagoya foi reconstruído em 1959.
Desde 1º de janeiro de 1935 fomos habitar Ashiá (Ashiya), rua Sanjô
Gotanda, lugar pitoresco entre Ossaka e Kobe, afamado pelos seus milionários,
que habitavam as montanhas em ricos bangalôs adornados de grandes jardins e
cedros verdes estendendo seus galhos em forma de para-sol; dali de cima via-se
o mar, que era perto e Kobe mais adiante, lugar lindo para excursões e para
veranear. Habitávamos um bonito sobradinho com jardim à roda, havia várias
árvores entre as quais uma de grosso tronco prateado, cânfora, em japonês
"shono", tão útil na medicina; depois da chuva sentia-se seu forte
odor.
Riokai sabia que a minha paixão eram as flôres - uma primavera conseguiu
êle mostrar um tapete de tulipas das mais brilhantes côres; fiz algumas telas
com êsses inéditos modelos, também jacintos com as suas folhinhas perfumadas e
crespas.
Da nossa casa, um estreito corredor ia ter a Sanjô Gotanda, e esta curta
rua ia desembocar numa larga estrada asfaltada, chamada Kokudô (vide obs. 4),
que começava em Kobe e terminava em Ossaka, muito animada por tôda sorte de
veículos, automóveis, ônibus, bondes, caminhões e às vêzes carros de bois; logo
fomos apresentados a diversas famílias importantes de Ashiá, os Yamamoto,
Kikuti (Kikuchi), Fujita, Matsui; as filhas vinham aprender pintura com Riokai
e piano comigo; eu só ia três vezes por semana a Matsuzakayá, e quando
apresentava a moda todos os dias, ainda me restava tempo para pintar e estudar.
Muitas vezesíamos à ilha de Awaji, tôda rodeada de seu mar azul intenso, seu
templo e seus típicos telhados; Akashi, com seu belo castelo dando para um
parque e seu velho pôrto de pesca, muitas vezes inspirou Riokai. Todos os anos
íamos fazer excursões longe, voltávamos no dia seguinte; Yoshino foi uma das
primitivas capitais do Japão, conservando ainda a atmosfera do passado; como
essa cidade estava situada em altas montanhas, o inverno era rijo e longo; a
primavera começava a florescer em maio. Numa estaçãozinha ao pé das montanhas
entrava-se numa grande cesta fechada que ia devagarinho suspensa por uma longa
corda de aço movida a eletricidade, até chegar ao cume; às vêzes parava no meio
do trajeto, devido ao vento, e apreciava-se os abismos e precipícios que davam
arrepios... Estava no centro dessa antiga e curiosa cidade, uma estreita rua
calçada de grossas pedras; dos dois lados hotéis tìpicamente japoneses, suas
entradas caprichosamente arranjadas com suas criadas de aventais por cima do
quimono; essa rua levava a gente a uma enorme porta tôda de laca vermelha,
telhado de pontas recurvadas; subia-se por uma alta e empinada escada de pedra
para entrar nessa solene porta guardada por dois diabos de pedra, de carrancas
ameaçdoras. Diziam os antigos que era para afugentar os maus espíritos e
proteger o deus puro e inocente que estava no templo além da porta. Riokai celebrizou
êsses sítios e essa porta dos deuses numa tela que foi reproduzida em cartão
postal, em côres. Pintei várias paisagens de montanhas com cerejeiras, seus
verdes tenros e variados me encantavam. Todos os anos íamos pintar; os hotéis
em que ficávamos eram inéditos. Às seis da manhã, as criadas abriam as grandes
janelas de correr, deixando entrar o ar gelado e fazendo uma algazarra louca ,
com seus espanadores, batendo em tudo e tirando a poeira imaginária; tinha que
se sair do colchão a muque. O próprio cobertor era um confortável quimono
acolchoado de sêda, que é leve e muito quente; enfiava-se os braços novamente
nas mangas no calor do corpo, em seguida vinha o banho e entrava-se numa
espécie de piscina ao lado, mergulhava-se na água quase fervendo. Os japoneses
dizem que é bom para a saúde e ativa a circulação; de fato, sai-se de lá
vermelho como camarão cozido. Esperava-se o almôço que vinha numa enorme
bandeja e numa espécie de marmita mas em laca, as caixinhas quadradas, contendo
diversos alimentos, arroz com enguia muito gostoso, sopa (otsuyu), peixe
grelhado, "sashimi" (peixe cru em fatias muito finas); também vinha
"takuan", um nabo amarelo, de cheiro bárbaro, nunca pude me
acostumar, o quejo roquefort seria um jasmim perto - custei para poder comer
"sashimi" (peixe cru), mas é realmente um excelente prato; no fim
dêsse grande almôço vinha o célebre "Otchá" (chá japonês), sem
açúcar, que durante o dia toma-se várias vêzes numa xícara sem asa.
Riokai gostava do movimento moderno em arte mas equilibrado e eu, que
era adepta da arte clássica de meu pai e continuando em Paris a pintura cheia
de regras e restrições, ia deixando para trás o que eu já tinha feito;
procurando me expandir numa visão mais livre para dar curso à minha
personalidade, fiz estudos mais vibrantes, mais simples, flôres, paisagens, a
espátula procurando fugir do banal do "mil vêzes feito"; via quanto
era difícil essa arte que se sente e que some quando se quer fixá-la... Riokai
era meu conselheiro e eu tinha fé no seu parecer sincero, sempre me dizia para
fzaer como êle pura arte e não produzir pintura para leigos; gostávamos de
apreciar nossos trabalhos depois de feitos.
A vida que levávamos era bem ativa, tínhamos convites para as festas e
casamentos, nas casas dêsses riquíssimos amigos; consideravam-nos como artistas
e professôres de seus filhos. Muitas vezes pensei, "que diferença o trato
que se dá aqui ao do Brasil" - lá que ensina é uma espécie de criado,
escravo da necessidade, pode-se ser malcriado e não pagar os atrasados; a princípio
ficava constrangida de tantos presentes finos que recebia. "Não fique
aborrecida", dizia-me Riokai, "aqui faz parte da tradição se
considerar o professor, que não é obrigado a retribuir os presentes, igual aos
bonzos que pagam com rezas..." Tínhamos arranjado o primeiro andar de
nosso sobradinho em atelier; dos dois lados eram janelões de correr como são
tôdas as janelas no Japão; também tôdas as peças têm armários embutidos, mesmo
nas casas pobres; ali colocam-se colchões e cobertores que são tirados tôdas as
noites e arrumados, sôbre "tatamis" e no dia seguinte, repõe-se no
"oshiire" (armário embutido), ficando a peça livre e espaçosa, sem
armário nem mobílias. Da nossa sacadinha via-se as belas árvores de nosso
jardim; quando Riokai não saía para trabalhar fora, pintava-se no atelier.
sempre vinham amigos para conversar, almoçar ou jantar, gostavam da comida
francesa; eu tinha ensinado minha cunhada Kyoko-san a fazer pastéis, canja,
arroz à moda daqui. Eu gostava de certas iguarias japonêsas, como tempurá e
sukiaki, meu prato preferido.
A época em que há mais frutas no Japão é no estio e outôno. No estio e
no outôno as frutas abundam no Japão. É uma beleza vêr os campos de morangos,
frutas deliciosas, vendidas em caixinhas bem acondicionadas, as maravilhosas
maçãs de Hokkaidô (Norte do Japão), os pêssegos incomparáveis, saindo a pele
como fôsse uma luva, perfumados, macios, doces e lindos. Caquis aparecem lá
para o mês de outubro - tudo é maravilhoso nessa fruta, a côr, a forma e sua
suculenta polpa como se fôsse sol concentrado. No inverno come-se êle sêco, que
ainda é muito saboroso. Na estação fria há muita tangerina, laranja, castanhas,
avelãs, etc....
1º de janeiro, tem-se muitas obrigações nessa época. Os japonêses ficam
atarefadísssimos nos últimos dias de dezembro - limpa-se a casa tôda, sôbre a
porta de entrada colocam um crustáceo, espetado num "moti" (pão de
arroz), uma laranja, enfeitam com fôlhas de samambaia. Chama-se "shimenawa
de oshôgatsu"; tôdas as portas amanhecem no dia 1º com essa decoração e a
bandeira branca com o sol nascente flutuando. Por dentro da entrada também,
põe-se um grande par de "moti"com um grande camarão cozido bem
vermelho por cima, adornado de fôlhas de samambaia, fazem comida para alguns
dias pois só se cuida de receber cumprimentos e ir retribuir. Fora só se vêm
homens de fraque, apressados a irem cumprimentar os amigos; a educação manda-se
que deve-se tirar todo agasalho, sobretudo, cachenê, etc.; é um não acabar mais
de felicitações; se se encontrar um amigo na rua, a mesma coisa se faz, sendo
um frio de rachar. O comércio fecha por três dias, mas a verdade é que a festa
dura o mês inteiro. Nesse dia importante do ano nôvo eu trajava um quimono de
sêda prêta todo estampado de fôrro vermelho, mandava arrumar o laço atrás;
Riokai punha fraque e gravata prêta; ficávamos por dentro da entrada, esperando
os visitantes e oferecendo sakê em minúsculas taças.
Dia três de janeiro, aniversário de Riokai, convidávamos todos os anos
Koisso e seu grupo para jantar; êsse amigo era rico, tinha um magnífico atelier
numa montanha de Kobe com grandes e bem tratados jardins. Êle tinha sido colega
de Riokai e tinha estado em Paris, sempre trabalhando apesar de seu atelier
estar constantemente com amigos; gostava de Degas e Manet, procurava com um
belo desenho e colorido sóbrio chegar a êssem mestres. Koisso Riohé (10) era
muito apreciado no Japão, seu atelier era um centro de pintores, literatos e
poetas; fìsicamente se parecia com Riokai, era amável e meigo. Tinha sempre à
sua disposição dois belos modelos; quando saia era com uma escolta de amigos;
divertia-me, dizer que era o general com seu estado-maior.
(10) KOISO, RIÕHEI (1903 - 1988) estudou na França de 1928 a 1930 e
expôs quadros no Salon d'automne em Paris, o mesmo do qual Ryoukai Ohashi
participou. Em 1950 tornou-se professor na Universidade de Belas Artes e Música
de Tokyo (Tokyo Geijutsu Daigaku) e foi eleito membro da Academia de Arte do
Japão (Nihon Geijutsuin) em 1983. Recebeu a Ordem da Cultura (Bunka-shõ) em
1984. Pintou principalmente nus e produziu várias ilustrações para revistas.
Como achei interessantes muitos costumes do Japão! No inverno, homens,
mulheres e crianças usam uma espécie de bico de veludo prêto sôbre a bôca e
nariz, amarrado às orelhas; pensam que assim se livram dos resfriados, não
respirando o ar gelado. Os homens, no inverno, os que são mais elegantes usam
umas longas capas com sobre-capa de drap prêto e uma minguada gola de pele de
foca; é exatamente o que usavam os "cochers de fiacres", cocheiros
que conduziam carros em Paris nos princípios do século, muitos com o clássico
chapéu de côco e guetás (sapatos de madeira) nos pés, presos só no dedão; ficam
monumentais com êsse severo traje. Coisa curiosa é a festa dos meninos (11) -
começa no dia 5 de maio; tôda família, que tem filhos varões, ergue à entrada
de sua casa um comprido mastro; flutuando como bandeiras, enormes peixes feitos
de morim, alguns vermelhos com escamas pintadas em branco, outros brancos com
escamas vermelhas, olhos de ouro; se tiver um filho; é um peixe, quantos filhos
têm, tantos peixes são, todos amarrados ao mastro pela bôca, que vai enchendo o
peixe de ar dando-lhe vida e movimento; ao menor vento, parece que estão
nadando no ar; alguns compridos de cinco metros. Gostava de vêr pela porteira
do trem ou do ônibus, a quantidade de peixes nadando ao ar livre.
(11) Em japonês, KODOMO NO HI, "dia das crianças", mas o
feriado é especialmente dedicado aos meninos.
"Momo no Sekku" (12) é a festa das meninas - começa no dia
três de março. Na melhor sala da casa - ergue-se uma espécie de altar - que vai
do chão até o fôrro, como uma escada coberta de pano vermelho; no centro, dois
personagens representando o Imperador e a Imperatriz; tôdas as bonecas são
expostas, inclusive as que pertenceram às avós e tataravós da família,
brinquedos de valor; convidam os amigos nessa sala tôda adornada, oferecem sakê
nas pequeníssimas taças com açúcar cristalizado, doces bonitos, para se ver, de
diversas côres, com formas de flôres de ameixeira, cerejeira. As meninas da
família aparecem com ricos quimonos, vermelhos, vivos, cabelo cortado em
franjas sôbre a testa, o cinto atrás se laça em forma de borboleta; são lindas
como ricas bonecas, as meninas vestidas assim, dançam - há sempre alguma avó
que toca shamissem (shamisen = instrumento de cordas típico do Japão) e canta.
(12) Também chamado de JÕMI ou JÕSHI NO SEKKU, estas são nomenclaturas
antigas para o feriado hoje conhecido como HINAMATSURI.
No Japão os velhos são tratados com muito acato e carinho na família,
sabem quantidade de etiquetas que vão transmitindo a seus descendentes.
As artes tradicionais são muito apreciadas, muitas se aprendem durante
anos, como o arranjo das flôres, a escrita, escrever-se com o pincel a nanquim
os belos e artísticos caracteres chineses; a dança, que sempre achei um
encanto, aprende-se desde criança. Os japoneses querem sempre aprender alguma
coisa, mesmo depois de velhos; há sociedades para a célebre cerimônia do chá,
que é um verdadeiro culto.
A festa que eu tinha prazer era Omatsuri: cada templo a faz uma vez por
ano em épocas diferentes. Sai um pesadíssimo andor (omikoshi), todo dourado,
contendo a divindade; sôbre o teto, no centro, paira um galo de ouro; o andor
passeia pelas ruas do bairro carregado pelos rapazes do povo com grandes preces
e cantos; uma multidão acompanha essa procissão. Todo japonês é shintoísta,
culto dos antepassados desde a fundaçào do Japão; também a maioria é budista,
não importa ter duas religiões. Quando chega os meados de julho, dia 13, os
japoneses ficam atarefados, agitados: é a grande festa anual, o dia dos mortos
(obon). Nas cidades dura três dias e na roça, um mês ou mais; no Japão nunca se
sabe ao certo quando termina esta festa; longe de ser triste, são dias alegres.
Dizem que o espírito dos falecidos
visitam suas famílias e se estiverem pesarosos ou acabrunhados êles
sofrem... No pequeno santuário que tem cada família, oferecem flôres e
alimentos, incenso. Na roça, dançam, fazem casamentos, banquetes, grandes
festas; todo japonês está contente quando chega essa época. Lá quase não há
cemitérios, incineram-se os mortos logo depois do entêrro.
Os japoneses gostam dos animais e os tratam bem; interessante ver as
juntas de bois puxando o carro, todos calçados com sandálias de palha para não
ferir os pés; também em julho e agôsto, no mais forte do calor, os animais que
puxam carroça, burros, cavalos, usam chapéu de palha, e uma tolda que vai da
nuca ao rabo, bem fixada no centro, lhes dá uma aparência de cavalos alados;
coitados mas prêsos, ali nos freios... Tudo isso se via no Kokudô, pertinho de
casa.
O inverno era a estação do ano que Riokai mais apreciava; êle ía com um
colega, Susuki, pintar nas roças e às vêzes no país natal, Hikone, uma
cidadezinha antiga entre Kyoto e Nagoya; possuía um lindo castelo, que Riokai
muitas vêzes pintou, seu belo rio que serpenteava as montanhas, no inverno
tôdas brancas de neve; numa velha porta de Hikone podia-se ver ainda o brasão
do samurai, que tinha sido avô de Riokai do lado materno.
Himeji, um dos maiores castelos. Imenso, majestoso e altivo sôbre suas
muralhas de pedra, seus telhados caprichosamente trabalhados e seu maravilhoso
parque, seus lagos povoados de peixes de estranhas formas, vermelhos com
escamas de ouro, prêtos com o rabo dourado, um luxo extraordinário que a
natureza empregou para decorar êsses peixes. Êsse castelo ficava longe de casa.
Minucha, eu assim o chamava, Riokai sempre ía, às vêzes, pintar nesses sítios;
fêz telas soberbas dessa morada feudal e especializou-se em castelos do Japão.
Em fevereiro êle ía pelas roças à procura de ameixeiras em flôr; êsse
arbusto florescia como um milagre saindo de um tronco prêto e tortuoso; nas
cêrcas à beira das estradas, no campo, mas o frio era tal que eu nunca fui
pintar essas flôres que formavam tufos brancos, perfumados. Um pássaro chamado
"uguissu" (ugisu = rouxinol) começa seus maravilhosos cantos ao
iniciar dessas flôres e cala-se quando desfolham; sua côr não é bonita mas seus
gorgeios são incomparáveis. Os poetas exaltaram seu canto maravilhoso, que
aliaram às delicadas flôres de ameixeiras...
Eu esperava a primavera, abril, para me expandir, começar as excursões e
romarias a Kotoen, foi um dos meus paraísos... Lugar feérico pelas cerejeiras,
pessegueiros e camélias em flôr... Era uma imensa propriedade, que os donos nos
deixavam pintar; ali, nos dias de semana, éramos os únicos visitantes, tôda
aquela orgia de flôres era só para nós... Foram êsses passeios os tempos mais
felizes de minha vida. Ficava-se o dia todo até escurecer, fazendo estudos,
croquis, e enfrentando os caprichos da primavera, rajadas de chuvas e vento
gelado, muito frio mas logo o sol radiante iluminando a paisagem, montanhas ao
longe, um grande lago e a mais bela sinfonia que jamais vi em côr de rosa quase
branco... Riokai sempre levava a máquina fotográfica para fixar os momentos
felizes de nossas vidas... Numa dessas fotos, que guardo como querida
lembrança, estamos à frente de uma cerejeira, felizes com nossas caixas nas
mãos, os galhos em flor nos cobriam os ombros. Fiz boas telas, muitos estudos à
espátula, que tiveram sucesso, em exposições, em Kobe, Nagoya, Ossaka. Todos os
anos expúnhamos no "salon" dessa cidade. Meu tempo era pouco para me
dedicar a tantas coisas além da pintura, que era minha principal preocupação -
as exposições, o piano, as alunas e o Matsuzakayá; tinha que pensar nos meus
vestidos; ser elegante, pois eu tinha que apresentar a moda de Paris, nos
desfiles de manequins. Às vêzes os diretores dessa grande casa nos convidavam
para sukiaki em Kyoto, cidade afamada pelos seus antigos e múltiplos templos e
suas gueixas. Muitas vêzes me perguntaram aqui o que eram as gueixas - seria
difícil a um estrangeiro compreender. Há muitas categorias. Elas aprendem a
vestir o quimono com elegância e fazer magistralmente o laço do obi, atrás,
puxar bem o quimono atrás para dar relêvo ao pescoço nu, as atitudes, as regras
da tradição, como ajoelhar-se sôbre a almofada, como andar, como cumprimentar,
as regras à maneira das passadas etiquetas; algumas se dedicam às artes, cantam
se acompanhando de um instrumento de longo cabo, "shamissen"; outras
dançam, tirando belos partidos com as longas mangas e leques, que movem numa
atitude mágica... Há escolas de gueixas onde entram meninas; elas tomam o nome
de "Maiko". Há muitas sociedades que dão sempre banquetes, onde só
vão homens e acharam que seria triste uma festa sem mulheres. As gueixas são os
adornos dessas reuniões; enquanto comem ou conversam, elas cantam ou dançam ou
ficam perto dos hóspedes, enchendo as taças de sakê, sabem dizer piadas, que
alegram o auditório; dizem que elas não exercem além disso nada de desonroso,
só as de muito baixa casta é que se entregam à vida sexual. Houve gueixas
famosas pela inteligência e romances como Madame Butterfly. No dia seguinte ao
banquete, elas vão à casa do cliente cobrar; é geralmente a espôsa que paga a
conta. Todo japonês é orgulhoso de suas gueixas e deseja saber qual a impressão
que o estrangeiro tem delas.
Quantas vêzes fomos a Nara pintar; ficávamos dois ou mais dias
trabalhando naquele maravilhoso parque, vastas extensões de gramados, como se
fôssem macios tapetes de veludo verde, seus veados saindo em bando das
florestas, muito mansos; alguns deixavam passar a mão, para terem bolachas;
lindos com seus grandes olhos, e apenas os chifres apontando. Kasugajinja era o
imenso templo, delaca vermelha. Nara foi a primeira capital do Japão, cópia de
uma capital chinesa. Seu grande Buda dá vida a êsse glorioso passado. Foram
êsses passeios os tempos felizes de minha vida: arte, romance e amor... Nara
era célebre também pelas suas flôres de glicínias; em diversos lugares dêsse
imenso parque havia telheiros de bambus, em que essas trpadeiras floresciam em
cachos cerrados de côr lilás, de doce perfume. Era a festa das glicínias; os
japoneses, na primavera, não ficam em casa - vão em massa apreciar a natureza
em flor e por todos os lados havia japonesas de quimonos de primavera; também
encontravam-se bonzos que serviam os templos, de cabeça raspada, quimono
branco, com outro por cima de gaze prêta, uma estola no pescoço, parecida com a
dos padres católicos quando dizem missa, vários rosários nos pulsos, uns de
jade verde; pelo Japão inteiro os bonzos andam com êsses trajes, quase todos se
casam, são doutos em estudos de teologia, sabendo escrever e exprmir-se bem e
corretamente. Eu já estava começando a compreender melhor êsse difícil idioma;
os japoneses gostavam de me ouvir falar e riam; eu também, ria porque nunca
pensei que um dia pudesse falar bem êsse difícil idioma.
Às vêzes íamos a Kobe, pôrto importante, com muito comércio; Cônsules
estrangeiros que moravam lá davam suas festas e tinham seus clubes, alemães,
inglêses, portuguêses, italianos; das outras nações havia menos. O que havia
muito era gente da Coréia - exerciam trabalhos subalternos, as mulheres tôdas
de branco, os homens também, usando uma minúscula cartolinha no cume da cabeça;
todos êles grandes, uma raça muito diferente dos japoneses. No variado comércio
de Kobe encontrava-se de tudo; muitas casas que vendiam material de pintura
pois no Japão a corporação era grande; lojas com belíssimas sêdas para
exportação. Pérolas, cultivadas, que o grande cientista Mikimoto descobriu,
teatros, cinema, diversões, restaurante. Tínhamos em Kobe grandes amigos, o
cônsul da França e senhora, Madame Hauchcorne; jamais conheci pessoa tão boa,
inteligente, sociável; foi mesmo uma grande amiga a quem me apeguei com tôda a
ternura. Vinham à nossa casa jantar; Minuche, sua filha, era uma môça cheia de
recato mas muito simpática. A tôdas as festas do consulado éramos convidados,
concêrto de Jacques Tibeau e o violoncelista Charbonier; bailarinas espanholas
de renome, que passavam por Kobe. Tivemos uma ocasião convite para ir ao grande
jantar e baile de um couraçado francês ancorado em Kobe; a essas festas só ia a
alta classe; também conhecemos a baronesa Fujita, que morava num imenso bangalô
no cume de uma montanha em Suma. Falava muito bem o francês sem nunca ter saído
do Japão; foi também uma grande amiga; ela gostava de vir em casa, com suas
duas filhas e sempre nos adquiria quadros, ora meus ora de Riokai. Todos
gostavam dêle; era sociável e seu sorriso captava tôdas as simpatias, gostava
de tudo o que fôsse arte; às vêzes passava a noite tôda sem dormir para ler um
livro sôbre arte. Durante êsses anos que ficamos em Ashiá (Ashiya), a família
vinha às vêzes passar uma temporada conosco; vinham de Formosa (Taiwan) onde
habitavam meu sogro e minha sogra; êle tinha sido professor de escola primária
e depois diretor. No dizer dos entendidos fazia belas poesias haikai; meu
marido dizia que êle era para o meio em que tinha vivido, muitointeligente;
sempre me dei bem com todos da família. Econômicamente éramos independentes, o
que faz muito para a boa harmonia numa família.
Houve épocas em que fiquei anos sem ir ao consulado do Brasil; em Kobe,
depois que procurei um cônsul para me fazer uma procuração, foi tão cheio de
empáfias e complicações, que nunca mais lá voltei. Em 1939, um nôvo cônsul do
Brasil chegava a Kobe: era o sr. Aloísio de Magalhães, homem inteligente,
vibrante e amigo dos artistas. Fomos convidá-lo para nossa exposição em Ossaka;
eu não esperava vê-lo chegar; fazia só alguns dias que tinha vindo do Brasil a
Kobe, com sua sobrinha Atala; foi uma alegre surprêsa quando no dia do
vernissage vimo-lo entrar na exposição, todo sorridente "ainda tem alguns
quadros para vender perguntou êle?" Escolheu dois quadros nossos e logo
nos convidou para ir a Kobe, a suas festas. Atala era ótima pianista, tendo
sido aluna em Paris de Corto, sempre me aconselhava a fazer programa para
concertos. O aniversário do cônsul Magalhães foi festejado com um grande
banquete em Kobe; todos os japoneses amigos do Brasil foram convidados. Riokai,
por essa ocasião, conheceu alguns japoneses influentes. O cônsul Magalhães
insinuou-nos que devíamos fazer uma viagem ao Brasil por intermédio do
Gaimushô, "ministério das relações estrangeiras". Riokai tinha um
grande desejo de conhecer o Brasil e essa era uma ocasião única de se expandir;
começou a desenvolver essa idéia, que foi se fortalecendo para terminar numa
realidade... Foi a Tókio várias vêzes, não foi fácil, mas como o Japão
precisava de propaganda, encontrou amigos no Gaimushô que eram favoráveis. Nos
fins de fevereiro de 1940 as coisas estavam quase certas. Em março, Riokai foi
a Formosa visitar a família e fazer exposição de nossos quadros. Eu embarquei
uns dias depois, devido ao desfile de modelos que tinha que apresentar no
Matsuzakayá.
No cais de Irum estava tôda a família à minha espera e logo tomamos o
trem que nos levou a Taihoku, a capital da ilha; todos da família de Riokai me
acolheram bem e estavam contentes de me ver. Depois da exposição terminada, que
foi um sucesso, fizeram questão de fazer a nossa festa de casamento: sete anos
depois! Meus sogros com quimonos de cerimônia ficaram na porta do grande salão
do hotel recebendo os cumrpimentos; eu e Riokai estávamos ao lado, eu de
vestido de soirée de saia de cetim prêto, bem colante e blusa de lamê côr de
rosa, dava um aspecto exótico ao ambiente. Mais de cinqüenta talheres foram
postos no melhor restaurante chinês da cidade.
Passando pelas estreitas ruas tìpicamente chinêsas, pude ver a sujeira
incrível das casas com suas portas abertas; nuvens de môscas enchiam o ar;
sôbre o lixo, as crianças brincavam; chineses altos e magros, metidos nas suas
roupas prêtas colantes, pareciam fantasmas. Suspirei quando saí daquele antro.
Achei Taihoku uma grande cidade, de ruas largas, compridas avenidas tôdas
asfaltadas, comércio importante e com tôdas as regalias da época moderna,
bonde, ônibus, telefone, apesar de ainda se ver os carros puxados por um homem,
velho costume chinês. No Japão só em Kobe e Yokohama pode-se ver êsses
"curamás"(13): são sempre estrangeiros que acham interessante êsse modo
de condução, relegando o próximo ao estado de cavalo.
(13) Provavelmente a autora quis usar a expressão KURUMA,
"carro" (automóvel), para designar riquixá.
No dia em que partimos, como a rua de meus sogros era muito estreita
para entrar um táxi, foi a êsse g6enero de condução que tivemos de recorrer.
Ficou uma fila de "curumás" na porta; minha sogra encabeçava, eu e
Riokai logo atrás e em seguida os parentes; eu me diverti, tomando parte nesse
inédito desfile, até a estação. Alguns parentes vieram até Irum. Das janelas do
trem via-se a extensão de terras bem trabalhadas, bem cultivadas, parecendo-se
com a vegetação do Brasil, bananeiras, palmeiras, coqueiros e canaviais e mesmo
pequenos cafezais. Quarenta minutos percorridos deu para fazer uma idéia do
progresso; quando essa ilha estava sob o domínio chinês eram só pântanos e
terras incultas; os mandarins não faziam nenhum esfôrço para melhorar.
Voltamos pelo Fuji-Maru a 28 de março de 1940; após quatro dias
estávamos desembarcando em Kobe. Riokai logo teve notícias que era certa nossa
viagem ao Brasil, aprovada pelo Gaimushô. Daí começamos a trabalhar no duro,
fomos diversas vêzes a Tókio; justamente havia uma missão brasileira em Tókio
fazia uns dias e iam homenageá-los com grande recepção para serem apresentados
ao Príncipe Takamatsu-Mia e Princesa. (14) A missão foi introduzida pelo
Embaixador do Brasil em Tókio e fomos convidados para essa cerimoniosa festa.
Os príncipes estavam de pé sôbre um estrado numa saleta, enquanto um secretário
anunciava um por um o nome dos convidados; foi servida uma enorme mesa com as
mais deliciosas iguarias. Ao discurso do embaixador, respondeu o príncipe em
Inglês; houve outros discursos em que brilhou a retórica e a feliz cordialidade
dos dois países. Terminado o banquete, vieram me procurar para falar com a
princesa; achei-a muito amável, inteligente e linda com seu quimono côr de
rosa.
(14) TAKAMATSU, NOBUHITO (1905 - 1987) Príncipe Imperial, terceiro filho
do Imperador Taishõ e irmão mais novo do Imperador Hirohito. Foi adido militar
durante a Segunda Guerra e promovido capitão em 1942. Pouco antes do fim da
Guerra, fez parte de uma conspiração que afastou o general Hideki Tõjõ do
poder.
Nossos trabalhos foram por essa ocasião expostos em Tókio, numa grande
sala na Guinza - o Gaimushô fazia questão de mostrar nossa telas.
Foram reproduzidos em côres três mil exemplares "cartão
postal" de dois quadros de Riokai, "Velho pôrto de Akashi", e
"Porta de Yoshino" e dois meus "Le chapeau de paille
d'Italie" do Salon de Paris, 1933 e "Cerejeiras em flôr do parque
Inogashira". Ficaram ótimas essas reproduções e tiveram sucesso no Brasil
e Buenos Aires.
Riokai veio com o título de "pequeno embaixador da arte". Como
era princípios de abril, Tókio estava tôda engalanada de suas cerejeiras em
flôr - nós também estávamos contentes e agitados com tanta sorte. Na volta
descemos numa estação da Montanha Fuji; um funicular subia para depositar os
turistas no grande hotel Gora Palace de grande luxo, freqüentado só por
milionários e titulares do Japão, que vinham veranear nesses encantadores
sítios. Riokai dizia rindo que às v6ezes gostava de viver no seio da
grandeza... Nosso quarto era imenso, claro como o dia. Janelões com varanda
davam para o vasto panorama. Foi um espetáculo que nunca hei de me esquecer...
Via-se montanhas, colinas, lagos e cerejeiras floridas como no esplendor de uma
imensa sinfonia, onde a Montanha Fuji mostrava na sua majestosa beleza sua
coroa de neve; era tão linda a paisagem nesse luminoso dia que receava-se
respirar para não perturbar a divina harmonia. À tarde fomos pintar à beira dos
célebres lagos de Hakone, que há nas imediações. A viagem foi marcada para os
fins de julho, no vapor que estreava-se, Hokoku-Maru. Dia 14 de julho dei uma
audição de minhas alunas e também encerrei minha estada no Matsuzakayá.
Entreguei-me aos preparativos da viagem, meus vestidos, precisava me mostrar
chique; estava numa posição de destaque.
Os cinqüenta modelos que levei, foram cuidadosamente estudados, chapéus,
luvas, sapatos, etc.. Também de Riokai, êle não se preocupava com êsse lado
decorativo; estava atarefadíssimo na embalagem dos quadros, dêle e meus, que
iam em grandes caixas, já emoldurados, além dos mil detalhes que se preciam
para uma longa viagem dessas. A mim sòzinha teria sido impossível semelhante
tarefa, com minha frágil saúde mas apesar de tantas ocupações, foi um trecho
feliz de minha vida, em que a sorte nos sorria... Nos últimos dias de
preparativos não se dava conta de tantos afazeres, visitas a tôda hora, eram
tantos os presentes que chegavam, recomendações a amigos do Brasil, jornalistas
para entrevistar-nos, - ficamos em pouco tempo personagens importantes.
O dia de embarque chegou; o Hokoku-Maru, todo branco, estava atracado no
cais de Kobe; brilhava num belo dia de estio, todo engalanado de serpentinas e
bandeiras. O cais estava repleto, iam viajar japonêses de classe. Depois de
subirmos a ponte, ficamos logo rodeados de amigos, que já estavam no grande
salão à nossa espera. O mais agradável foi ver o cônsul Magalhães e Atala, que
viam realizados seus votos; por todos os lados eram sorrisos, desejo de
sucesso. O gongo com sua voz metálica se fêz ouvir, e todos foram descendo; já
estávamos na rampa do navio, dizendo Adeus aos amigos e parentes que estavam no
cais, eu com um enorme buquê de rosas vermelhas nos braços e Riokai com seu
belo sorriso, e agitando o leque (no Japão os homens usam leque no estio). O
navio foi se destacando do cais, e a sereia enchia o ar com sua possante voz...
Estávamos exaustos e emocionados; ainda ficamos no convés para ver o sol todo
de ouro, que se espelhava no mar e os gritos das gaivotas que nos diziam
Adeus...
Quando entramos no nosso camarote todo florido, eram tantos os presentes
que se tinha dificuldade em se mover; cada caixa de bombons e outros presentes
traziam um cartãozinho de bons votos; a cada um cabia agradecer por carta.
Riokai já estava pensando nisso.
Depois de uns dias de aprendizagem das disciplinas organizadas do vapor,
começamos a tirar nossas caixas de tintas e pincéis. Nosso camarote era todo
branco, todo nôvo, grande e luxuoso; a janela dava para o mar e a porta para um
corredor todo atapetado de vermelho, perto do grande salão, que por uma larga e
curta escada ia dar no primeiro tombadilho. Íamos tocar em numerosos portos da
China, da Índia, e da África. Riokai estava ativo em arrumar suas telas, papel,
caixa de aquarela, cavalete portátil, etc. Êle tinha encontrado um bom amigo, o
sr. Omori, que vinha substituir o embaixador em Buenos Aires; gostava muito da
arte e do caráter de Riokai. Quase todos os passageiros eram japonêses que íam
à Argentina e ao Brasil.
Como sempre, nessa longa viagem de quarenta e cinco dias, não faltaram
alguns escândalos. Um ex-cônsul de Portugal nas Filipinas, já maduro, gordo e
barrigudo e sua espôsa, engalfinharam-se de maneira espetacular, enchendo de
gritos seu camarote. Infidelidade da sua sobrinha, que viajava junto, foi o
motivo dêsse atentado a calma e ordem do navio...
Numa bela manhã apareceu o pôrto de Singapura. A convite de um amigo,
sr. Tanaka, diretor da companhia Shossen-Kaisha, passamos um esplêndido dia;
depois de percorrer a ilha, fomos para um restaurante chinês que tinha uma
tôrre em forma de pagode, com seus telhados de pocelana azul. Ali, num dos
andares, saboreamos durante horas a delícias da comida chinesa, ouvindo seus
cantos agudos e estridentes, acompanhados de seus instrumentos. Ao contrário
dos japoneses, os chineses acham que o barulho traz alegria. Na volta da nossa
viagem, devíamos encontrar-nos com êste amigo para viajar por tôda a Índia...
Nossos planos não puderam se realizar devido ao ar de guerra que já estava
soprando.
Em Singapura, onde tôdas as raças existem, fiz muitos croquis a aquarela
e escrevi "impressões" sôbre seus habitantes. Cada país usando seus trajes
- típicos malaios, chineses, indus, judeus, japoneses, árabes e europeus. Os
homens de turbante e barba, indicando sua casta, quase todos andam de roupa
ocidental mas de turbante. As mulheres indus, algumas bonitas quando são môças,
porque vão engordando de tal maneira que parecem pipas, ao chegar a ser
matronas, em geral têm grandes e belos olhos, vestindo o sari, saindo dos
ombros em largas pregas como os gregos antigos, uma pedra preciosa embutida
entre os cílios ou na asa do nariz; muitas usam pulseiras nos tornorzelos e
anéis nos dedos dos pés, com seu andar calmo e majestoso.
Depois foi Hong-Kong, rodeado de mantanhas e seu mar povoado de
pitorescas barcas - moram nelas famílias inteiras, criando galinhas, porcos,
cachorros, as mulheres lavam roupa, e cozinham, remam mais adiante quando
querem mudar de lugar. Suas ruas formigando de gente, com suas carrocinhas
servindo de restaurante ambulante, seus habitantes num contínuo vai-vém...
Colombo. riokai conhecia um negociante de jóias indu, que tinha uma loja
no centro - vendia-se ali de tudo, objetos em tartaruga, belas pulseiras em
platina e safiras da Índia, jóias com brilhantes, cachos de bananas, frutas
sêcas, etc.. Ficou contentíssimo em rever Riokai; queria por fôrça me vender
uma rica pulseira, com safiras, dizia êle que pagaria na volta mas eu não quis.
Até no táxi êle veio com a jóia sob os meus olhos, dava sem documento nenhum!
Depois tivemos quinze dias de mar-céu, o canto do mar, o ritmo das
máquinas, os peixes voadores e às vêzes o dorso escuro de algum tubarão
seguindo o navio. A hora solene era o pôr do sol, mergulhando em sua glória num
mar de púrpura e ouro; nas noites profundas e estreladas sonhávamos - era o
contato com a vida pura do espírito.
Houve festa a bordo à passagem do Equador, muitos foram batizados com
nomes de peixes, sardinhas, etc.. À noite, grande baile. Riokai detestava fazer
toalete e vestir o smoking para jantar, apesar de não ser o traje a rigor tão
estrito quanto nos transatlânticos europeus. A comida era francesa e japonesa,
muito bem feita por um mestre cuca francês. Todos os dias pratos deliciosos
servidos no requinte do luxo em pequenas mesas redondas.
África. Mabassan, colônia inglêsa, me pareceu bem pobre; depois foi
Zanzibar. Indus, árabes e pretos. Pela estrada que levava ao centro, de um lado
e de outro, copiosas mangueiras, bananeiras, abacateiros, tôda a vegetação
tropical. O de que gostei foi no quarteirão árabe, as casas tôdas caiadas de
branco com suas portas de madeira escura, sem pintura, tôdas trabalhadas como
rendas, as sacadinhas nas janelas, também de madeira, muito artístico, suas
ruas ermas devido ao comércio estar dentro, de portas fechadas. Luxo e confôrto
era o bairro habitado pelos britânicos. Beira, colônia portuguêsa conservando
seus velhos hábitos, cidade feia e relaxada. Os portuguêses são os donos, os
pretos mantidos na ignorância e servidão. Durban, uma Inglaterra com outro
clima, seus bondes elétricos de dois andares como em Londres. Como era a
primeira viagem do Hokoku-Maru, em cada pôrto davam recepções, grande mesa de
doces, iguarias japonesas. Os principais da cidade eram convidados;
divertia-nos ver subri pela escada os altos funcionários com suas fardas, as
burguesas com suas filhas, aproveitando essa ocasião única de se mostrarem.
Achei Durban uma grande cidade, limpa, de comércio importante, com enormes
vitrinas mostrando um casamento inteiro, a noiva e convidados. Os inglêses têm
um fraco por essa cerimônia. Em grupos fomos fazer uma excursão nas montanhas,
muito longe, onde havia ainda tribos de índios mansos vivendo em choças
redondas de uma porta só. Depois de certa hesitação o chefe apresentou suas
espôsas, um bando de mulheres de aspecto miserável, cabelos tingidos de
vermelho e meticulosamente trançado com continhas de côr, penteados complicados
- explicaram-nos que os cabelos assim arrumados duravam muitos anos. Muita
criança barriguda e doentia. Viviam ali da caça e de alguns produtos que íam
vender na cidade. Os chefes estavam ávidos e discutiam com o intérprete, quantos
presentes tinham trazido. Port Elizabeth, só me lembro de seu longo e
interminável cais, que nos levou à cidade, tudo nôvo e de mau gôsto. Capetown,
muito impotante, tôda inglêsa, belas e grandes vitrinas só com mercadoria da
metrópole, um belo jardim botânico, com seus gramados bem tratados, copadas
árvores, que davam macias sombras. Vi pela primeira vez curiosas flôres
parecendo cabeças de pássaros saindo de tufos de fôlhas escuras - soube que se
chamavam aves do paraíso.
Mais dez dias de mar e céu. Uma bela manhã avistou-se terra, umas
longínquas tiras confundindo-se com o mar; só ao anoitecer íamos chegar. Uma
multidão esperava o navio no cais, era a viagem de estréia, e todos queriam ver
o enorme transatlântico japonês. Os hinos dos dois países se fizeram ouvir.
oito dias ficou o Hokoku-Maru em Buenos Aires. Ficamos uma noite só no hotel e
no dia seguinte o sr. Omori nos mandou buscar, donde fomos hospedados na
Embaixada do Japão. Durante êsse tempo visitamos amigos, museus, etc. gostamos
do aspecto de Buenos Aires, um tanto parecida com Paris. Logo foi o Uruguai e
enfim Rio de Janeiro.
Chegamos numa noite de chuvinha fina e pertinaz. Vieram ao nosso
encontro o sr. Hasegawa, presidente da Associação Nipo-Brasileira, alguns
membros da Embaixada, escritores e jornalistas, Alexandre Konder, repórteres
dos principais jornais do Rio, fotógrafos. Já tinham notícias pelo Gaimushô de
Tókio da nossa vinda e de nos dar o máximo de apoio. Arranjar local para fazer
a exposição foi um sério problema. O melhor era o Palace Hotel mas já estava
tomado por mais de um ano. Foi preciso a influência do embaixador sr. Kudo para
conseguirmos fazer a exposição em novembro no Palace. Foi um sucesso - no dia do vernissage estavam presentes o embaixador
e sra.; no centro da sala uma maravilhosa cesta de flôres, onde pendiam, fitas
comas côres japonesas, presente do embaixador. Intelectuais, jornalistas,
artistas, pintores conhecidos e a melhor sociedade do Rio. Mas o que me encheu
de intensa alegria foi rever uma querida e predileta amiga que havia conhecido,
Maria Paula, há tantos anos, uma grande artista que sempre admirei; o tempo
nada tinha alterado sua beleza e sua amizade.
Foram muito apreciados os trabalhos de Riokai feitos em Paris e os
castelos do Japão; a sua grande tela do Castelo de Himeji foi adquirida para a
Embaixada. Meus quadros também tiveram muito êxito: as telas que tinha exposto
em Paris e as cerejeiras do Japão; o sr. Osvaldo Teixeira, diretor do Museu
Nacional de Belas Artes, adquiriu em nome do govêrno para a galeria do museu,
um trabalho de Riokai "Velho pôrto de Akashi" e um trabalho meu,
"Pivoines". Estávamos nos orientando para vir a São Paulo, onde
grandes dificuldades nos esperavam. Não havia sala para expor. Alugamos por
excessivo preço uma imensa sala do prédio Ita, na rua Barão de Itapetininga.
Riokai teve que arrumar, mandar fazer repartições com cavaletes, forrar de lona
as paredes, por luz elétrica com grandes lâmpadas pois êsse local estava sujo e
escuro - tivemos grandes despesas. Eu conhecia muitos pintores e amigos de
antes mas nenhum veio ao nosso encontro. Fiz uma conferência sôbre minha estada
no Japão e toquei algumas músicas de Kobune, compositor moderno do Japão na
melhor rádio de São Paulo, a Rádio Cruzeiro do Sul. A conselho de amigos oferecemos
no dia da inauguração, um coquetel com a presença do cônsul-geral do Japão sr.
Narusse e dos funcionários do consulado; ficou repleto de visitantes. Artistas,
jornalistas, pintores vieram para comer doces, as senhoras para mostrar os
vestidos e sairem fotografadas nas revistas, podendo também se expandir,
criticando os trabalhos.
Terminada a exposição em fins de 1940, fomos passar o primeiro de
janeiro e mais dias em Registro, colônia japonesa para a cultura do arbusto do
chá. Ali Riokai iniciou uma série de estudos, pintados a óleo sôbre papelão,
permitindo êsse achado, fazer com mais rapidez e belo colorido paisagens e ruas
do Brasil. Eu o acompanhava sempre e passava o tempo pintando. Voltando a São
Paulo êle foi com alguns amigos fazer uma viagem pelo Noroeste, expondo em
várias cidades do interior onde a colônia japonêsa o acolheu com carinho. Eu
fiquei em São Paulo: estava cansada e precisava me tratar. Ficamos em São Paulo
até meados de abril, indo às vêzes a Santos, que Riokai gostava de pintar e à
noite ir ao Cassino ver sumir màgicamente sôbre o pano verde somas fabulosas.
O tempo que ficamos em São Paulo foi empregado em pintar fora, ruas,
parques, enfrentando os transeuntes embasbacados; muitas vêzes nos rodeavam
tapando nossa vista mas o que mais gostávamos era pintar lá de cima da janela
dos arranha-céus - com vistas amplas e magníficas e onde ficávamos livres da
curiosidade alheia.
À noite íamos fazer visitas. O cônsul sr. Narusse nos ofereceu uma festa
no consulado, seguida de grande jantar. Tive a alegria de ver no salão do
consulado, um dos belos quadros de Riokai, adquirido pelo govêrno japonês,
trabalho que tinha figurado no Salon de outono de Paris,
"Blanchisserie".
Pelo trem que nos levava ao Rio apreciávamos a linda paisagem, com as paineiras
em flor como buquês côr de rosa... Ficamos uns dias no Natal Hotel da
Cinelândia, onde habitávamos um claro e luxuoso quarto que fazia esquina;
depois fomos morar num apartamento à rua São Clemente. Fomos à Companhia
Telefônica e no dia seguinte estava um empregado com dois telefones à nossa
escolha. Nossas vidas foram inteiramente dedicadas à arte. Todos os dias
saíamos pela manhã com nossas caixas, pintando tudo quanto nos parecia
interessante, ruas, panoramas, Copacabana, Paquetá, jardins, favelas, Urca, de
Copacabana; a grande sala de jôgo do Copacabana Palace era féerica, à noite com
suas decorações branco e ouro, seus enormes lustres de cristal, hipnotizavam os
olhos, o luxo em profusão, as ricas toaletes das senhoras à volta das mesas. Só
se via dinheiro no pano verde; e a diabólica roleta sempre parando onde não se
esperava era um dos paraísos de Riokai.
Frequentávamos exposições e festas na embaixada do Japão. Depois de
cumprimentar o embaixador ao lado do retrato em grande do Imperador e da
Imperatriz, nos amplos salões era servida grande mesa de iguarias, japonêsas e
brasileiras. Os numerosos convidados formavam grupos na varanda, ou no jardim.
Riokai fêz por essa ocasião a pedido do sr. A. Konder, a capa do livro "A
imagem de bronze" de Nagayo (15), que estavam editando na Pongetti, a
tradução em português de Konder. História dos primeiros cristãos no Japão.
Riokai fêz uma belíssima capa representando a heroína do romance com a medalha
de bronze na mão.
(15) NAGAYO, YOSHIRÕ (1888 - 1961) escritor e dramaturgo. Entre suas
obras destacam-se as peças "Kõu to Ryuuhõ" de 1917 e "Inadara no
Ko" de 1920, e o romance "Takezawa Sensei to iu no Hito" de
1925. Também redigiu uma auto-biografia entitulada "Waga Kokoro no
Henreki" em 1959 e durante anos contribuiu com a revista literária
"Shirakaba" (a bétula branca). O livro ao qual Dona Helena se refere
é "Seidõ no Kirisuto"(o Cristo de bronze), de 1941.
Uma resposta que não tardou a vir foi a do sr. Yokohama, amigo em Buenos
Aires: dizia êle ser favorável fazermos uma exposição nessa cidade; era fins de
maio, época boa para se expor na capital portenha. Riokai ficou contente ao
receber essa notícia.
A principal galeria de arte Muller, já tinha posto à nossa disposição
para julho, diversas salas de sua galeria. Em fins de junho o navio cargueiro
Tôa-Maru nos depositou no cais gelado de Buenos Aires. O sr. Yokohama já estava
à nossa espera com seu confortável carro, que nos levou a uma boa pensão, perto
da Praça San Martin; nosso quarto dava para a rua, cada janela tinha uma sacada
como em Paris, alí era tudo na penumbra, adeus ao sol do Brasil. Fomos logo
apresentados à família Yokohama, a sra. Matilde, muito simpática e inteligente.
Argentina nata, cantora de talento, suas duas filhas Norma e Yolanda estudando na Universidade.
O sr. Yokohama era um erudito em arte japonêsa e oriental. Foi uma
grande sorte conhecê-los pois conservei até hoje êsses amigos sinceros,
apreciadores da arte pura e cheia de personalidade de Riokai.
No decorrer de julho abrimos a exposição, com muito êxito, com a
presença do embaixador do Japão, jornalistas, artistas e da melhor sociedade
portenha. Riokai teve o merecido sucesso, por verdadeiros conhecedores da boa
pintura - as velhas ruas de Paris encantaram os argentinos, os jornais
deram-lhe os maiores elogios. Assim se referiam "Paris de Riokai
Ohashi" é aquêle que os turistas ricos não conhecem, são os velhos muros,
com seus eloqüentes cartazes, as velhas casas de linhas trágicas, as lojinhas
pobres dos subúrbios"... E eu feliz por vê-lo incensado. Quinquilas
Martins, o mestre tão querido nessa terra veio felicitá-lo; meus trabalhos
também foram muito apreciados; a crítica nos principais jornais me foi
favorável, notando os quadros que eu tinha exposto no Salão dos Artistas
Franceses em Paris, e as paisagens de cerejeiras do Japão. Dois quadros nossos
foram oferecidos ao Museu Nacional de Belas Artes pela colônia japonêsa:
"Boutique de Cicles", bela tela com vermelhos vibrantes de Riokai e a
minha "La coupe verte", que tinha figurado no Salão de Paris, 1932.
A exposição terminada, apesar de ser Buenos Aires de inverno rijo, íamos
pintar nas ruas, parques, o lindo jardim em frente à Casa Rosada, Palermo, o
imenso parque com belas alamedas e fizemos muitos croquis. Achamos Buenos Aires
um pequeno Paris, harmonizando-se em cinza, com suas casas de poucos andares,
tôdas no mesmo estilo, com balcões de ferro forjado, um belo comércio de modas,
sentia-se um gôsto pronunciado pelas modas e decorações francesas; por tudo
onde se ía era no intuito de pintar, fotografar e filmar.
Foi uma bela noitada de arte em que a sra. Yokohama se fêz ouvir num
recital, com muito êxito, de música japonêsa. Além da arte Riokai e eu
apreciávamos os bons churrascos, o bom vinho, e as deliciosas maçãs assadas.
Tudo teria sido ótimo se não fossem as más notícias divulgadas pelos
jornais, entre o Japão e a América: a coisa culminou quando dezesseis navios
mercantes japonêses que iam passar pelo Canal do Panamá, foram impedidos por se
achar o canal fechado, por ordem do govêrno americano. Ficaram êsses navios
alguns dias à espera mas nada de as coisas se arranjarem e de nôvo voltaram ao
Japão. Aí foi piorando a situação. Já estavam anunciando na agência que o
último barco para o Japão seria o Buenos Aires- Maru; isso veio pôr verdadeiro
transtôrno em nossa vida. Que fazer diante dessa nova fase? Eu via a guerra de
perto e preferia voltar ao Brasil. Riokai era confiante e achava que tudo se
arranjaria, por via diplomática; queria por fôrça voltar nesse último navio.
Ficamos uns dias nessa terrível luta; afinal cedi e nos meados de setembro
tomamos o Buenos Aires-Maru, que estava atracado no cais fazia dez dias. Pela
Calle Corrientes andavam grupos de japonêses - alguns, Riokai tinha conhecido
no Rio e em São Paulo. Êle estava todo feliz, dizendo "nós também
vamos". Todo o dinheiro ganho com a venda dos quadros de Riokai e os meus
foi febrilmente empregado nos últimos dias em roupas, objetos, até num piano e
uma máquina de costura portátil, a primeira exposta na cidade. Desde cedo ao
anoitecer, que se comprava sem parar. No último dia adquirimos vinho, uisque,
conservas, farinha, açúcar pois do Japão vinham notícias que já não se
encontravam mais êsses gêneros. Riokai estava tão cansado que me disse antes de
entrar no vapor: "Troque o resto de dinheiro em dólares". A tristeza
me tinha invadido a alma; não quis ver o navio sair do cais; tinha a intuição
que entrava no ciclo infernal da guerra.
Foi uma triste viagem; nosso camarote era perto das privadas,
permanecendo um cheiro infecto; a rota foi tôda outra da que quando viemos,
passando cinco dias depois pelo Estreito de Magalhães. Desde que o navio entrou
no estreito, andava tão devagar que parecia parado, só montanhas de neve, o
vento gelado soprando o dia todo, montes de gêlo como castelos de cristal. Os
habitantes dessa estranha selva nos seguiam de perto, enormes, gaivotas de
plumagem escura. Riokai fêz uma série de estudos dessas tristes e melancólicas
paisagens - entrou num barco de salvamento no "deck" de cima; ficava
com o corpo gelado, pintando o dia todo; eu, com a garganta dilacerada por um
cruel resfriado, a ponto de não poder mais engulir.
A viagem prosseguiu entre mar e céu até Yokohama. Lá estava tôda a
família de Riokai à nossa espera. Tinham vindo seus pais de Formosa; tive más
notícias de Ashiá (Ashiya) - logo pela minha sogra soube que o cachorro tinha
sido esmagado por um caminhão na noite anterior ao nosso embarque - chorei meu
lulu; também, que meu belo casaco de rat musqué trazido de Paris, os bichos
tinham inteiramente dado cabo dêle pelo desleixo de Kyoko-san, a quem tinha
recomendado cuidar. Yokohama - achei as ruas por onde passamos, de ordinário
tão concorridas, ermas, tudo fechado, o restaurante onde fomos nem arroz tinha.
Já não havia mais êsse produto. No dia seguinte estávamos em Kobe, o cais
deserto, a polícia a bordo fazendo mil perguntas impertinentes. Alguns amigos
vieram, mas estavam além do cais. Kobe, de costume tão agitada e animada estava
triste, todo o comércio fechado. depois da alfândega custou para se achar um
táxi.
Nessa tarde de outono, da estrada que ía de Kobe pelo Kokudô, os
plátanos iam largando suas fôlhas vermelhas e amarelas, associando-se à minha
tristeza... Alguns dias depois Riokai foi a Tókio para dar contas aos membros
do Gaimushô do que tínhamos feito no Brasil; êle fêz a esse respeito uma
conferência em que foi louvado; nossos trabalhos feitos durante a viagem ao
Brasil e Argentina foram expostos no Mitsukôshi (16) mas todos tinham a opinião
voltada para a grande tensão entre o Japão e a América; a guerra da China que
não estava terminada; a arte ficava bem atrás dêsses fatos importantes. Dois
meses depois que chegamos era declarada a guerra, todos pensavam que ía durar
dias, mas durou anos.
(16) MITSUKOSHI é a maior rede de lojas de departamentos do Japão.
Criada em 1673 por Takatoshi Mitsui em Edo (atual Tokyo) com o nome de
Echigo-ya, a loja foi a origem da fortuna e posterior formação do
"zaibatsu" (conglomerado industrial e financeiro) da família Mitsui.
Em 1908 a empresa abriu uma grande loja de departamentos estilo europeu em
Tokyo e atraiu consumidores organizando exposições de arte. A rede foi
rebatizada "Mitsukoshi" em 1928. Depois da Segunda Guerra e após
enfrentar dificuldades financeiras, a rede se recuperou financeira e
comercialmente, enfatizando moda e arte. A partir de 1971, com a abertura de
uma loja em Paris, a empresa se internacionalizou, com filiais em Roma,
Düsseldorf e Singapura, especializando-se em expor obras de artistas contemporâneos
japoneses, além de possuir 15 modernas lojas no Japão.
Em meados de 1942 houve um navio de troca de diplomatas e o cônsul A. de
Magalhães, que estava prêso em sua residência em Suma, pôs meu nome na lista de
passageiros e me predisse o que ía acontecer. Mas eu não tive a coragem de
partir e deixar Riokai... Recusei essa ocasião única por amor e fidelidade a
meu marido... O país inteiro esperava a Vitória - eu nunca pensei que o Japão
ganhasse; depois de quatro anos de guerra com a China, começar nova guerra com
a América, foi uma diabólica loucura inspirada por Hitler; foi êle o causador
da desgraça do Japão, a sua sombra infernal.
Atrás de nossa casa havia uma importante linha férrea, que ía do norte
ao sul do país; por ali passavam todos os dias os trens repletos de soldados
que gritavam pelas porteiras Banzai (viva o Japão), os coitados, mal sabiam
êles que sair do Japão era morte certa; nenhum navio de guerra partia sem ser
torpedeado mais adiante; as águas japonêsas estavam infestadas de submarinos
americanos. O Japão foi entristecendo, os mercados fechados, a ração cada vez
mais reduzida. Os jornais e o rádio só anunciavam vitórias.
De
fato, no princípio o Japão conseguiu ir longe:
Indo-China, Filipinas,
Hong-Kong, tôdas as ilhas do Pacífico, a Mandchúria
mas foram vitórias
efêmeras. O govêrno militar só pregava à
população os maiores sacrifícios. Não
havia gasolina e foram tôdas as conduções
suprimidas, os carros particulares
tomados; só ficaram os bondes elétricos, de longe em
longe e os trens onde era
quase por milagre que se conseguia entrar; além disso, para se
viajar
precisava-se de uma licença da polícia.
Eu e Riokai resolvemos pintar o que nos rodeava, paisagem era só por
perto, as flôres de nosso jardim, croquis, um posava para o outro; assim fiz o
retrato de Riokai, de pulover azul, sentado perto de sua caixa de tintas - está
no meu atelier e o vejo todos os dias. O que nos interessava na nossa vida era
trocarmos idéias; líamos muito, e comentávamos nossas impressões; os dias se
passavam em Ashiá entre o trabalho e o estudo, visita aos amigos que moravam
perto, passeios de bicicleta à beira-mar e a esperança de dias melhores. Houve
ainda uma exposição, que fomos ver no Daimaru (17), e Akashi de crisântemos;
essas maravilhosas flôres, belas como sempre, não conheciam os malefícios da
guerra. Suas côres suaves e outras vibrantes de delicado perfume; há sociedades
no Japão de cultivadores especialistas em crisântemos; muitos apresentam uma
flor só de perfeição absoluta com suas fôlhas recortadas verde-escura,
esmeralda. Desde a mais remota época, que o símbolo imperial foi o crisântemo
de ouro de dezesseis pétalas. Essa flor inspirou pintores e poetas, nas
decorações de leques, quimonos, lacas e quantidade de objetos de arte.
(17) DAIMARU é uma rede de lojas de departamentos com sede em Osaka.
Atuando hoje fortemente na área de supermercados e restaurantes, a Daimaru
começou em 1727 em Kyoto como uma loja de roupas. Desde 1960 internacionalizou
suas operações, abrindo filiais em Hong Kong, Tailândia, Paris, Singapura e
outros países. Atualmente está associada a outra grande empresa do varejo, a
Matsuzakaya.
1943 apareceu sombrio e triste, promissor para nós das mais cruéis
calamidades; a única alegria que tive nesse funesto ano foi o dar dia 1º de
junho no Instituto Franco-Japonês de Kyoto, um recital só de músicas de
clavecinistas franceses do século XVIII. Depois de jantarmos a convite do
diretor do Instituto, sr. Marcel Robert, desci à sala de concêrtos onde havia
um soberbo piano Erard. Fui muito aplaudida pelo auditório, que era composto
quase só de estudantes. Quando voltamos para casa, Riokai, me beijando, disse:
"você não sabe quanta alegria me deu você ao tocar ontem à noite. Tirou
várias fotos, com o grande buquê de rosas que recebi.
Daí em diante minha vida ía para um triste destino. O último dia do
calendário ía me levar meu grande e incomparável amigo, o meu grande amor...
Nos meados de julho começou êle a ter estranhos distúrbios que se localizavam
na cabeça, nos olhos, via manchas vermelhas e permanente dor de cabeça; logo
vieram outras perturbações cada vez mais graves. Em setembro fomos passar uns
dias em Árima, lugar de altas montanhas com fontes de água fervendo; parecia
que tudo concordava com a nossa angústia, quando senti uma espécie de trovoada
e em seguida fortes tremores e violentas sacudidelas. Compreendi que era um
terremoto - nosso quarto dava para profundos abismos; Riokai estava deitado e
eu petrificada pelo mêdo; minhas mãos pareciam garras que se tinham grudado
nêle. Tão calmo, êle me dizia "vai passar, vai passar"... Pensava êle
melhorar com êsses banhos mas qual, dali voltou pior. Os médicos não atinavam
com a doença mas quando tiraram as chapas da cabeça, a terrível moléstia se
revelou, tumor maligno no cérebro. Eu não sabia que existia no mundo doença tão
medonha. Em outubro êle foi internado no hospital da Universidade de Ossaka.
Foram três meses de cruciantes sofrimentos, para êle e para mim. Eu tinha uma
amiga desde que cheguei ao Japão, Natsuko Ueno, que não me largou na desgraça.
Ficou me ajudando, compreensiva, falava a minha cunhada Kyoko-san que não me
fizesse sofrer ainda mais com suas impertinências. Devo muito a esta querida
amiga; ficou para sempre na minha gratidão. Não havia recursos, remédios,
médicos, nem mesmo alimentos nesse hospital; tudo estava voltado para a guerra.
Dia 31 de dezembro a morte o levou. Eu fiquei muda, atônita, não
compreendendo nada, de tanto sofrimento inútil. Fiquei ali na casa triste e
vazia vendo-o por todos os lugares e ouvindo sua voz me chamando no jardim...
Eis o epílogo de minha vida de arte no Japão, estreitamente unida à vida
e à arte de Riokai Ohashi.
Viúva! Custei muito sobreviver a tão grande infortúnio. O sobradinho em
que morava ficou triste, silencioso e no meu pensamento sòmente persistia
Riokai, pois há poucos dias estava ali na cama e eu podia ainda ouvir sua voz.
Agora pairava a terrível verdade, o enigma estava m devorando.
Como os dias eram longos... janeiro, o mês mais frio do Japão, com dias
curtos e escuros. Não podia fixar a atenção em coisa alguma, nem ler, nem
pintar, até mesmo êsses refúgios me eram vedados. Assim passava o tempo
sòzinha, pois senti como que abandonada mesmo pelos amigos quando sentem os
estigmas da morte, a tristeza da alma... e ninguém quer contato com êsses
párias... Solidão completa, passei vários meses no abandono. Minha cunhada
Kyoko sumia e eu sentada no degrau da porta ficava tirando matinhos, como por
ser inverno era raro. No jardim tudo era tristeza.
A guerra persistia cada vez mais feroz. Passados alguns dias fomos levar
as cinzas de Riokai à Hikone, no templo em que êle conhecia o Bonzo. No Japão
existe um costume que sempre achei horrível: depois da incineração repartem as
cinzas do morto entre os membros da família que a depositam dentro de um
saquinho no oratório da casa e o restante atiram num templo comum em Kyoto.
Empenhei-me para que o guardassem inteiro em Hikone as cinzas de Riokai, pois
sempre tive horror a essas coisas fúnebres e para tratar disso imenso foi meu
sacrifício.
Para ir a Hikone nesses malditos templos era uma dificuldade, tomava-se
o trem até Kyoto, lá baldeava-se para um outro comboio até atingir Hikone. Os
trens iam apinhados, bombardeavam as linhas e levavam muito tempo para
consertá-las. Hikone era uma pequena cidade da província e eu, estrangeira era
logo notada, apesar de estar acompanhada pelo meu cunhado e Kyoko-san, ficavam
pasmados ao me verem.
Fomos várias vêzes para as cerimônias do templo. Para a volta era
duvidoso conseguir lugar no trem que vinha superlotado de longe e parava muito
pouco. Certa vez viajei no lugar em que os vagões se unem, de pé e sacudida
pelo correr das rodas, chegando em Kyoko desfalecida.
A minha distração em casa era a de colhêr nas montanhas as flôres de
pinho que o vento fazia cair e que se encontravam perto das cêrcas. Serviam
para fazer fogo na cozinha, pois não havia gás, nem eletricidade, nem lenha,
nem carvão e nem mesmo fósforos, tendo-se que empregar o sistema milenar de
atrito entre duas pedras para se conseguir uma faísca.
Ia-se ficando cada dia mais pobre e miserável. Ração só tinha o nome, já
não davam mais nada e cada um que se arranjasse para não morrer de fome.
Conhecia uma Senhora, cujo marido tinha trabalhado no escritório de uma
companhia em São Paulo. Apiedou-se de mim e, às vêzes, ia eu à sua casa para
ver se o "hiakucho" (camponês) havia trazido alguma coisa. Às vêzes
vinham verduras, nabos, couves, batatas e quando se tinha muita sorte também
ovos. Levava êle essas coisas numa mala de roupas e de madrugada para disfarçar.
A boa amiga dividia comigo algumas verduras, entretanto para eu chegar à sua
casa era um não acabar de perigos. Tomava um trem na linha de Hankin, o qual
vinha repleto. Era preciso entrar de gatinhas por entre as pernas dos
passageiros! Estava eu protegida por um capuz e uma capa acolchoada, a fim de
atenuar os estilhaços em caso de bombardeio. Levava uma sacola prêsa às costas
com os meus documentos, jóias e remédios, pois não sabia se ao voltar
encontraria minha casa no lugar.
O trem passava por uma ponte estreita, sôbre um rio sêco e cheio de
pedras. Pelo fato de estar superlotado inclinava-se perigosamente e eu fechava
os olhos de mêdo. Chegando a Nishinomiá (Nishinomiya), estação de entroncamento
de linhas, demorava um bom tempo e assim eu podia ver as fundas covas por tôda
parte, às quais chamavam de abrigos. Sòmente terra e nenhuma cobertura.
Houvesse algum aviso de aviões inimigos e todos teriam que sair do trem e
ajeitar-se ali. Quando as bombas caiam naqueles buracos soterravam os abrigados.
Em Kobe existia uma rua comprida e larga que ia do centro até as
montanhas e de um lado e outro só existia essa espécie de abrigo. Durante a
noite muita gente ali caia e não mais podia sair.
Não havendo nenhum aviso de aviões inimigos o trem novamente se movia.
Descia eu em Mokudonosor, andava meia hora a pé até a casa daquela amiga. Às
vêzes, o tal campônio que trazia as verduras não tinha vindo. O meu coração
batia quando ela dizia: veio! Levava uma trouxa que punha sôbre a cabeça e aí
começava o suplício do mêdo. Já ia escurecendo e todo homem que eu visse, mesmo
de longe, me gelava, pensando ser da polícia civil. Era bárbaro o que se
contava acêrca de pessoas que tinham sido apanhadas com alimentos de qualquer
espécie. Eram levadas à delegacia e de lá às prisões, tanto as que compravam
como as que vendiam, sendo confiscado o produto.
Chegando novamente em Mokudonosor (estação perto de Ossaka) esperava o
trem. Era preciso, porém, que não houvesse bombardeios nessa cidade, caso
contrário só teria condução no dia seguinte e eu na plataforma tremia de
terror, com meu capuz, capa acolchoada e calças, cocm um calor de trinta e
cinco graus. Mas, pensava eu na minha preciosa trouxa que trazia, nos nabos,
cenouras, batatas... e dizia lamentando: Senhor! porque vim? poderia ter
evitado êsse perigo e êsses sustos!
Não chegando o comboio de Ossaka teria que passar a noite em um daqueles
buracos a que chamavam de abrigos. Não, nunca mais virei! E nisto o trem
aparecia numa curva e logo me enfiava por entre as pernas dos que estavam em
pé, com meu fardo.
Lá ia eu pelo mesmo caminho, parando em cada estação até chegar a Ashiá,
onde eu fazia um supremo esfôrço para poder sair do trem ficando novamente na
plataforma. Kyoko me esperava com a bicicleta e pondo tudo em cima da mesma e
sem dar uma palavra ia-se andando até a casa. Muitos me perguntavam porque
Kyoko San não ia em meu lugar. Ela, porém, preferia morrer de fome e expor-se
como eu a sustos de tôda sorte.
Comendo o menos possível, tinha-se alimento por alguns tempos. Os dias
de 1944 passavam vagarosos e incertos e eu me recordava de meu recente passado,
para isso tinmha lazer.
Será que Riokai tivera o horrível pressentimento de seu próximo fim? No
triste ano de 1943, êle que nunca havia feito nenhum auto-retrato, fêz diversos
a óleo, desenhos a sépia onde se representava com uma expressão atormentada.
Outra coisa inédita, eu sempre detestei seguros de vida, o govêrno estava
fazendo propaganda para que todos fizessem. Não queria que Riokai aderisse. Um
dia bateram à porta e êle atendeu; um empregado da companhia de seguros,
disse-me depois que êle o fizera em meu nome. Fiquei triste...
Uma coisa a que nunca me acostumei no Japão foi com os terremotos. Certa
ocasião acordei com as trovoadas subterrâneas e logo depois a casa começou a
mexer-se. Um grande terremoto para mim foi o de Ossaka. Ao chegar no
Matsuzakayá, ouvi como que uma verdadeira orquestra, produzida pelos vidros das
janelas de todos os andares. Olhando para o fôrro, vi-o mexendo, também as
portas e o edifício todo vibrava. Estava eu gelada de terror e queria fugir
para a rua, mas me agarraram dizendo que fóra era muito mais perigoso. Os
telefones rompidos e nada de eu poder comunicar-me com Riokai.
Todos êsses fatos nada eram em minha vida atual. Ver todos os dias o meu
pequeno atelier vazio e desolado e tudo quanto êle tanto amara. Tanto zêlo. sua
caixa de pintura, tintas, pincéis, roupas, no quartinho pegado durante muito
tempo não entrei, ali estava tudo o que êle tinha tanto apêgo... que coisa
cruel a morte. Nada se leva do que tanto se ama. Muitas vêzes pensei em sair
dessa casa, mas como não havia meios de se arranjar outra tive que ficar à
fôrça nessa sinistra morada, onde tudo me lembrava minha recente tragédia. Tudo
a respeito da guerra ia piorando durante êsse ano de 1944. Em junho fiz
exposição das telas de Riokai no Daimaru de Ossaka e apesar da guerra foi
concorrida, vendi uns quadros. Ainda em outubro de 1944, fiz em Tókio no
Mitsukoshi, a exposição dos quadros de Riokai, tendo sido um fato heróico na
minha vida. Eu e minha cunhada Kyoko fizemos a embalagem, costuramos as telas
com lona e tivemos que carregar todo êsse pêso até a estação que formigava de
gente que esperava dias para embarcar. Uma horrível confusão passei com aquêles
embrulhos e mais uma sacola às costas com alimentos para uns dias, e a angústia
de não poder embarcar. Só mesmo a título de promessa tentava-se semelhante
viagem!
Tanuki (texugo)! foi a última alegria que dei a Riokai, quando êle
voltou do hospital em vinte de dezembro de 1943. Como êle gostava muito de
cachorros, fui a Kobe e ainda encontrei uma casa que vendia animais, ninguém
queria, como nutrí-los? Comprei um cachorrinho de pura raça japonêsa Nihon-Ken,
lindo, côr de pão torrado, orelhas triangulares e têsas, focinho prêto. Custei
a trazer êsse bicho no trem, comprimido e de pé, mas Riokai ficou tão contente
que compensou e, meu cunhado Hideo a dizer que eu estava louca em trazer êsse
cão. Coitado, sofreu horrores durante a guerra, conheceu os tormentos da fome!
Até roupas, toalhas, meias, papéis, tudo sumia e depois eram encontrados nos
escrementos. Ficou só com a pele nos ossos, esquelética e por algum tempo foi
preciso escondê-lo, pois quem possuia animais precisava dá-los ao govêrno, suas
peles eram utilizadas para agasalhos dos soldados.
Os americanos a partir de 1945 vinham cada vez mais a miúdo bombardear
as cidades abertas, primeiramente Nagasaki, Tokio, Yokohama, Nagoya, Kobe,
Ossaka e Hiroshima por último.
A princípio só vinham à noite e a pouco e pouco a qualquer hora ouvia-se
um tremendo ronco e bombardeios. O troar dos canhões anti-aéreos enchendo o ar
de terríveis estrondos. Nos últimos meses antes do armistício as incursões de
aviões inimigos B-28 vinham em grupos de trezentos, num barulho infernal, voando
perto dos telhados, jogando bombas incendiárias a torto e a direito sôbre
quarteirões inteiros residenciais. Vi certa noite arder em alucinante fogueira
Kobe! Não davam o menor valor às vidas humanas e mal se sabia quando terminava
o dia ou a noite. Além disso não havia alimentos de modo algum, mas a angústia
era tanta com os tremendos incêndios que não se pensava em comer. Eu só queria
salvaguardar as pinturas de Riokai, pois esperava que minha casa ardesse. Pedi
para alguns amigos ricos de Ashiá que guardassem num quarto especial as telas
de meu Riokai. Também havia conseguido por meio de amigos, numa roça longe,
lugar para meu piano de cauda numa estrebaria. Já estava tudo combinado. O
camponês deveria vir buscá-lo em um carro de bois, mas quando êle soube que eu
era estrangeira não quis mais!
Dia cinco de agôsto Ashiá foi quase que totalmente arrasada. Eu tinha
passado a noite com uns amigos perto da praia e vi de perto as labaredas que
cresciam de todos os lados, o crepitar do fogo, que faz sumir tudo. Pensei que
iria ficar nessa noite medonha. O mundo inteiro soube da terrível calamidade
que aconteceu em Hiroshima, menos no Japão. Os jornais deram uma notícia ínfima
sôbre uma bomba que havia aniquilado algumas pessoas, quando foram destruídas
em alguns segundos duzentas e cinqüenta mil vidas fóra os doentes que até hoje
permanecem. Felizmente essa monstruosa verdade não foi divulgada. Ter-se-ia
morrido de horror.
Dia quinze de agôsto veio por um têrmo a essa devastação de cidades e
vidas. O Armistício! A paz incondicional!
Ao meio-dia falou o imperador Hirohito. Parece que ninguém compreendeu,
tão ruim estava o aparelho. Ninguém acreditava, grupos de homens e mulheres
andavam pelas ruas em ruínas chorando e dizendo: perdemos a guerra! Ainda ontem
afirmavam que todos nossos sacrifícios iam ser compensados pela vitória.
Enganaram-nos! Mas, todos estavam tão cansados que nem se podiam crer nessa tão
grande sorte de não ter mais os cruéis bombardeios. Ficava-se dormindo o dia
todo, não se podia crer na delícia de não ser metralhado.
Nos últimos dias antes do armistício não se podia mais sair de casa... e
nem entrar: metralhavam a gente a domicílio! Já se podia comprar alguma coisa:
nabos ou couves no mercado negro, sem ser prêso e muito tempo se passou assim.
Por tôda parte só ruinas, lixo, moscas e ratos invadiam o fôrro das
casas e de lá caia sôbre a gente um pó prêto movente, eram as pulgas
provenientes da urina dos ratos e provocavam coceira no pescoço e inflamações
pelo corpo. Kobe era um monte de lixo.
tudo o que não havia sido aniquilado estava fechado. Viam-se famílias
inteiras, encostadas nas paredes da estação. Ficavam ali sem alimento, sem
amparo, sem lar. Tinham perdido tudo e muitos morriam de fome à espera da
Divina Providência.
As tropas de ocupação americanas entraram depois de meses. Eu tinha ido
a Suma e na volta passando por Kobe foi que, precipitadamente fecharam as
portas da estação e começaram entrar os batalhões americanos. Os mais valentes
na frente, barbudos e de mais catadura, empunhando os fuzís e arrastando
canhões e apetrechos de guerra. Temiam represálias do povo, mas nada. Tôda
gente fugia e tinha mêdo dêles. Depois chegaram as tropas negras, batalhões
intermináveis. Os japonêses estavam apavorados, nunca tinham visto pretos. Pouco
a pouco o Japão inteiro encheu-se de soldados americanos, nas cidades e roças,
por tôda parte onde se ia lá estavam êles de farda caqui, bem alinhados, bem
calçados, bem nutridos. Tinham pulseiras de relógio, anéis com pedras de côr e
diziam que era o govêrno japonês que pagava tudo isso, inclusive os bordéis!
Corriam de jipes e andavam, nas farras. As moças se entregavam em troca de
alimentos, eram só festas, bailes e ao lado, diante de nossos olhos, famílias
inteiras morrendo de fome. Comecei a visitar meus amigos, o sr. Harada e
família que tinha sido um ótimo amigo de Riokai e que muito me ajudou. A mãe de
uma boa aluna, a sra. Matsui, o pintor Koisso, o poeta Takenaka, perderam tudo
nos alucinantes incêndios de Kobe. A sra. Celeste Cabral, espôsa do cônsul de
Portugal, os Coutos que moravam perto de Kobe, Henriette Hauchecorne que era
professôra no Instituto Franco-Japonês de Kyoto.
Tive como alunos de pintura dois oficiais americanos. Um dêles falava o
francês, o sr. Ide. Eram tão altos que se abaixavam para poderem entrar na
porta de minha casa, pagavam as aulas com maravilhosas rações. Passei a
conhecer as melhores conservas americanas, perús inteiros. Era só aquecer no
banho-maria e tinha-se um fumegante bôlo, delicioso e macio. Bombons de
chocolate, caixas inteiras de cigarros. Fazia anos que tinha me esquecido
dessas doçuras da vida... Eu e minhas cunhadas comíamos e ainda dava para
presentear meus amigos japonêses. Ficaram um ano comigo êsses alunos, eram
gentis e bem educados. Apresentaram-me ao Comandante em Chefe das tropas de
Kobe, sr. Kutcheon que gostava de pintura e que me comprou várias telas de
flôres, o que me ajudou viver por mais dois anos. Também arranjou para que eu
expusesse meus quadros em Yokohama no grande hotel, mas nada vendi.
Como minha casa não tinha queimado, ia vendendo os cortes de lã que
trouxera de Buenos Aires, a pêso de ouro e assim ia vivendo onde tudo subia de
preço devido a terrível inflação. Tinha também uns alunos de piano, mas isso
nada rendia.
Nessa época produzi muito pouco, estava desanimada e desamparada, apesar
de Riokai ter me deixado uma provisão de telas, tintas, pincéis em quantidade
suficiente para abrir um comércio. Até hoje tenho parte dêsses materiais. essa
fartura, porém, estava longe de me estimular.
Fiz uma exposição de trabalhos meus em Kobe a convite de uns colegas,
que se encarregaram de armar a exposição, porém nada vendi.
Pintava paisagens pelos arredores, mas tão triste e sempre com Riokai no
pensamento... O último ano em que pintei foi 1948, perto de Takarazuka,
Shu-Kugawa. Só pensava nas obras deixadas por Riokai, sua carreira brutalmente
rompida. Meu coração dizia que só eu poderia salvar do esquecimento seus
trabalhos, escrevendo sua vida, publicando suas obras. Essa idéia cada vez
tomava mais fôrça, até tornar-se uma realidade.
Os obstáculos eram grandes, não tinha meios, ficava caríssimo, em tudo
surgiam dificuldades. Não havia papel nem mesmo no câmbio negro, placas de
metal para impressão, côres, gente especializada para êsse trabalho de arte.
Tudo estava desorganizado.
Já tinha feito um esbôço sôbre a vida de Riokai em francês. Estive
várias vêzes em Tokio, voltando sempre decepcionada, pois várias telas que
desejava reproduzir em côres com tradução em japonês nenhum literato queria
fazer. Todos os dias trabalhava nessa obra que para mim era gigantesca, pois
minha saúde ia mal e no mês de abril pensei que fôsse meu fim. Uma crise
cardíaca como nunca havia tido e que curei sem remédio algum. Vieram médicos,
mas as farmácias continuavam fechadas e vazias.
Restabelecida, continuei vendendo tudo quanto podia para a publicação do
livro. O sr. Marcel Robert, diretor da Casa Franco-Japonêsa de Kyoto, muito me
ajudou nessa tarefa apresentando-me ao grande escritor Mijamoto Massakio que
aceitou fazer a tradução.
Em outubro de 1947 tive a imensa satisfação de ver o belo livro com
algumas obras de Riokai Ohashi, publicado pela editora de livros de arte Nippon
Insatusu Cie. de Kyoto. Foi uma alegria tão grande que me compensou de todos os
tormentos, dúvidas, dificuldades incríveis que cercaram a publicação dêsse
livro e que considero um triunfo na minha vida.
Na primeira exposição do livro francês, depois da guerra, foi exposto
juntamente com as telas "ruas" de Paris, na casa Franco-Japonêsa de
Kyoto. Para a inauguração veio o embaixador e vários diplomatas francêses a
quem vendi algumas ruas de Paris que foram muito apreciadas por êles.
Nesse mesmo ano comprei a casa onde morava em Ashiá, vendendo os cortes
de lã e mais um brilhante que foi de minha mãe. Tudo se comprava e se vendia
por verdadeiras fortunas.
O que me preocupava era não poder ler os caracteres chinêses e não poder
escrever. Falava o suficiente para me fazer compreender, porém isso não bastava
e tinha sempre que pedir a outros para escrever e me explicarem a resposta.
Nada de receber notícia do Brasil, o que me aumentava a tristeza e a
idéia de abandono. Muitos japonêses que conhecia e vizinhos recebiam pacotes e
cartas pela Cruz Vermelha, só para mim é que nada vinha! Certo dia, porém,
recebi num pacote um verdadeiro tesouro. Tinha de tudo, tudo o que eu tanto
desejava: sabão, açúcar, chá, café, fósforos, agulhas, coisas preciosas, e
tempos depois mais outro pacote. Eram meus bons e generosos amigos de Buenos
Aires, sr. e sra. Yokohama que me mandaram pensando na minha extrema penúria. A
primeira carta que recebi do Brasil foi de uma querida amiga, Maria Paula de
Barros Monteiro, uma carinhosa missiva me sugerindo voltar. Mas como? Não havia
navios para o Brasil, tinha que se ir via São Francisco atravessar a América
até New York e dalí esperar um navio até o Brasil.
As dificuldades eram enormes, impossíveis, incríveis. A verdadeira
batalha que empreendi foi arranjar licença para fazer o passaporte que levou um
ano e meio para conseguir.
Vendi a casa e meu belo piano de cauda. Adquiri uma casinha que estavam
construindo para minha cunhada Kyoko para não a largar na rua. Dei-lhe as
mobílias, a máquina de costura, e algum dinheiro no banco deixei uma parte dos
quadros de Riokai que não podia trazer, em prateleiras bem arrumadas na sala da
frente.
Que tristeza dividir, liquidar tudo o que foi meu doce e trágico
passado: pinturas, livros, roupas, objetos de Riokai me falavam com
eloqüência...
O sr. Kodera, prefeito de Kobe, antes que eu partisse (um senhor de
idade que conhecia e apreciava o Brasil) me incumbiu de levar duas riquíssimas
bonecas japonêsas com quimonos bordados a ouro, dentro de suas caixas de vidro
- uma para o Prefeito do Rio de Janeiro, sr. Mendes Moraes, outra para o
Prefeito de São Paulo, sr. Asdrubal E. da Cunha e uma menos importante para
mim. Também me deu para entregar oficialmente duas cartas, uma a cada Prefeito.
Os dias iam se acabando. Tive que ir, devido ao passaporte, diversas
vêzes a tokio, pois era do Quartel General Americano que saia a ordem de
embarque, mas não era muito certo, havia gente que no último momento ficava
impedida de embarcar. Os exames médicos eram minuciosos e durante um mês tive
que ir a Kobe fazer tôda sorte de injeções contra varíola, tifo negro, peste
bubônica, febre amarela... algumas me levaram para a cama com mal-estar e febre
alta. Além disso radiografia dos pulmões, exame de fezes minucioso, porque em
caso de vermes era proibido embarcar; exame de sangue e ginecológico
(felizmente fui isenta. Era o govêrno americano que exigia todos êsses exames).
Os japonêses não podiam sair do Japão e aos poucos estrangeiros que
queriam sair, criavam tôda sorte de dificuldades.
Todos os dias vinham jornalistas para me entrevistar e eu ocupadíssima
com numerosa bagagem espalhadas pela casa. Não tardou que eu tivesse uma gripe
das bravas que me levou à cama com febre alta, garganta esfolada, dor de cabeça
alucinante. Pensei não poder embarcar e minhas cunhadas foram colocando de
qualquer jeito nas malas o que estava pelo chão. Isto me causou depois sérios
transtornos, pelos documentos necessários que eu não achava mais, pensando
tê-los perdido.
Dia 19 de março de 1949 amanheceu com um vento gelado e tempestade de
neve. Fiz um esfôrço supremo para vestir-me e arrumar as maletas e dizer adeus
a Tanuki. Já estava na porta o automóvel da sra. Matsui me esperando, que me
levou até o cais.
Os flocos de neve enchiam o ar e as montanhas de Ashiá estavam tôdas
brancas. Nesse triste cenário meu coração silenciosamente chorava. Adeus Ashiá,
adeus Riokai querido... fui tão feliz e infeliz nesses sítios. Tiritava eu no
meu paletó de raposa, com um lenço na cabeça e minha febre. A gripe estava se
instalando em mim por quase um mês.
No cais foi que vi o cargueiro holandês "Straat-Malakka" que
iria me levar ao Brasil em três meses e uma semana.
De todos os lado surgiam amigos vindos de longe. Recebi um enorme
ramalhete de cravos vermelhos que ainda mais me entristeceu. Um embarque assim
para quem nunca mais volta tem alguma coisa de fúnebre.
Subi a escada. Meus amigos passaram a tarde comigo até o gongo dar o
sinal da partida. Aí foram as despedidas definitivas e minha tristeza e
angústia pioraram meu estado.
O "Straat-Malakka" ia se afastando do cais e a única
passageira no convés era eu com olhos inchados de tantas lágrimas e agitando o
lenço em um último adeus. Uma nova vida começava para mim.
O meu camarote ara grande, todo branco e nôvo, com uma janela para o
mar. Os "boys" eram chineses e falavam muito pouco o inglês.
No dia seguinte aportamos em Nagoya e recebi a visita de um casal amigo,
sr. e sra. Hatia que conheci no Rio em 1940. Eram ricos industriais que me
contaram as máguas que haviam passado durante a guerra e que tinham perdido
tudo. E agora não os deixavam voltar ao Brasil. Estavam passando verdadeira
miséria.
Sentia-me cada vez pior, parecia que me haviam raspado a garganta e já
não podia engolir, uma tosse violenta que levaria dias e noites sem cessar.
Yokohama me reservava ainda tristes momentos. Tôda a família de Riokai
ali veio: meu sogro, minha sogra, minhas cunhadas e o irmão de Riokai, Hideo.
Estava eu de cama e todos tristes choravam. A minha sogra fêz-me prometer que
voltaria depois de um ano. Coitados! Todos êles foram bons para mim. Senti-me,
com tantas emoções, acabrunhada que meu estado piorou depois que êles sairam.
Mandei chamar o médico de bordo, um chinês miúdo e sêco que me disse em péssimo
inglês que eu estava passando muito mal e que precisava sair do navio, por não
haver acomodações para doentes.
Isso me transtornou. Depois de haver liquidado tudo no Japão fiquei
curtindo minha nova angústia, quando bateram à porta. Fui abrir. O Comandante,
alinhado na sua farda azul, cortês e falando correntemente o francês, depois de
sentar-se disse-me: "Ouvi dizer que a Sra. quer descer do navio, é
verdade?" Apressei-me em responder: Não, Sr. Comandante! Estou bem melhor
e de modo algum quero sair, interromper uma viagem que esperei anos para
realizar. Respondeu-me êle: "Fique sossegada, pois só eu posso fazer
descer um passageiro!"
Depois de ouvi-lo melhorei. Passei alguns dias deitada sem trato algum,
sem comer e sem beber, tossindo sem parar. Pensava com serenidade: o mar será
meu túmulo.
CHANGHAI
Em Changhai não desci. No salão estavam as autoridades chinesas de
Chankai Chek (Chiang Kai-shek).Éramos só dois passageiros: eu e um rapaz
australiano.
Os chinêses estavam ríspidos. Os comunistas já se achavam nos subúrbios
e a queda de Changhai era iminente. Nesse pôrto embarcaram alguns passageiros,
entre os quais um grande gordo polaco que iria ser meu vizinho de camarote.
Êste passageiro seguiria até o Rio e sobressaiu-se pela voracidade em comer,
pois tinha na mesa um longo cardápio e repetia os pratos enchendo de surprêsa
os passageiros e de indignação os criados.
Em Hong-Kong já me achava melhor. Recebemos ordem para descer a fim de
sermos vacinados contra febre amarela, isto no hospital da cidade.
O naviio parou longe do cais e a tripulação inteira teve que ir. Mal
podia eu parar de pé e tive que descer a longa escada de cordas encostada ao
vapor. O mar estava agitado e assim entrei na barca que nos levou até o cais.
Depois de ter ido ao hospital, dei uma volta pela cidade, fui ao
correio. O centro estava animado, os bancos guardados por sentinelas armadas de
fuzís com baionetas. Tomei uma limonada em um bar, pois há anos não sabia o
gôsto do limão. Novamente me achei subindo a escada de cordas do "Straat-
Malakka" e suspirei de alívio por haver conseguido voltar.
Novos passageiros já haviam embarcado: um casal de inglêses, ela môça e
conquistadora, êle velho e sem pretensões. Os namoricos com os oficiais se
faziam nos corredores e às vêzes defronte à porta do camarote do velho marido.
Todos os dias essa dama de copas estreava um vestido que dava uma nota alegre ao
ambiente. Também a velha inglêsa que embarcou em Hong-Kong parecia curiosa em
seus trajes de mocinha, com seu rosto enrugado como papel crepon. Apresentou-se
no dia do aniversário da rainha Juliana com um vestido de filó cor-de-rosa e
uma guirlanda de rosinhas nos cabelos, as mangas curtas exibindo seus braços
com peles flácidas. "Miss" Violet tinha 82 anos de idade.
Nesse dia festivo todos os oficiais, capitão e passageiros (12) tinham
ido ao salão desde a manhã para festejar o aniversário da rainha. Uisque em
profusão e cantos. Até eu que nunca havia tomado essa bebida recebi um grande
copo, o qual sorvi aos goles, como se fôsse fogo.
Todos cantavam de Roterdam a Amsterdam de Amsterdam e Roterdam e
exclamavam: "Viva a nossa Rainha Juliana! Longa vida e feliz govêrno.
Viva!"... Depois fomos para a mesa onde foi oferecido um magnífico
banquete, coisas deliciosas, tudo servido em toalha branca, imaculada, belas
porcelanas, talheres de prata e finos cristais. O luxo nesse navio era a mesa
com iguarias bem feitas e em profusão.
Agora tinha tempo de relembrar meu passado e interrogar o futuro. Todos
os portos que eu conhecia, exceto Penang e Manila, foram anunciados mas eu já
não tinha mais aquêle interêsse feliz de quando passei com Riokai em 1940.
Convenci-me de que o melhor seria fazer como as conchas - fechar-me na minha
casa de madrepérola, sendo os contatos com o mundo, só o sussurro do mar e o
ritmo das máquinas da ilha flutuante em que estava vivendo.
A única coisa que aproximou um dos outros era a mesa. Em Manila, desci
com o camarada Ivanovitch - êle só pensava em comer as frutas do país, nada
mais o interessava. O calor em Manila era tórrido. O cais, longe do centro,
ruínas por tôda parte; diziam terem sido os recentes bombardeios.
Depois de fretar um táxi, percorremos grande parte da ilha. Gostei de
ver as "carromatas" (caleças) no estilo espanhol com duas grandes
rodas pintadas de vermelho, puxadas por fogosos cavalos enfeitados de pompons
vermelhos. Achei lindo o traje nacional das mulheres, enormes mangas de organdi
como se fôssem asas, gracioso chale em ponta atrás e cruzando na frente sôbre
um corpete bem ajustado, a saia branca e comprida de baixo aparecendo tôda
bordada. Diziam que era um traja caríssimo e que era o motivo pelo qual se viam
poucos. Admirei-me também com o número elevado de conventos e igrejas, sendo os
subúrbios muito pobre habitados pelos nativos.
Para voltar ao navio, entramos numa limusine tôda nova, verde-alface.
Com os últimos raios do sol, subimos a escada do Straat-Malakka.
O cais estava entulhado de grandes caixas de pinho, sacos, etc. Ia-se
trabalhar tôda a noite para carregar nos porões do navio.
EM TRÂNSITO ATÉ SINGAPURA
Até lá, mar e céu, mais oito dias. Lia, pensava, escrevia, desenhava. À
tarde ia fazer croquis no deck e vêr os peixes voadores - lindos, furta-côr -
lá dentro do mar deviam estar sendo perseguidos; procuravam fugir, alguns caiam
dentro do vapor e adeus, vida!
Também se via o dorso escuro dos tubarões, fazendo escolta em caso de
alguma eventualidade...
O mar, muito calmo, se movendo para dar passagem ao vapor; as noites,
profundas e estreladas, faziam-me sentir ainda mais a solidão. Juntos vimos
essas mesmas estrêlas, êste mesmo céu profundo. Amarga recordação dos tempos
felizs...
Não podia conversar com outros passageiros por falar muito mal o inglês,
nem jogar bridge, nem flertar. Depois do jantar ia ao salão "fumoir"
- ficava vendo os viajantes se ajeitando nas mesinhas quadradas de bridge, os
"boys" chinêses levando uísque e cerveja. Isso iria até de madrugada.
Eu pensava quanto longe me achava dessa gente. Ninguém para trocar uma
idéia. A cada pôrto eu havia feito croquis a lápis e a óleo, as paredes do meu
camarote estavam em permanente exposição, que fazia a admiração dos
"boys" chinêses, que vinham apreciar meus trabalhos. Eram os únicos
no vapor que se interessavam por arte...
SINGAPURA
Por entre ilhas verdes, o Straat-Malakka, numa bela tarde, entrou em
Singapura. Ia ficar parado uma semana neste pôrto.
Um calor abafador nos acolheu. Até se chegar ao centro, que era longe,
pude ver quarteirões pobres, superpovoados e sujos, ruas estreitas onde os
cheiros de diversas proveniências enchem o ar, incenso com baforadas de
alimentos fritos feitos em forninhos na porta da casa.
Tôdas as indianas de sari, usando braceletes nos tornorzelos e anéis nos
dedos dos pés, entre os cílios ou na asa do nariz, uma pedra preciosa
incrustada.
No centro, o estilo dórico para os edifícios públicos, com suas colunas
e escadarias, teto de templo grego bem ao gôsto dos inglêses. Viam-se indianas
elegantes, de saris de côres vivas, ornadas as beiras de franja de prata ou
ouro; muitas têm grandes olhos, que lhe tomam uma boa parte do rosto. Elas têm
muita linha no seu andar solene. Os homens, muitos usam a roupa ocidental, mas
todos de turbante - aí pode-se ver a casta, a religião, etc. Nosso chofer
ostenta uma vasta barba branca e um turbante côr-de-rosa!
Visitamos alguns templos induístas, com profusão de deuses até o
telhado.
Singapura é uma mistura de tôdas as raças do oriente: chinêses, malaios,
japonêses, árabes e europeus.
Houve um fato inesperado no vapor. Iam embarcar três elefantes.
Destinados ao Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, os paquidermes estavam no
cais, enjaulados. Tinham vindo dos confins da Índia, com seus donos, que
gritavam e falavam aos elefantes.
De cima do navio, eu apreciava êsse espetáculo único. Os curiosos
enchiam o cais, esperando ver como seriam levados para dentro do vapor. Tiraram
a tampa da jaula e depois de estar cada elefante bem amarrado pelo ventre, lá
ia êle levado por um possante guindaste, que o depositava no deck traseiro do
navio. Protestavam com fortes barritos, mas a habilidade dos homens era muito
maior que a fôrça dêles.
Foram todos acorrentados pelos pés. Nos primeiros dias, nada queriam
comer. Com a ponta da tromba, como uma mãozinha, pegavam as mirradas maçãs, que
levávamos. Depois de as provarem, jogavam-nas violentamente.
Todos os dias ia-se ver os elefantes, que nos olhavam com seus olhinhos
minúsculos e inteligentes, suas enormes orelhas como leques, sempre em
movimento.
PENANG
Pequeno pôrto da península malaia, com seu cais de tábuas desjuntas.
Desci com miss Violet, para visitar um templo budista num arrabalde longe.
Passamos pelo centro pequeno e pobre; depois de alguns quilômetros de estrada
de terra e capinzais de ambos os lados, apareceu o velho templo com sua larga
escada de pedra, solene e altiva, seu telhado de pontas, recurvado, com suas
telhas de porcelana verde como se fôssem novas. Davam-lhe muita beleza.
No altar principal havia uma quantidade de serpentes nascidas na
véspera! Na profunda cisterna ao lado, um enorme ofídio vivia. Fiquei
horrorizada.
Na saída, um bonzo convidava os visitantes a deixarem o nome e um
donativo. Eu dei uma ínfima moeda inglêsa. Miss Violet correu na frente para
nada deixar! O bonzo, lá da escadaria, chamava-a como se fôsse u'a maldição.
Teremos agora muitos dias de mar e céu, para sair do Oceano Índico, e
entrar no Atlântico.
O primeiro pôrto da África foi Mabasen, depois, Zanzibar, Dar-es-Salan,
essas colonias sob o protetorado inglês, tôdas muito pobres.
Beira, Lourenço Marques, Colonias Portuguêsas, onde o prêto quase não é
gente, cidades miseráveis e feias onde se sente um govêrno atrasado. Enfim,
Durban.
DURBAN
Durban marca o maior percurso da viagem. Quase todos os passageiros
desembarcam - desce também miss Violet, que a essa altura já não me conhece
mais!
O navio vai ficar uma semana nesse pôrto para a limpeza geral. Todos os
dias saio com o sr. Ivanovitch. O cais é longe do centro e tem que se ir a pé
ou então num riquixá, espécie de aranha, com dias rodas e dois lugares, puxado
por um homem, ataviado de plumas como um selvagem - os inglêses gostam disso.
Como já descrevi na viagem que fizemos em 1940, êsses portos em que
tocamos, vou ser mais breve. Durban é uma importante cidade com seus grandes
edifícios públicos, uma bela praça tôda ajardinada, onde domina uma imponente
estátua da rainha Vitória, em frente à Ópera e as ruas que saem praça, de um
lado e de outro, o belo comércio de luxo - imensas vitrinas com vestidos de
noiva, padrinhos e convidados; grandes bazares e preço fixo, com lindas
vendedoras de pele branca e cabelos louros; bares de estrita limpeza. Tomamos
um bonde de dois andares, como em Londres, e vamos até o ponto final.
Percorremos as ruas do centro, os bairros residenciais com belos jardins e os
subúrbios nada de se ver prêtos!
Na véspera do Straat-Malakka partir, fui ao mercado de flôres e comprei
um enorme buquê de cravos vermelhos; mandei pôr na mesa, bem na frente do
comandante. Ficou tão contente, olhava de perto e parecia aspirar o perfume das
flôres; o olhar em soslaio, percebi que êle beijava um cravo...
Sempre a possante voz da sereia, que me enche de nostalgia, estava
anunciando a partida... As gaivotas, seguindo o vapor e depois a noite...
PORT ELIZABETH
Port Elizabeth. Tôda a tarde fiquei no cais, pintando o Straat-Malakka.
Havia alguns novos passageiros, um enorme tchecoslovaco, um casal de velhos
alemães, que iam a Buenos Aires e que se lamentavam por terem sido roubados de
todos seus haveres, assim que entraram no vapor! E mais outros viajantes, que
iam a Buenos Aires.
Capetown. É inverno, faz frio e começa a amanhecer às oito horas! O
aquecedor do navio funciona. Abro a mala para tirar agasalhos de inverno,
vestido de lã, luvas. O centro é longe; quero rever o Botanic Garden. Entro
pela grande porta dêsse jardim; estou sòzinha, andando pelas alamedas de
platanos que desprendem suas folhas amarelas - e o chão fica coberto de ricas
côres. Lembro-me daquele dia feliz em que passei por essas mesmas aléias com
Riokai, mas era primavera e tudo estava verde... Sento-me um momento num banco
para apreciar, adorar os quadrados de roseiras em flor - são só rosas
perfumadas e belas, como se tratasse de uma festa para alguma divindade!
Estou de volta; mal posso andar com meu pesadíssimo casaco azul-claro
feito de um cobertor americano, que consegui comprar no Japão. Sinto as
vibrações do Straat-Malakka; sopra e se mexe; cada vez que sai do cais, parece
que habito o peito de um enorme gigante. O mar bate contra seu corpo de aço
produzindo uma espécie de acompanhamento a seu ritmo interior. Da janela de meu
camarote, vejo de vez em quando enormes gaivotas; acho bizarro pois o navio já
está muito afastado da terra. Durante o almôço, o comandante me diz que são
três albatrozes que acompanham o navio, de dia, para se alimentarem e à noite
pousam sôbre o mar. Penso: "três albatrozes, três elefantes, sem dúvida
vão-nos trazer sorte..."
Agora vamos ter por alguns dias o deserto do mar. Coisas muito esperadas
são as refeições de suculentos pratos - queijos holandêses e tôda sorte de
gulodices, sôbre alvíssimas toalhas, apresentadas em cristais e porcelanas
finas. Às sete e meia da manhã, bate o gongo anunciando a primeira refeição. O
camarada Ivanovitch já está à mesa comendo como um faminto; a cada refeição,
repete os pratos do longo menu! Todos se riem dêle e os garçãos o odeiam mas
êle não percebe. Penso que fará êle quando sair do navio - nem em sanatório
superalimentando dar-lhe-ão semelhante ração!
O céu se enche de nuvens, o mar até aqui tão azul toma uma côr cinza
opaco e escuro, o mar, tudo anuncia grande tempestade. Entro na cabine e sinto
fortes oscilações. A noite tôda o temporal se desenvolve, percebo as vibrações
do navio, desde sua raiz; o barulho horrível das ferralhas nos porões; meu
camarote é só aclarado pelos raios, seguidos de terríveis trovões. Nada pára
nêle - tudo é jogado ao chão de uma lado a outro; cheia de terror presencio
sòzinha a êste espetáculo imprevisto. O dia aparece num duvidoso crepúsculo. A
muito custo vou ao deck vêr o mar furioso. O Straat-Malakka se enterra entre
duas enormes montanhas dágua. Parece uma fôlha ao vento nessa imensidade de mar
louco e enfurecido. E minha vida como uma vela que pouco falta para
apagar-se... Tudo vibra, tudo estala. Na mesa puseram uma cêrca e reduziram
muito o cardápio. É-se obrigado a pegar nos pratos que fogem! Os boys lutam
para nos trazer a comida. Agora chove e o vento uiva querendo arrancar tudo. Ao
jantar digo ao comandante meu temor, êle ri e me diz "fique sossegada,
isso não é nada; os ciclones que batem nas costas da China, isso sim, é que se
pode temer". Durmo vestida, com meus documentos, em caso extremo. A noite
inteira os elefantes fazem ouvir suas lamentações o que ainda completa a
tristeza dêste temporal, que durou quatro dias e quatro noites! O grande e
gordo tchecoslovaco, que subiu em Durban vem conversar comigo. Êle fala um
pouco de francês e me diz ter vindo da Austrália, onde morou vários anos,
detestando principalmente as mulheres que só pensam em whisky, cavalos e
automóveis. Vai para Buenos Aires contratado para mostrar aos operários como se
lida com máquinas difíceis. Êle é feio e tem os dentes separados uns dos
outros, o que lhe dá um sorriso cruel. Faz-me a côrte e me escreve bilhetinhos,
que acha em cima da mesa, no salão. Agora sim, que fujo dêle! Começo a arrumar
minhas coisas, as malas, a tirar tudo das paredes, das gavetas.
BUENOS AIRES
Buenos Aires. Já mandei um telegrama a meus amigos, sr. e sra. Yokohama.
O Straat-Malakka chega ao crepúsculo da tarde; vai ficar oito dias neste pôrto.
Nada de vêr meus amigos! Será que receberam o telegrama! Mas no dia seguinte
vieram. Choramos juntos... Riokai, eu não podia me conter e de contar o
desastre da minha vida. Convidaram-me a ir à casa dêles. Já estava tudo bem
mudado, as duas filhas Norma e Yolanda casadas. Dona Matilde me contando a
perseguição que tinha havido à colônia japonêsa e a notícia do tal grupo
"Shindôremmei" (18) no Brasil; que era bom eu não falar, chegando lá,
que o Japão tinha perdido a guerra. Exploravam êsse tema assassinando famílias
inteiras.
(18) SHINDO RENMEI (Liga do Caminho dos Súditos), organização extremista
criada em 23 de setembro de 1945 em São Paulo com orientação ultra-nacionalista
japonesa, que explorava a falta de informações sobre a guerra entre os
imigrantes no Brasil. Logo após o fim da Segunda Guerra, a colônia japonesa
estava dividida entre dois grupos: 20% da colônia era considerada
"makegumi" (derrotistas - formada principalmente por intelectuais,
que sabiam outros idiomas além do japonês e que por isso tiveram acesso a
informações sobre a Guerra) e 80% era considerada "kachigumi"
(vitoristas - que se recusavam a aceitar a derrota, liderada por imigrantes
recentes educados no Japão militarista). Os membros da Shindo Renmei usavam da
coerção para impor sua ideologia, assassinavam imigrantes considerados
derrotistas, além de divulgar notícias falsas sobre uma fictícia vitória do
Japão, causando confusão e conflitos no meio da colônia. Dois fatores acabaram
desmantelando a organização: a ação da polícia e a criação de dois jornais em
japonês (idioma que foi proibido pelo governo brasileiro durante a Guerra,
medida esta que causou a grande desinformação entre os imigrantes), o Jornal
Paulista e o São Paulo Shimbun.
Uma das primeiras coisas que fiz em Buenos Aires foi ir em romaria ao
Museu Nacional de Belas Artes ver se estava ali o quadro de Riokai. Depois de
muito andar por avenidas e ruas intermináveis, à tarde descobri o museu pois
não havia táxi e eu não conhecia a cidade. Percorrendo várias salas, nada de
vêr seu quadro mas por último na galeria dos Estranjeros lá estava êle
brilhando no meio dos mestres de renome. Fiquei comovida, sabendo que arte não
tem nacionalidade...
Fui também fazer uma visita ao dono da Galeria Muller; levei um
fascículo do livro de Arte, que tinha feito no Japão. A princípio não me
reconheceu. Ainda me ofereceu fazer mais uma exposição dos quadros de Riokai. A
sra. Matilde foi uma dedicada amiga, me ajudando a levar telas de grandes
dimensões, do vapor para a casa dela. Ela foi vendendo e mandando o dinheiro
para o Japão, para meu sogro. O capitão foi generoso em consentir, a meu
pedido, de convidar meus amigos para almoçar no vapor. Durante a guerra, foi
êle judiado pelos japonêses e detestava-os. Tivemos uma boa tarde relembrando
os dias que passamos em 1941.
BRASIL
Brasil! Toca em Montevidéu mas não desço; já estou com tudo arrumado,
pacotes, maletas de mão, mala de roupa; êstes últimos dias emprego para vêr de
perto o centro do navio alto de três andares, suas máquinas; admiro essa
arquitetura complicada e maravilhosa, que se chama mecânica e de que nada
compreendo. Vencendo os mares e tempestades, não é mais de carvão que êle se
alimenta mas de óleo - tudo é limpo, asseado e cada máquina tem seu emprêgo
como se fôssem braços que trabalhassem ao mesmo tempo. Tem também uma possante
chaminé, onde está sua sonora voz, que tanto me impressiona, à saída de cada
pôrto!
O Straat-Malakka recebeu ordem de passar por São Francisco do Sul para
carregamento de madeira. Pela manhã bem cedo vejo do meu camarote altas
montanhas arborizadas, uma igrejinha tôda branca e coqueiros - é o Brasil!
Estamos entrando. Não há cais, são umas tábuas desjuntas e mal dispostas, que
têm êsse nome. Vamos ficar uns dias presos aí devido à maré baixa. O prático
não quer se aventurar a fazer sair o vapor; mais adiante há um estreito com
rochedos embaixo. O comandante me chama para traduzir; êle está indignado, como
é que o prático não decide? Eu sou levada lá em cima onde funciona o comando e
vivo um nôvo suplício entre o prático e o comandante.
São Francisco do Sul é uma ínfima e atrasada cidade do interior.
Chegamos num dia de procissão, o que dava uma nota inédita às suas ruas. Vamos
sair! Talvez iremos à noite... Passa-se o tal estreito, a grande velocidade,
estamos salvos! Por esta vez.
Santos faz um calor de torrar. Desço com o camarada Ivanovitch, que está
pesaroso de deixar o vapor; êle também está com um futuro incerto; já se foi o
tempo em que só vivia para comer, feliz como um animal bem nutrido. Assim mesmo
quer conhecer as comidas brasileiras. Entramos num café, peço guaraná, empadas,
pastéis - não gostou. Andamos pelo centro. Compro um cofrezinho e um cinzeiro
ornado de asa de borboleta para dar como lembrança ao comandante.
Estamos reunidos pela última vez ao jantar. O capitão achou Santos
horrível, sujo e relaxado. Era a primeira vez que vinha ao Brasil. No dia
seguinte já estava o navio entrando na barra, de madrugada. Eu, como sempre
nessas ocasiões, nervosa e agitada. Subi às "torrinhas", onde estava
o capitão, para dizer-lhe adeus e agradecer-lhe tôda a sua gentileza, e sua
maestria em nos guiar através de dois oceanos. "Adeus" - e minha mão
sumiu na grande e grossa mão do comandante Wlik.
CHEGADA AO RIO
Havia, como em todos os portos, uma infinidade de regras a cumprir,
antes de poder descer, a polícia fazendo mil perguntas, meus numerosos caixotes
que deviam sair dos porões, a profusão de pacotes e maletas de mão, os
repórteres dos jornais do Rio procurando-me para entrevistar-me, fotografar-me.
Era o primeiro vapor a vir do Japão depois de 1941. Faziam-me perguntas
incríveis como por exemplo: "que pensa o Imperador Hirohito por ter
perdido a guerra? o povo japonês gosta dos americanos? As mulheres agora são
felizes por ter o direito ao voto? Carregam sempre os filhos nas costas?
Sofreram muito durante a guerra?"
A cada pergunta eu dava a mesma resposta "não sei". Enfim
Maria Paula apareceu com uma amiga. Como fiquei feliz em vê-la... Como se fôsse
uma querida irmã. Descemos. Já estávamos no cais formigando de gente;
impossível tirar a minha grande bagagem da Alfândega naquele dia. Íamos
andando. O grande navio estava encostado no cais; agora estava eu em terra
firme, não iria mais voltar. O pavilhão holandês flutuava no alto mastro, com a
bandeira brasileira. "Adeus", dizia eu silenciosamente comovida.
"Adeus, caro Straat-Malakka, que me trouxe do Japão ao Brasil em três
meses e meio!"
Nova vida ia começar para mim, cheia de dúvidas e incertezas. Maria
Paula me levou a seu nôvo apartamento, grande e mobiliado com luxo, de muito
gôsto. Apresentou-me a seu marido, o professor Victor de Carvalho, que achei
simpático e acolhedor. Alto, de rosto oval e olhos azuis, cheios de bondade e
ao mesmo tempo enérgico; eu, como sempre me encolhendo na minha timidez que
estragou boa parte de minha vida. Maria Paula, sempre linda e elegante, dava-me
os melhores conselhos - "vai vêr", dizia ela, "você com o nome
de seu pai vai se arrumar bem aqui". E levou-me para meu quarto todo
claro, todo chique; tudo isso me acanhava. O almôço foi servido com belos
cristais e linda toalha, um menu e tanto - aqui era a comida brasileira, mas da
gostosa!
Fui conhecendo as amigas de Maria Paula - a Gilda, que fazia teatro,
Norma, Adalgisa, os alunos de declamação. Maria Paula escrevia no jornal
"A Noite" e também compunha lindas peças infantis, tendo tido algumas
premiadas. Nossas conversas eram longas; eu, chorando contava-lhe os horrores
que passei com a morte de Riokai, a devastação que essa tristeza me fêz na
estrutura de meu sêr. Foi para mim pior que a guerra. Antes êle tivesse ido e
morresse lá longe de mim, de um tiro perdido! Maria Paula não gostava de se
atradar nessas conversas. "Vamos tratar de vender suas pérolas" -
dizia ela e arranjou amigas; e o dinheiro foi novamente entrando.
As malas e os grandes caixotes foram para o "Gato Prêto",
depósito de móveis; outra parte foi para o sótão do edifício.
Tanto acato, tanto carinho de Maria Paula me enternecia mas eu não
queria ficar indefinidamente e pensava em vir a São Paulo; mas antes queria
levar a linda boneca ao prefeito sr. Mendes Moraes. Lá fomos no dia e hora
marcadas, eu de vestido de gala, o presidente da Associação dos Artistas
Brasileiros, o sr. Manoel Santiago e o sr. Kaminagai, pintor de fama, que
morava em Sta. Tereza. a boneca ia na sua caixa de vidro; eu levava as cartas
do prefeito de Kobe. Chegando lá encontramos os fotógrafos de alguns jornais e
repórteres que esperavam a entrevista. Ficamos ali numa sala quase duas horas,
quando apareceu o oficial de gabinete dizendo que sua excelência não podia
receber. Entreguei ao oficial de gabinete a boneca e as cartas e assim cumpri a
missão que recebi do prefeito Kodera no Japão.
Todos os dias era a luta para vender as pérolas; eu tinha comprado o
pacote e agora precisava vender uma a uma como no conta-gôtas. Os belíssimos
colares que trouxe foram vendidos baratíssimos e mesmo asim custava a achar
comprador. Como ia abrir-se o salão oficial em agôsto, mandei duas telas minhas
e duas de Riokai, "Boutique de fleurs" e "Place Pigalle", e
minha, crisântemos (tela grande) e dálias vermelhas. Foram tôdas aceitas. Fui
diversas vêzes visitar meu amigo e colega sr. Osvaldo teixeira, Diretor do
Museu de Belas Artes, sempre gentil e bom, um grande pintor que sempre admirei,
seu desenho e suas composições. Maria Paula tinha dado uma linda festa para meu
aniversário (não sei como descobriu essa data) pois sempre escondi achando que
me trouxe azar. Grande mesa de doces, lindos presentes; até Rique, seu
cachorrinho, me regalou. Suas amigas vieram; meu primo Acquarone foi convidado.
Fui presentada com uma linda malha vermelha e uma bela blusa de organdi, que o
sr. Victor me deu. Quantas carinhosas atenções... ficava triste por nunca poder
retribuir tantas marcas de afeto.
SÃO PAULO
Meus planos e pensamentos iam para São Paulo - fazer uma exposição de
meus quadros, de Riokai e de meu pai; eu ainda tinha umas telas, vender as pérolas
e quem sabe, abrir um curso de pintura. Eu estava com Maria Paula já ia pelos
três meses; precisava me resolver a viver minha vida. Comprei um bilhete na
"Real" e vim de avião, pela primeira vez na minha vida. São Paulo me
reservava tremenda luta. Os primeiros três dias passei na casa de uns
conhecidos japonêses mas eram tantos os percevejos à noite, que quis sair dali
o mais depressa possível. Achei a muito custo um quarto numa espécie de porão,
de uma pensão na rua Augusta; na frente que dava para a rua, era uma garagem
dividida por um tabique, divisão de madeira mal posta, que não chegava até o
fôrro. Nessa parte de trás é que me instalei; era grande e devido a poder pôr
algumas malas, fiquei sofrendo nesse recinto escuro, sem ar e sem luz durante nove
meses! Tinha uma janela engradada como prisão e uma porta que dava para uma
área onde havia um tanque. A porta que servia para entrar e sair da rua dava
para um estreito corredor escuro e frio onde as aranhas trabalhavam em paz. A
dona da pensão me deixou pôr mais alguns caixotes e malas; o restante tinha
ficado no Rio, no Gato Prêto. Comecei a vêr quanto era difícil arranjar sala
para fazer exposição. Como eu tinha a boneca que trouxe para o prefeito de São
Paulo, procurei o vereador dr. Yukishigue Tamura (19), que devido à boneca, se
interessou em arranjar o saguão do Teatro Municipal; foi devido a êle que pude
ter para a quinzena do mês de dezembro êste local muito cobiçado, onde
tinham-se seguido exposições de arte comercial dos pintores tchecoslovacos.
Minha exposição foi a última; o teatro foi depois fechado por muito tempo
devido aos reparos.
(19) TAMURA, YUKISHIGUE nasceu em São Paulo em 1914. Formou-se em 1939
na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (hoje da USP) e
seguiu carreira política. Foi eleito vereador de São Paulo em 1947, deputado
estadual em 1951 e deputado federal em 1955. Idealizou a implantação da
Usiminas e teve seu mandato cassado em 13/12/1968, quando o Congresso Nacional
foi fechado pelo governo militar. Na década de 70 voltou a ser eleito vereador
de São Paulo. Yukishigue Tamura foi o primeiro descendente de japoneses eleito
membro do Poder Legislativo brasileiro em suas três instâncias, e foi o
primeiro "nikkei" (descendente de japoneses nascido fora do Japão) no
mundo a chegar ao Congresso Nacional de um país. Atualmente aposentado, e
desfrutando de saúde apesar da avançada idade, reside em São Paulo com a esposa
e dedica-se à família.
Os quadros estavam nos caixotes e muitos não tinham molduras; todos os
desenhos e quadros de meu pai precisei emoldurar mas eu tinha confiança e
pensava - "se não vender os meus e de Riokai, os de meu pai serão
adquiridos". Gastei um dinheirão de transportes, convites e catálogos de
luxo, molduras, etc., fora o colossal trabalho que tive eu sòzinha de tirar as
telas das caixas, pregar, ver o melhor lugar. depois de uns dias, foi que
conheci um rapaz japonês Jorge Mori (20) que muito me ajudou prática e
moralmente. Um grande futuro na arte, êsse amigo, cheio de talento e de entusiasmo
pela pintura.
O dia do "vernissage" chegou, a boneca foi exposta na entrada
da escadaria; antes tínhamos ido levar o convite pessoalmente ao prefeito, à
sua casa, com o dr. Yukishigue Tamura. Já havia muita gente, jornalistas,
artistas, intelectuais, mas nada do prefeito Asdrubal Euritisses da Cunha
chegar. Afinal veio um representante dêsse ilustre funcionário. e a cerimônia
começou, falou brilhantemente o dr. Yukishigue Tamura e outros oradores e a
exposição foi aberta ao público. Expus meus quadros de Paris, do Japão e os de
Riokai, nas ruas de Paris, de meu pai, quadros de gênero e desenhos. Os dias
iam passando e nada de vender. Jorge Mori vinha todos os dias fazer-me
companhia; nosso tema, invariàvelmente era o mesmo - "que gente! Ninguém
se interessa por arte. O que apreciam é a pintura tipo cromo, os comerciantes
que vieram com êsses quadros fizeram fortunas!" dizia êle.
Por intermédio de Jorge Mori conheci um cineast de
"Atualidades", que veio filmar os quadros da exposição. Eu saí
conversando perto de um quadro com Jorge Mori. Passou êsse filme em todos os
cinemas de São Paulo. Tive uma boa crítica pelos jornais destacando-se a
entrevista que a Gazeta publicou, "No País das Cerejeiras", onde
estou ao lado do dr. Yukishigue Tamura. Os jornais japonêses cotidianos falavam
sôbre êsse certamem de arte. Também recebi a visita do secretário do São Paulo
Shimbum. O diretor dêsse jornal, sr. Mizumoto, queria saber como andava o lado
financeiro da exposição. "Muito mal" - respondi. Êsse jornal se encarregou
de fazer uma rifa "ação entre amigos" de dois quadros meus e um de
Riokai. Foi o que me valeu, que me cobriu as despesas da exposição mas ficou
longe de dar o que se esperava. Os bilhetes foram comprados pela colônia
japonesa de São Paulo e interior. Assim terminou essa mostra de arte, onde eu
tinha posto minhas esperanças, pelo menos de achar amadores para os quadros de
meu pai... Fiquei definitivamente sabendo que era impossível para mim viver de
pintura.
(20) MORI, JORGE nasceu em 1933 e iniciou seus estudos de pintura em São
Paulo com Yoshiya Takaoka em 1944. Aos 14 anos, fez sua primeira exposição
individual. Participou do Grupo artístico Guanabara, de 1950 a 1952. Em 1952,
foi para Paris estudar desenho e pintura nas academias francesas, onde ficou
dois anos. Voltou ao Brasil e expôs no Museu de Arte Moderna da São Paulo. Em
1960 retornou a Paris, onde estudou a técnica clássica da glacis. Desde então,
vem expondo em várias galerias e museus no Brasil e na França. Destaca-se sua
participação na Bienal de Trouville em 1976, onde ganhou o Primeiro Prêmio.
Fui convidada para acompanhar uma soprano japonêsa e tocar umas músicas
no Teatro Municipal. Foi um grande festival que a colônia japonêsa ofereceu;
conheci o vasto palco dêsse teatro, tive a emoção de tocar no grande piano de
cauda as peças de Rameau e Couperin, fui aplaudida. Toquei ainda várias vêzes
num teatro do largo São Francisco, a convite dêsse jornal amigo. E eu sempre
pensando em solocar as pérolas! Colocava uma aqui, outra ali, sempre por um
preço irrisório, estando ainda as pessoas certas, que no Japão havia pérolas
como areia!
Precisava tomar uma decisão. Que iria eu fazer sem emprêgo, sem futuro,
sempre gastando para viver, mesmo levando uma vida modesta. Ninguém com quem em
pudesse contar. Fui diversas vêzes ao Rio visitar Maria Paula mas lá também era
muito difícil de se arranjar alguma coisa, visto que eu não era mais moça e
tinha, para entravar minha atividade, pouca saúde. Eu tinha uma amiga que
estava no interior e ela me escreveu: "Por que não vem a Mogi-Mirim? É
perto de São Paulo e aqui você poderia abrir um curso de pintura e ter alunas
com mais facilidade". Fui um dia a esse cidadezinha - levava-se quatro
horas para lá chegar por via terrestre: não gostei, achei-a pobre e feia, mas
era ainda melhor do que ficar em São Paulo. Não faltava gente para me
aconselhar. Sem ajudar. Uns tempos depois comprava eu uma casinha na avenida
Jorge Tibiriçá, 406, que mandei inteiramente reformar e me instalei nesse
lugarejo, onde fiquei mais de três anos. Todo o interior é parecido: o largo da
matriz, as famílias importantes habitam o centro, em confortáveis bangalôs,
possuem fazendas por perto e carro de luxo, de último modêlo à porta e
frequentam o clube onde os demais são excluídos. Mogi-Mirim, com tanto passado,
deveria ser hoje uma cidade mais civilizada e culta.
Mas assim mesmo eu estava contente de sair daquêle porão escuro e úmido
de São Paulo, onde fiquei dez meses. Respirei ao ter sol e luz, espaço para por
as malas e caixotes. Fui ao Rio buscar as bagagens que estavam no Gato Prêto.
Uma dificuldade: não havia transporte para Mogi-Mirim e tudo foi complicado e
oneroso, mas que alegria! Eu tinha uma casa limpa, um jardim com um velho
pessegueiro no centro, que se cobria de flôres no mês de agôsto e um gato, um
bom companheiro! Agora, depois de tudo instalado, precisava falar com uns e
outros, fazer-me conhecer nesse meio. Já havia vários "curiosos" que
eram conhecidos vindos de Campinas e que ensinavam a copiar cromos. logo se
tornaram meus inimigos. Os alunos pagavam por um Mês de aula cinqüenta
cruzeiros. E ainda achavam muito caro!...
Abri um curso em Itapira, numa garagem. Nesta cidade apareceram mais
alunas. O ensino era misto e havia professôres de grupo, do ginásio, mas eu
implantei o estudo do natural. O que me foi duro. Ensinava piano e andava duas
vêzes por semana pelas acidentadas ladeiras de Itapira!
Mas que diferença, pensava eu, com as alunas do Japão! Aqui elas queriam
tocar coisas difíceis, sem ter o menor preparo; as mães tratavam o professor,
sem a menor consideração e queriam prejudicá-lo na mensalidade, sempre
atrasada! Na pintura, só queriam cópias de cromos, retocadas pelo professor,
para encher as paredes de suas casas ou para dar de presente ou vender com
lucro, pois julgavam caro o material.
Outro trabalho titânico que empreendi: quando fui para o Japão em 1940,
deixei à guarda, no depósito da Escola de Belas Artes em São Paulo, um grande
quadro histórico da autoria de meu pai, Aclamação de Amador Bueno. Fui me informar
e soube que o govêrno tinha mandado retirar êsse trabalho para ornar uma das
salas do Ministro no Palácio do Govêrno, hoje demolido. Isso êles fizeram sem
me pedir autorização. Eu estava no Japão, no fóco da guerra; talvez tivessem
pensado que eu já não existisse.
Eu não sabia em que caminhos emaranhados estava me metendo para vender o
"Aclamação de Amador Bueno", de meu pai ao govêrno. Prometiam
comprá-los, mas passavam-se dias e meses, e nada. Quando eu não tinha aula em
Mogi e em Itapira, lá ia eu para São Paulo procurar uns e outros. Na Secretaria
da Educação, passei horas, fazendo companhia às professôras procurando remoção.
Passava dois e três dias em São Paulo, gastando dinheiro e levando vida pouco
interessante. Veio-me a luminosa idéia de procurar um colega que eu tinha
perdido de vista e que eu conhecia de Paris, êle estava como diretor da
Pinacoteca. Fui visitá-lo, recebeu-me bem, era aquêle mesmo Mugnaini, calmo e
ponderado, mas cheio de talento e de bondade. Aconselhou-me a procurar o sr.
Alduino Estrada, que também eu conhecia, quando freqüentava a casa de meu pai.
Agora estava como diretor da Secretaria da Educação. Foi por intermédio e apoio
dêstes dois amigos, que consegui, depois de um ano e meio de lutas, vender êsse
quadro em princípios de 1952, por cento e vinte e nove contos e quinhentos, da
verba da Pinacoteca. O túmulo de meu pai foi construido com êsse dinheiro e,
felizmente, o seu quadro estava em lugar apropriado e ao abrigo do estrago do
tempo.
Quando voltei de São Paulo estava tão exausta, que vim quase gemendo na
perua que me levou a Mogi. Cheguei em casa com um mal estar indescritível e à
noite uma forte crise cardíaca, igual à que tinha tido no Japão. Imaginem o meu
susto. sòzinha, pensei ser o fim. O médico foi chamado por populares que
passavam na rua. Em vez de me animar, não; "é", disse êle, "isso
poderá repetir-se". Que bela perspectiva, não acham? Repouso completo
durante um mês, ninguém para me tratar; a avizinha vinha às vêzes me vêr
ràpidamente, porque tinha mêdo de pegar. Só meu gato Kotori ficava o dia todo
comigo, como um bom amigo. Essa crise me deixou bem desanimada.
Eu conhecia de muitos anos atrás o professor B. Sampaio e sua numerosa
família; moravam em Campinas. Às vêzes eu vinha visitá-los e me diziam:
"venha fazer uma exposição aqui. Os campineiros gostam de arte".
Foram gentis comigo, apresentando-me ao sr. Mendes, que me cedeu o saguão do
Teatro Municipal e em novembro de 1951 abri uma exposição, com alguns quadros
de Riokai e de meu pai. Tive um trabalho titânico; eu sòzinha para a embalagem
e transporte de Mogi para Campinas. Nenhum caminhão queria se encarregar. Iam
todos para São Paulo. Ninguém para me ajudar. no dia da inauguração fiz uma
pequena conferência sôbre minha estada no Japão. Tôdas as tardes e noites,
muitos visitantes, mas nada de compradores. Foi justo o que tirei para as
despesas. Três dias antes de terminar, tive a contrariedade de ver minhas telas
tôdas arrancadas das paredes e uma a mais importante, grande estudo de
crisântemos, furada. Meus quadros ficaram espalhados pelo chão. Foi um trabalho
para reencaixotá-los às pressas!
Agora já não tinha mais a preocupação do quadro de meu pai para vender.
Meu curso em Mogi, (uns ricos libaneses, Chaibs, tinham me cedido numa sala da
fábrica, agora vazia, na mesma avenida em que eu morava) passou a ser minha
nova preocupação. Ali iam algumas alunas para estudar do "natural",
primeiro, desenho, e, depois, pintura. Consegui incutir-lhes um pouco de regras
e de arte, pois pintar é também uma disciplina.
Em Itapira também tinham progredido. Fiz uma exposição dos trabalhos das
alunas no Clube XV de novembro, a primeira mostra de arte nessa cidade. Fiz
também em Mogi-Mirim na Biblioteca Pedro Janusi, inaugurando com a presença do
professor, diretor da Pinacoteca Tulio Mugnaini, e do professor Alduino
Estrada, diretor do Ministério da Educação.
A última exposição que fiz em Mogi foi em 1952. Com as alunas de
Itapira, juntas nesse mesmo local.
Em Mogi-Mirim tive o prazer de não ter vendido nenhuma tela minha.
Vendi, a muito custo, dois quadros em Itapira, sendo que um, rifado, e,
outro, por três contos, para um fazendeiro milionário.
Ambiente ingrato. Nada havia de atraente nos arredores de Mogi: só mato,
barba de bode, casa de cupim, terra vermelha e imensos cafezais. Como chove
pouco no interior, as fôlhas também ficam empoeiradas e de um verde sujo, sem
nenhuma flor. Não sei como consegui fazer grandes telas com flôres, em
Mogi-Mirim!
Às vêzes, eu ia visitar uma senhora muito idosa, que morava sòzinha num
imenso casarão perto do centro. Batia por longo tempo no seu portão e ela
aparecia à janela com sua peruca mal ajustada. Dava-me uma enorme chave, que
pesava bem um quilo, para que eu abrisse a porta da casa. Dela, tôda contente e
curvada pelos anos, só restava dois olhos azuis, vivos e inteligentes. Tinha
sido uma poetisa renomada, em idos tempos.
Dona Ebrantina Cardona, com vários livros publicados, mulher de
vanguarda na sua mocidade, havia estudado medicina e depois se dedicado às
letras. Coitada! ainda teve um gesto heróico: vendeu seu piano para mandar
publicar seu último livro de poesia.
Estava ali, abandonada, a meu vêr, a única pessoa de valor na cidade.
Folheando um livrinho, publicado há muitos anos, achei que os fatos mais
importantes dessa comarca, foram: a inauguração da Estrada de Ferro Mogiana por
Pedro II (ficando o Imperador alguns dias na cidade), e também, a estadia, por
algum tempo, do grande pintor Almeida Júnior (20), quando, ainda, muito môço.
(21) ALMEIDA JÚNIOR, JOSÉ FERRAZ DE (Itu, 1850 - Piracicaba, 1899) foi
um grande pintor acadêmico brasileiro do séc. XIX. Cursou a Academia Imperial
de Belas-Artes no Rio de 1869 a 1874. D. Pedro II, em visita à Província de São
Paulo, impressionou-se com o retrato de Antônio Queirós Teles, pintado por
Almeida Júnior, e estimulou-o, concedendo-lhe bolsa de estudos para ir à
Europa. De 1876 a 1883, Almeida Júnior freqüentou a École des Beaux-Arts de
Paris e foi aluno de Alexandre Cabanel. Pintou temas bíblicos, assuntos
brasileiros, retratos e quadros de gênero.
Todos os dias meu desejo de sair dessa terra ia-se tornando mania. Vinha
freqüentemente a Campinas para me abastecer de verduras, frutas, manteiga - nem
essas coisas elementares se encontravam em Mogi!
Por acaso passavam às vêzes boas fitas, num dos dois cinemas. Certa vez,
um grande circo foi parar nesse buraco. Fizeram passar pelo centro todos os
componentes dêsse teatro nômade. Como eu me achava no largo, pude ver desfilar
compungida, nos carros de praça, os anões. Havia muitos homens e mulheres, com
umas expressões tristes, mostradas como curiosidades. Era uma fila
interminável: vinham alguns camelos velhos e pelados, cavalos minúsculos e
feras enjauladas, mas magras e deprimidas eplo cativeiro. Não gostei;
francamente, não gostei.
Os carros de bois que paravam em frente, numa venda à minha casa, eram
mais interessantes: às vêzes, oito a dez bois, puxando com dificuldade, todos
amarrados a uma pesada canga no pescoço. as rodas de madeira maciça, rinchando,
eram ouvidas de longe.
Adeus, Itapira; não me deixas saudades, com tuas ruas ermas e empinadas,
verdadeiro inferno dos burros de carroça, levando carga bem superior às suas
fôrças.
E sua vida calma, com procissões, casamentos e ricos da terra viajando
para a Europa ou Argentina, etc....
Comprei uma casinha em Campinas, com um longo terreno de fundos. Aluguei
a casa e mandei fazer no terreno restante um atelier, que foi terminado em
novembro de 1953. Consta essa minha nova morada, de duas grandes peças, e mais
cozinha e banheiro. Isso me deu muito trabalho e lá se foram tôdas minhas
economias!...
Estou mais confiante, pois tenho a vida material mais segura e não
preciso correr atrás de alunos. Estou ainda com ilusões, vou trabalhar para
enviar ao Salão Paulista, uma cesta com flôres diversas; um pote de metal com
rosas brancas e mais outro estudo.
Mas tive a decepção de ver tudo recusado, depois de ter sido aceita em
Paris, no Salon des Artistes Français, durante cinco anos consecutivos, no
Salon des Tuilleries e nos melhores Salons do Japão.
Em 1959, no Salão Oficial dos artistas Brasileiros de São Paulo,
existiam três elementos no júri, sendo que dois de Campinas. Um tal Tortorelli,
mais um grupo de italianos, se apoderaram do Salão Paulista. E não mais digo...
Mas o porvir ainda ia me reservar desagradáveis surprêsas: logo vi que
eram panelinhas que dominavam os "meios artísticos", tanto de São
Paulo como de Campinas. Tudo uma pinóia!
Também constatei que ensinar piano seria uma impossibilidade dada a
existência dos muitos conservatórios.
Em Campinas, há algumas academias de arte, subvencionadas pelo govêrno.
A meta para a maioria dos alunos é a espetacular festa de formatura e o
diploma. "Formado pelo Conservatório de Campinas". Na Escola de Belas
Artes dá-se a mesma coisa.
Kaminagai, pintor de renome, tendo morado longos anos em Paris, estando
no Rio, veio até esta cidade fazer uma bela exposição no saguão do Municipal.
Eu já o conhecia de 1940, quando vim com Riokai do Japão. Fomos a cada jornal
levar o convite para a inauguração. Também convites para pessoas ricas com fama
de apreciar pintura; entregamos cartas de apresentação a americanos bem postos
em Campinas. Uma bela mostra de pinturas artísticas, bem apresentadas em ricas
molduras.
Ninguém se mexeu! Os jornais deram apenas três linhas dizendo que a
exposição estava aberta ao público. Como estava acabando o prazo para a mostra,
resolvi escrever um artigo. Mas cortaram muita coisa e saiu depois de um custo
bárbaro no dia do encerramento. Disse-me o pintor Kaminagai ter sido essa minha
crônica a melhor cousa que levou de Campinas em 1955.
Tenho crises de desânimo. Porém consigo vencê-las. Pinto, desenho,
trabalho completamente isolada, repasso meu repertório, decóro os clavecinistas
franceses (Daquin, Comperin, Rameau) gosto de Albeniz. Adoro os bons livros e
leio muito, o que me faz suportar, meu retiro. Esforço-me para expressar o que
sinto.
não tenho amigos. As mulheres que conheço são muito femininas. Como mães
de família, ocupam-se da casa, do marido e dos filhos. É da moda, dos penteados,
do trato das unhas e da beleza. Nada de cultura do espírito. O sistema
patriarcal perdura e não está prestes a se acabar.
Mando para o Salão de Campinas algumas telas, outra vez recusadas. Até
parece anedota, custo a crer! Não há dúvida, sofro perseguição dêsses
cabotinos, porque sou mulher. e também porque sou filha de um grande pintor. E
apesar de não ter vivido à sombra de um grande nome...
SÃO PAULO, 1950
Uns tempos depois que cheguei a São Paulo, tive finalmente notícias de
minha irmã Margarida, tendo ela sabido que eu estava em São Paulo, pela minha
irmã Judith. Estava agora em Gotemborg (Suécia). O Luiz, seu marido, dirigia o
Consulado do Brasil, nessa cidade.
Fiquei contente de ler sua carta. Isabel, minha sobrinha, já estava uma
linda môça, pelas fotos que recebi. Às vêzes me escreviam, contando-me como era
a vida de lá e de seu povo, um dos países mais evoluídos do mundo. Gostei de
conhecer alguma coisa da Suécia, através dessas cartas. Soube que Isabel estava
noiva de um paulista e que iria se radicar em São Paulo.
EXPOSIÇÃO DE RIOKAI - SÃO PAULO, 1955
Fazia tempos que eu andava com o projeto de fazer em São Paulo uma
exposição das telas de Riokai. Para êsse fim fui diversas vêzes a São Paulo
arranjar local e organizar a exposição. Era uma emprêsa árdua, que me deu o que
fazer. Um colega, sr. Takaoka foi comigo falar ao dono do cine Niterói (21),
que me cedeu o salão do hotel por alguns dias. O salão era grande. No meio,
foram instaladas divisões recobertas de lona para pendurar as telas.
(22) CINE NITERÓI foi o nome da primeira sala de exibição fixa da
comunidade japonesa em São Paulo. Yoshikazu Tanaka e seu irmão abriram o Cine
Niterói em 1953, exibindo o filme "Genji Monogatari" de 1951, prêmio
de Melhor Fotografia no Festival de Cannes. As instalações do Niterói eram
grandes, na rua Galvão Bueno, onde hoje se localiza o Viaduto Osaka: cinema no
subsolo, salão de eventos e restaurante no térreo, e hotel num andar superior.
Rapidamente o Cine Niterói tornou-se importante ponto de encontro de imigrantes
e seus descendentes, e gerou a área de concentração comercial típicamente
oriental que é hoje o turístico bairro da Liberdade. Em 1961, o Niterói
tornou-se distribuidor exclusivo das produções da Toei Dõga, grande companhia
cinematográfica japonesa. Em função da construção da Avenida Radial Leste, o
Niterói teve de se mudar para um novo endereço, na esquina da Avenida Liberdade
com Rua Barão de Iguape, onde funcionou até seu fechamento em 1988.
O aluguel e a compra de molduras, os catálogos e convites, o transporte
e as embalagens fizeram-me gastar um dinheirão. Foi um trabalho extenuante mas
no dia 15 de maio de 1955, tive a alegria de inaugurar a mostra de telas de
Paris e do Japão, homenagem ao meu saudoso Riokai. Minha sobrinha Isabel ajudou-me
adquirindo a bela tela Vins et liqueurs. As outras, foram tôdos japonêses que
compraram, interessando-se pela exposição. de brasileiro, só apareceu um fiscal
para me aplicar multa, porque não tinha feito declaração na Prefeitura.
No primeiro dia, ofereci um coquetel aos amigos e amadores artistas,
intelectuais, jornalistas brasileiros e japonêses.
Não ganhei nada com as vendas, tudo sendo absorvido nas despesas, porém
fiquei contente por haver mostrado mais uma vez a arte de Riokai.
Com o tempo fui conhecendo melhor Campinas. Apesar de infensa à arte, é
uma cidade de muita tradição e muito progressista, muito ligada à São Paulo.
EMBARQUE NO AUGUSTUS, 1952
Um velho amigo de meu pai, sr. Altusino Estardo, ofereceu-se a comprar
os trabalhos restantes de meu pai, com a condição de acompanhar a Paris uma
sobrinha sua. Como eu estava com umas complicações para receber uma herança
duma tia, falecida em Bordeaux, aceitei a oferta. Em junho de 1952, fechei
minha casa, deixando o gato aos cuidados da vizinha.
PARIS
Foi para mim uma grata surprêsa poder rever Paris. A 26 de julho de
1952, estava eu entrando no grande transatlântico italiano
"Augustus", superlotado. Pareciam todos novos-ricos, aprendendo ali
as boas maneiras.
O navio só tocou em Dakar. Chegamos ao pôrto de desembarque, ao
anoitecer, em Villefranche. O barco ficou longe; depois da polícia, começamos a
descer numa lancha que nos levou em duas horas ao cais.
Eu estava feliz de me ver livre: nem sombra da sobrinha do sr. Altusino
Estardo. Conforme ficara combinado, devia encontrar-nos no cais.
Fui para Nice passar uns tempos. Depois de percorrer algumas ruas dessa
cidade que achei linda, clara, um mar azul turqueza, as casas brancas e outras
coloridas, ensolaradas, voltei. Procurei a srta. Ôssa, mas nada.
Tomei naquela mesma noite o expresso para Paris, lá chegando na manhã de
outro dia na Gare de Lyon.
Assim que cheguei, fui visitar minha irmã Judith Mathurin, que morava
ainda no mesmo edifício. Não nos víamos há vinte anos. Choramos de emoção.
Tínhamos muito o que contar, apesar de estar ela muito fraca, devido a uma
operação melindrosa. Contou-me os sustos e os horrores da guerra; e eu também
acrescentando minha calamidade individual, a morte de meu Riokai. "Você
não sabia?", disse-me ela. "Isabel se casou, há alguns dias, na
Embaixada do Brasil em Londres (em junho), com um belo e inteligente rapaz de
origem nórdica, nascido em São Paulo".
Margarida tinha prometido ir a Paris para nos encontrarmos, mas desistiu
e eu voltei de lá sem vê-la. Logo ia conhecer minha sobrinha, nesse ano de
1952. Achei-a formosa. Depois o Luiz Einar, em 1953, uns anos depois, Cristian.
Margarida voltou em 1954. Fui buscá-la no Rio, esperando-a no cais,
depois de vinte e um anos sem nos vêr, estávamos quase irreconhecíveis:
tínhamos envelhecido bastante, mas que felicidade poder revê-la!
Agora, já não estava só: tinha suas cartas, que até hoje continuam a
vir, dando-me alegria na aridez de minha solidão.
Revi o apartamento de Judith em Paris, onde morei, no primeiro andar dos
fundos, durante treze anos. Lá estavam bem sujas as minhas janelas, que
resistiram a duas grandes guerras. Nesse meu apartamento, passaram-se
importantes trechos de minha vida. Lembro-me daquela tarde em que saí com meu
marido Riokai, para não mais voltar. E agora, a mesma mme. Morisot, concièrge,
arranjou-me um quarto pegado ao dela.
Fiquei, porque estava perto de minha irmã, num quarto pouco confortável.
Nada de notícias da srta. Ôssa. Ela estava em Roma. Eu já estava muito
preocupada, pois a mãe e o tio haviam-me feito muitas recomendações a seu
respeito. Mandei um telegrama aos parentes e comecei a revêr Paris, que achei
bem diferente: sujo e relaxado. Não havia aquela fartura de antes, como nos
grandes magazines no Louvre, no Printemps, e em outros. Nos museus, como o
Louvre, o chão era um espelho e tudo meticulosamente limpo. Agora não.
Dominavam, como sempre, os rebanhos de turistas as suas salas, seguindo os seus
cicerones, como carneiros. Mas, felizmente, o Louvre continuava sendo o Louvre de
sempre...
Finalmente, depois de alguns dias, fui descobrir o paradeiro da sobrinha
do sr. Altusino Estardo.
Contou-me um álibi complicado. Não houve meio de ela se interessar pelas
belezas históricas de Paris. Quase à hora de fecharem o Louvre, chegamos apressadas.
ela, de mau humor. Fomos diretas à gioconda de Da Vinci. Foi a única coisa que
consegui mostrar-lhe. As boates e outros lugares alegres, eram de sua
preferência.
Dalí devíamos nos encontrar em Veneza, para ir a Gênova tomar o vapor
Province rumo ao Brasil. Nos dias que se seguiram tratei de minha herança - o
dinheiro estava no Credi Lyonnais. Por lei, dinheiro e valores não podiam sair
da França. fui lesada nessa herança, e o pouco que tinha a receber foi-me dado
em pequenas prestações. Ela só me causou transtornos e despesas, com documentos
caríssimos que precisavam ser legalizados ou passados pelo Consulado Francês,
em São Paulo.
A vida noturna em Paris, que tanto atraía os estrangeiros não era mais a
mesma. A guerra pos têrmo a muita coisa.
Eu, ensimesmada, sumida em recordações. Lembrei-me de uma poesia de
Musset: "Rien n'est plus triste que
les souvenirs des jours heureux". (23)
(23) TRADUÇÃO - "Nada é mais triste que as lembranças dos dias
felizes".
Em Paris, passei o melhor de meus dias, com a minha arte. Em Paris me
esforcei para progredir. Em Paris vivi meu grande e luminoso amor, que me levou
ao Oriente.
Fui uma tarde fazer croquis no Grand Chaumière. A porteira, mme. Rose,
reconheceu-me - tínhamos envelhecido vinte anos. Lembrou-se de Riokai. O modêlo
era bonito êsse dia e fiz diversos croquis. Entrei na loja de tintas
Castelucho; estava do mesmo jeito. Sempre a filha da casa no balcão, mancando
com seu aparelho na perna e seu ar duro ao atender os clientes. Comprei uma
caixa de tintas e algum material de pintura. Depois fui andando pelo boulevard
Montparnasse, passei na Rotonde, que agora não era freqüentada por boêmios e
por artistas, por dentro e nas mesinhas da calçada. No dôme, igualmente me
disseram que os artistas e boêmios tinham-se mudado para Saint Germain des
Près. Viraram existencialistas oportunistas.
Passei pelo Sena, vendo e folheando livros nos antiquários, vendo o rio
e suas belas e antigas pontes. Fui ao Marché aux puces em Saint Auen,
atravessando Paris de metrô. Esse mercado é curioso e imenso, verdadeira cidade
- tem de tudo, só cousas velhas e usadas, móveis, quadros, porcelanas, jóias,
vestidos da belle époque, alguns bonitos, todos de renda, feita à mão. Pensava
eu: "onde estarão as belas donas de
tanto luxo?"
As barracas que vendem essas cousas são feitas de tábuas velhas, pretas,
em estreitas ruas intermináveis; parecem cemitério, além de tristes e feias.
Tudo muito caro como se fôsse nas lojas do centro. Comprei alguns metais
antigos, três relojinhos de esmalte, como se usavam no século passado, um
tapete algeriano feito a mão e caixinhas de porcelana de Limoges.
Champs-Elysées. Fui diversas vêzes admirar a moda que se apresentava nas
grandes casas. Haviam nas suas enormes vitrinas uma profusão de belíssimos
vestidos de soirée. Cada mostruário de uma côr só. Pensei: "êsse luxo deve ser para exportação". Nas ruas viam-se as
parisienses, muito simples no trajar, quase tôdas de taier, prêto ou de côr
sóbria, sem adornos. A maioria sem maquilagem. Pareceu-me que antes da guerra
cuidavam mais da moda.
tudo inacessível para a bôlsa média. fui tratando de minha viagem a
Veneza. Comprei numa agência italiana nos Grands Boulevards, a passagem; e
alguns dias de hotel, porque nessa ápoca do ano receava não encontrar onde
dormir. Agôsto é o mês dos turistas em Veneza. Nessa agência venderam-me as
diárias no Hotel Bauer, um dos grandes Palaces, porque não havia outro: O
quarto com sala de banho, dava para o grande canal.
Chegando lá, deram-me um quarto escurovoltado para os telhados, e um
banheiro longe, do quarto, pagando êsse ainda, à parte. Não quiseram saber de
nada, aconselhando-me a reclamar na agência, quando chegasse a São Paulo.
O último dia que passei em Paris era luminoso, com um céu azul. Minha
irmã Judith havia partido em férias, há alguns dias. Felizmente pude sair da
Veneza acarcamanada.
Depois de mandar as bagagens para a estação, fiquei desligada para
sempre da Rue Severo, nº 8. Como o dia era lindo, fui de nôvo ao cais do Sena.
Quantas recordações do tempo em que ia aí pintar. Fiz muitos estudos de
suas velhas pontes, refletidas no misterioso Sena. A Place Saint Michel com sua
bela fonte e seus estudantes andando em grupos e mais adiante, as estreitas e
antigas ruelas. La Rue du Chat que Pêche, la Rue des Femmes Sans Têtes, em
frente ao Sena, só antiquários e livrarias.
Já estava eu admirando as maravilhosas portas do Nôtre Dame com suas
carreiras de Santos de pedra, magros e duros, alguns com ninhos que os pardais
lhes fazem sôbre a cabeça, parecendo chapéus. Entrei na catedral. Coado sol
iluminava seus maravilhosos vitrais, o interior majestoso e austero. Eu estava
ali sòzinha. Que bom lugar para a meditação, mas quando de nôvo me achei fora,
pensei que o sol, a luz, o verde das árvores, eram-lhe ainda muito superiores.
Passei a tarde no jardim de Luxembourg. depois de passear pelas aléias,
sentei-me perto dos tufos bem cerrados de flôres perfumadas como o mel. Fiquei
uma horas me recordando dos tempos em que ia pintar com minhas irmãs. Na fonte
dos Médicis, os dois namorados de pedra, com seus pombos dando-lhes vida, ali
eram os mesmos... E depois de anos me vejo andando com minha caixa de tintas,
pelas alamedas de plátanos, ao lado de Riokai, meu namorado. Andávamos
devagarzinho, no esplendor de outono, procurando ponto. Nos dias de semana,
ninguém por aquêles sítios. Só as estátuas das rainhas, que a brisa ornava de
fôlhas sêcas.
Como eram bons e doces aquêles tempos - e eu, sempre com minha
filosofia, pensando: a vida é tão curta, não poderia ser assim até o fim?
Não, a prova é que eu estava ali completamente transformada. Tudo tinha
mudado, e as efêmeras borboletinhas brancas e amarelas continuavam a trabalhar,
sugando e visitando as flôres; vibrando no ar, apressadas, porque iam durar só
um dia.
Ao escurecer, larguei Paris ali, e fui direto à estação. Naquela mesma
noite, tomei o noturno que me levou no dia seguinte a uma hora na estação
central de Veneza.
VENEZA
Quantas lembranças! Aqui passei com meu pai, quando ainda era meninota
de luto fechado, mas assim mesmo, achei maravilhoso. Depois, em 1914, estive
com uma colega inglêsa, Miss Smith, e agora, sem dúvida, pela última vez. Uma
grande gôndola preta de proa alevantada levou-me pelo grande canal ao Hotel
Bauer. Entrei pelo seu vasto hall, todo atapetado de vermelho, um grande balcão
para os gerentes, todos engravatados, belas mobílias e quadros antigos
adornavam as paredes. Vários elevadores com seus empregados bem fardados,
muitos americanos e estrangeiros. Como nos transatlânticos de luxo, o jantar
era servido no belo terraço que dava para o grande canal, e via-se a célebre
igreja de Santa Maria das Flôres. Tinha que se vestir a rigor e não era meu
ambiente. Sempre detestei a vida burguêsa e materialista.
Logo fui tratar de procurar a srta. Ôssa, no albergo Marconi, mas ali de
nada sabiam. Todos os dias eu atravessava a ponte de Rialto para ter a mesma
resposta. O tempo era empregado em revêr essa cidade linda como um sonho, única
no mundo, suas velhas casas coloridas a se refletirem nos canais, suas gôndolas
pretas cortando as águas tão decantadas pelos poetas de tôdas as épocas.
Por êsse mês de agôsto eram só dias claros e ensolarados - passava-se o
dia fora. Fui à Bienal que era no Lido. Todos os países estavam representados
por seus artistas nos seus pavilhões, em meio aos jardins, muitos trabalhos,
mas pouca cousa boa.
Fiquei a manhã toda no Palácio Ducal, em contemplação diante da imensa
tela de Tintoreto. Um assombro êsse trabalho, como é que nesse tempo afastado,
sem as facilidades de hoje, podia-se fazer uma tela com dez metros de largura
por oito de altura? Cheio de figuras bem desenhadas animando êsse Paraíso
(título do painel), imaginado por Tintoreto.
Que ventura rever a grande praça de São Marcos com sua catedral inédita
no estilo bizantino, com suas abóbadas tôdas de ouro. Mas o que alegra essa
grande praça são seus numerosos pombos, mansos e sociáveis. Pousam de boa
vontade nos ombros e braços dos turistas e às vêzes na cabeça. Os fotógrafos,
sempre ocupados, a tirar os hóspedes de Veneza, que irão levar essa lembrança
para a vida.
Ao meio-dia, parte um tiro de canhão e todos os pombos voam apavorados
de um leão dourado, num fundo azul, em baixo de uma porta. Por dentro das
galerias que enquadram essa grande praça, estão belas lojas de rendas feitas a
mão, cristais de Murano, cada peça grande, livrarias, caixas de jóias antigas.
Sinto não poder comprar cousas que realmente me agradam. Grandes cafés com suas
mesinhas se espalhando pela praça, sempre formigando de gente vinda de tôda
parte do mundo.
Minha preocupação era grande: nada de saber do paradeiro da srta. Ôssa.
Resolvi ir a Gênova para tomar o vapor Province, mesmo sem ela. Uma viagem
escaldante de Veneza a Gênova. Os trens italianos são bem pouco confortáveis
para o estio. As poltronas estreitas, forradas de espêssa pelúcia, que
aumentava ainda mais o calor. O trem era tão comprido que não acabava mais,
parando longe do cais, onde não se podia descer devido aos trilhos.
Nada de se poder comprar um refrêsco, morrendo-se de sêde. Cheguei na
acidentada cidade de Gênova ao anoitecer, cansada e fraca. Nada de poder
arranjar hotel! Tive que ir para o centro. Passei a noite num hotelzinho.
A primeira coisa que fiz foi ir logo à agência do province. Lá me
informaram que havia vindo uma môça à minha procura, que estava no grande Hotel
Inglaterra.
Por fim a encontrei. Sua ousadia era tão grande, que ainda queria
discutir comigo, que eu não havia estado em Veneza! Tive de lhe pagar a conta
do hotel, porque dizia não ter mais um vintém. À tarde, embarcamos no Province.
O dia seguinte foi em Marselha. Disse não ter dinheiro nenhum e eu também lhe
disse "estou nas mesmas condições, guardando alguma coisa para as gorjetas
do fim de viagem".
Assim mesmo quis descer para vêr a cidade. Chegando ao portão, apareceu
o aduaneiro que quis por fôrça abríssemos as bôlsas. Ela, nada de querer.
"Então", disse êle, "não podem sair!" Aí ela abriu a
bôlsa, que estava abarrotada de cédulas de mil francos. Mas não perdeu o
cinismo e disse rindo: "veja só, eu não sabia que tinha tanto
dinheiro!"
Ela ainda fêz compras e depois de percorrer a Canebièrre, entramos no
Province, para passar dezessete dias no mesmo camarote.
Ela passava o tempo na piscina e nos flertes, deixando o quarto num
desleixo incrível. Fiz uma viagem diàriamente contrariada. O ambiente era dos
mais burguêses, as meninotas assanhadas para não perderem a ocasião de terem
aventuras e mostrarem os vestidos, como sempre escandalosos, de tipo vulgar;
mulheres casadas namorando a olhos nus os homens, fazendo conhecimentos para
continuação em terra.
Mais uma vez, Barcelona. O navio só ficou duas horas e desci no cais.
Ali havia lojas que vendiam lembranças, onde comprei uma bonequinha de
castanholas.
Dakar - por mais uma vez tomamos um ônibus que passou pelo centro, vendo
trechos da grande cidade às pessoas. Os quarteirões habitados pelos europeus,
com belos bangalôs, os bairros de pretos pobres, com carreiras de casinhas
tôdas iguais. O que gostei de vêr foram os pretos vestidos com seus trajes que
lhes ficavam muito bem, os homens de amplas camisolas brancas, ou azul claro,
um feitiche no pescoço, o fêz de feltro vermelho na cabeça parecendo um pote
embocado; as mulheres, de corpetes ajustados, mangas curtas, grande decote,
muitos colares, turbante, largas e amplas saias em côres variadas e vivas. E
pensava como ficariam bem os pretos do Brasil com êsses trajes, em vez de usar
a moda ocidental, que os enfeiam, não estando apropriada ao seu tipo.
O resto da viagem, até o Rio, passei os dias lendo e pensando no meu
futuro, na minha arte. Já fazia uns meses que eu não havia pegado nos pincéis.
Chegamos ao Rio à noite.
Lá estavam o tio, sr. Altusino e a mãe da srta. Ôssa. Fiquei contente de
lhes entregar a filha. Êles seguiram até Santos e eu desci no Rio, devido às
malas. Fiquei mais um dia para visitar Maria Paula.
Cheguei tão doente a São Paulo, que pensei tivesse de ir a um hospital.
Mas não, no dia seguinte estava melhor e fui à casa da srta. Ôssa vêr se minha
bagagem havia chegado.
Qual não foi minha surprêsa ao vêr minhas malas abertas. Disseram-me que
haviam chegado assim. Alguns presentes de perfumes dados pela minha irmã Judith
haviam sumido, e outras coisas. Diante da minha resolução de fazer queixa à
agência de transportes, disseram-me terem sido êles mesmos que haviam aberto!
CAMPINAS
Como sempre gostei muito da paisagem, por onde ia procurava algum ponto
interessante.
Aqui, quem vai fazer paisagem, são homens; ainda se continua segunda a
velha rotina - uma mulher é uma mulher, o que é notado não são suas capacidades
nem seu talento, é seu SEXO. Não há coleguismo como nas cidades evoluídas.
Muitas vêzes me queixei disso; então me convidaram a ir com êles mas isso ficou
em palavras. Além dos moleques, ainda há outros dissabores, as moscas, os
insetos, o vento que arranca tudo, o sol que queima, fóra os apetrechos
pesados; é duro aqui conseguir fazer uma paisagem, não conheço nem um ponto
digno de tantos sacrifícios.
Como passeio, há o bosque, um jardim zoólogico. Alguns bichos, como
macacos, que vivem na imundície, umas feras em pequenas jaulas, há um museu de
história natural mas como eu tenho horror a bichos empalhados, nunca entrei. Há
também no centro de ciências e letras um museu de antigüidades, alguns retratos
de Pedro II e de personagens do tempo do Império, tudo em mau estado,
estragando-se com a poeira e o relaxamento. O mais são igrejas, conventos.
No Teatro Municipal é que há um curioso pano de bôca, representando
Carlos Gomes sentado perto do piano e suas óperas esvoaçando à roda dêle, duma
concepção engraçada - muitas vêzes pensei em escrever um artigo a respeito com
êste título: "INSULTO A CARLOS GOMES"; isso seria um fato único e
certamente, os campineiros ficariam ultrajados com semelhante audácia.
A única coisa que faz Campinas suportável é passar às vêzes uma boa
fita, donde vivo duas boas horas; algumas verdadeiras viagens; outras,
mostrando as verdades humanas.
Sempre minha arte me atormenta; já estou madura, seria tempo de fazer
boa e durável pintura mas ainda não perdi a esperança. Mesmo que entulhe tudo
em casa, mesmo que eu saiba que não posso expor e que ninguém se interessa. Fiz
muitos retratos, contando já uns dezenove, todos de graça só para o prazer de
pintar a figura; alguns não gostaram e depois de uns tempos tiraram o retrato
da parede para pôr uma fotografia!
Sempre o artista se estimula pintando com o fim de expor; muitas vêzes
me pergunto com que fim pinto; não exponho, sou recusada mesmo no salão de
Campinas! Os jornais não se interessam, os grupos de homens que pintam são meus
inimigos porque sou mulher, como se a arte tivesse sexo! Mesmo com uma vontade
inquebrantável seria de desanimar... Há dias em que sou tomada de profunda
tristeza, porque tudo se une contra mim, meu corpo é um dêles e devido à falta
de saúde, que estou neste destêrro.
Como dizia Pierre Mille, quando se lê muito e se adora os livros,
acaba-se escrevendo. Acho que a literatura tem muitos pontos parecidos com a
pintura; não me falta observação, imaginação, mas sim técnica; foi um gôsto
inato que me fêz amar a leitura desde criança e no decorrer dos anos, adorar os
grandes escritores, tendo a surprêsa e a alegria de encontrar neles minhas
idéias, meus sentimentos, o que muito me reconforta na solidão em que vivo.
Tenho muito material de pintura, muita tela, muitas tintas e pincéis novos,
tudo o que Riokai me deixou; muitas dessas tintas estão secando nos tubos. Há
dias que abro as caixas - os lindo tubos ainda estão intatos, tudo me diz
"pinte, não faça caso das circunstâncias". Gosto do cheiro das
tintas; para mim acordam reminiscências porque nasci pintora, minha palheta é a
jóia mais linda que possuo, tenho-lhe tanto apêgo como se fôsse um coração
dotado de alma... Tôdas as côres são minhas musas - blanc dargent, jaune de
chrome, ocre, jaune, vermillon français, laque de crinson, bleu, cobalt, vert
enéraude, brun Van Dyke mas conforme eu pinto, minha palheta muda se é paisagem
ou figura. Que idéia! Vou fazer uma série de biombos, uma exposição de coisas
decorativas, de três folhas, decoradas com flôres do Brasil; belos motivos não
faltam. Começo a mão na obra mas a armação sai cara - de um lado é pintado e de
outro, forrado com sêda; vai tinta fina, ouro em pó e verniz; vou empregar um
capital; quanto ao trabalho me apraz fazê-lo de graça; tenho diversos croquis.
Um primeiro que empreendia foi no estilo japonês, de papel esticado dos dois
lados, rosas; e com fundo de ouro e uma roseira em flôr e outro, o fundo azul e
as decorativas e grandes flôres vermelhas, bico de papagaio. Para ter uma idéia
do que podia ser expondo alguns, mandei para uma casa do centro de finos
estofados e expuseram na vitrina. Ficou uns três meses lá; afinal vendi para
recuperar o dinheiro do material, Cr$ 2.500,00.
Não dão o mínimo valor à mulher pintora ou intelectual. Os homens fogem.
Às vêzes, há um ou outro, muito raro, um pouco melhor que as mulheres. Mas não
se pode travar conhecimento com êles, porque pensam logo ser de natureza
diversa. As mulheres não gostam e se afastam de uma mulher evoluída. É inveja
no seu subconsciente atrasado.
Convido-os a virem ao meu atelier. Os homens e suas espôsas sabem que
passei longos anos no Japão. Tenho de lá muitas cousas, reproduções,
fotografias, belos quimonos, objetos preciosos, mas nem a título de curiosidade
querem vir. Nada os interessa a respeito de arte, tão pouco os livros. As
mulheres e mesmo os homens, não querem cansar a cabeça. Para quê? Os jornais e
revistas informam. Vi pessoas alinhadas lerem o Guri e o Gibi. São maliciosos e
só pensam em intrigas sexuais. Não se pode conversar muito tempo com um homem
ou se é o meu caso, receber um colega porque já colocam as cousas do lado
animal.
E assim, vivo comprimida entre dois lados, completamente só. À noite,
vou ao cinema, às vêzes; é a única diversão agradável quando há uma boa fita.
Nem teatro - só às vêzes, mas sem valor. Festivais de rádio são pouco
interessantes para uma pessoa culta.
Minha grande preocupação é a pintura - penso constantemente, sonho em
fazer grandes telas, paisagens, composições, retratos. Na Odisséia de Homero
acho meus assuntos prediletos: Ulisses na ilha da ninfa Calipso, Nausika, filha
de rei. Gostaria de tentar cousas audaciosas, mas num harmonioso equilíbrio,
como fazê-las?
Mesmo os empreendimentos mais modestos são cheios de obstáculos.
Exposição individual a um público indiferente é verdadeira amargura. Tira todo
o entusiasmo do artista. Na parte comercial, nada se vende. Material caro,
custoso, molduras, transportes, convites para ninguém se interessar. Os que
pintam, vêm só para criticar. São maldosos. Os jornais se esquivam de escrever.
Pela manhã faço minhas refeições, trato de minha gata Rosinha, arrumo meu
interior. Gosto de ter um ambiente limpo e agradável, cuido de minhas roupas;
gosto de parecer mais môça. Como nunca fui bonita não sofro ao vêr meu rosto no
espelho - antes era comprido e magro, bôca grande, pouco queixo, olhos escuros
e grandes, expressão inteligente e triste, cabelos castanhos escuros - agora
muitos dêsses traços se modificaram talvez para melhor...
Em idéias ainda sou exuberante e entusiasta pelas coisas que me parecem
justas e belas...
Estou certa de que sou da mesma essência dos que me rodeiam; afastei-me
demais procurando progredir, evoluir; também nunca tive a sorte de ter algum
amigo importante ou parente que me ajudasse; estou convencida que com a própria
capacidade ninguém sobe. Precisa-se neste mundo achar quem sirva de escada para
se arranjar alguma coisa... O único que me ajudou e ficava feliz com meus
sucessos foi Riokai, meu Amor. Oito anos que estou morando em Campinas, oito
anos perdidos, de luta surda no silêncio. Poderia ter sido útil a tantas
coisas; entretanto, ninguém me procura, ninguém no meu bairro ou rua se
interessa; conheço muita gente mas não seria capaz de dar um passo para vêr
meus quadros ou ouvir no piano as músicas do meu repertório, ou simplesmente,
conversarem sôbre as inúmeras viagens que fiz, minha longa estada no oriente, a
guerra que passei, lá, meus belos quimonos, etc. Não, só dão valor a quem
habita num rico bangalô, tem automóvel de luxo, faz viagem aos Estados Unidos
em aviões a jato, tem marido e numerosa família. Nunca se ouve dizer que uma
mulher é muito inteligente ou tem muito talento mas sim "ela é muito
rica". "Essa gente vai à missa, se confessa e comunga mas não faz a
menor coisa para melhorar a situação do próximo - são supinamente materialistas
e mesquinhos. Moisés deveria vir uma segunda vez para por abaixo o bezerro de
ouro, que êles adoram.
A rua que habito é deserta e erma; raros são os transeuntes; o que dá
mais vida são os gritos e clamores dos moleques que a certas horas andam pela
rua Capitão Francisco de Paula.
Há muito tempo alimento o projeto de ir a Buenos aires; estou com dois
caixotes, um grande e outro pequeno com as telas das ruas de Paris de Riokai.
Como me preocupam os trabalhos dêle! Sempre venho pensando, quando eu não
existir, que será feito dessas obras? Já tive uma amostra da exposição das
telas dêle, que fiz em São Paulo, em maio de 1958, no salão do cinema Niterói -
pouco vendi e a maioria me voltou.
Ainda conservo magníficos amigos em Buenos Aires, sr. e sra. Yokohama;
escrevo a êles se seria possível fazer uma exposição em Buenos Aires, das ruas
de Paris de Riokai - tomaram informações a respeito, e acharam que sim, que eu
devia tentar. Nos fins de dezembro de 1958 estava eu tomando o Santos-Maru,
chegando à capital portenha, dia 1º de janeiro de 1959. Fui acolhida no cais
pela filha da sra. Matilde, Yolanda Yokohama Galardo, pelo sr. Konomi Miyamoto,
chefe de Imigração, estando meus amigos nessa ocasião no Mar del Prata. Mas
assim que chegaram, foram me buscar no hotel, me levaram quase à força para a
casa dêles, onde fui hóspede durante vários dias; me receberam com a máxima
cortesia. Fui alvo de tôdas as finezas e delicadezas no seu belo chateau, onde
estavam as ricas coleções do sr. Yokohama, objetos preciosos e antigos; sendo
êle um erudito em assuntos orientais, expôs os quadros de Riokai numa das salas
e ficava admirando as telas dêle, à medida que ia tirando dos caixotes. Suas
gentilíssimas filhas, Norma, uma intelectual e Yolanda, uma artista no canto,
possuindo bela voz de soprano ligeiro, conhecida em vários países por seu
talento, sua mãe sra. Matilde, tendo sido uma exímia cantora.
Apresentaram-me ao embaixador sr. Massao Tsuda, que nos recebu muiuto
cordialmente e disse que gostava e já conhecia as obras de Riokai Ohashi;
prometeu patrocinar, depois fomos à casa dêle, onde a espôsa nos recebeu muito
bem no grande salão; uma senhora simples, encantadora; saímos de lá contentes.
O prédio dava numa linda praça tôda arborizada; sôbre a porta, brilhava o
crisântemo imperial de ouro, de dezesseis pétalas.
Foi fixada a exposição para o 13 de julho na Galeria Velasquez.
infelizmente, não pude ir assistir à inauguração, que foi um fato notável,
registrado nos anais da arte; foi um sucesso e também de venda, mostrando
quanto a elite argentina é culta em questão de artes. Devo tudo à minha exímia
amiga sra. Matilde Yokohama, que organizaou e arranjou uma ótima galeria; as
molduras eram lindas, o que também realçava as obras. Fico feliz por ter feito
o máximo que pude para sempre mostrar e levantar a memória de meu saudoso
Riokai, morto tão môço e que êle mesmo não pode colocar suas obras. Foi para
mim a realização de um grande desejo, e também de sossêgo, pois a maioria das
ruas de Paris ficarão agrupadas em Buenos Aires.
Em 1958. Tinha mandado duas telas ao salão japonês Seibi-Kai, salão de
artes plásticas, comemorativas do cinqüentenário da imigração japonêsa no
Brasil. Não só fui aceita como uma das telas foi adquirida e premiada; não pude
ir à inauguração, estava bem doente, chorei de emoção quando tive a notícia...
Às vêzes vou a São Paulo para me distrair; volto à noite, cansadíssima.
Vou vêr Isabel, minha sobrinha, meus sobrinhos-netos, todos felizes, vivendo
normalmente e achando o mundo ótimo. Isabel é uma linda mulher sempre
sorridente, com idéias da época; seu marido, um belo rapaz sadio de rosto
redondo e dois olhos do mais intenso azul - otimista, atarefado nos negócios,
boas roupas. "Sem dúvida, digo eu cá dentro, deve ser êsse o caminho da
felicidade..."
Estou no Rio e com muita vontade de conhecer Ouro Prêto. Num belo dia de
outubro de 1958, eu e Margarida, estamos na rodoviária à espera do ônibus Belo
Horizonte; passamos pelo Hotel Quitandinha e atravessamos o centro de
Petrópolis, seus jardins engalanados de hortências. Parou o ônibus em Juiz de
Fora. Achei uma viagem cansativa, a todo momento torneando grandes montanhas;
chegamos à noite em Belo Horizonte, com uma chuva torrencial mas um doce
perfume das magnólias em flôr veio ao nosso encontro.
No dia seguinte visitamos o centro, mas achei inferior a São Paulo; à
tarde, debaixo de chuva, fomos tomar o ônibus para Ouro Prêto. Passava-se por
estreitas estradas contornando as montanhas e rente aos precipícios que davam
arrepios. Chegando lá à tarde, ficamos maravilhadas pelo que já estava se
vendo. Nosso quarto dava para a igreja de São Francisco de Assis. Nos dois dias
que ficamos nessa cidade, onde tudo são recordações de um rico e magnífico
passado, não perdemos tempo, ficando o dia todo fora, apreciando a gloriosa
arquitetura do grande Aleijadinho, as inéditas igrejas tão belas por fora como
por dentro, suas ladeiras empinadas, com suas curiosas casas de um lado e de
outro; suas fontes onde Marília de Dirceu conserva sua romântica sombra;
visitamos o museu da Inconfidência - gostei imensamente, muito bem organizado,
porcelanas, móveis de grande valor, obras em madeira, esculpida do mestre
Aleijadinho.
Mariana, uma bela cidade mas não chega à beleza de OURO PRÊTO. Voltamos
para o Rio felizes por ter visto tantas maravilhas e desejosas de voltar na
primeira oportunidade, com minha caixa de tintas e rôlo de telas.
Sim, ainda estou em Campinas! Tenho trabalhado bastante, feito
composições. A Odisséia de Homero tem me inspirado. Gosto de me lembrar dêsses
tempos fabulosos onde havia uma vida vibrante entre homens e deusas. Calipso,
essa loura e vaporosa ninfa, muito me deleitou ilustrar sua lenda, vivendo
nessa ilha feliz, nutrindo-se do néctar, bebida dos deuses, coroada de violeta,
seus dias passavam-se cantando intermináveis melodias. Um dia, um náufrago
perdido no oceano veio perturbar-lhe a quietude... Narciso, outro assunto meu
predileto. Belo e jovem, nunca tinha visto seu rosto perfeito. Um dia,
inclinando-se à beira de um rio, viu seu reflexo espelhado e ficou ali prêso de
amor à sua imagem até morrer... Numa densa floresta, as ninfas apavoradas fogem
perseguidas por sátiros e faunos ao som de flautas e pandeiros. Tenho uma boa
coleção dessas composições sôbre papel.
Minha gata Rosinha tem sido também um bom modêlo, só ou com seus filhos.
Também vou expor rosas e paisagens. Estou decidida a fazer minha exposição. A
campanha vai ser dura para arranjar um local. Estamos em fins de 1962. Peço o
Teatro Municipal. Não me dão dizendo que os cavaletes para pendurar os quadros
estão em consêrto. Levo uma boa parte de catálogo, fotografias, artigos de
minhas passadas exposições em Paris, no Japão e no Rio ao dr. Marino Ziziatti,
que me cedeu a sala térrea do Centro de Ciências e Letras para setembro de
1963. Estou contente por expor meus trabalhos. Janeiro - já penso nas miudezas
que se precisa para realizar uma mostra de arte. Catálogos, já trato dos
convites, das molduras, dos que poderão escrever alguma coisa, fazendo êsses
preparativos bem antes para minha exposição de 1963.
Um bom e prestimoso amigo surge: o sr. Goto e sra., que muito me
ajudaram transportando os quadros todos do atelier ao Centro de Ciências e
quando teminou trazendo-os de volta ao atelier. Êle foi quem estreou a
exposição adquirindo um quadro de rosas.
A 4 de setembro de 1963, a entrada do Centro de Ciências estava repleto
de convidados e amadores, que esperavam a hora solene de cortar a fita
simbólica. Tive bons artigos, saindo do escuro em que estava há anos.
Econômicamente, me disseram que, eu tinha batido o recorde. Minhas rosas e
gatos foram os mais apreciados, não havendo ainda público para gostar de
mitologia.
Foi para mim uma bela noitada a inauguração de minha exposição. Minha
família veio tôda de São Paulo. Minha irmã, meu cunhado, Isabel, minha
sobrinha. Durante os dias em que a exposição ficou aberta para o público, tive
o ensejo de conhecer vários rapazes interessante, inteligentes, gostando de
arte, mas principalmente de livros. Muitos com idéias revoltadas, contra o
atraso mental dêsses que se tem na conta de gente da elite. Fiquei surprêsa ao
encontrar essa juventude, com muito das minhas idéias e convicções (Com a
inflação e a alta de custo-de-vida ninguém pensa em comprar quadros).
1964 continua para mim a mesma coisa. Tenho uma boa amiga, sra, Maria
Rosa Peciolle Sampaio. Gosta da minha pintura e da Arte. Ela adquiriu boa parte
de meus melhores quadros, que ornam seu salão. outra amiga que muito estimo é a
sra. Amélia Sakamoto, mas ela mora longe, em São Paulo, no Alto do Ipiranga.
Ùltimamente ela estêve no Japão, e viu vários amigos que conheci em 1940.
Recebo às vêzes cartas de amigos do japão, que me dão garnde alegria, como as
do prof. Miamoto Massakio, homem ilustre, conhecido na literatura, tendo vários
livros editados, que traduziu o livro de arte que fiz de Riokai Ohashi e sua
obra. Outra grande amiga que tenho, conheci logo após chegar ao Japão em 1934 e
até hoje me escreve: é a sra. Natsuko Ueno, que me foi de preciosa ajuda na doença
de Riokai, durante a guerra.
Em 1965, mais um acontecimento me estava reservado. Fui visitar bons
amigos em São Paulo. Conversando com Eico Suzuki, arquiteta, pintora e
escritora, disse-lhe como ficaria feliz se fizesse uma exposição das obras de
meu saudoso Riokai, das que êle fêz no Brasil em 1940 e 41. Mas era muito
difícil encontrar local.
Nisso, chegou o pai dela, o ilustre arquiteto e pintor dr. Suzuki (23),
como sempre vivo, sorridente, comunicativo:
"Dona Helena, faça a exposição no centro Cultural Brasil-Japão, do
qual fiz o edifício. Amanhã de manhã a senhora me procura, que lhe apresentarei
aos maiorais do Centro Cultural e ao dr. Suzuki, "disse êle rindo",
tem o mesmo nome que eu e me substituiu na presidência da sociedade Seibikai
dos artistas japonêses".
(24) SUZUKI, TAKESHI (1908 - 1987) foi o primeiro japonês a formar-se
arquiteto pela no Brasil, em 1933, pela Universidade Mackenzie em São Paulo.
Pintor, foi aluno de Teodoro Braga e foi o primeiro presidente do grupo
artístico Seibikai, fundado em 1947, cargo que ocupou por dez anos, e do Grupo
Guanabara. Projetou e construiu vários edifícios, entre eles o Centro-Cultural
Brasil-Japão e o Pavilhão Japonês, no Parque do Ibirapuera. Foi o primeiro
presidente do Hakuiôkai, grupo de teatro clássico Noh (1960 a 1987) e foi o
primeiro e único instrutor de Noh na América Latina, diplomado pelo chefe do
estilo Hõsho. Publicou o livro "Budismo - Do Primitivo ao Japonês" em
1986.
No dia seguinte, já ficara tudo arranjado para o dia 10 de junho de
1965. Nesse dia de manhã, grande parte dos artistas dessa sociedade ajudaram a
armar a exposição; em algumas horas ficou bem apresentada uma linda mostra em
homenagem a Riokai Ohashi.
Essa exposição durou três dias, havendo um coquetel; muitos amigos, que
Riokai tinha conhecido em 1940 vieram, pintores hoje de renome como Takaoka
(25), que fêz a aprsentação no catálogo, ao lado do grande pintor Koisso Riohê,
do Japão.
(25) TAKAOKA, YOSHIYA (1909 -
1978) pintor japonês radicado no
Brasil, participou do Salão de Belas Artes em 1933. No Salão Nacional de Belas
Artes de 1939, conquistou a medalha de prata. Ficou no Rio de Janeiro até 1944.
Em São Paulo, foi um dos fundadores do Grupo Seibikai de pintores e participou
do Grupo Guanabara, que esteve ativo de 1950 a 1959. A Pinacoteca do Estado possui um auto-retrato de Takaoka.
Todos os compradores dos trabalhos de Riokai foram japonêses; meu
cunhado Luiz do Rêgo Rangel foi uma exceção.
Todos me ajudaram, estando eu hospedada em casa de minha irmã Margarida.
Isabel, minha sobrinha, seu marido e filhos, minha irmã e o cunhado foram tôdas
as noites à exposição; tive também a alegria de estar com velhos amigos, que
fazia anos não via.
Dr. Suzuki fêz muito para o êxito da exposição, tanto na parte de arte,
me levando às redações dos principais jornais japonêses e arranjando compradores
para indenizar as grandes despesas que tive. Minha boa amiga sra. Amélia
Sakamoto veio me fazer companhia e tivemos longas conversas sôbre o Japão, onde
ela tinha estado recentemente. Seu filho Roberto trouxe seu amigo Sassa,
recém-chegado do japão, rapaz inteligente, fotógrafo exímio, que ilustrou
vários trechos da exposição, grupos de amigos, quadros, e me fotografou perto
do retrato de Riokai, que fiz no Japão em 1942, e guardo como querida
lembrança.
Fiquei contente por haver conseguido fazer essa exposição. ainda me
restam numerosos estudos feitos durante a estada dêle no Brasil, mas sem
esperança de expô-los devido às dificuldades cada vez mais crescentes. Faltam
alguns dias para surgir o nôvo ano. Em arte, poucas realizações serão feitas. A
inflação cada vez mais se acentua e os preços dos bens de consumo, e outros,
aumentam.
Sòmente os "tubarões" é que não apertam o cinto e se
aproveitam com a inflação.
Meus pensamentos e minha arte são minha fortaleza. Ainda pintei meu
autoretrato (como me vejo), não só por fora, mas o espírito que me anima;
dálias vermelhas, descobri novos movimentos nas flôres e nas fôlhas. Isso sim,
ainda me dá apêgo à vida.
Gosto de escrever (alguma cousa) de tudo quanto ferve e me comprime de
revolta, no meu espírito curioso e refratário ao rebanho em que vivo. Os
componentes dessa massa só dão valor ao dinheiro. Tem carro? De luxo? Viaja aos
Estados Unidos? Tem vasto bangalô com criados? É o que faz a nobreza dessa
casta inculta e materialista.
Para essa gente, sou uma mulher de idade indefinida, alta, magra, viúva,
de óculos escuros, que mora só com seu gato, às vêzes se encontra na rua quando
se vai às compras.
As mulheres, minhas vizinhas, com as quais raramente falo, não têm o
mínimo cultivo, são mães de família que nem mesmo tempo para ver histórias em
quadrinhos têm. A casa, os filhos, a religião, os vestidos e penteados,
doenças, etc., tomam todo o seu tempo.
Eu me retraio cada vez mais no divino refúgio, que para mim é fora do
tempo e que sempre adoro: a Arte!
Helena Pereira da Silva Ohashi.
15 de dezembro de 1965.
FIM