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A IV Exposição de Quadrinhos e Ilustrações no MASP

(Em 1984) Depois de 14 anos, o MASP reabriu suas portas para o quadrinho brasileiro, recebendo aproximadamente 3.000 pessoas nos 10 dias que durou a IV Exposição de Quadrinhos e Ilustrações da ABRADEMI.

No dia 30 de setembro, quando recepcionamos o Tezuka Ossamu, tivemos a presença de Mauricio de Souza, Jayme Cortez, Wagner Augusto, Ely Barbosa, Zaé Jr., Gedeone Malagola, Paulo Paiva, Rodolfo Zalla, Toni Fernandes, Cesar Ricardo Silva, Cocolete, JAL, Antonio Vieira, WAZ, Alvimar, Julia, Eduardo Vetillo, Luri, Ataíde Braz, Erena, Emy, Cristiane, Mario, Roberto Kussumoto, Francisco Noriyuki, além dos artistas plásticos Bin Kondo, Tomie Ohtake e o editor Naumin Aizen da EBAL.

O Tezuka Ossamu assistiu a metade do filme Piconzé, o segundo longa metragem animado feito no Brasil (pelo saudoso Yppe Nakashima) e pediu para sair e olhar os trabalhos expostos.

Durante meia hora o Sr. Tezuka, acompanhado pelo Noriyuki Sato, olhou um por um os trabalhos da IV exposição, teceu ligeiros comentários, e sempre quando foi apresentado a um profissional, conversou animadamente, comentando e até criticando seus trabalhos.

Foi um coquetel muito movimentado porque todos queriam conhecê-lo, além da presença da TV Globo e dos maiores profissionais do Brasil, e dos habituais fotógrafos de fim de semana.

Em resumo

O Tezuka Ossamu chegou às 9h30 do dia 29 de setembro em São Paulo, deu entrevista coletiva no mesmo dia à tarde, visitou a IV Exposição da ABRADEMI no domingo dia 30 de setembro, debate com profissionais no dia 1 de outubro no Caesar Park Hotel, aula para ABRADEMI no dia 2 de outubro de manhã, e palestra no mesmo à noite na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. No dia seguinte ele seguiu para Manaus e Rio de Janeiro.

Os filmes

Cinco filmes foram trazidos exclusivamente para a ocasião.

No MASP foram exibidos nos dias 29 e 30 de setembro, e 1 e 2 de outubro os seguintes: O Pássaro de Fogo (100min), Quadros de Uma Exposição (39min), O Pirralho Manda Chuva (23min) e Astro Boy (23min).

O filme Contos de 1001 Noites (128min) foi vetado pela censura (considerado erótico), mas foi liberado na semana seguinte, quando todos os filmes foram exibidos no auditório da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa.

Palestra de Ossamu Tezuka

Nos 40 anos em que desenhei mangá encontrei com muitos grupos como de vocês em Tokyo, New York, Los Angeles, San Francisco ou mesmo em Paris. Orientei muitos jovens e avaliei suas HQs. Estou contente em encontrá-los pela primeira vez, aqui no Brasil, mas como profissional vou avaliar seus trabalhos com muita severidade, por isso gostaria que não ficassem zangados com o que disser, ou que não desanimassem achando que não são capazes ou desistissem de fazer mangá. Pelo contrário, gostaria que participassem ativamente da ABRADEMI. Bem, aceitem isso como observação de um velho.

tezuka84-01Em Los Angeles ou em Paris, ou mesmo em Tokyo, o que digo a todos em primeiro lugar é que nunca imitem os profissionais. Explicando em poucas palavras é notório que vocês são fanáticos por mangá, que cresceram lendo mangá, e que por isso agora estão fazendo mangá. E já que cresceram lendo mangá de muitos autores, quando gostam de um determinado autor acabam sem querer por imitar seu traço.

É verdade que eu gostava muito de Disney e, quando era criança, imitava sempre os desenhos de Walt Disney, mas isso só quando estava no primário e no ginásio. No colegial, já estava me profissionalizando.

Imitando os outros, não vai passar disso. Isto porque ao ser comparado dirão por exemplo que: “Ah, este desenho parece com o do Maurício”, ou coisa parecida, pior quando perguntarem como é seu desenho. Não convém ter que dizer que é parecido com o do Maurício.

Antes de ontem (30/9) na exposição, vi desenhos de muita gente, mas notei que principalmente os desenhos das mulheres pareciam muito com os de revistas de mangá feminino da atualidade. Aquele tipo de desenho não presta, de forma alguma. Se ficarem fazendo aquele tipo de desenho não vão se tornar mais hábeis do que isso. Além do que não passarem de estar fazendo ilustração por distração. Havia pelo menos ⅓ desse tipo de desenho. Acho desejável que parassem definitivamente de fazer isso. Se ainda querem fazer mangá dessa forma não precisam entrar em grupos como este, podem ficar fazendo mangá apenas para seu divertimento.

É claro que podem ler mangá, mas o que deve ser aprendido é a forma de elaborar o conteúdo, pois os desenhistas profissionais, como têm prática, são muito hábeis em ressaltar o que é essencial para o humor do mangá. A técnica de desenho pode ser aprendida aos poucos e com o tempo torna-se hábil.

As HQs norte-americanas chamadas underground comics têm desenhos tão horríveis que nem podemos ficar olhando. São realmente mal feitos, mas o conteúdo é extremamente engraçado, bem original. Por isso acho que o mangá é constituído 80% de idéia e 20% de desenho.

Mesmo desenhos de ficção-científica, de modo geral, imitam obras de autores dos EUA. Suas cores, por exemplo, são lindas, mas têm a sensação de já ter visto em algum outro lugar. Para mim, os desenhos podem ser mal feitos e as cores feias, mas gostaria de ver desenhos que nunca foram feitos e idéias que nunca foram desenvolvidas antes. Os desenhos poderiam ter deixado para outra vez, pois aos poucos, digamos dentro de 5 anos, ficarão ao nível profissional. Por isso, acho que as pessoas, que só ficam estudando técnica de desenho pensando que se não fizer isso, não poderão fazer mangá, não serão autores profissionais de mangá. Estas estarão sempre desenhando por diversão.

Há 40 anos, estudei o tipo de mangá que pode ser chamado de “mangá em painel” (tiras de jornal), que chamo de panel comics, pois parecem cartazes com desenhos em seqüência. Considero-o como a forma básica muito importante de mangá. Há vários tipos: de dois ou de quatro quadros. No primeiro quadro inicia a história com uma idéia e no último termina fazendo rir. Este padrão de introduzir uma idéia, desenvolver e terminar de forma cômica, se condensar tornará um mangá de um quadro e se desenvolver tornará uma HQ mais longa.

Mesmo em mangá de muitas páginas, a estrutura básica é a mesma. Se mangá não é simples desenho e precisa de idéia, acho que devem estudar a técnica de estruturação de idéia, e para tanto estudar a estrutura de mangá das tiras de jornais, creio que é muito proveitoso.

Por muita felicidade, aos 19 anos fiz pela primeira vez tiras para jornal, em série. Evidentemente, os desenhos eram miseráveis, tanto que se vocês vissem iriam rir. Eram realmente horríveis, mas permitiu estudar a estruturação da idéia na prática, pois foram publicados no jornal em série por três meses. Naquele momento, incuti minha cabeça os fundamentos do mangá. Naquela época, como era jovem de 19 anos, levei meus trabalhos à redação do jornal e o funcionário disse-me que poderia publicar, mas deveria desenhar 30 folhas por dia. Era selecionado um mangá entre esses 30 e os demais eram descartados. Como durou por 3 meses, desenhei 2700 folhas. Não era treino de desenho, mas aprendizagem do fundamento a que me ofereci a executar. Isso foi bastante proveitoso pois depois comecei a fazer mangá mais longo, e então já tinha aprendido a técnica de elaboração de uma história, do início até o fim.

Sinto muito se os profissionais aqui presentes acharem que estou falando banalidades, mas estou me dirigindo aos amadores principiantes para que estudem esses fundamentos em tiras de jornal.

Havia na exposição desenhos de ficção científica, de fantasia que eram realmente admiráveis, as que estavam bem feitas. Para autores desse tipo de desenho gostaria de dizer uma coisa. Há exposição para esse tipo de trabalho em San Diego, San Francisco, e mesmo em Tokyo, e acontece que, quando estão expostos lado a lado com outros desenhos, pode não sobressair, mesmo que individualmente seja vistoso. Isso é percebido somente quando estão no meio de outras obras. A razão disso não está na cor, mas acho que está na idéia. Parece que está fazendo uma variação de um modelo já feito. Isso acontece por admirar obras de desenhistas famosos, pois ao achá-las excelentes, inconscientemente está grafando na memória e ao compor um desenho acaba por deixar transparecer a influência. Isso é natural, mas deve ser evitado a custo, pois mesmo que faça uma boa obra, se está parecendo com o de um autor famoso, ao ser comparado com obras de profissionais, será vista como uma imitação.

Comentários sobre os desenhos submetidos à apreciação de Ossamu Tezuka

Notei na exposição também que uma pessoa tinha feito diversos tipos de desenhos e ao ser indagado respondeu que foi a pedido de editor. Bem, mesmo que o editor peça para fazer isso na medida do possível é melhor recusar. Pode dizer até que não é versátil. O editor pode não procurar mais por seu serviço, mas quando você se tornar um profissional consagrado, daqui digamos 10 anos, pela primeira vez pode apresentar trabalho de estilo bem diferente para surpreender o mundo. Acho que isto é mais proveitoso, pois se você desenhar estilos quando está se lançando, ninguém saberá qual é seu desenho, os editores acharão que desenhará qualquer coisa que pedir e não considerarão como artista, mas como “vendedor de desenho”.

Acho melhor sedimentar logo seu estilo e depois partir para outros. Como podem ver nos livros que entreguei ao Sr. Sato, faço desenhos de muitos tipos: para adultos, para crianças, para meninas, mas isso depois de me firmar no meu estilo. Se não fizer isso o reconhecimento de seus desenhos pelos leitores vai demorar.

Sobre os desenhos de meninas

Estes não prestam. Por que desenham isso? Bem, não estou depreciando, mas digo que não prestam porque só desenham esse tipo de coisa.

Nós chamamos isso de “bonecas”. As moças que gostam de mangá, em primeiro lugar fazem esse tipo de desenho e sempre voltado para a esquerda. Isso porque desenham com a mão direita. Se a pessoa for canhota desenharia o rosto virado para a direita. Isso acontece porque está desenhando o que gosta mais por puro prazer, de modo mais fácil. É bom desenhar por divertimento, mas isso não passa de hobby, não é caminho para mangá. Essas pessoas lêem avidamente as revistas femininas de mangá.

Acho que há cerca de 30 milhões de garotas assim, só no Japão, dentre elas mais ou menos 5 milhões conseguem desenhar assim, ou um pouco pior, mas em todo caso consegue desenhar “bonecas”. Meninas que gostam de mangá, que adoram ler revistas de mangá, que conhece o nome dos autores e que só sabem desenhar “bonecas”, acho que não têm mérito para entrar na ABRADEMI. Se querem estudar mesmo o mangá, mesmo que não queira se profissionalizar, não podem ficar nisso. Não fiquem desiludidas com que disse, nem pensem em desistir de fazer mangá, tomem como observação de um velho desenhista de mangá e esforcem-se bastante.

tezuka84-02E em Tokyo, faço parte do júri do Yomiuri Kokusai Manga Contest (Concurso Internacional de Cartoon do Jornal Yomiuri), que também recebe do mundo todo cerca de 3.000 trabalhos. Dentre esses, em maior número da Europa Oriental com mais ou menos 1.000, a seguir do Canadá, da China, da URSS, até mesmo da África e também do Brasil.

Para efeito de julgamento são separados conforme os países, entretanto os trabalhos do México, Brasil, Peru, Nicarágua, Equador, Guatemala, Bolívia, ou seja, os mangás da América Latina em geral, não possuem nacionalismo evidente. Gostaria de ver logo mangá que indiscutivelmente tenha característica brasileira especial feita por vocês. Mesmo em HQ de Mauricio de Souza, como de outros autores profissionais que publicam nos jornais brasileiros não se podem ver ainda características genuinamente brasileiras, apesar de fazerem desenhos maravilhosos.Acho que isso é tarefa para agora em diante.

Disse coisas realmente duras. Talvez tenha gente que depois queira me pegar na rua, mas não me levem a mal. Os profissionais de mangá geralmente depreciam-se mutuamente. Quando são rivais do mesmo prestígio pode acontecer de brigarem, mas os veteranos criticam os trabalhos dos novatos não por maldade ou implicância. No caso de vocês, disse coisas duras porque gostaria sinceramente que tornassem desenhistas de mangá de primeira linha no Brasil. Mas se alguém zangou-se com o que eu disse, ignore que referi-me aos desenhistas brasileiros e esforce-se.

Pergunta sobre as associações de mangá no Japão

Associação de mangá existe bastante no Japão. Nippon Mangaka Kyokai tem 500 associados, mas só de profissionais. Para amadores há mais ou menos 3000 associações, essas são na maioria grupos com número de associados como o de vocês, mas há os que têm mais sócios, chegando a 300 ou 500. No Japão, contado desenhistas garotas de mangá, existe um número fabuloso, quase 10.000 dos mais 70% são garotas. E a razão para isso é que com mais ou menos 16 anos desenham “bonecas”, montam historinhas românticas com garotos bonitos e diálogos e final feliz, e mesmo assim as editoras publicam. Então, se declaram profissionais, contratam assistentes, constroem casa de férias, compram carros e ao casarem encerram a carreira. Eu não considero desenhistas profissionais de mangá de forma alguma. Bom, a associação de desenhistas de mangá a que pertenço é de profisionais sérios. Há uma associação só de veteranos chamada Mangá Shudan com cerca de 100 associados, todos desenhistas famosos liderados por Fujio Mujiko que desenha Doraemon, Leiji Matsumoto, Fujio Akatsura, entre outros. Todos com mais de 50 anos, não há gente mais jovem. Daqui a pouco vai decair, pois estes vão se aposentando e vão sobrar só desenhistas garotas. Visto assim, o futuro da HQ japonesa é negro. Isso já acontece nos EUA. Lá não há desenhistas jovens de mangá com fama. Os americanos ainda estão editando Super-Homem, Homem-Aranha, Mandrake, Fantasma, Dick Tracy etc, por isso as HQs americanas não prestam. Na França há pessoal jovem de valor, porque o governo tem apoiado. Há festival de HQ todos os anos reunindo até desenhistas alemães e japoneses, com apoio do atual presidente.

Para quem vai estudar mangá de agora em diante é melhor ficar de olho em HQ francesa do que dos EUA. Bem, HQ evolui mais nos países em que há maior liberdade para escrever sobre o mundo e sobre política de governo.

Vocês são jovens, por isso devem ter muitas coisas que queiram desenhar, mas o que gostaria de ver fazendo é humor que retrate com rigor o mundo e a política. Isso é essencial para desenvolvimento e para reconhecimento da HQ brasileira.

(OBS: Ossamu Tezuka cita em quase toda sua fala a palavra “mangá”, que no caso é usada para significar “histórias em quadrinhos”.)

Debate de Ossamu Tezuka com os profissionais

Debate realizado em 1/10, no Caesar Park Hotel, reuniu cerca de 50 profissionais, entre eles: Jayme Cortez, Francisco Noriyuki, Roberto Kussumoto, Marcos Mikio, Valdir Gambôa, Ricardo Woo, Reinaldo (roteirista da MSP), Louis Chilson, Walbercy, Ely Barbosa, Mauricio de Souza, Tatiana Belinsky e outros.

Ely Barbosa: Qual é o processo que você usa para distribuir seus trabalhos?

Tezuka: Os desenhos animados do Japão são entregues em mãos de empresas importadoras e exportadoras. Mas como agora tais produtos estão mais conhecidos no cenário internacional também existem empresas importadoras do exterior que vêm firmar contratos diretamente com as produtoras. No meu caso, por exemplo, que é uma produtora, não se faz a distribuição. Por isso, os contratos são feitos na relação produtora e distribuidora. E também, dependendo do caso, intervém a televisão nesta negociação, dividindo-se os lucros igualitariamente em parcelas de um terço para cada um.

Ely Barbosa: Incluindo o merchandising?

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Troca de presentes.

Tezuka: Não, isso apenas no que se refere à distribuição. Merchandising corre por outros contatos paralelos. O problema é quando existe dentro do país contratos já fixados. No caso do merchandising, a produtora e a distribuidora disputam as suas percentagens, sendo comum a divisão de 50% dos lucros futuramente obtidos. Mas quando a produtora de repente vai fazer um contrato com uma distribuidora estrangeira, aí entra um conflito de interesses entre a própria produtora e a distribuidora japonesa, ambas amarradas pelo contrato já firmado antes. Kimba teve um contrato de distribuição com a firma americana NBC International por um prazo de 10 anos. Enquanto esse período não se passar a NBC se reserva no direito de distribuição pelo mundo todo. Qualquer contrato só poderá vir a partir do fim desse prazo. Kimba quando passou pela América do Sul foi todo distribuído pela firma americana em contato com as importadoras locais.

Reinaldo: Com respeito à produção de um desenho animado para a TV, como é feito a sua criação? Você dá as coordenadas pra depois sua equipe seguir toda a orientação?

Tezuka: Sim, exatamente dessa forma é que se monta o esquema. No entanto, pelo fato de eu ser um tanto quanto autoritário, as pessoas geralmente se retraem em dar as suas respectivas opiniões. E quando eu percebo isso, procuro dar uma escapadela da reunião. Somente então a equipe começa a discutir entre eles mesmos de maneira bastante aberta, levantando muitas idéias criativas. Geralmente os registros das propostas dessas reuniões são posteriormente aprovadas com bastante êxito.

Só lamento que o receio dos membros da minha equipe impeça um pouco o nosso relacionamento. Experiências do tipo talvez possam ser análogas às que vivem o cotidiano do estúdio de Mauricio de Souza.

Eu penso que a produção de um desenho animado é uma espécie de edifício a construir, onde se integram diversos criadores pela coordenação de um responsável. O coordenador é a parte livre de um relógio, mas que depende dele próprio as outras dezenas de peças. Sem a participação harmônica de cada um nada poderia ser feito satisfatoriamente. Por outro lado, não posso entrar como um repressor de idéias individuais, impondo um padrão somente meu, pois isso aniquilaria o contexto da criação. E assim, sempre procuro ouvir o máximo possível as opiniões da minha equipe, assumindo também um papel de líder para que o todo do desenho animado não fique descaracterizado.

A animação deve ser uma construção a nível coletivo, dando reconhecimento participativo a cada profissional. A mim cabe exclusivamente a coordenação.

Ely Barbosa: Poderia nos dar uma idéia do custo médio de um desenho animado para a TV, sendo em metragem de 22 minutos?

Tezuka: Sendo 22 minutos, o custo seria 9 milhões de yenes (90 milhões de cruzeiros). No Japão, isso é bastante barato, considerando-se que o desenho animado contemporâneo leva de 7 a 9 mil acetatos.

Ely Barbosa: Quanto tempo se demora para produzir 22 minutos?

Tezuka: No Japão, do roteiro à revelação leva uma média de 3 a 3,5 meses de trabalho.

Eu coloquei um número bem modesto de acetatos, mas, no entanto, creio que existe aí a possibilidade de enriquecimento através de muitos movimentos de câmera e pelo dinamismo do roteiro em si. É possível dar a impressão do movimento em cima de animação estática. Dentro do conceito de Disney, ou de desenhos russos, havia ficado a definição de que no mínimo deveria sempre existir um X número de acetatos em movimento. Mas a animação televisiva exige que a cada semana se faça um filme, não podendo vazar com esses prazos. É o grande problema que nós temos de enfrentar ao produzi-lo.

O ideal seria produzir primeiro uma série inteira de filmes (em 26 ou 52 partes) e vender tudo de uma vez. Porém, como nenhuma produtora possui tal vulto em dinheiro, faz-se num primeiro momento finalizar uns 20 filmes e depois, enquanto a TV vai rodando a série no estúdio continuamos a trabalhar nas partes seguintes. Nos EUA também é assim.

O compromisso de conclusão de um capítulo em relação a um prazo gera um processo mecânico de confecção. E o melhor macete para a situação é usar poucos desenhos em movimento, economizando animação. A partir disso também surge a necessidade de botar a criatividade para dar movimentos em desenhos estáticos por movimentos de câmeras.

Walbercy: Como você se sente face à ameaça da animação computadorizada contra aquela feita artesanalmente?

Tezuka: Bem… gostaria de inverter a pergunta: você acha que o computador poderia se fazer uma boa animação?

Walbercy: Eu voltei de viagem agora e vi coisas fantásticas. É uma ameaça. Inclusive no campo gráfico a computação já superou há tempos os métodos manuais. Embora ainda seja muito cara a sua utilização, a evolução tecnológica tem sido muito grande.

Tezuka: Realmente, com relação ao computador, eu não faço nenhuma discriminação. Acredito que daqui a uns 10 anos talvez não haja nenhum movimento de animação que o computador deixe de realizar.

John Halas – atual presidente da Associação Internacional de Animação, que há 40 anos atrás fez o famoso desenho animado Animal Farm – apesar de hoje estar bem velho, é um dos entusiastas da animação computadorizada. Eu me lembro que na década de 60, quando pude ter a oportunidade de um encontro com ele, John Halas previa a mim de que a computação seria a grande vedete do desenho animado dos anos vindouros. Mas depois ele percebeu que nem tudo era assim: a animação de mão também tinha sua beleza própria insuperável. Tanto é verdade que muitos prêmios estão sendo concedidos atualmente nos festivais a esse tipo de desenho, mesmo em concorrência direta com as produzidas por computador. O ideal seria a síntese entre estas duas técnicas específicas, ambas irmanadas pelas suas respectivas diferenças.

Certa vez vi um comercial de TV produzido por uma empresa norte-americana que apresentava um homem inteiramente calculado pela mente humana, através do computador. Era com se fosse antes um robô desenhado muito realisticamente. No entanto, quando a câmera imaginária foi dando um close sobre o homem, eu levei um tremendo susto: seus olhos estavam mortos. Pelo fato de ter sido construído calculisticamente, não havia expressão de vida naqueles dois olhos. Por mais que os movimentos sejam perfeitos, sempre este tipo de animação transmite a sensação de personagens-máquinas.

De outro modo, a animação de mão possui um calor humano, muito próprio de quem a desenhou. Os traços revelam isso. Ainda que a computação venha a se evoluir com rapidez, havendo, penso eu, um lugar para aquela feita artesanalmente. É uma opinião bastante pessoal a respeito.

Walbercy: O conteúdo de seus roteiros visam crianças japonesas ou as do mundo todo?

Tezuka: Com certeza para as do mundo. Tanto as crianças japonesas, como as de outras localidades, possuem de maneira geral uma mentalidade semelhante. Naturalmente existem diferenças culturais, no entanto, também há muitos pontos em comum.

Eu percebi, além disso, que se eu me preocupar por demais em vender e exportar o meu produto comercialmente, não poderá dar um resultado muito bom. Objetivando o mundo teria que universalizar falsamente as temáticas e características de comportamentos dos personagens. E a criança é uma criatura tão sensível que, se ela perceber certas concessões temáticas do autor, ela deixará de ver o desenho animado. Por isso, apesar da relativa universalização de meu trabalho, antes tenho a preocupação sincera de escrever aquilo que eu quero dizer. A inteligência da criança é tal que jamais aceitará produtos “infantilizados” pelos adultos.

Daqui para frente o importante é não facilitarmos para com a criança na questão temática. Se eu sou um pacifista devo claramente afirmar a minha posição diante dela. Esta extrema sinceridade possibilita despertar uma confiança espontânea da criança sobre nossos trabalhos.

Não gosto da atitude dos adultos que procuram ensinar determinados comportamentos exatamente porque eles se acham no direito de definir o que é bom e o que é ruim.

Por isso mesmo, relembrando a minha infância, ou ainda, observando meus filhos, é que tenho desenvolvido meu trabalho a partir desse tipo de pesquisa. Isso acontece porque tento resgatar sempre a criança em seu estado mais puro.

(Publicado originalmente em Quadrix – edição Abrademi, de novembro de 1984)